Arquivo de Segundo livro de Irineu de Lião - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/irineu-de-liao/segundo-livro-de-irineu-de-liao/ Corpus et Sanguis Christi Sat, 14 Mar 2026 21:13:51 +0000 pt-BR hourly 1 https://vcirculi.com/wp-content/uploads/2025/07/cropped-et5t-Copia-32x32.png Arquivo de Segundo livro de Irineu de Lião - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/irineu-de-liao/segundo-livro-de-irineu-de-liao/ 32 32 Segundo livro de Irineu de Lião https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao/ Sat, 14 Mar 2026 20:50:16 +0000 https://vcirculi.com/?p=35825 O post Segundo livro de Irineu de Lião apareceu primeiro em VCirculi.

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Segundo livro de Irineu de Lião 35 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-35/ Sat, 14 Mar 2026 20:45:03 +0000 https://vcirculi.com/?p=36100 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Basílides, além das coisas ditas acima, é obrigado a dizer que, pelo seu sistema, não foram criados uns pelos outros somente 365 céus, mas que multidão inumerável de céus foi, é e será continuamente criada e que nunca cessará esta criação.

[2] Se, com efeito, por derivação do primeiro céu, foi feito segundo à sua imagem, depois terceiro à imagem do segundo, e assim para todos os seguintes; do que é o nosso céu e que eles dizem último, necessariamente há de derivar outro semelhante a ele e do outro ainda, e por consequência nunca cessará a derivação a partir dos céus já feitos, nem a produção de céus novos e assim se deve admitir número imenso não limitado de céus.

[3] Os outros, chamados abusivamente gnósticos e que dizem que os profetas profetizaram em nome de deuses diferentes, são refutados facilmente, pelo fato de que todos os profetas pregaram um só Deus e Senhor, Criador do céu e da terra e de tudo o que eles contêm, e anunciaram a vinda do seu Filho, como demonstraremos nos livros seguintes, com base nas Escrituras.

[4] Se alguns quiserem objetar que na língua hebraica, usada na Escritura, há nomes diferentes, como Sabaoth, Elohim, Adonai e outros semelhantes, procurando com isso demonstrar a existência de Potências e deuses diferentes, estes devem aprender que todos indicam e se referem a um único e mesmo Deus.

[5] Com efeito, em hebraico, o nome Elohim significa verdadeiro Deus; e Elloeuth, em hebraico, significa: O que contém todas as coisas.

[6] A palavra Adonai às vezes significa Inominável e Admirável, às vezes, quando com dois “d” e aspirado, como, por exemplo: Addonai, designa Aquele que separa a terra das águas para que estas não mais a invadam.

[7] Da mesma forma Sabaoth com ômega na última sílaba significa voluntário, com ómicron significa primeiro céu.

[8] Da mesma forma, Jaoth, com a última sílaba longa e aspirada, significa medida fixa, mas, quando se escreve com ómicron, significa aquele que afugenta os maus.

[9] E todos os outros nomes são apelativos de único ser, como, por exemplo, no latim, Senhor das Potências, Pai de todas as coisas, Deus onipotente, o Altíssimo, Senhor dos céus, Criador, Ordenador e semelhantes, e não pertencem a seres diferentes, mas somente a um só e único: designam um só Deus e Pai que contém todas as coisas e que a todas dá a existência.

[10] Que as nossas palavras concordam com a pregação dos apóstolos, o ensinamento do Senhor, o anúncio dos profetas e dos apóstolos, o ministério da Lei, que louvam um único e mesmo Deus Pai de quem todas as coisas têm sua origem e não de deuses ou Potências diferentes, mas de um só e único Pai o qual proporciona as coisas segundo a natureza e as disposições do objeto; que todas as coisas visíveis e invisíveis, todos os seres sem exceção foram criados não pelos anjos ou qualquer outra Potência, mas somente por Deus e Pai, penso que tenha sido suficientemente demonstrado nas numerosas páginas em que provamos que existe somente um Deus e Pai, Criador de todas as coisas.

[11] Mas para que não se pense que nos queiramos esquivar das provas tiradas das Escrituras do Senhor — elas que proclamam esta doutrina da maneira mais aberta e clara, ao menos por quem as estuda na sinceridade — exporemos no livro seguinte as Escrituras divinas e as provas que delas se deduzem e as exporemos diante dos olhos de todos os que amam a verdade.

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Segundo livro de Irineu de Lião 34 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-34/ Sat, 14 Mar 2026 20:42:06 +0000 https://vcirculi.com/?p=36092 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] O Senhor ensinou clarissimamente que as almas não só perduram sem passar de corpo em corpo, mas conservam imutadas as características dos corpos em que foram colocadas e se lembram das ações que fizeram aqui na terra e das que deixaram de fazer. É o que está escrito na história do rico e de Lázaro que repousava no seio de Abraão. Nela se diz que o rico, depois da morte, conhecia tanto Lázaro como Abraão e que cada um estava no lugar a ele destinado.

[2] O rico pedia a Lázaro, ao qual tinha recusado até as migalhas que caíam de sua mesa, que o socorresse; com a sua resposta, Abraão mostrava conhecer não somente Lázaro, mas também o rico e ordenava que os que não quisessem ir para aquele lugar de tormentos escutassem Moisés e os profetas antes de esperar o anúncio de alguém ressuscitado dos mortos.

[3] Tudo isso supõe clarissimamente que as almas permanecem, sem passar de corpo em corpo, que possuem as características do ser humano, de sorte que podem ser reconhecidas e que se recordam das coisas daqui de baixo; que também Abraão possuía o dom da profecia e que cada alma recebe o lugar merecido mesmo antes do dia do juízo.

[4] Aqui alguns poderão dizer que as almas que tiveram há pouco tempo o início da sua existência não podem durar indefinidamente e que, ou devem ser incriadas para ser imortais, ou se receberam o início da existência necessariamente morrem com o seu corpo.

[5] Ora, estes devem saber que somente Deus, o Senhor de todas as coisas, é sem princípio e sem fim, e se mantém verdadeiramente e sempre idêntico a si mesmo. Que todas as coisas por ele criadas no passado e no presente, sejam quais forem, recebem o princípio da existência e por isso são inferiores ao seu Criador, justamente por serem criadas.

[6] Que, não obstante isso, perduram e prolongam a sua existência na amplidão dos séculos, segundo a vontade de Deus Criador, o qual lhes dá, inicialmente, o devir e depois o ser.

[7] Como o céu que está sobre nós, o firmamento, o sol, a lua, todas as estrelas e o seu esplendor que antes não existiam, foram criados e duram muito tempo, segundo a vontade de Deus, assim não se engana quem pensa o mesmo das almas, dos espíritos e de todas as coisas criadas, porque todas elas receberam o início de sua existência e perduram pelo tempo que Deus quer que existam e durem.

[8] Também o Espírito profético testemunha a favor desta doutrina quando diz: “Porque ele falou e foram feitas; ele mandou e foram criadas. Ele as estabeleceu pelos séculos e pelos séculos dos séculos”.

[9] E do homem que seria salvo diz: “Ele te pediu a vida e lhe concedeste a longevidade pelos séculos dos séculos”. O Pai de todas as coisas concede a duração pelos séculos dos séculos aos que são salvos, porque não é nem de nós nem de nossa natureza que vem a vida, mas ela é concedida segundo a graça de Deus.

[10] Portanto, quem guardar o dom da vida dando graças àquele que lha deu receberá também a longevidade pelos séculos dos séculos, mas quem a recusar com ingratidão para com o Criador por tê-lo criado, não reconhecendo aquele que lha deu, priva-se por sua conta da duração pelos séculos dos séculos.

[11] Por isso o Senhor dizia aos que lhe são ingratos: “Se não fostes fiéis no pouco, quem vos confiará o muito?”, deixando entender que todos os que são ingratos na curta vida temporal com aquele que lha concedeu, não merecem receber dele a longevidade nos séculos dos séculos.

[12] Como o corpo animado pela alma não é a alma, mas comunica com a alma até que Deus quiser, assim a alma não é ela própria a vida, mas participa da vida que Deus lhe deu.

[13] Por isso a palavra inspirada diz do primeiro homem: “Ele foi feito alma vivente”, ensinando-nos que a alma é vivente por participação da vida, de forma que uma coisa é a alma e outra é a vida que está nela.

[14] Se, portanto, é Deus que dá a vida e a sua duração perpétua, não é impossível que as almas que antes não existiam, depois que Deus quis que existissem, perdurem nesta existência.

[15] O que deve mandar e dominar em tudo é a vontade de Deus; tudo o resto deve ceder diante dela, subordinar-se e pôr-se a seu serviço. Quanto à criação e à perpetuidade da alma é suficiente o que foi dito até aqui.

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Segundo livro de Irineu de Lião 33 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-33/ Sat, 14 Mar 2026 20:32:26 +0000 https://vcirculi.com/?p=36084 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Refutamos a transmigração das almas de corpo em corpo pelo fato de elas não se lembrarem de nada do passado. Com efeito, se foram enviadas a este mundo para praticar todas as ações, deveriam lembrar-se daquelas que já fizeram para completar o que ainda falta e não ter que se envolver sempre nas mesmas experiências.

[2] A união ao corpo não poderia apagar totalmente a lembrança do que viram anteriormente, quando vêm precisamente por isso. Como agora a alma lembra a maioria das coisas que vê em si e age em imaginação e as participa ao corpo que adormecido repousa, e às vezes até depois de muito tempo que acordou alguém conta o que viu em sonho, da mesma forma a alma deveria lembrar-se das ações feitas antes da sua vinda ao corpo.

[3] Com efeito, se o que foi visto em imaginação e por breves instantes por ela só durante o sono ela o lembra, depois de se misturar ao corpo e espalhar em todos os seus membros, com muito maior razão se lembraria das atividades às quais se dedicou pelo tempo considerável de toda existência anterior.

[4] Não podendo responder a estes argumentos, Platão, este antigo ateniense que foi o primeiro a adotar esta doutrina, introduziu a bebida do esquecimento, pensando com isso escapar à dificuldade.

[5] Sem fornecer prova alguma ele declarou peremptoriamente que o demônio que preside à entrada desta vida faz beber a taça do esquecimento às almas, antes de ingressar no corpo.

[6] E não se apercebeu de ter caído em dificuldade maior. Se beber a taça do esquecimento pode tirar a lembrança de tudo o que foi feito, como é que tu, Platão, sabes isso, visto que a tua alma está presentemente num corpo e que antes de entrar nele o demônio lhe fez beber a taça do esquecimento?

[7] Se lembras o demônio, a bebida e a entrada, deves também lembrar tudo o resto; se o ignoras, é porque nem o demônio é verdadeiro nem tudo o resto desta exótica teoria da bebida do esquecimento.

[8] Contra aqueles que dizem que o próprio corpo é o esquecimento vai isto: como é que a alma pode lembrar e comunicar aos outros o que viu durante o sonho e em pensamento enquanto o corpo dorme?

[9] Se o corpo é o esquecimento, a alma que se encontra dentro de um corpo não se lembraria do que conheceu alguma vez com os olhos e os ouvidos, porque bastaria levantar os olhos das coisas que também desapareceria a memória delas.

[10] Encontrando-se no próprio esquecimento, a alma só poderia conhecer o que vê no momento presente. Então como poderia ter aprendido e lembrar-se das coisas divinas estando num corpo que, como eles dizem, é o próprio esquecimento?

[11] Até os profetas, estando na terra, depois de voltar a si, se lembram e comunicam aos outros o que viram e entenderam espiritualmente durante as visões celestes, e o corpo não lhes tira a lembrança do que viram em espírito, mas a alma instrui o corpo e lhe comunica a visão espiritual que teve.

[12] Com efeito, o corpo não é mais poderoso do que a alma, ele que é animado, vivificado, desenvolvido e articulado, mas é a alma que domina e manda no corpo.

[13] Sem dúvida, a alma é travada na sua presteza, visto que o corpo participa do seu movimento, mas nem por isso perde a sua ciência.

[14] O corpo é parecido com o instrumento enquanto a alma exerce a função do artista. Como o artista concebe prontamente dentro de si uma obra de arte, mas a realiza lentamente por meio do instrumento, por causa da inércia do objeto, assim a presteza de espírito do artista, misturando-se com a lentidão do instrumento, realiza uma obra que participa das duas coisas.

[15] Assim a alma unida ao seu corpo é um pouco impedida pelo fato de sua presteza estar misturada com a lentidão do corpo, mas nem por isso perde todo o seu poder; comunicando a sua vida ao corpo, ela não cessa de viver.

[16] Assim se dá quando ela comunica ao corpo as outras coisas: ela não perde nem a ciência que possuía nem a lembrança dela.

[17] Por isso, se ela não lembra nada do passado, mas tem o conhecimento das coisas presentes, nunca esteve em outros corpos, nunca fez o que não conhecia, nem conhece o que não viu.

[18] Como cada um de nós recebe da arte de Deus o próprio corpo, assim tem a sua própria alma, porque Deus não é tão pobre e indigente que não possa dar a cada corpo a sua alma e seu próprio caráter.

[19] E por isso, quando será completado o número que Ele preestabeleceu, todos os inscritos na vida ressurgirão com seu corpo, sua alma e seu espírito com os quais agradaram a Deus; e os que mereceram os castigos recebê-los-ão, com suas almas e seus corpos nos quais se afastaram da bondade divina.

[20] E tanto uns como os outros deixarão de gerar e de ser gerados, de casar-se e tomar maridos, e completada a multidão do gênero humano predefinida por Deus e atingida a perfeição, conservem a harmonia recebida do Pai.

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Segundo livro de Irineu de Lião 32 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-32/ Sat, 14 Mar 2026 20:29:51 +0000 https://vcirculi.com/?p=36076 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Os ensinamentos do Senhor derrubam completamente a sua ímpia doutrina sobre as ações humanas, segundo a qual eles devem praticar todas as ações possíveis, até as más. O Senhor não somente condena quem pratica o adultério, mas também quem o deseja; não somente quem mata é condenado por ele como réu de homicídio, mas também quem se irrita sem motivo com o seu irmão. O Senhor ordenou não somente não odiar os homens, mas também amar os inimigos; não somente não jurar falso, mas sequer jurar; não somente não falar mal do próximo, mas sequer chamar alguém de imbecil e idiota, sob pena de merecer o fogo do inferno; não somente não esbofetear, mas, esbofeteados, oferecer a outra face; não somente não tirar as coisas dos outros, mas sequer pedir devolvidas as próprias, quando tiradas; não somente não ofender o próximo e não lhe fazer mal, mas ser pacientes e bons quando maltratados e rezar para que se arrependam e salvem. Em resumo: não imitar em nada as ofensas, a raiva e o orgulho dos outros.

[2] Se Aquele que se gloriam de ter por mestre e que dizem ter tido alma mais excelente e forte do que a dos outros homens teve o máximo cuidado em nos prescrever algumas coisas porque boas e excelentes e em nos proibir outras, não somente nos fatos, mas também nos pensamentos que levam a ações más, como maus, nocivos e perversos, como é que podem dizer, sem se envergonhar, que este mestre é o mais forte e excelente entre os homens e logo depois formular abertamente regras contrárias ao seu ensinamento?

[3] Se não existissem o mal e o bem, mas fosse somente opinião humana que algumas coisas são justas e outras injustas, nunca teria declarado no seu ensinamento: “Os justos brilharão como o sol no reino de seu Pai”; e os injustos e os que não fazem obras de justiça enviá-los-á ao fogo eterno “onde o seu verme nunca morrerá e o fogo não se apagará”.

[4] Mas enquanto dizem que devem realizar todas as ações e comportamentos de forma a concretizá-los numa só vida, se possível, e atingir assim o estado perfeito, nunca se vê que se tenham esforçado por fazer o que diz respeito à virtude, ao trabalho, à honra, à arte e àquelas coisas reconhecidas como boas por todos.

[5] Se devem dedicar-se à toda forma possível de atividade, deveriam começar por aprender todas as artes, sem exceção; aquelas que se exercem nos discursos ou nas obras, aquelas que se aprendem com o domínio sobre si e se adquirem com o esforço e o exercício perseverante, como, por exemplo, a música, a aritmética, a geometria, a astronomia e todas as outras disciplinas teóricas; todos os ramos da medicina, a ciência das plantas medicinais, as disciplinas que visam à saúde humana; a pintura, a escultura do bronze, do mármore, e semelhantes; além disso, toda a espécie de agricultura, de veterinária, de pastorícia e de artesanato; de enciclopédia, de náutica, de ginástica, de caça, de estratégia, de governo e tantas outras artes, que nem a fadiga de toda uma vida conseguiria ensinar-lhes sequer a décima milésima parte.

[6] Eles que se dizem obrigados a experimentar toda atividade sequer se esforçam por aprender algumas destas artes, mas se entregam a prazeres, à luxúria e a vícios torpes. Eis que assim condenam-se a si próprios pela lógica da sua doutrina, porque, faltando-lhes tudo o que acabamos de dizer, irão para o castigo do fogo.

[7] Ao mesmo tempo que professam a filosofia de Epicuro e a indiferença dos cínicos, gloriam-se de ter por Mestre Jesus, o qual dissuade os seus discípulos não somente de praticar más ações, mas também de toda palavra ou pensamento repreensíveis, como acabamos de mostrar.

[8] Dizem ainda que suas almas derivam da mesma esfera que a de Jesus e que lhe são semelhantes e até melhores. Mas em comparação com as obras que Jesus fez para o bem e a consolidação dos homens eles não podem mostrar ter feito algo que, de alguma forma, seja semelhante ou comparável.

[9] E se fazem alguma coisa, é, como dissemos, por intermédio da magia, com a intenção de enganar os simples. Longe de procurar algum fruto ou proveito para aqueles em favor dos quais dizem operar prodígios, contentam-se com atrair meninos impúberes e os mistificam mostrando-lhes aparições que logo se dissolvem sem ter durado uma fração de segundo, mostrando-se assim semelhantes não a nosso Senhor Jesus, e sim a Simão, o mago.

[10] E, enquanto o Senhor ressuscitou dentre os mortos ao terceiro dia, se deu a conhecer a seus discípulos e foi levado ao céu diante de seus olhares, esse tipo de homens morrem, mas não ressuscitam nem se manifestam a ninguém; daí se pode deduzir que suas almas não se parecem em nada com a de Jesus.

[11] Se ainda disserem que o Salvador fez tais coisas somente na aparência, lhes apresentaremos os escritos dos profetas e, servindo-nos deles, lhes mostraremos que tudo foi realizado exatamente como foi predito; e que somente ele é o Filho de Deus.

[12] Eis por que em seu nome os seus verdadeiros discípulos, depois de ter recebido dele a graça, agem para o bem dos outros homens, conforme o dom que cada um recebeu dele: alguns expulsam os demônios, com tanta certeza e verdade, que, muitas vezes, os que foram libertos destes espíritos maus creem e entraram na Igreja; outros têm o conhecimento do futuro, visões e oráculos proféticos; outros impõem as mãos sobre os doentes e lhes restituem a saúde; e como dissemos, também alguns mortos ressuscitaram e ficaram conosco por muitos anos.

[13] E que mais? Não é possível dizer o número de carismas que, no mundo inteiro, a Igreja recebeu de Deus, no nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos e que distribui todos os dias em prol dos homens, a ninguém enganando e não exigindo dinheiro de ninguém: porque como de graça recebeu de Deus de graça distribui.

[14] E não é com a invocação dos anjos que ela faz estas coisas, nem com encantamentos ou outras práticas torpes, e sim de maneira lícita e clara, elevando preces a Deus, que fez todas as coisas; invocando o nome de nosso Senhor Jesus Cristo faz prodígios para o bem dos homens e não para os enganar.

[15] Se, portanto, o nome de nosso Senhor Jesus Cristo ainda agora é benéfico e cura com toda certeza e verdade todos os que, não importa em que lugar, crêem nele — o que não acontece no nome de Simão, nem de Menandro, nem de Carpócrates, nem de outro qualquer —, é claro que, tendo-se feito homem e vivido com a obra da sua criação, fez verdadeiramente tudo pelo poder de Deus, conforme a vontade do Pai de todas as coisas, da maneira que os profetas anunciaram.

[16] Quais são estas profecias o diremos na exposição das provas tiradas dos profetas.

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Segundo livro de Irineu de Lião 31 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-31/ Sat, 14 Mar 2026 20:26:24 +0000 https://vcirculi.com/?p=36068 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Refutados os valentinianos, refutada está toda a multidão dos hereges. O que afirmamos contra o Pleroma e tudo o que está fora dele, serviu para demonstrar que o Pai de todas as coisas seria limitado e circunscrito por aquilo que está fora dele, se é que há alguma coisa fora dele, e que, portanto, seria necessário admitir muitos Pais, muitos Pleromas e muitos mundos criados nos quais uns começariam onde os outros acabam.

[2] E que todos fechados em si mesmos não investigariam sobre os outros com os quais não têm parte nem comunicações; que não haveria um Deus de todas as coisas e seria eliminado o nome de Onipotente. Tudo isso vale também contra os discípulos de Marcião, de Simão, de Menandro e, de modo geral, contra todos os que introduzem separação semelhante entre o mundo e o Pai.

[3] Outros dizem que o Pai de todas as coisas contém tudo, mas que o nosso mundo não é criação dele, e sim de alguma Potência ou de anjos que ignoravam o Pai, o qual estaria inscrito na imensidade do universo, como o centro no círculo ou a mancha no manto.

[4] Mostramos que não é verossímil que este mundo tenha sido feito por algum outro que não o Pai de todas as coisas. Tudo isso vale também contra os discípulos de Saturnino, de Basílides, de Carpócrates e de todos os outros gnósticos que dizem as mesmas coisas.

[5] O que dissemos acerca das emissões, dos Éões e da degradação e para mostrar a inconsistência da sua Mãe refuta também Basílides e todos os falsos gnósticos que dizem as mesmas coisas com outras palavras e, mais, demonstra que estes fazem do que está fora da verdade uma característica da sua doutrina.

[6] O que dissemos acerca dos números vale para todos os que alteram a verdade neste sentido. E, finalmente, o que foi dito sobre o Demiurgo, para provar que somente ele é Deus e Pai de todas as coisas, e tudo o que será dito nos livros seguintes, é contra todos os hereges que o digo.

[7] Poderás refutar os mais moderados e humanos deles e dissuadí-los de blasfemar o seu Criador, Autor, Nutrício e Senhor e de lhe atribuir a origem da degradação e da ignorância; mas afastarás para longe de ti os mais ferozes e intratáveis, para que não tenhas de suportar nunca mais o seu palavreado.

[8] Além disso, procurar-se-á convencer os discípulos de Carpócrates e de Simão e os que têm fama de operar prodígios de que o que fazem não é nem pelo poder de Deus, nem pela verdade, nem como benfeitores dos homens, mas com dano e erro, com truques mágicos e todas as fraudes, mais perniciosos do que úteis aos que, seduzidos, acreditam neles.

[9] Com efeito, não podem restituir a vista aos cegos nem o ouvido aos surdos, nem afugentar os demônios — a não ser os que são enviados por eles mesmos, se é que o podem fazer —, nem curar os enfermos, os coxos, os paralíticos ou doentes noutras partes do corpo, como acontece muitas vezes por causa de doença, nem de restituir a integridade dos membros a acidentados.

[10] Está tão longe deles o pensamento de ressuscitar os mortos — como o fez o Senhor e como o fizeram os apóstolos pela oração e como, em caso de necessidade, aconteceu mais de uma vez, toda a Igreja local pedindo fraternalmente com jejuns e orações, voltou o espírito do morto e foi concedida às orações dos santos a vida do homem — que nem o julgam possível: para eles a ressurreição dos mortos consiste no conhecimento do que eles chamam de verdade.

[11] Quando, junto a eles, é o erro, a sedução, a fantasia da mágica que são postos diante dos homens, na Igreja, ao contrário, agem, para o bem dos homens, a misericórdia, a piedade, a firmeza, a verdade, não somente sem remuneração e de graça, mas dando o que é nosso pela saúde dos homens e muitas vezes os doentes recebem de nós o que precisam e que não têm.

[12] Verdadeiramente, com este comportamento eles provam que estão totalmente alheios à natureza divina, à bondade de Deus e ao poder espiritual e que, ao contrário, estão repletos de todo tipo de fraude, de inspiração rebelde, de atividade diabólica e de fantasias idolátricas.

[13] São verdadeiramente os precursores daquele dragão que, com embustes semelhantes, arrastará com sua cauda um terço das estrelas e as fará cair sobre a terra, e os devemos evitar como evitamos aquele dragão, e quanto mais parecem operar prodígios, tanto mais nos devemos acautelar deles como de gente que recebeu espírito maior de iniqüidade.

[14] Por este motivo, se alguém prestar atenção à sua maneira de agir, verá que o seu comportamento é todo um com o dos demônios.

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Segundo livro de Irineu de Lião 30 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-30/ Sat, 14 Mar 2026 20:23:04 +0000 https://vcirculi.com/?p=36060 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Não obstante serem assim as coisas, eles asseguram, contra o bom senso, que subirão acima do Demiurgo. Proclamando-se superiores ao Deus que fez e ornamentou os céus, a terra, os mares e tudo o que eles contêm, proclamam-se espirituais, quando são vergonhosamente carnais pelo excesso da impiedade; ao dizer psíquico o Criador e Senhor de toda natureza espiritual, que fez os seus anjos espíritos, que os revestiu de luz como de vestimenta, que tem nas mãos o globo da terra, cujos habitantes são, diante dele, como gafanhotos, que é o Deus e o criador de toda substância espiritual, eles o definem psíquico. Sem dúvida, provam realmente estar transtornados e ser atingidos pelo raio mais ainda do que os gigantes da fábula, eles que levantam o seu pensamento contra Deus, que estão inflados de presunção e bazófia, para os quais não chega todo o heléboro da terra para purgá-los e fazer-lhes vomitar a gigantesca patetice.

[2] Pelas obras é que se deve mostrar quem é melhor. Somos obrigados a fazer discursos ímpios, isto é, a comparar entre si Deus e estes loucos, a descer ao seu nível para refutá-los com seus próprios argumentos. Que Deus nos perdoe! porque não queremos pôr Deus no nível deles, e sim provar e refutar a sua loucura. Ora, em que se mostram melhores do que o Demiurgo estes, diante dos quais pasma de admiração uma multidão de loucos como se pudessem aprender deles alguma coisa superior à própria verdade? A palavra da Escritura: “Procurai e encontrareis”, foi dita, explicam eles, para serem encontrados acima do Demiurgo, qualificando-se maiores e melhores do que Deus, sendo eles pneumáticos e o Demiurgo psíquico. Este é o motivo pelo qual estarão acima de Deus e entrarão no Pleroma enquanto Deus irá ao Lugar do Intermediário. Ora, provem pelas obras que são superiores ao Demiurgo; pois não é pelas palavras, e sim pelos fatos que alguém se deve mostrar superior.

[3] Qual é então a obra que mostrarão feita por meio deles, pelo Salvador, ou pela Mãe deles, maior, mais esplêndida, mais racional das obras realizadas por quem organizou este universo? Onde estão os céus que eles firmaram, a terra que consolidaram e as estrelas que criaram? Onde os luminares que eles acenderam e os cursos a que os obrigaram? Onde as chuvas, o frio e as neves que fizeram cair sobre a terra nos tempos propícios a cada região, ou o calor e as secas que lhe contrapuseram? Onde os rios que fizeram deslizar, as fontes que fizeram jorrar, as flores e as árvores com que adornaram a terra que está debaixo do céu? Onde está a multidão dos seres vivos — uns racionais, irracionais outros, todos eles revestidos de beleza — que formaram? Quem poderá enumerar todas as outras coisas feitas pelo poder de Deus e governadas pela sua sabedoria? Quem poderá sondar a grandeza da sabedoria de Deus que as fez? E que dizer da multidão dos seres que estão acima dos céus e que são eternos, os Anjos, os Arcanjos, os Tronos, as Dominações e as Potestades sem número? Podem, por acaso, contrapor a si mesmos diante de uma só destas obras? O que podem mostrar de semelhante feito por eles ou por meio deles quando eles próprios são criação e obra de Deus? Com efeito — para falar a sua linguagem e com ela provar a falsidade de seus argumentos — se o Salvador ou a Mãe deles se serviu deste Criador, como dizem, para fazer uma imagem das realidades interiores ao Pleroma e de tudo o que contemplou à volta do Salvador, o foi porque era melhor e mais apto para cumprir a vontade dela. Ora, nunca usaria um instrumento inferior, mas sim um superior, para formar as imagens destas realidades tão grandes.

[4] Então eles mesmos eram, como dizem, um fruto pneumático concebido da contemplação dos guardas do corpo dispostos em volta de Pandora. Eles estavam inativos, porque nem sua Mãe nem o Salvador nada fizeram por meio deles; eles não eram senão fruto inútil, prestável para nada: com efeito, não aparece nada que tenha sido feito por meio deles. Porém este Deus que, ao que dizem, foi emitido depois e inferior a eles, porque o classificam psíquico, foi operador perfeitamente eficaz e hábil, de sorte que, por meio dele, como o instrumento melhor e mais apto a executar a vontade da Mãe, foram feitas as imagens não somente das coisas visíveis, mas também das invisíveis, os Anjos, os Arcanjos, as Dominações, as Potências e as Virtudes. Por outro lado, parece que a Mãe não fez nada para eles, como dizem eles próprios, de forma que podem ser considerados como abortos de um parto mal sucedido; neste parto não houve a assistência das obstetras, e eles foram lançados fora como abortos, absolutamente inúteis, por não terem recebido da Mãe coisa alguma útil. Não obstante isso, eles se proclamam melhores do que aquele pelo qual foram feitas e ordenadas tantas e tão grandes coisas, quando pelo seu sistema eles resultam muito inferiores a ele.

[5] Suponhamos duas ferramentas ou instrumentos quaisquer e que um deles se encontre sempre em uso nas mãos do artista, de forma a fazer com ele quantas obras quiser e mostre assim a sua arte e sabedoria, e que o outro se mantenha inativo, inútil e ocioso, sem que o artista o use ou faça alguma coisa com ele; se alguém viesse dizer que o instrumento supérfluo e inativo é melhor e mais caro do que aquele que o artista usa e donde tira a sua glória, com certeza seria julgado louco e fora de si. Ora, é o que acontece com estes, que se proclamam a si mesmos pneumáticos e superiores e ao Demiurgo proclamam psíquico; que afirmam que estarão acima dele e que entrarão no Pleroma para se encontrarem com os seus esposos — como eles mesmos confessam, são mulheres — enquanto Deus é inferior e ficará no Intermediário. E de todas estas afirmações nem a sombra de uma prova. Ora, o melhor prova-se pelas obras e como todas elas foram feitas pelo Demiurgo e não podem mostrar nada de notável feito por eles, são loucos de loucura completa e insanável.

[6] Se quiserem sustentar que todas as coisas materiais, isto é, o céu e o universo abaixo dele, foram criadas pelo Demiurgo e que todos os seres espirituais situados acima do céu, isto é, os Principados, as Potestades, os Anjos, os Arcanjos, as Dominações e as Virtudes foram criados pelo fruto pneumático, que pretendem ser, então nós lhes responderemos, em primeiro lugar, que já provamos por meio das divinas Escrituras que todas estas coisas, visíveis e invisíveis, foram criadas pelo Deus único; e que eles não valem mais do que as Escrituras e que não somos absolutamente obrigados a deixar de lado as palavras do Senhor, nem as de Moisés e dos outros profetas que pregaram a verdade para acreditar neles que, não satisfeitos com dizer nada de verdadeiro, ainda deliram em sonhos inconsistentes. Em segundo lugar, se as coisas que estão acima dos céus foram criadas por meio deles, digam-nos qual é a natureza destes seres invisíveis, digam-nos o número dos Anjos e a ordem dos Arcanjos, dêem-nos a conhecer os mistérios dos Tronos e nos mostrem as diferenças que há entre as Dominações, os Principados, as Potestades e as Virtudes. Eles não o podem fazer, portanto, não foi por meio deles que estas coisas foram criadas. E se foram criadas pelo Demiurgo — como é o caso — estes seres são obra do Criador, são espirituais e santos e, por conseguinte, não pode ser psíquico quem criou seres espirituais: eis reduzida a nada a sua enorme blasfêmia.

[7] Que no céu haja criaturas espirituais o proclamam todas as Escrituras e Paulo atesta que são espirituais quando diz que foi arrebatado ao terceiro céu e, pouco depois, revela ter sido levado ao paraíso e ter escutado palavras inefáveis que o homem não pode pronunciar. E a que lhe poderia ter servido o ser levado ao paraíso ou elevado ao terceiro céu, lugares estes que estão em poder do Demiurgo, se era para contemplar e escutar mistérios superiores ao Demiurgo, como alguns ousam afirmar? Se devia conhecer um mundo superior ao Demiurgo não teria ficado no domínio dele, sequer depois de ter visto tudo — segundo a doutrina deles faltavam-lhe ainda quatro céus para chegar ao Demiurgo e contemplar abaixo dele a Hebdômada — devia subir ao menos até o Intermediário, isto é, a Mãe, para aprender dela o que está dentro do Pleroma. O homem interior, invisível que falava nele, como dizem, podia muito bem chegar não somente ao terceiro céu, mas até a Mãe deles. Se eles, ou melhor, o seu homem, ultrapassarão imediatamente o Demiurgo e irão até a Mãe, muito mais facilmente isso teria acontecido ao homem do Apóstolo, nem lho poderia ter impedido o Demiurgo, ele também já submetido ao Salvador, como dizem. E, ainda que o quisesse impedir, não o conseguiria, porque não é possível que ele seja mais forte do que a providência do Pai e porque o homem interior, como dizem, é invisível até para o Demiurgo. Ora, se Paulo contou o seu arrebatamento ao terceiro céu como algo de grande e extraordinário, estes não poderão subir acima do sétimo céu, pois não são melhores do que o Apóstolo. Se pretendem ser superiores serão manifestados pelos fatos: mas ainda não se gabaram disto. Paulo acrescentou: “Se foi no corpo ou fora do corpo, Deus o sabe”, a fim de que não se pense que o corpo tenha sido excluído da visão — este corpo que um dia participará no que Paulo viu e escutou aquela vez — e também para que ninguém diga que foi por causa do peso do corpo que não foi elevado mais acima, mas que é permitido àqueles que, como o Apóstolo, são perfeitos no amor de Deus, contemplar até lá, mesmo sem o corpo, os mistérios espirituais, que são as obras de Deus que fez o céu e a terra, que plasmou o homem e o colocou no paraíso.

[8] Deus fez, portanto, as coisas espirituais de que foi espectador o Apóstolo no terceiro céu e as palavras indizíveis que não é permitido ao homem dizer por serem espirituais é ainda este mesmo Deus que as faz ouvir, da forma que ele quer, aos que são dignos, pois o paraíso é dele. E este Deus é verdadeiramente Espírito de Deus e não um Demiurgo psíquico, de outra forma nunca teria feito as coisas espirituais. Se, ao contrário, é psíquico, digam-nos quem fez as coisas espirituais. Também não têm meios para mostrar alguma coisa feita pela emissão da Mãe, que dizem ser eles. Não somente não podem fazer algo de espiritual, mas sequer uma mosca, uma pulga ou um destes pequenos insetos desprezados a não ser da forma estabelecida no princípio por Deus, pela deposição de uma semente num animal da mesma espécie. Como também nada foi feito pela Mãe sozinha, porque, dizem, é o emitido que é o Demiurgo e o Senhor de toda a criação. E este Demiurgo e Senhor de toda a criação eles pretendem seja de natureza psíquica, enquanto eles, não sendo nem demiurgos nem senhores de nada, que não fizeram nada do que está fora deles, sequer o seu corpo, dizem ser espirituais. E os que estão sujeitos, até contra a vontade, a muitos sofrimentos no corpo, se proclamam espirituais e superiores ao Criador!

[9] Justamente, portanto, os acusamos de se terem afastado consideravelmente da verdade. Se o Salvador fez por meio dele as coisas criadas não lhes é inferior, mas se mostra melhor por ser autor delas também, porque eles também se encontram entre as que foram criadas. Como podem, então, ser de natureza pneumática se aquele que as fez é de natureza psíquica? Mas — o que somente pode ser verdadeiro e que demonstramos com argumentos fortíssimos e provas irrecusáveis — se o Criador, livremente e de sua iniciativa, fez e ordenou todas as coisas e se a sua vontade é a única matéria donde tirou todas elas, então aquele que fez todas as coisas é o Deus único, o único Onipotente, o único Pai, que criou e fez todas as coisas, as visíveis e as invisíveis, as sensíveis e as inteligíveis, as celestes e as terrestres. Com o Verbo de seu poder tudo compôs e tudo ordenou por meio da sua Sabedoria; ele que tudo contém e que nada o pode conter. Ele é o Artífice, o Inventor, o Fundador, o Criador, o Senhor de todas as coisas e não existe outro fora e além dele, nem a Mãe que eles se arrogam, nem o outro deus que Marcião inventou, nem o Pleroma dos 30 Éões cuja inanidade demonstramos, nem o Abismo, nem o Protoprincípio, nem os Céus, nem a Luz virginal, nem o Éon inefável, nada de tudo o que foi sonhado por eles e por todos os hereges. Só um é o Deus Criador que está acima de todo Principado, Potência, Dominação e Virtude: ele é o Pai, é Deus, é o Criador, o Autor, o Ordenador, que fez todas as coisas de si mesmo, isto é, por meio de seu Verbo e Sabedoria, o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm. Ele é o justo, o bom; ele quem modelou o homem, plantou o paraíso, construiu o mundo, quem produziu o dilúvio e salvou Noé; ele é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, o Deus dos viventes, anunciado pela Lei, pregado pelos profetas, revelado por Cristo, transmitido pelos apóstolos, crido pela Igreja; ele é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo; por meio do Verbo que é seu Filho é revelado e manifestado a todos que ouvem a revelação; e o conhecem aqueles aos quais o Filho o revelou. O Filho que está sempre com o Pai e que desde o princípio sempre revela o Pai aos Anjos e Arcanjos, às Potestades e Virtudes e a todos a quem Deus se quer revelar.

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Segundo livro de Irineu de Lião 29 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-29/ Sat, 14 Mar 2026 20:20:59 +0000 https://vcirculi.com/?p=36052 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Voltemos ao resto das suas argumentações. Dizem que quando da consumação final, sua Mãe voltará ao Pleroma e receberá como esposo o Salvador e que eles, que se definem pneumáticos, depois de se terem despido das almas e tornado espíritos de pura inteligência, serão esposas dos anjos pneumáticos.

[2] Por seu lado, o Demiurgo, que chamam psíquico, se retirará no lugar da Mãe e as almas dos justos repousarão, de maneira psíquica, no Lugar do Intermediário. Dizendo que os semelhantes se reunirão juntos, os pneumáticos com os pneumáticos, os terrenos com os terrenos, eles se contradizem.

[3] De fato, segundo eles, não é pela sua natureza que as almas irão para o Intermediário junto com os semelhantes, e sim pelas obras, porque dizem que as almas dos justos irão para esse lugar enquanto as dos ímpios permanecerão no fogo.

[4] Se todas as almas vão ao lugar do repouso por causa da sua natureza e todas pertencem ao Intermediário pelo simples fato de que são almas, visto que são todas da mesma natureza, a fé é supérflua, como é supérflua a vinda do Salvador.

[5] Se, porém, elas vão aí por causa da sua justiça, já não é pelo fato de serem almas, mas por serem justas. Ora, se a justiça pode salvar as almas que de outra forma se perderiam, por que não poderá também salvar os corpos que colaboraram com esta justiça?

[6] Se o que salva é a natureza e a essência, todas as almas se salvarão; mas se é a justiça e a fé, por que não salvarão também os corpos que, como as almas, são destinados à corrupção? Pois tal justiça será impotente ou injusta se salvar algumas pela sua participação e outras não.

[7] Que as obras de justiça se cumprem nos corpos é evidente. Portanto, ou todas as almas entrarão no lugar do Intermediário e nunca haverá o juízo; ou os corpos que colaboraram na justiça ocuparão eles também o lugar do descanso junto com as almas que participaram da mesma forma nesta justiça, visto que ela é capaz de transferir para este lugar tudo o que participou nela, e a doutrina da ressurreição dos corpos aparecerá com toda a sua força e sua verdade.

[8] Esta é a doutrina em que nós cremos: Deus ressuscitará os nossos corpos mortais que guardaram a justiça e os tornará incorruptíveis e imortais. Deus é maior do que a natureza e tem em sua mão o querer, porque é bom, o poder, porque é poderoso, e o levar a cumprimento porque é rico e perfeito.

[9] Estes, porém, se contradizem totalmente quando declaram que nem todas as almas entrarão no Intermediário, mas somente aquelas dos justos.

[10] Com efeito, dizem que a Mãe emitiu três espécies diversas de naturezas ou substâncias: a substância terrena que deriva da angústia, da tristeza e do medo; a psíquica, derivada do ímpeto da conversão; e a pneumática, derivada da visão dos anjos que acompanham o Cristo.

[11] Se o que ela emitiu entrará de qualquer forma no Pleroma porque é pneumática enquanto o que é material ficará fora porque é material e deve ficar nas regiões inferiores e ser totalmente destruído quando se incendiará o fogo que está nela, por que a substância psíquica não irá toda a este Lugar do Intermediário, aonde eles enviam também o Demiurgo?

[12] E qual é o elemento deles que entrará no Pleroma? As almas, eles dizem, ficarão no Intermediário; os corpos, de natureza material, serão reduzidos a matéria e serão consumidos pelo fogo que está nela.

[13] Mas uma vez que o corpo será destruído e a alma ficará no Intermediário, não ficará mais nada do homem que possa entrar no Pleroma.

[14] O intelecto do homem, o pensamento, a consideração e as outras coisas desta espécie não são realidades que existem independentemente da alma, mas são movimentos e operações da própria alma que não têm existência fora da alma.

[15] O que restará deles para entrar no Pleroma? Porque eles também, como almas, ficarão no Intermediário e como corpos, queimarão com a matéria restante.

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Segundo livro de Irineu de Lião 28 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-28/ Sat, 14 Mar 2026 20:17:42 +0000 https://vcirculi.com/?p=36044 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Possuindo, portanto, como Regra a própria verdade e o testemunho evidente de Deus, não devemos, ao procurar em todas as direções uma resposta às nossas questões, abandonar o sólido e verdadeiro conhecimento de Deus. Devemos, sim, orientando a solução das questões neste sentido, aprofundar a procura do mistério da economia que vem de Deus, crescer no amor daquele que tanto fez para nós e continuamente faz.

[2] Nunca devemos abandonar a convicção que nos faz proclamar, da maneira mais categórica, que ele é o único e verdadeiro Deus e Pai que fez este mundo, que plasmou o homem e o fez crescer na sua criação e o chamou da baixeza humana para as coisas maiores que estão junto de si. Assim como a criança, depois de ser concebida no seio materno é dada à luz do sol e como o trigo amadurecido na espiga é depositado no celeiro. Único e idêntico é o Criador que plasmou o seio e criou o sol; único e idêntico é o Senhor que fez crescer a espiga e multiplicou o trigo e preparou o celeiro.

[3] Se não podemos encontrar a solução de todas as questões que são propostas nas Escrituras nem por isso devemos procurar outro Deus fora daquele que é o verdadeiro Deus; seria o máximo da impiedade. Devemos deixá-las para o Deus que nos criou, bem sabendo que as Escrituras são perfeitas, entregues pelo Verbo de Deus e pelo seu Espírito e nós tanto somos pequenos e últimos em relação ao Verbo de Deus e ao seu Espírito quanto precisamos receber o conhecimento dos mistérios de Deus.

[4] Por outro lado, não há que admirar se isso nos acontece nas coisas espirituais, celestes, que devem ser reveladas, porque até das coisas que estão ao nosso alcance — quero dizer daquelas que pertencem a este mundo criado que podemos tocar, ver, que estão ao nosso lado — muitas escapam ao nosso conhecimento e as deixamos a Deus. É necessário que ele esteja acima de todos.

[5] Que aconteceria se quiséssemos explicar as causas da cheia do Nilo? Poderíamos dizer coisas mais convincentes ou menos, mas a verdade certa e firme só Deus sabe. Nós sequer sabemos onde é a morada das aves que vêm aqui na primavera e partem no outono, contudo é fato que acontece neste mundo.

[6] Qual a explicação que poderíamos dar do fluxo e refluxo do mar, porque é evidente que estes fenômenos têm causa bem determinada. O que podemos afirmar das coisas que estão do outro lado do Oceano? Ou ainda, que sabemos sobre a origem da chuva, dos relâmpagos, dos trovões, das nuvens, da neblina, dos ventos e coisas semelhantes?

[7] Onde se armazenam a neve e o granizo e coisas semelhantes? O que sabemos da composição das nuvens, da natureza da neblina? Por que a lua é ora crescente ora minguante? Ou ainda, qual é a causa das diferenças das águas, dos metais, das pedras e coisas semelhantes? De todas estas coisas poderíamos falar longamente, nós que procuramos as causas das coisas, mas somente Deus que as fez pode dizer a verdade.

[8] Se, portanto, até nas coisas criadas, a ciência de algumas coisas é reservada a Deus, de outras é possível também a nós, qual é a dificuldade em pensar que entre os problemas propostos pelas Escrituras — estas Escrituras que são inteiramente espirituais — alguns os resolvamos com a graça de Deus e outros os tenhamos de deixar para ele, e não somente no mundo presente, mas também no futuro, de forma que Deus seja sempre o mestre e que o homem seja sempre o discípulo de Deus?

[9] Como disse o Apóstolo, quando será abolido tudo o que é parcial, permanecerão a fé, a esperança e a caridade. A fé no nosso mestre resta firme, assegurando-nos que ele é o verdadeiro Deus, que o devemos amar sempre porque somente ele é Pai, que devemos esperar receber e aprender dele sempre mais, porque ele é bom, as suas riquezas são infinitas, seu reino sem fim, sua doutrina sem confins.

[10] Se, portanto, da maneira que acabamos de dizer, deixarmos a Deus algumas questões, conservaremos a nossa fé, e estaremos longe dos perigos e encontraremos concorde toda a Escritura que Deus nos deu; as parábolas concordarão com as passagens claras e estas explicarão as parábolas e, na polifonia dos textos, escutaremos em nós uma só melodia harmoniosa a cantar o Deus que fez todas as coisas.

[11] Se, por exemplo, nos perguntarem: O que Deus fazia antes de criar o mundo? Diremos que a resposta está somente com Deus. Que Deus tenha feito este mundo por criação, com um início no tempo, é o que nos ensinam todas as Escrituras; mas o que fazia antes disso, nenhuma Escritura o diz. Portanto a resposta a esta pergunta pertence a Deus e não é necessário querer imaginar emanações sem sentido, loucas e blasfematórias e na ilusão de ter descoberto a origem da matéria, rejeitar a Deus que fez todas as coisas.

[12] Refleti, vós todos, inventores destas fábulas, que aquele que vós chamais Demiurgo é o único a ser chamado e a ser o verdadeiro Deus Pai; que as Escrituras conhecem somente este Deus; que o Senhor o confessa seu Pai e a nenhum outro mais, como demonstraremos com suas próprias palavras.

[13] Vós que o chamais fruto de degradação e produto de ignorância, que não conhece as coisas que estão acima dele e tudo o mais que dizeis acerca dele, considerai a enormidade da blasfêmia que proferis contra aquele que é o verdadeiro Deus. Pareceis dizer sinceramente que acreditais em Deus e depois, quando vos manifestais incapazes de nos mostrar outro Deus, proclamais fruto da degradação e produto da ignorância aquele mesmo em que dizeis acreditar. Esta cegueira e estultícia deriva do fato de nada reservar para Deus.

[14] Anunciais o nascimento e as gerações de Deus, do seu Pensamento, do Logos e da Vida e do Cristo baseados em nenhuma outra coisa que os sentimentos humanos; e não entendeis que esta linguagem pode servir quando se fala do homem que é ser compósito em que é legítimo distinguir, como o fizemos acima, o intelecto do pensamento; que do intelecto procede o pensamento; do pensamento a reflexão; da reflexão a palavra — o que é a palavra? Segundo os gregos uma é a faculdade que elabora o pensamento e outro o órgão pelo qual é emitida a palavra; e o homem às vezes está imóvel e silencioso e às vezes fala e age — mas Deus é todo Intelecto, todo Logos, todo Espírito que age, todo Luz, sempre igual e idêntico a si mesmo, como nos convém pensar de Deus, como o aprendemos das Escrituras, e em quem não podem existir estes sentimentos e estas divisões.

[15] A língua, que é carnal, não acompanha a velocidade do intelecto humano, que é espiritual, motivo pelo qual a nossa palavra é sufocada dentro e não é pronunciada toda de uma vez assim como foi concebida pelo intelecto, mas por partes, como a língua é capaz de fazer.

[16] Porém Deus, que é todo Intelecto e todo Logos, o que pensa diz e o que diz pensa, porque o seu Intelecto é a sua Palavra e a sua Palavra é o seu Intelecto, e o Intelecto que tudo abrange é o próprio Pai.

[17] Por isso, quem diz Intelecto de Deus e afirma que foi emitido, introduz uma composição em Deus como se Deus fosse uma coisa e o Intelecto principal outra. Da mesma forma, dando ao Logos o terceiro lugar nas emissões do Pai — o que explicaria por que o Logos ignora a grandeza do Pai —, estabelece profunda separação entre o Logos e Deus.

[18] O profeta, falando do Verbo, dizia: “Quem poderá contar a sua geração?” Vós, porém, descreveis a geração do Verbo do Pai. A pronúncia de uma palavra humana por meio da língua a aplicais tal e qual ao Verbo de Deus. Assim justamente sois vós próprios a dizer que não conheceis nem as coisas humanas nem as divinas.

[19] Orgulhosos, sem razão, pretendeis audaciosamente conhecer os inexprimíveis mistérios de Deus, enquanto o Senhor, que é o Filho de Deus em pessoa, disse claramente que só o Pai conhece o dia e a hora do juízo, com estas palavras: “Quanto àquele dia e hora, ninguém os conhece, nem mesmo o Filho, mas somente o Pai”.

[20] Se, portanto, o Filho não se envergonhou de reservar para o Pai o conhecimento deste dia, e se ele disse a verdade, também nós não nos devemos envergonhar de reservar para Deus as questões difíceis demais para nós, pois o discípulo não está acima do mestre.

[21] Por isso, se alguém nos perguntar: Como foi gerado o Filho pelo Pai? Responderemos que esta emissão ou geração ou enunciação ou manifestação ou seja qual for o nome com que se queira chamar esta geração inefável, ninguém a conhece, nem Valentim, nem Marcião, nem Saturnino, nem Basílides, nem os anjos, nem os Arcanjos, nem os Principados, nem as Potestades, mas somente o Pai que gerou e o Filho que foi gerado.

[22] Sendo, portanto, a sua geração inefável, todos os que tentam explicar as gerações e emissões não sabem o que dizem e prometem expor coisas indizíveis. Que a palavra é produzida pelo pensamento e pelo intelecto o sabem todos os homens. Portanto, os que inventaram as emissões não descobriram nada de novo, sequer um mistério escondido, aplicando coisas bem conhecidas ao Verbo, Filho unigênito de Deus; e ao mesmo tempo que o dizem inefável e indizível, eles lhe dão um nome, descrevem, e como se lá estivessem presentes como obstetras expõem a sua emissão e geração primeiras, tornando-as semelhantes à palavra que os homens proferem.

[23] E falando a propósito da substância da matéria, não nos enganaremos ao dizer que Deus a criou, pois aprendemos das Escrituras que Deus tem o poder sobre todas as coisas. Mas a partir de que e como a produziu nenhuma Escritura o diz e nós não temos o direito de nos lançar, a partir das nossas opiniões, numa infinidade de conjeturas sobre Deus: este conhecimento deve ser reservado a Deus.

[24] Da mesma forma, por que, quando todas as coisas foram criadas por Deus, algumas desobedeceram e se subtraíram à submissão a Deus e outras, a maioria, permaneceram e permanecem sujeitas a quem as fez? São de naturezas diferentes as que desobedeceram e as que se mantiveram fiéis? Devemos deixar a resposta a Deus e ao seu Verbo, o único ao qual disse: “Senta-te à minha direita, até que ponha os teus inimigos como escabelo para os teus pés”.

[25] Nós por enquanto ainda estamos na terra, nem nos sentamos ainda no trono de Deus. Com efeito, se o Espírito do Salvador, que está nele, perscruta tudo, até as profundidades de Deus, no que nos diz respeito há distinções de graças, distinções de ministérios, distinções de operações, e, como diz Paulo, aqui na terra o nosso conhecimento é limitado e é limitada a nossa profecia.

[26] Da mesma forma, então, que conhecemos só parcialmente, assim devemos deixar a solução de todas as questões àquele que nos concede limitadamente a sua graça. Para os pecadores está preparado o fogo eterno: Deus o diz expressamente e todas as Escrituras o demonstram. Como demonstram que Deus sabia que isso aconteceria e que desde o princípio o preparou para os transgressores.

[27] Mas o porquê da existência dos transgressores nenhuma Escritura o referiu, nem o Apóstolo o disse, nem o Senhor o ensinou. Assim se deve deixar a Deus este conhecimento bem como aquele do dia e da hora do juízo para não correr o perigo de não deixar nada para Deus, visto que também se recebe limitadamente a sua graça. E procurando conhecer coisas que estão acima de nós e presentemente nos são inacessíveis, chega-se ao atrevimento de dissecar Deus, e, julgando ter descoberto o que nunca o foi, apoiar-se no vanilóquio das emissões e dizer que o Deus Criador de todas as coisas foi emitido pela degradação e pela ignorância, construindo assim um sistema ímpio contra Deus.

[28] Finalmente, não tendo alguma prova para a ficção recentemente construída, servem-se ora de alguns números, ora de sílabas, ora de nomes; às vezes de letras contidas em outras letras, outras vezes de parábolas incorretamente explicadas, ou ainda de suposições gratuitas, e procuram dar consistência à fabulosa narrativa que inventaram.

[29] Com efeito, se alguém procura saber por qual motivo o Pai, que tem tudo em comum com o Filho, foi manifestado pelo Senhor como o único a conhecer o dia e a hora do julgamento, presentemente não encontrará nenhum mais conveniente, mais digno e equilibrado do que este: sendo o Senhor o único mestre verídico, queria que soubéssemos por ele que o Pai está acima de tudo; com efeito, diz: “O Pai é maior que eu”.

[30] Portanto, se o Pai foi apresentado pelo Senhor como maior quanto à ciência para que nós, enquanto estamos na figura deste mundo, deixemos a Deus a ciência perfeita e a solução destas questões e para que, procurando perscrutar a profundidade do Pai, não corramos o perigo de procurar outro Deus acima de Deus.

[31] Mas se alguém gosta de discutir e contradizer o que acabamos de dizer e especialmente o que o Apóstolo disse: “Nós conhecemos limitadamente e profetizamos limitadamente” e julga que seu conhecimento não é limitado, mas possui conhecimento universal de tudo o que existe; se pensa ser um Valentim qualquer, um Ptolomeu, um Basílides ou algum dos que pretendem ter explorado as profundidades de Deus, não se gabe, no seu vão orgulho, de conhecer melhor que os outros as coisas invisíveis e indemonstráveis, mas dedique-se a procurar as causas das coisas que estão neste mundo e que não conhecemos, como, por exemplo, o número dos cabelos da sua cabeça, o número dos pardais que são capturados todos os dias e tudo o que é imprevisível; que procure diligentemente, que vá à escola do Pai e depois nos ensine estas coisas, para que possamos acreditar nele, quando nos revelar os segredos maiores.

[32] Mas se estes perfeitos não conhecem ainda as coisas que estão em suas mãos, nos seus passos, diante de seus olhos, nas coisas da terra e especialmente como são dispostos os cabelos de suas cabeças, como poderemos acreditar neles acerca das coisas pneumáticas, supracelestes e que estão acima de Deus, as quais afirmam com segurança fantástica conhecer?

[33] Já falamos bastante sobre números, nomes, sílabas, das questões acerca das realidades que estão acima de nós, da maneira incorreta com que explicam as parábolas; com certeza, tu poderás acrescentar muitas mais a tudo isso.

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Segundo livro de Irineu de Lião 27 https://vcirculi.com/segundo-livro-de-irineu-de-liao-27/ Sat, 14 Mar 2026 20:15:48 +0000 https://vcirculi.com/?p=36036 Aviso ao leitor Este livro – Segundo livro de Irineu de Lião — geralmente publicado como “Contra as Heresias, Livro II” – é apresentado aqui como literatura patrística do século...

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[1] Em compensação, uma inteligência sã, equilibrada, piedosa e amante da verdade dedicar-se-á a considerar as coisas que Deus pôs em poder dos homens, à disposição dos nossos conhecimentos, e aplicando-se a elas com todo o seu ardor, progredirá e, pelo estudo constante, terá conhecimento profundo. Estas coisas são tudo o que cai debaixo dos nossos olhares e tudo o que está contido, claramente e sem ambigüidade, em termos próprios nas Escrituras.

[2] Eis por que as parábolas não devem ser adaptadas a coisas ambíguas, porque quem as explica o deve fazer sem acrobacias e devem ser explicadas por todos da mesma maneira, e assim o corpo da verdade se manterá íntegro, harmoniosamente estruturado e livre de transformações.

[3] Mas aplicar, nas explicações das parábolas, coisas que não são expressas claramente e são ocultas e que cada um pode imaginar da maneira que quiser é não ter nenhuma regra da verdade: quantos são os exegetas tantas serão as verdades antagônicas e as teorias contraditórias, como nas disputas dos filósofos pagãos.

[4] Desta forma, o homem estará sempre à procura da verdade sem nunca encontrá-la, por ter rejeitado o método próprio da pesquisa.

[5] E quando o Esposo chegar, quem não tem a sua lâmpada pronta, não iluminada por luz brilhante, recorre aos que nas trevas retorcem as explicações das parábolas, abandonando aquele que pela pregação clara lhe concederia gratuitamente a entrada, e fica excluído das núpcias.

[6] Ora, todas as Escrituras, profecias e evangelhos, que todos têm a possibilidade de ouvir, ainda que nem todos acreditem, proclamam claramente e sem ambigüidade, excluindo qualquer outro, que um só e único Deus criou todas as coisas por meio de seu Verbo, as visíveis e as invisíveis, as celestes e as terrestres, as que vivem na água e as que se arrastam debaixo da terra, como demonstramos com as próprias palavras da Escritura.

[7] Por seu lado, o mundo em que nós estamos, por tudo o que apresenta aos nossos olhares, testemunha que é único quem o fez e o governa.

[8] Então, como parecem néscios os que diante de manifestação tão clara, estão com os olhos cegos e não querem ver a luz da pregação, que se fecham em si mesmos e com explicações obscuras das parábolas se imaginam, cada um, de ter encontrado o seu Deus!

[9] Com efeito, no que diz respeito ao Pai imaginado por eles, nenhuma Escritura diz algo claramente, em termos próprios e sem contestação possível; e eles próprios são testemunhas disso quando afirmam que o Salvador ensinou estas coisas secretamente, não a todos, mas a alguns discípulos capazes de entendê-las, indicando-as por meio de provas, enigmas e parábolas.

[10] E chegam ao ponto de dizer que um é o que é chamado Deus e outro é o Pai, indicado pelas parábolas e pelos enigmas.

[11] Como as parábolas podem ter muitas explicações, qual é o homem, amante da verdade, que não convirá que seria perigoso e irracional basear-se nelas na procura de Deus e deixar o que é certo, indubitável e verdadeiro?

[12] Não é isso edificar a própria casa não sobre a rocha firme e estável e descoberta, mas na insegurança da areia instável?

[13] Por isso, o desmoronamento desta construção é fácil.

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