[1] Nicanor, entretanto, informado de que os homens de Judas encontravam-se em terras da Samaria, decidiu atacá-los no dia do repouso, contando fazê-lo com toda segurança.
[2] Disseram-lhe então os judeus, que o estavam seguindo coagidos: “Não vás fazê-los perecer de modo tão selvagem e bárbaro, mas antes tributa a glória devida ao dia que mais que os outros foi honrado com santidade por Aquele que vela sobre todas as coisas!”
[3] Esse tríplice criminoso, porém, ainda perguntou se acaso havia no céu um soberano que houvesse ordenado celebrar o dia do sábado.
[4] Ao lhe responderem eles claramente: “Sim, é o Senhor vivo, o próprio soberano do céu, quem ordenou que se observasse o sétimo dia”,
[5] ele retrucou: “Pois sou também eu soberano sobre a terra. E ordeno que se tomem as armas e se realizem os desígnios do rei!” Entretanto, não conseguiu realizar o seu cruel desígnio.
[6] De fato, enquanto Nicanor, exaltando-se com toda a sua arrogância, decidira levantar um troféu público com os despojos dos homens de Judas,
[7] o Macabeu, por sua parte, estava ininterruptamente persuadido, com plena esperança, de que obteria socorro da parte do Senhor.
[8] Assim, exortava ele seus companheiros a não temerem o ataque dos gentios, mas, tendo em mente os socorros já vindos a eles do céu, a esperarem, também agora, a vitória que lhes adviria da parte do Todo-poderoso.
[9] Confortando-os então por meio da Lei e dos Profetas, e recordando-lhes também os combates que já haviam sustentado, tornou-os mais ardorosos.
[10] Tendo assim despertado o seu ardor, deu-lhes as suas instruções, ao mesmo tempo que lhes chamava a atenção para a perfídia dos gentios e a quebra dos seus juramentos.
[11] Tendo, pois, armado a cada um deles, menos com a segurança dos escudos e das lanças do que com o conforto das boas palavras, referiu-lhes ainda um sonho digno de fé, uma espécie de visão, que os alegrou a todos.
[12] Ora, este foi o espetáculo que lhe coube apreciar: Onias, que tinha sido sumo sacerdote, homem honesto e bom, modesto no trato e de caráter manso, expressando-se convenientemente no falar, e desde a infância exercitado em todas as práticas da virtude, estava com as mãos estendidas, intercedendo por toda a comunidade dos judeus.
[13] Apareceu a seguir, da mesma forma, um homem notável pelos cabelos brancos e pela dignidade, sendo maravilhosa e majestosíssima a superioridade que o circundava.
[14] Tomando então a palavra, disse Onias: “Este é o amigo dos seus irmãos, aquele que muito ora pelo povo e por toda a cidade santa, Jeremias, o profeta de Deus.”
[15] Estendendo, por sua vez, a mão direita, Jeremias entregou a Judas uma espada de ouro, pronunciando estas palavras enquanto a entregava:
[16] “Recebe esta espada santa, presente de Deus, por meio da qual esmagarás teus adversários!”
[17] Encorajados pelas palavras de Judas, realmente belas e capazes de incitar à valentia e tornar viris os ânimos dos jovens, os judeus resolveram não continuar acampados, mas tomar bravamente a ofensiva.
[18] Assim, batendo-se com toda a valentia, decidiriam a questão pela sorte das armas, uma vez que tanto a Cidade como o lugar santo e o Templo estavam correndo perigo.
[19] De fato, a preocupação pelas mulheres e pelos filhos, bem como pelos irmãos e pelos parentes, era por eles reduzida a bem pouca coisa, enquanto era máximo e estava em primeiro plano o temor pelo Santuário consagrado.
[20] Entretanto, a angústia dos que tinham sido deixados na cidade não era menor, perturbados como estavam pelo reencontro em campo aberto.
[21] Todos já viviam a expectativa do próximo desfecho, enquanto os inimigos já se haviam concentrado, dispondo o seu exército em linha de batalha e colocando os elefantes em posição adequada, alinhando-se a cavalaria conforme as alas.
[22] Ao considerar a presença de tais multidões, o equipamento variegado de suas armas e o aspecto selvagem dos elefantes, o Macabeu estendeu as mãos ao céu invocando o Senhor que faz prodígios. Pois bem sabia que não é pela força das armas que ele concede a vitória, mas sim aos que dela são dignos, segundo o seu próprio critério.
[23] E assim falou, fazendo a sua invocação: “Tu, ó Dominador, enviaste o teu anjo no tempo de Ezequias, rei da Judéia, e ele exterminou cento e oitenta e cinco mil homens do acampamento de Senaquerib.
[24] Também agora, Soberano dos céus, envia um anjo bom à nossa frente, para espanto e tremor.
[25] Sejam feridos, pela grandeza do teu braço, aqueles que, blasfemando, vieram atacar o teu povo santo!” Com estas palavras, terminou sua oração.
[26] Entretanto, os homens de Nicanor iam avançando entre clangores de trombetas e cânticos de guerra, enquanto os homens de Judas se misturavam com os inimigos por entre invocações e preces.
[27] Com suas mãos combatendo, mas suplicando a Deus em seus corações, estenderam por terra não menos de trinta e cinco mil homens, rejubilando-se grandemente por esta manifestação de Deus.
[28] Saindo da refrega e estando para regressar com alegria, reconheceram a Nicanor, tombado de bruços, com a sua armadura.
[29] Seguiu-se um clamor confuso, enquanto, na língua de seus pais, bendiziam o Soberano.
[30] Então, aquele que, em todos os sentidos, no corpo e na alma, havia sido o primeiro na luta pelos seus concidadãos, é que havia conservado para com seus conacionais a afeição da idade juvenil, ordenou que cortassem a cabeça de Nicanor e também a mão com o braço até a espádua, e que os conduzissem a Jerusalém.
[31] Aí chegando, convocou os conacionais e, fazendo os sacerdotes permanecerem diante do altar, mandou chamar os ocupantes da Cidadela.
[32] Mostrou então a cabeça do imundo Nicanor bem como a mão desse infame, estendendo a qual contra a morada santa do Todo-poderoso ele havia ostentado a sua arrogância.
[33] Depois, tendo cortado a língua do mesmo ímpio Nicanor, ordenou que a dessem em pedaços aos pássaros. E, quanto ao salário da sua loucura, que o pendurassem diante do Santuário.
[34] Todos, então, voltados para o Céu, bendisseram o Senhor glorioso, nestes termos: “Bendito Aquele que conservou o seu Lugar isento de contaminação!”
[35] Quanto à cabeça de Nicanor, Judas mandou pendurá-la na Cidadela, como um sinal claro e evidente, para todos, da ajuda do Senhor.
[36] A seguir decidiram todos, por um decreto de comum acordo, não deixar de modo algum passar despercebida essa data, mas observar com solenidade o dia treze do duodécimo mês, chamado Adar em aramaico, um dia antes da festa de Mardoqueu.
[37] Tendo-se passado assim os acontecimentos referentes a Nicanor e como, desde esses tempos, a cidade ficou em poder dos hebreus, também eu, aqui, porei fim ao meu relato.
[38] Se o fiz bem, de maneira conveniente a uma composição escrita, era justamente isso que eu queria; se vulgarmente e de modo medíocre, é isso o que me foi possível.
[39] De fato, como é nocivo beber somente vinho, ou somente água, ao passo que o vinho misturado à água é agradável e causa um prazer delicioso, assim o (trabalho) da preparação do relato encanta os ouvidos daqueles que entram em contacto com a composição. Aqui, porém, será o fim.

