Skip to main content
search

[1] Excelentíssimo Diogneto, vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente, te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que essa nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes. Aprovo esse teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal

[2] Comecemos. Purificado de todos os preconceitos que se amontoaram em tua mente; despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais;

[3] não é verdade que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor do que aquele que serve para fazer os utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis?

[4] Tudo isso não é de material corruptível? Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro, e o oleiro outro? Não é verdade que, antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora, transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses?

[5] E, ao contrário, esses que agora adorais, não poderiam transformar-se, por mão de homens, em utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são todas destrutíveis?

[6] A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais, e terminais sendo semelhantes a elas.

[7] Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram deuses.

[8] Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que eles? Por acaso, não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra e de barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de prata e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados?

[9] Com as honras que acreditais tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade, os castigais com elas; por outro lado, se são insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue e gordura.

[10] Caso contrário, que alguém de vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas. Mas o homem, espontaneamente, não suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é insensível.

[11] Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não se submeter a esses deuses. Se o que eu disse parecer insuficiente para alguém, creio que seja inútil dizer mais alguma coisa.

[12] Por outro lado, creio que desejas particularmente saber por que eles não adoram Deus à maneira dos judeus.

[13] Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos antes, e prestam culto a um só Deus, considerando-o Senhor do universo. Contudo, erram quando lhe prestam um culto semelhante ao dos pagãos.

[14] Assim como os gregos demonstram idiotice, sacrificando a coisas insensíveis e surdas, eles também, pensando oferecer a Deus coisas, como se ele tivesse necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não com ato de culto.

[15] “Quem fez o céu e a terra, e tudo o que neles existe”, e que provê tudo aquilo de que necessitamos, não tem necessidade nenhuma desses bens. Ele próprio fornece as coisas àqueles que acreditam oferecê-las a ele.

[16] Aqueles que crêem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e holocaustos, e que o enaltecem com esses atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam reverência a ídolos surdos, que não podem participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo a quem de nada precisa.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu