Aviso ao leitor
Este livro - 2 Samuel - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica (normalmente junto ao conjunto conhecido como “Samuel”). O livro continua a narrativa da monarquia, com foco no reinado de Davi, suas vitórias, alianças, crises internas e implicações espirituais e éticas da liderança.
[1] E aconteceu depois disso que Absalão providenciou para si um carro e cavalos, e cinqüenta homens corriam diante dele.[2] Levantando-se de manhã bem cedo, Absalão ficava à beira do caminho que vai dar à porta, e toda vez que algum homem que tinha algum processo tencionava ir ao tribunal do rei, Absalão o interpelava e lhe perguntava: “De que cidade és?” O homem respondia: “O teu servo é de uma das tribos de Israel.”[3] Então Absalão lhe dizia: “Olha: a tua causa é boa e justa, mas não encontrarás ninguém que te escute da parte do rei.”[4] Absalão continuava: “Ah! Quem me instalará como juiz no território? Todos os que tiverem processos e pleitos no tribunal venham a mim, e eu lhes farei justiça!”[5] E quando alguém se aproximava para se prostrar diante dele, ele estendia-lhe a mão, puxava-o para si e o beijava.[6] Absalão agia desse modo com todo o Israel que apelava ao tribunal do rei, e Absalão ia seduzindo o coração dos homens de Israel.[7] Ao fim de quatro anos, Absalão disse ao rei: “Permite que eu vá a Hebron, a fim de cumprir um voto que fiz a Iahweh.[8] Porque, quando eu estava em Gessur, em Aram, o teu servo fez este voto: Se Iahweh me conceder voltar a Jerusalém, prestarei um culto a Iahweh em Hebron.”[9] Disse-lhe o rei: “Vai em paz!” Ele se pôs, então, a caminho, para ir a Hebron.[10] Absalão mandou emissários a todas as tribos de Israel para dizer-lhes: “Quando ouvirdes o som da trombeta, dizei uns aos outros: Absalão se fez rei em Hebron!”[11] Com Absalão partiram de Jerusalém duzentos homens. Sendo convidados, e vindo inocentemente, de nada estavam informados.[12] Absalão mandou chamar, na cidade de Gilo, Aquitofel, o gilonita, conselheiro de Davi, e com ele ofereceu os sacrifícios. A conjuração se avolumava e se fortalecia, e a multidão dos partidários de Absalão ia aumentando.[13] Alguém veio dizer a Davi: “O coração dos homens de Israel se voltou para Absalão.”[14] Então Davi disse a todos seus oficiais que estavam com ele em Jerusalém: “Levantemo-nos e fujamos! Doutra sorte não escaparemos de Absalão. Apressai-vos em partir, para que não aconteça que se apresse ele e nos ataque, nos destrua e passe a cidade ao fio da espada.”[15] Responderam-lhe os oficiais do rei: “Qualquer que seja a decisão do senhor nosso rei, aqui estamos ao teu serviço.”[16] O rei partiu a pé, com toda a sua família, mas deixou no palácio dez concubinas para guardá-lo.[17] O rei saiu a pé com todo o povo, e se detiveram na última casa.[18] Todos os seus oficiais se mantinham ao seu lado. Todos os cereteus, todos os feleteus, Etai e todos os gateus que tinham vindo de Gat, seiscentos homens, iam adiante do rei.[19] O rei disse a Etai, o gateu: “Por que vieste conosco? Volta e fica com o rei, porque és um estrangeiro e exilado do teu país.[20] Chegaste ontem e hoje eu te faria andar errante conosco, quando vou à ventura? Volta e procura levar contigo os teus irmãos, e tenha Iahweh para contigo misericórdia e bondade.”[21] Mas Etai respondeu ao rei: “Pela vida de Iahweh e pela vida do senhor meu rei, onde quer que estiver o senhor meu rei, seja para a vida, seja para a morte, ali estará também o teu servo.”[22] Então Davi disse a Etai: “Vem e passa.” E Etai de Gat passou com todos os seus homens e toda a multidão que estava com ele.[23] E todos choravam em alta voz. O rei se deteve à margem do ribeiro do Cedron, e todo o povo desfilou diante dele na direção do deserto.[24] Ali estavam também Sadoc e todos os levitas que transportavam a Arca de Deus. Puseram a Arca de Deus diante de Abiatar, até que todo o povo acabou de sair da cidade.[25] Então o rei disse a Sadoc: “Torna a levar a Arca de Deus para a cidade. Se eu encontrar graça aos olhos de Iahweh, ele me trará de volta e me permitirá revê-la e à sua Habitação;[26] se, porém, ele disser: ‘Tu me desagradas’, aqui estou: faça de mim o que lhe aprouver.”[27] O rei disse ao sacerdote Sadoc: “Vede! Tu e Abiatar voltai em paz à cidade, com os vossos dois filhos: Aquimaás teu filho, e Jônatas, filho de Abiatar.[28] Vede! Eu permanecerei caminhando pelos trilhos do deserto, aguardando notícias vossas.”[29] Sadoc e Abiatar levaram, pois, a Arca de Deus de volta a Jerusalém, e ali ficaram.[30] Caminhava Davi chorando, pela encosta das Oliveiras, a cabeça coberta e os pés descalços, e todo o povo que o acompanhava levava a cabeça coberta e subia chorando.[31] Informaram então a Davi que Aquitofel estava entre os que conjuraram com Absalão, pelo que disse Davi: “Ó Iahweh! Faze que sejam insensatos os conselhos de Aquitofel!”[32] Ao chegar Davi ao cume, lá onde se adora a Deus, eis que veio ao seu encontro Cusai, o araquita, amigo de Davi; veio com as vestes rasgadas e a cabeça coberta de pó.[33] Disse-lhe Davi: “Se ficares comigo, ser-me-ás pesado.[34] Mas se voltares à cidade e disseres a Absalão: ‘Serei teu servo, senhor meu rei; até aqui servi teu pai, agora eu te servirei’, então confundirás os conselhos de Aquitofel.[35] Sadoc e Abiatar, os sacerdotes, não ficarão do teu lado? Tudo o que souberes do palácio, relatá-lo-ás aos sacerdotes Sadoc e Abiatar.[36] Ali estarão também os seus dois filhos: Aquimaás, de Sadoc, e Jônatas, de Abiatar. Tudo o que observardes me comunicareis por intermédio deles.”[37] Cusai, o amigo de Davi, entrou na cidade quando Absalão chegava a Jerusalém.

