[1] De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios humanos.
[2] Ao contrário, aquele que é verdadeiramente Senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações.
[3] Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séquito da lua em seu percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual tudo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio. Foi esse que Deus enviou.
[4] Talvez como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração?
[5] De modo nenhum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência.
[6] Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar.
[7] Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar a sua presença?
[8] Não vês como os cristãos são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer?
[9] Não vês como quanto mais são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam?
[10] Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.
[11] Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse?
[12] Quererás aceitar os discursos vazios e estúpidos dos filósofos, que por certo são dignos de toda a fé? Alguns afirmavam que Deus é o fogo – para onde irão esses, chamando-o deus? — Outros diziam que é água. Outros ainda que é um dos elementos criados por Deus.
[13] Não há dúvida de que se algumas dessas afirmações é aceitável, poderíamos também afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus.
[14] Mas todas essas coisas são charlatanices e invenções de charlatães.
[15] Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas ele próprio se revelou a nós.
[16] Revelou-se mediante a fé, unicamente pela qual é concedido ver a Deus.
[17] Deus, Senhor e criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente.
[18] Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será: clemente, bom, manso e verdadeiro. Somente ele é bom.
[19] Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o comunicou somente ao Filho.
[20] Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós.
[21] Todavia, quando, por meio do seu Filho amado, revelou e manifestou o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as coisas: não só participar dos seus benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria jamais esperado.
[22] Quando Deus dispôs tudo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas apenas os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também para que ficasse claro que por nossas próprias forças era impossível entrarmos no Reino de Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso.
[23] Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou totalmente claro que a única retribuição que podíamos esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com misericórdia tomou sobre si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais.
[24] De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça?
[25] Por meio de quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus?
[26] Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muitos é reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros.
[27] Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até mesmo o impossível. Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e o considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem preocupações com a roupa e o alimento.

