Aviso ao leitor
Este livro - 2 Samuel - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica (normalmente junto ao conjunto conhecido como “Samuel”). O livro continua a narrativa da monarquia, com foco no reinado de Davi, suas vitórias, alianças, crises internas e implicações espirituais e éticas da liderança.
[1] Joab, filho de Sárvia, percebeu que o coração do rei se inclinava para Absalão.[2] Então Joab mandou buscar em Técua uma mulher sábia e lhe disse: “Peço-te isto: que finjas estar de luto, vistas roupa de luto, não te perfumes, como se fosses uma mulher que, depois de muitos dias, continua de luto por um morto.[3] Irás à casa do rei e lhe farás este discurso.” E Joab lhe disse as palavras que ela devia dizer.[4] A mulher de Técua foi, pois, ter com o rei, caiu com o rosto em terra e se prostrou, e disse: “Salva-me, ó rei!”[5] O rei lhe perguntou: “Que tens?” Ela respondeu: “Pobre de mim! Eu sou viúva. Meu marido morreu[6] e a tua serva tinha dois filhos. Eles discutiram no campo, não havia ninguém para os separar, e um feriu o outro e o matou.[7] Então toda a família se levantou contra a tua serva e disse: ‘Entrega-nos o fratricida, para que o executemos como preço da vida do seu irmão, que ele matou, para que eliminemos também o herdeiro.’ E assim eles apagarão a brasa que me resta, para não deixar mais ao meu marido nem nome nem sobrevivente na face da terra.”[8] Disse o rei à mulher: “Vai para a tua casa, e eu próprio darei ordens acerca do teu problema.”[9] A mulher de Técua disse ao rei: “Senhor, meu rei! Caia sobre mim e sobre a minha família a falta cometida; o rei e o seu trono estão inocentes.”[10] Respondeu o rei: “Traze-me quem te ameaçou, e ele nunca mais te fará mal.”[11] Disse ela: “Lembra-te, ó rei, de Iahweh teu Deus, a fim de que o vingador do sangue não aumente a desgraça e não faça o meu filho perecer!” Então ele disse: “Tão certo como Iahweh vive, não cairá no chão nem um só cabelo da cabeça do teu filho!”[12] Então a mulher acrescentou: “Que seja permitido à tua serva dizer ainda uma palavra ao senhor meu rei”, e ele respondeu: “Fala.”[13] Então a mulher disse: “Ao pronunciar tal sentença, o rei se torna culpado; pois, por que decidiu o rei, contra o povo de Deus, não consentir na volta daquele que ele tinha desterrado?[14] Todos morremos e, como as águas que se derramam na terra não se podem mais recolher, assim Deus não reanima um cadáver. Que o rei faça voltar o proscrito para que não continue longe dele.[15] Agora, se a tua serva veio narrar ao senhor meu rei este caso, foi porque me amedrontaram e tua serva pensou: Falarei com o rei e talvez ele se dignará realizar o pedido da sua serva,[16] pois o rei livrará a sua serva das mãos do homem que procura subtrair a herança de Deus de mim e de meu filho.[17] A tua serva disse: Que a palavra do senhor meu rei nos traga o sossego, porque o meu rei é como o Anjo de Deus para discernir o bem e o mal. Que Iahweh teu Deus esteja contigo!”[18] Então, tomando a palavra, o rei disse à mulher: “Peço-te que não ocultes de mim o que vou te perguntar.” Respondeu a mulher: “Fale o senhor meu rei.”[19] Então o rei disse: “Não está a mão de Joab atrás de tudo isso que me vieste contar?” Respondeu a mulher: “Tão certo como vives tu, senhor meu rei, ninguém poderá desviar-me para a direita nem para a esquerda de tudo o que afirmou o senhor meu rei: sim, foi o teu servo Joab que me deu a ordem, e foi ele que pôs na minha boca todas as palavras que a tua serva te disse.[20] Foi para disfarçar a apresentação deste caso que o teu servo Joab assim agiu, mas o meu senhor tem a sabedoria de um Anjo de Deus e sabe tudo o que se passa na terra.”[21] Então o rei disse a Joab: “Está bem, eu faço isso: vai e traze de volta o jovem Absalão.”[22] Joab caiu com o rosto em terra, prostrou-se e bendisse o rei. Depois, Joab disse: “O teu servo sabe hoje que encontrou graça aos teus olhos, senhor meu rei, pois o rei executou a palavra do seu servo.”[23] Joab se pôs a caminho, foi a Gessur e trouxe Absalão de volta a Jerusalém.[24] Contudo, o rei disse: “Que se recolha à sua casa: não será recebido por mim.” Assim Absalão se retirou para a sua casa e não foi recebido pelo rei.[25] Em todo o Israel, não havia ninguém que fosse tão belo como Absalão, ao qual se podiam fazer muitos elogios: da planta dos pés ao alto da cabeça ele era sem defeito.[26] Quando cortava o cabelo — no fim de cada ano ele costumava cortá-lo, quando pesava muito, e por isso o cortava —, ele pesava-o, e o seu peso era de duzentos siclos, pelo peso do rei.[27] Absalão tinha três filhos e uma filha, que se chamava Tamar. Era uma linda mulher.[28] Absalão ficou dois anos em Jerusalém, sem ser recebido pelo rei.[29] Então Absalão mandou convocar Joab para que o enviasse ao rei, mas ele não quis ir; convocou-o segunda vez, e ainda Joab não quis ir.[30] Disse, então, Absalão aos seus servos: “Vedes ali, ao lado do meu, o campo de Joab, no qual há cevada. Ide e ateai fogo nele.” E foram os servos de Absalão e puseram fogo no campo.[31] Joab veio procurar Absalão na sua casa e lhe disse: “Por que puseram fogo no campo que me pertence?”[32] Absalão respondeu a Joab: “Mandei chamar-te para te dizer: Vem cá; quero enviar-te à presença do rei com esta mensagem: ‘Por que, afinal, vim de Gessur? Melhor teria sido se não tivesse saído de lá.’ Agora, portanto, quero ser recebido pelo rei; e, se sou culpado, que ele me condene à morte!”[33] Joab se apresentou ao rei e lhe relatou tais palavras. Então ele chamou Absalão. Este foi ao rei e se prostrou, lançando-se com o rosto em terra diante dele. E o rei beijou a Absalão.

