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[1] Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento com jejuns e novilúnios, coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração.

[2] Não será injusto aceitar algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como bem criadas e rejeitar outras como inúteis e supérfluas? Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem no dia de sábado?

[3] Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição, acreditando com isso ser particularmente amados por Deus?

[4] E o fato de estar em perpétua vigilância diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de Deus, e dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras para luto? Quem não consideraria isso prova de insensatez e não de religião?

[5] Penso que agora tenhas entendido suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano, assim como das complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creias poder aprender do homem o mistério de sua própria religião.

[6] Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes.

[7] Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver.

[8] Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano.

[9] Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal.

[10] Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira.

[11] Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos.

[12] Põem a mesa em comum, mas não o leito.

[13] Estão na carne, mas não vivem segundo a carne.

[14] Moram na terra, mas têm sua cidadania no céu.

[15] Obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis.

[16] Amam a todos e são perseguidos por todos.

[17] São desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, desse modo, lhes é dada a vida.

[18] São pobres, e enriquecem a muitos; carecem de tudo, e têm abundância de tudo.

[19] São desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos.

[20] São injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram.

[21] Fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida.

[22] Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, e aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.

[23] Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim os cristãos estão no mundo.

[24] A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as cidades do mundo.

[25] A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo.

[26] A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível.

[27] A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres.

[28] A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam.

[29] A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo.

[30] A alma imortal habita numa tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus.

[31] Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam.

[32] Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.

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