Aviso ao leitor
Este livro - 1 Reis - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica (onde faz parte do conjunto histórico conhecido como “Reis”). Por tratar de transição de reinados, divisão do reino, conflitos políticos e avaliação espiritual da liderança, é comum que existam notas sobre contexto histórico, geografia, costumes do antigo Oriente Próximo e possíveis diferenças de organização entre tradições de tradução.
[1] Passado muito tempo, a palavra de Iahweh foi dirigida a Elias, no terceiro ano, nestes termos: “Vai apresentar-te diante de Acab; vou mandar a chuva sobre a face da terra.”[2] Elias partiu e foi apresentar-se diante de Acab. Era grande a fome em Samaria.[3] Acab mandou chamar Abdias, intendente do palácio.[4] Ele era um homem muito temente a Iahweh; quando Jezabel massacrou os profetas de Iahweh, ele trouxe cem profetas e os escondeu numa gruta em grupos de cinquenta, providenciando-lhes comida e bebida.[5] Acab disse a Abdias: “Vem! Vamos percorrer a terra, procurando todas as fontes e torrentes; talvez encontremos erva para manter vivos os cavalos e os burros e não tenhamos de sacrificar os animais.”[6] Repartiram entre si a terra para percorrê-la: Acab partiu sozinho para um lado e Abdias partiu sozinho para o outro.[7] Enquanto Abdias caminhava, eis que Elias veio ao seu encontro; ele o reconheceu e se prostrou com o rosto em terra, dizendo: “És tu Elias, meu senhor?”[8] Ele respondeu: “Sou eu! Vai, dize a teu amo: Elias está aqui.”[9] Mas replicou o outro: “Que pecado cometi para entregares teu servo nas mãos de Acab, para ele me matar?[10] Pela vida de Iahweh, teu Deus! Não há nação nem reino aonde meu amo não tenha mandado te procurar; e quando respondiam: ‘Ele não está aqui’, fazia o reino e a nação jurarem que não te haviam achado.[11] E agora mandas: ‘Vai dizer a teu amo: Elias está aqui’,[12] mas quando eu me apartar de ti, o espírito de Iahweh te transportará não sei para onde; eu irei informar Acab e ele, não te achando, me matará! No entanto, teu servo teme a Iahweh desde a juventude.[13] Porventura não foi contado a meu senhor o que fiz quando Jezabel massacrou os profetas de Iahweh? Escondi cem profetas de Iahweh, em grupos de cinquenta, numa gruta e lhes forneci pão e água.[14] E agora ordenas: ‘Vai dizer a teu amo: Elias está aqui.’ Ele vai me matar!”[15] Elias respondeu-lhe: “Pela vida de Iahweh dos Exércitos, a quem sirvo, hoje mesmo me apresentarei a ele.”[16] Abdias foi encontrar-se com Acab e contou-lhe o acontecido; e Acab saiu ao encontro de Elias.[17] Logo que viu Elias, Acab lhe disse: “Estás aí, flagelo de Israel!”[18] Elias respondeu: “Não sou eu o flagelo de Israel, mas és tu e tua família, porque abandonastes Iahweh e seguiste os baals.[19] Pois bem, manda que se reúna junto de mim, no monte Carmelo, todo o Israel, com os quatrocentos e cinquenta profetas de Baal, que comem à mesa de Jezabel.”[20] Acab convocou todos os filhos de Israel e reuniu os profetas no monte Carmelo.[21] Elias, aproximando-se de todo o povo, disse: “Até quando claudicareis das duas pernas? Se Iahweh é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o.” E o povo não lhe pôde dar resposta.[22] Então Elias disse ao povo: “Sou o único dos profetas de Iahweh que fiquei, enquanto os profetas de Baal são quatrocentos e cinquenta.[23] Dêem-nos dois novilhos; que eles escolham um para si e, depois de esquartejá-lo, o coloquem sobre a lenha, sem lhe pôr fogo. Prepararei o outro novilho sem lhe pôr fogo.[24] Invocareis depois o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome de Iahweh; o deus que responder enviando fogo, é ele o Deus.” Todo o povo respondeu: “Está bem.”[25] Elias disse então aos profetas de Baal: “Escolhei para vós um novilho e preparai-o primeiro, pois sois mais numerosos. Invocai o nome de vosso deus, mas não acendais o fogo.”[26] Eles tomaram o novilho, fizeram-no em pedaços e invocaram o nome de Baal desde a manhã até o meio-dia, dizendo: “Baal, responde-nos!” Mas não houve voz, ninguém respondeu; e eles dançavam dobrando o joelho diante do altar que tinham feito.[27] Ao meio-dia, Elias zombou deles, dizendo: “Gritai mais alto; pois, sendo um deus, ele pode estar conversando, ou fazendo negócios, ou então viajando; talvez esteja dormindo e acordará!”[28] Gritaram mais forte e, segundo seu costume, fizeram incisões no próprio corpo com espadas e lanças, até escorrer sangue.[29] Quando passou do meio-dia, entraram em transe até a hora da apresentação da oferenda, mas não houve voz, nem resposta, nem sinal de atenção.[30] Então Elias disse a todo o povo: “Aproximai-vos de mim”; e todo o povo se aproximou dele. Ele restaurou o altar de Iahweh que fora demolido.[31] Tomou doze pedras, segundo o número das doze tribos dos filhos de Jacó, a quem Deus se dirigira dizendo: “Teu nome será Israel”,[32] e edificou com as pedras um altar ao nome de Iahweh. Fez em redor do altar um rego capaz de conter duas medidas de semente.[33] Empilhou a lenha, esquartejou o novilho e colocou-o sobre a lenha.[34] Depois disse: “Enchei quatro talhas de água e entornai-a sobre o holocausto e sobre a lenha.” Assim o fizeram. E ele disse: “Fazei-o de novo”, e eles o fizeram. E acrescentou: “Fazei-o pela terceira vez”, e eles o fizeram.[35] A água se espalhou em torno do altar e inclusive o rego ficou cheio d’água.[36] Na hora em que se apresenta a oferenda, Elias, o profeta, aproximou-se e disse: “Iahweh, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saiba-se hoje que tu és Deus em Israel, que sou teu servo e que foi por ordem tua que fiz todas estas coisas.[37] Responde-me, Iahweh, responde-me, para que este povo reconheça que és tu, Iahweh, o Deus, e que convertes os corações deles!”[38] Então caiu o fogo de Iahweh e consumiu o holocausto e a lenha, secando a água que estava no rego.[39] Todo o povo o presenciou; prostrou-se com o rosto em terra, exclamando: “É Iahweh que é Deus! É Iahweh que é Deus!”[40] Elias lhes disse: “Prendei os profetas de Baal; que nenhum deles escape!” E eles os prenderam. Elias fê-los descer para perto da torrente do Quison e lá os degolou.[41] Disse Elias a Acab: “Sobe, come e bebe, pois estou ouvindo o barulho da chuva.”[42] Enquanto Acab subia para comer e beber, Elias subiu ao cume do Carmelo, prostrou-se em terra e pôs o rosto entre os joelhos.[43] Disse a seu servo: “Sobe e olha para o lado do mar.” Ele subiu, olhou e disse: “Nada!” E Elias disse: “Retorna sete vezes.”[44] Na sétima vez, o servo disse: “Eis que sobe do mar uma nuvem, pequena como a mão de uma pessoa.” Então Elias disse: “Vai dizer a Acab: prepara o carro e desce, para que a chuva não te detenha.”[45] Num instante o céu se escureceu com muita nuvem e vento, e caiu uma forte chuva. Acab subiu ao seu carro e partiu para Jezrael.[46] A mão de Iahweh esteve sobre Elias; ele cingiu os rins e correu diante de Acab até a entrada de Jezrael.

