[1] Quando Eleazar desta forma fez eloqüente resposta às exortações do tirano, os guardas que estavam de pé o arrastaram violentamente para os instrumentos de tortura.
[2] Primeiro tiraram as roupas do velho, que estava adornado com a graça de sua piedade.
[3] Depois que haviam amarrado seus braços de cada lado, mandaram açoitá-lo.
[4] Enquanto isso, um arauto diante dele gritava: “Obedeça às ordens do rei!”
[5] Mas o homem corajoso e nobre, Eleazar, estava impassível, como se estivesse sendo torturado em um sonho.
[6] Enquanto os olhos do velho estavam erguidos para o céu, sua carne era dilacerada pelos flagelos, seu sangue fluía e seus lados eram cortados em pedaços.
[7] Embora tenha caído no chão porque seu corpo não podia suportar as agonias, ele manteve sua razão ereta e inabalável.
[8] Um dos guardas cruéis correu até ele e começou a chutá-lo na lateral para fazê-lo levantar-se novamente depois que caiu.
[9] Mas ele suportou as dores, desprezou a punição e suportou as torturas.
[10] Como um atleta nobre, o velho, embora aparentemente derrotado, foi vitorioso sobre seus algozes.
[11] Com o rosto banhado em suor e arquejando fortemente para respirar, ele espantou até mesmo seus torturadores por seu espírito corajoso.
[12] Nesse ponto, em parte por pena de sua velhice,
[13] em parte por simpatia de sua familiaridade com ele, e em parte por admiração por sua resistência, alguns da comitiva do rei vieram até ele e disseram:
[14] “Eleazar, por que você está destruindo a si mesmo de modo tão irracional por essas coisas?”
[15] “Colocaremos diante de você um pouco de carne cozida; salve-se, fingindo que come carne de porco.”
[16] Mas Eleazar, como se fosse ainda mais atormentado por esse conselho, gritou:
[17] “Que nós, os filhos de Abraão, jamais pensemos de modo tão vil a ponto de, por covardia, representar um papel indigno!”
[18] “Seria irracional que nós, que vivemos conforme a verdade até a velhice e mantivemos, de acordo com a lei, a reputação de uma vida íntegra, mudemos agora o nosso caminho.”
[19] “E que nos tornemos um padrão de irreverência para os jovens, sendo exemplo de ingestão de alimento impuro.”
[20] “Seria vergonhoso sobreviver por pouco tempo e, durante esse tempo, ser motivo de chacota por causa de nossa covardia.”
[21] “E ainda sermos desprezados pelo tirano como covardes por não defender o direito divino até a morte.”
[22] “Portanto, ó filhos de Abraão, morram nobremente por sua religião!”
[23] “E vocês, guardas do tirano, por que demoram?”
[24] Quando viram que ele era tão corajoso diante das aflições e que não havia mudado por causa da compaixão deles, os guardas o levaram ao fogo.
[25] Ali o queimaram com instrumentos maliciosamente inventados, o jogaram no chão e derramaram líquidos fétidos em suas narinas.
[26] Quando já estava queimado até os ossos e prestes a expirar, ele levantou os olhos para Deus e disse:
[27] “Tu sabes, ó Deus, que, embora eu pudesse ter salvado a mim mesmo, estou morrendo em tormentos de fogo por causa da lei.”
[28] “Tem misericórdia do teu povo, e deixa que nosso castigo seja suficiente por eles.”
[29] “Faze do meu sangue a purificação deles e toma a minha vida em troca da deles.”
[30] Depois de dizer isso, o santo homem morreu com nobreza em suas torturas e, pela razão, resistiu até mesmo à tortura da morte por causa da lei.
[31] É certo, então, que a razão devota é soberana sobre as emoções.
[32] Pois, se as emoções tivessem prevalecido sobre a razão, teriam demonstrado sua dominação.
[33] Mas agora que a razão conquistou as emoções, devemos atribuir a ela o poder de governar.
[34] É justo reconhecer o domínio da razão quando ela domina até mesmo as agonias externas; seria ridículo negar isso.
[35] Assim, foi demonstrado não apenas que a razão domina as agonias, mas também que domina os prazeres e não se rende a eles.

