Arquivo de Justino Mártir - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/justino-martir/ Corpus et Sanguis Christi Sat, 14 Mar 2026 15:18:45 +0000 pt-BR hourly 1 https://vcirculi.com/wp-content/uploads/2025/07/cropped-et5t-Copia-32x32.png Arquivo de Justino Mártir - VCirculi https://vcirculi.com/category/volumina-pergaminhos/adjuncta-estao-ao-lado/justino-martir/ 32 32 Diálogo de Justino com o Judeu Trifão https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao/ Sat, 14 Mar 2026 13:53:23 +0000 https://vcirculi.com/?p=35558 O post Diálogo de Justino com o Judeu Trifão apareceu primeiro em VCirculi.

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 14 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-14/ Sat, 14 Mar 2026 13:46:57 +0000 https://vcirculi.com/?p=35550 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Para que não tenhais pretexto de dizer que era necessário que Cristo fosse crucificado e que em vosso povo houvesse transgressores da lei e que as coisas não podiam ser diferentes, eu me adiantarei para dizer em poucas palavras que Deus, querendo que anjos e homens seguissem o bem, dotados de razão para conhecer de onde vêm e a quem devem o ser que antes não tinham, e lhes impôs uma lei, pela qual serão julgados, caso não tenham agido conforme a reta razão. Portanto, por nossa própria culpa seremos convencidos de ter sido maus, homens e anjos, se antes não fizermos penitência.

[2] Contudo, se a palavra de Deus anuncia absolutamente que alguns anjos e homens serão castigados, isso foi predito porque ele de antemão conheceu que seriam maus e não se arrependeriam, não, porém, porque o próprio Deus assim os fizesse. De modo que, se fizerem penitência, todos os que quiserem poderão alcançar de Deus a misericórdia, e a palavra os chama antecipadamente de bem-aventurados: “Bem-aventurado o homem a quem Deus não lhe imputa pecado”, isto é, aquele que, arrependido de seus pecados, recebe de Deus o perdão. Não como vós e outros semelhantes a vós. Neste ponto, enganais a vós mesmos, dizendo que, por mais pecador que alguém seja, o Senhor não imputa o pecado, contanto que ele conheça a Deus.

[3] Uma prova dessa interpretação pode ser encontrada em Davi, cujo único pecado, o de vanglória, não lhe foi perdoado, até que chorou e se lamentou, da maneira que está escrito. Com efeito, se a um homem como ele não foi concedido o perdão antes de se arrepender, mas quando chorou e fez tudo aquilo, ele que foi tão grande rei, ungido e profeta, como é que os impuros e aqueles que foram completamente insensatos podem esperar que o Senhor não lhes impute os pecados que cometeram?

[4] Senhores, este único fato da transgressão de Davi com a mulher de Urias demonstra que os patriarcas não tinham muitas mulheres, como se se entregassem à dissolução, mas que, por meio deles, se realiza certa dispensação e se prefiguravam todos os mistérios. Com efeito, se fosse permitido tomar a mulher que se desejasse, no modo e no número que se quisesse, tal como os homens de vossa raça fazem em toda terra onde habitam ou são enviados, tomando as mulheres em nome do matrimônio, muito mais ter-se-ia permitido que Davi fizesse isso.

[5] Caríssimo Marco Pompeu, com estas palavras eu termino o meu discurso.

[6] Esperando um pouco de tempo, Trifão disse: — Vês que o nosso encontro aqui não foi de propósito. Todavia, eu te confesso que gostei muitíssimo da tua conversa e sei que os meus companheiros estão sentindo a mesma coisa. Com efeito, encontramos mais do que esperávamos e muito mais ainda do que era possível esperar. Se nos fosse dado fazer isso com mais frequência, examinando esses mesmos temas, o proveito seria ainda maior. Contudo, como estás para embarcar, esperando que algum navio desatraque, se vais embora de fato, não deixes de te lembrar de nós como amigos.

[7] Eu respondi: — De minha parte, se eu permanecesse aqui, gostaria de fazer isso diariamente. Porém, como quero partir, com a permissão e a ajuda de Deus, eu vos exorto que, tendo começado este grande combate por vossa salvação, vos esforceis por Cristo de Deus onipotente acima de vossos mestres.

[8] Depois disso, foram embora, fazendo novos votos por minha saúde na viagem e em tudo mais. Eu também, retribuindo os votos, disse-lhes: — Senhores, não vos posso desejar nada melhor, sem que, percebendo que por este caminho todo homem chega à felicidade, tenhais absolutamente a mesma fé que nós, isto é, que Jesus é o Cristo de Deus.

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 13 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-13/ Sat, 14 Mar 2026 13:41:50 +0000 https://vcirculi.com/?p=35542 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Apesar disso, fabricastes o bezerro de ouro e fornicastes com as filhas dos estrangeiros, entregando-vos com afã à idolatria; e mesmo depois, quando já vos havia sido entregue a terra com tão grande prodígio.

[2] De fato, vós mesmos contemplastes o sol parar, por ordem daquele homem que recebeu o nome de Jesus, e não se pôs durante trinta e seis horas, e outros prodígios que foram feitos em vosso favor conforme o tempo oportuno.

[3] Parece-me agora oportuno recordar apenas mais um, porque contribui para que compreendais Jesus, o qual reconhecemos como Cristo, Filho de Deus, ele que foi crucificado, ressuscitou, subiu aos céus e que virá novamente para julgar todos os homens sem exceção, inclusive o próprio Adão.

[4] Eu continuei: — Vós sabeis que, quando a tenda do testemunho foi roubada pelos habitantes de Azoto, inimigos do povo de Israel, e eles foram feridos por uma praga terrível e incurável, decidiram colocá-la sobre um carro, ao qual atrelaram novilhas com crias recentes, pois queriam uma prova de que tinham sido feridos pelo poder de Deus por causa da tenda do testemunho e se, de fato, Deus queria que ela fosse devolvida ao lugar de onde a tinham roubado.

[5] Feito isso, as novilhas, sem que ninguém as guiasse, não foram para o lugar de onde a tenda tinha sido tirada, mas para o campo de um homem chamado Ausés, o mesmo nome daquele cujo nome foi mudado para Jesus, como já foi dito, e que introduziu o povo na terra e a distribuiu através de sorteio.

[6] Chegando ao campo de Ausés, elas aí pararam. Isso demonstrava que elas foram guiadas pela força do nome, do mesmo modo como o povo, que havia restado dos que saíram do Egito, foi guiado para a terra por aquele que recebeu o nome de Jesus e antes se chamava Ausés.

[7] Apesar de todos esses grandes prodígios e maravilhas realizadas em vosso favor e que vistes no tempo oportuno, sois repreendidos pelos profetas por terdes inclusive sacrificado vossos filhos aos demônios; a isso, acrescentastes tão grandes crimes, como cometestes contra Cristo, e ainda continuais a cometer.

[8] Oxalá alcanceis da parte de Deus e de seu Cristo total misericórdia, e vos salveis!

[9] Com efeito, sabendo Deus que deveríeis assim fazer, vos amaldiçoou por meio do profeta Isaías: “Ai de suas almas! Aconselharam-se mal contra si mesmos, dizendo: ‘Amarremos o justo, porque ele nos é molesto’. Por isso, comerão os produtos de suas próprias ações. Ai do iníquo! Males lhe acontecerão, conforme as obras de suas mãos. Povo meu, vossos opressores vos saqueiam e vossos exatores vos governam.

[10] Povo meu, aqueles que vos chamam felizes vos enganam e baralham a vereda de vossos caminhos. Agora, porém, julgará o seu povo, e o próprio Senhor virá estabelecer julgamento contra os anciãos e contra seus príncipes. Por que pusestes fogo em minha vinha e o que roubastes do pobre está em vossas casas? Por que cometeis a iniqüidade contra o meu povo e encheis de confusão o rosto dos humildes?”

[11] Em outro lugar, o mesmo profeta diz sobre o mesmo assunto: “Ai dos que arrastam seus pecados com uma longa corda e suas iniqüidades como o jugo de uma novilha! Os que dizem: ‘Que venha logo e chegue o desígnio do Santo de Israel, para que o conheçamos! Ai dos que chamam bem ao mal e mal ao bem; os que fazem da luz trevas e das trevas luz; os que transformam o amargo em doce e o doce em amargo! Ai dos que são prudentes para si mesmos e sábios aos próprios olhos!

[12] Ai dos que são fortes entre vós, dos que bebem vinho, os poderosos que misturam a bebida! Ai dos que justificam o ímpio com seus subornos e arrancam do justo seus direitos! Por isso, do mesmo modo como a palha é queimada por uma brasa de fogo e consumida pela chama ardente, assim sua raiz será como pó e sua flor será levada como poeira.

[13] Porque não quiseram a lei do Senhor Sabaot, mas irritaram a palavra do Senhor, o Santo de Israel. O Senhor Sabaot se indignou com ira, estendeu sua mão sobre eles e os golpeou; irritou-se contra os montes, e seus cadáveres se converteram em lixo no meio do caminho. Apesar disso não se converteram, mas sua mão continua estendida”.

[14] De fato, vossa mão ainda está estendida para fazer o mal, pois nem mesmo depois de matar Cristo fazeis penitência, mas nos odiais por termos acreditado no Deus que é Pai do universo e, sempre que tendes poder para isso, nos tirais a vida.

[15] Vós não cessais de amaldiçoá-lo e a nós que dele viemos. Nós, porém, rogamos por vós e por todos os homens em geral, como nosso Cristo e Senhor nos ensinou a fazer, ele que nos mandou orar por nossos inimigos, amar os que nos odeiam e abençoar os que nos amaldiçoam.

[16] Se, portanto, os ensinamentos dos profetas e até os do próprio Jesus vos comovem em algo, é melhor que sigais a Deus do que aos vossos mestres, insensatos e cegos, que ainda agora vos permitem ter quatro ou cinco mulheres; se um vê uma mulher bonita e a cobiça, eles contam o que fez Jacó, aquele que foi chamado Israel, e os demais patriarcas, e afirmam que não se comete pecado nenhum fazendo o que eles fizeram.

[17] Até nisso são miseráveis e insensatos.

[18] Na verdade, como eu disse anteriormente, em cada uma dessas ações se cumpriam dispensações de grandes mistérios. Vou explicar qual dispensação e profecia se realizava nos casamentos de Jacó, para que também aqui reconheçais como vossos mestres nunca olharam para o mais divino que em cada ação se realizava, mas sempre de modo rasteiro e até em vista de paixões de corrupção.

[19] Portanto, prestai atenção no que vos digo.

[20] Os casamentos de Jacó eram figura do que Cristo realizaria. De fato, não era lícito para Jacó tomar ao mesmo tempo duas irmãs em matrimônio.

[21] Ele serve Labão por causa de suas duas filhas e, enganado sobre a mais jovem, o serviu novamente outros sete anos.

[22] Lia era vosso povo e sinagoga, e Raquel a nossa Igreja. Cristo está até agora servindo por uma e outra, assim como pelos servos de ambas.

[23] Com efeito, assim como Noé deu como servo de dois de seus filhos a descendência do terceiro, agora chegou Cristo para o restabelecimento de ambos, dos livres e dos que dentre eles são escravos, concedendo os mesmos privilégios a todos os que guardarem os seus mandamentos, de modo que os filhos que Jacó teve com as escravas e as livres fossem todos filhos de igual honra.

[24] Contudo, segundo a ordem e a presciência, foi predito como será cada um.

[25] Jacó serviu a Labão em troca dos rebanhos manchados e multiformes. Também Cristo serviu até a cruz em favor dos homens de toda descendência, variados e multiformes, ganhando-os por meio do seu sangue e do mistério da cruz.

[26] Lia tinha os olhos doentes, e os olhos de vossas almas também estão muito doentes.

[27] Raquel roubou os deuses de Labão e os escondeu até o dia de hoje. E também para nós acabaram-se os deuses tradicionais, feitos de matéria.

[28] Jacó foi o tempo todo odiado por seu irmão, e agora nós e também nosso Senhor somos odiados por vós e, em geral, por todos os homens, embora sendo, de fato, todos irmãos por natureza.

[29] Jacó foi chamado Israel, e aquele que é e se chama Jesus está demonstrado que é Israel e Messias ou Cristo.

[30] Quando a Escritura diz: “Eu sou o Senhor, o Deus, o Santo Israel, aquele que constituiu Israel como vosso rei”, não percebeis que está verdadeiramente falando de Cristo, o rei eterno?

[31] De fato, vós sabeis muito bem que Jacó, o filho de Isaac, nunca foi rei.

[32] Por isso, a própria Escritura, explicando-nos quem é chamado de rei Jacó e Israel, assim diz: “Jacó é o meu servo: eu o protegerei; Israel é o meu eleito: minha alma o receberá. Eu coloquei sobre ele o meu espírito, e ele trará direito às nações. Não gritará, nem se ouvirá a sua voz; não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que a vitória traga o direito por retribuição, e não se cansará até que ponha o julgamento sobre a terra. E as nações confiarão em seu nome”.

[33] Por acaso, os que vêm das nações, e até vós, confiam mais no patriarca Jacó do que em Cristo?

[34] Por conseguinte, como se diz que Cristo é Jacó e Israel, da mesma forma, nós, que saímos do ventre de Cristo como pedra de uma pedreira, somos a verdadeira descendência de Israel.

[35] Mas prestemos maior atenção à passagem da Escritura que diz: “Tirarei a descendência de Jacó e de Judá, e ela herdará o meu monte santo, e os meus escolhidos e os meus servos o herdarão e nele habitarão. No matagal haverá currais de rebanhos e o vale de Acor será acampamento de rebanhos graúdos do povo que me procurou.

[36] A vós, porém, que me abandonais e vos esqueceis do meu monte santo, que preparais uma mesa para os demônios e misturais as taças para o demônio, eu vos entregarei à espada. Todos vós caireis degolados, porque eu vos chamei, e vós não me escutastes, fizestes o mal diante de mim e escolhestes o que eu não queria”.

[37] São essas as palavras da Escritura. Vós mesmos concordareis que a descendência de Jacó, de que aqui se fala, é outra, e que não se refere a vosso povo, como se poderia pensar.

[38] Com efeito, não se concebe como os descendentes de Jacó deixem entrar os nascidos de Jacó; nem como Deus, de um lado, reprove o povo como indigno da herança e, depois, a prometa aos mesmos, como se os aceitasse.

[39] A verdade é que o profeta diz na passagem anterior: “E agora tu, casa de Jacó, vinde e caminhemos na luz do Senhor, porque ele rejeitou o seu povo, a casa de Jacó, porque o país deles encheu-se, como no princípio, de adivinhações e augúrios”.

[40] Portanto, devem-se entender aqui duas descendências de Judá e duas linhagens, assim como duas casas de Jacó: uma que nasce da carne e do sangue, e outra da fé e do espírito.

[41] Com efeito, vede agora como Deus fala ao povo. Antes ele diz: “Do mesmo modo que se encontrará um grão num cacho e se dirá: ‘A uva não está podre, pois ela contém uma bênção’, da mesma forma eu agirei em favor de quem me servir. Por causa dele não farei todos perecerem”.

[42] E depois acrescenta: “E tirarei a descendência de Jacó e de Judá”. A coisa, portanto, é evidente.

[43] Se ele se irrita desse modo contra aqueles e os ameaça de os reduzir a uma porção mínima, então os que anunciam que tirará são outros, que habitarão em seu monte santo.

[44] Estes são os que ele disse que semearia e geraria.

[45] Vós, com efeito, nem suportais que ele vos chame, nem o ouvis quando ele vos fala, mas praticastes o mal diante do Senhor.

[46] O cúmulo de vossa maldade é que, depois que o assassinastes, continuais odiando o Justo e a ser o que são: piedosos, justos e humanos.

[47] Por isso, diz o Senhor: “Ai de suas almas! Porque formaram um mau desígnio contra si mesmos, dizendo: Eliminemos o Justo, porque ele nos é molesto”.

[48] Vós, de fato, não oferecestes sacrifícios ao deus Baal, como vossos pais, nem oferecestes pães cozidos ao exército dos céus em bosques e lugares altos.

[49] Todavia, não recebestes a Cristo; e quem o desconhece, desconhece a vontade do Pai; quem insulta e odeia a Cristo, odeia e insulta aquele que o enviou; e quem não crê em Cristo, não crê na predição dos profetas, que anunciaram a sua boa nova e a proclamaram a todo o mundo.

[50] Irmãos, não faleis mal daquele Jesus que foi crucificado, nem zombeis de suas feridas, pelas quais todos podem ser curados, como também nós o fomos.

[51] Seria bom que, seguindo as palavras da Escritura, circuncidásseis a vossa dureza de coração, circuncisão que não tendes por uma resolução interior.

[52] Com efeito, a circuncisão foi dada como sinal, não como obra de justiça, como as Escrituras nos forçam a admitir.

[53] Portanto, não para injuriar o Filho de Deus, nem jamais caçoeis do rei de Israel, seguindo os vossos mestres fariseus.

[54] Assim os presidentes de vossas sinagogas vos ensinam depois da oração.

[55] Se aquele que toca os que agradam a Deus é como se tivesse tocando a Deus na pupila dos olhos, muito mais aquele que toca em seu Amado.

[56] E que Jesus seja o Amado de Deus, já foi suficientemente demonstrado.

[57] Como ficassem calados, eu continuei: — Amigos, agora cito para vós as Escrituras como foram interpretadas pelos Setenta.

[58] Com efeito, antes eu as citei como vós as tendes, para provar que opinião tínheis sobre o ponto particular.

[59] Ao trazer-vos a passagem: “Ai deles! Porque formaram um desígnio mau contra si mesmos, dizendo…”.

[60] Continuei depois conforme os Setenta: “Eliminemos o justo, porque ele nos é molesto”.

[61] Em troca, no começo de nossa conversa, eu vos citei como quereis que tenha sido dito: “Amarremos o justo, porque ele nos é molesto”.

[62] Contudo, vós vos distraístes com alguma outra coisa e parece que ouvistes as minhas palavras sem compreendê-las.

[63] Agora, porém, como o dia está para terminar e o sol vai chegando ao poente, vou acrescentar um só ponto ao que já disse e terminarei o meu discurso.

[64] É claro que o que já está contido no que disse antes, mas parece-me justo repeti-lo novamente.

[65] Eu prossegui: — Senhores, sabeis que em Isaías Deus diz a Jerusalém: “No dilúvio de Noé eu te salvei”.

[66] O que Deus quis dizer com isso é que no dilúvio realizou-se o mistério daqueles que se salvam.

[67] De fato, o justo Noé, com os outros homens do dilúvio, isto é, sua mulher, seus três filhos e as mulheres de seus filhos, ao todo oito, representa o dia que por ser número é oitavo, no qual apareceu o nosso Cristo, ressuscitado dos mortos; embora, por sua virtude, continue sempre a ser o primeiro dia.

[68] Dessa forma, Cristo, sendo primogênito de toda a criação, também se tornou princípio de uma nova descendência, regenerada por ele com a água, a fé e o madeiro que continha o mistério da cruz, de modo que também Noé se salvou com os seus, carregado sobre as águas pelo madeiro da arca.

[69] Portanto, quando o profeta diz: “No tempo de Noé eu te salvei”, ele fala, como eu disse antes, com o povo que tem para com Deus a mesma fé que Noé e os mesmos mistérios de salvação.

[70] Com efeito, com a vara entre as mãos, Moisés conduziu o vosso povo através do mar.

[71] Claro que supondes que o profeta fala apenas de vosso povo ou terra; contudo, como consta pelas Escrituras que toda a terra foi inundada e a água subiu quinze côvados por cima de todos os montes, é claro que não falava da terra, mas do povo que obedece a Deus, a quem também tinha preparado de ante-mão um descanso em Jerusalém, como se pode demonstrar pelos mesmos símbolos que aparecem no dilúvio.

[72] Em outras palavras, pela água, pela fé e pelo madeiro, escaparão do futuro julgamento de Deus aqueles que de antemão foram previstos e fazem penitência de seus pecados.

[73] No tempo de Noé, foi profetizado outro mistério que não conheceis, e é o seguinte. Por ocasião das bênçãos com que Noé abençoou dois de seus filhos, também amaldiçoou o filho do seu filho, pois o Espírito profético não quis que ele amaldiçoasse o seu próprio filho, que por Deus fora abençoado com os outros.

[74] Contudo, como o castigo daquele que havia pecado, zombando da nudez de seu pai, iria passar para toda a sua descendência, a maldição começou por seu filho.

[75] Noé, portanto, predisse com suas palavras que os descendentes de Sem ocupariam as propriedades e casas de Canaã e que, por sua vez, os descendentes de Jafé se apoderariam ou reteriam o que os semitas haviam tirado dos descendentes de Canaã, de modo que eles retiveram o que haviam tirado dos de Canaã.

[76] Que assim tenha acontecido, escutai vós, pois descendeis de Sem, atacastes a terra dos filhos de Canaã e a retivestes.

[77] Agora, é claro que os filhos de Jafé, caindo sobre vós conforme com o desígnio de Deus, tiraram e retiveram vossas terras.

[78] Eis, por fim, o próprio texto: “Noé despertou do vinho, soube o que o seu filho menor havia feito com ele, e disse: ‘Maldito seja o menino Canaã: torne-se escravo de seus irmãos’.

[79] E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã será o seu servo. Que o Senhor dilate a Jafé e ele more nas casas de Sem, e Canaã será o seu servo”.

[80] Portanto, tendo sido abençoados dois povos, os descendentes de Sem e de Jafé, e decretado que primeiro os de Sem iriam possuir as moradas de Canaã e que depois os de Jafé sucederiam os de Sem nas mesmas propriedades, tendo sido entregue um só povo, o de Canaã, à servidão dos outros dois, Cristo veio, conforme a virtude que lhe foi dada pelo Pai onipotente, para chamar à amizade, penitência e convivência todos os santos na mesma terra, cuja posse lhes promete, conforme foi antes demonstrado.

[81] Portanto, os homens de todas as origens, seja livres, seja escravos, se crerem em Cristo e reconhecerem a verdade de suas palavras e as dos profetas, têm a segurança de que viverão junto com ele naquela terra e herdarão os bens eternos e incorruptíveis.

[82] Daí que Jacó, como já falei, sendo figura de Cristo, uniu-se às escravas de suas duas mulheres livres e gerou filhos com elas, para anunciar antecipadamente que Cristo também receberia tanto os livres como os cananeus que eram escravos entre os povos de Jafé, e tornaria a todos eles filhos herdeiros.

[83] Que eles sejam nós, vós não podeis compreender, porque não sois capazes de beber da fonte viva de Deus, mas das cisternas rotas, que não podem conter a água, como diz a Escritura.

[84] Tais cisternas rotas, incapazes de reter a água, são as que os vossos próprios mestres cavaram, como declara expressamente a Escritura: “Ensinando ensinamentos, mandamentos de homens”.

[85] Quanto a isso tudo, eles enganam a si próprios e também a vós, supondo que, de qualquer modo, todos aqueles que descendem de Abraão segundo a carne, por mais que sejam pecadores, incrédulos e desobedientes a Deus, receberão o reino eterno.

[86] Conforme as Escrituras, isso é pura fantasia.

[87] Caso contrário, Isaías não teria dito: “Se o Senhor Sabaot não nos tivesse deixado uma semente, nos teríamos tornado como Sodoma e Gomorra”.

[88] E Ezequiel: “Mesmo que Noé, Jacó e Daniel reclamassem seus filhos e filhas, não lhes seriam dados. Não. Nem o pai será dado pelo filho, nem o filho pelo pai, mas cada um perecerá por seu próprio pecado e cada um se salvará por sua própria justiça”.

[89] E Isaías diz ainda: “Olharão os membros dos que transgrediram: seu verme não terá descanso e o seu fogo não se extinguirá, e serão espetáculo para todo homem”.

[90] Por fim, nosso Senhor não teria dito, conforme a vontade do Pai e Senhor de todo o universo que o enviou: “Virão do oriente e do ocidente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão atirados nas trevas exteriores”.

[91] Mas também ficou demonstrado antes que os que foram pré-conhecidos como maus no futuro, tanto anjos como homens, não são maus por culpa de Deus, mas é por sua própria culpa que cada um deverá aparecer diante de Deus.

 

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 12 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-12/ Sat, 14 Mar 2026 13:32:11 +0000 https://vcirculi.com/?p=35534 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Eu então continuei: — Amigos, por acaso pensais que poderíamos entender esses mistérios nas Escrituras se não tivéssemos recebido graça para entendê-los, por vontade daquele que assim quis?

[2] Desse modo, se cumpriria o que foi dito por Moisés: “Irritaram-me com seus deuses estrangeiros, exacerbaram-me com suas abominações. Sacrificaram a demônios que não conhecem; vieram novos e recentes, dos quais seus pais não tinham notícia. Abandonaste o Deus que te criou, esqueceste o Deus que te alimenta. O Senhor viu isso, teve ciúmes, exacerbou-se pela ira de seus filhos e filhas, e disse: Afastarei deles a minha face e mostrarei o que lhes acontecerá nos últimos tempos. De fato, esta é uma geração perversa, filhos nos quais não há fidelidade. Excitaram-me ciúmes com um não-deus e irritaram-me com seus ídolos; por isso, eu também lhes excitarei ciúmes com um não-povo, os irritarei com um povo insensato. Acendeu-se um fogo em minha indignação, que abrasará até o fundo do Hades, devorará a terra e seus produtos, queimará os alicerces dos montes. Amontoarei catástrofes sobre eles.”

[3] Depois que esse Justo foi crucificado, nós florescemos como povo novo e brotamos como espigas novas e férteis, da maneira como os profetas disseram: “Naquele dia, nações se refugiarão no Senhor para ser povo, e plantarão suas tendas no meio de toda a terra”.

[4] Nós, porém, não somos apenas povo, mas povo santo, como já demonstrei: “E o chamarão de povo santo redimido pelo Senhor”.

[5] Não somos, portanto, uma plebe desprezável, uma tribo bárbara, uma nação de cários ou frígios, mas Deus nos escolheu e, aos que não perguntaram por ele, se tornou manifesto ao dizer: “Eis que sou Deus para um povo que não havia invocado o meu nome”.

[6] De fato, esse é o povo que outrora Deus prometera a Abraão, anunciando-lhe que seria pai de muitas nações, e não se referia aos árabes, egípcios ou idumeus, pois Ismael também foi pai de um grande povo, assim como Esaú, e ainda agora os amonitas são bastante numerosos. Quanto a Noé, ele foi pai do próprio Abraão e, em geral, de todo o gênero humano, seja qual for a linha dos antepassados.

[7] Que vantagem Cristo concedeu aqui a Abraão? Tendo-o chamado por sua voz com o mesmo chamamento que nos fez, ao dizer-lhe que saísse da terra onde habitava, pela mesma voz também nos chamou e já deixamos aquela maneira de viver e malviver dos outros moradores da terra. E com Abraão herdaremos a terra santa, tomaremos posse de uma herança eterna sem fim, porque somos filhos de Abraão, pois temos a sua mesma fé.

[8] Assim como Abraão creu na voz de Deus e isso lhe foi reputado como justiça, nós também cremos na voz de Deus, pois ele nos fala novamente pela boca dos apóstolos de Cristo, depois que ele foi anunciado pelos profetas, e por essa fé renunciamos até à morte a tudo o que pertence ao mundo. Portanto, Deus lhe promete um povo igualmente crente, religioso e justo, alegria do Pai, e não a vós, que não tendes fé.

[9] Vede como as mesmas coisas são prometidas a Isaac e Jacó. Com efeito, diz o seguinte para Isaac: “Em tua descendência serão abençoadas as nações da terra”.

[10] E para Jacó: “Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as tribos da terra”. Isso ele não diz a Esaú, Rubem ou a nenhum outro, mas somente para aqueles dos quais, por dispensação através de Maria virgem, haveria de nascer o Cristo.

[11] Se consideras a bênção de Judá, verás o que eu digo. A descendência se divide a partir de Jacó e vai baixando através de Judá, Farés, Jessé e Davi. Tudo isso era símbolo de que alguns do vosso povo se achariam entre os filhos de Abraão, por encontrar-se também na parte de Cristo; outros, porém, são filhos de Abraão, mas semelhantes à areia da praia do mar, que é infecunda e sem fruto.

[12] Certamente é numerosa e impossível de contar; porém, não produz absolutamente nada e só serve para beber a água do mar. Isso prova que uma grande parte da vossa gente bebe as doutrinas da amargura e da impiedade e vomitam a palavra de Deus.

[13] A bênção de Judá diz: “Não faltará príncipe de Judá, nem chefe de seus músculos, até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações”. É evidente que isso não se disse sobre Judá, mas de Cristo.

[14] De fato, nós, gente de todas as nações, não esperamos Judá, mas Jesus, que também tirou vossos pais do Egito. A profecia anunciou o advento de Cristo: “Até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações”.

[15] Jesus, portanto, veio como já demonstramos fartamente. E Jesus, cujo nome profanais e fazeis com que seja profanado por toda a terra, é esperado novamente, vindo sobre as nuvens.

[16] Eu continuei: — Se fosse possível, discutiria convosco sobre a expressão que interpretais, dizendo que o original é: “Até que venha o que lhe está reservado”. Os setenta não interpretaram assim, mas: “Até que venha aquele a quem está reservado”.

[17] Como o que vem em seguida indica que se disse de Cristo — de fato, diz: “E ele será a esperança das nações” — eu não discuto convosco por causa de uma pequena frase, do mesmo modo como não me empenhei em fundamentar minha demonstração sobre Jesus Cristo em Escrituras que não são reconhecidas por vós, como as passagens que citei do profeta Jeremias, de Esdras e de Davi, mas naquelas que até agora vós reconheceis.

[18] Se os vossos mestres as tivessem entendido, sabei que eles as teriam feito desaparecer, como aconteceu com a morte de Isaías, que serrastes com uma serra de madeira. Isso também foi mistério de Cristo, que cortará em duas partes a gente do vosso povo, e concederá aos que merecem um reino eterno com os patriarcas e profetas, mas enviará os demais para o suplício do fogo inextinguível, juntamente com aqueles que, procedentes de todas as outras nações, são incrédulos como eles e não se arrependem.

[19] De fato, ele disse: “Porque virão do ocidente e do oriente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão atirados nas trevas exteriores”.

[20] Acrescentei: — Digo-vos isso porque não me preocupo com nada além de dizer a verdade. Não temerei ninguém, ainda que tivesse de ser imediatamente despedaçado por vós.

[21] A prova é que, sem me preocupar em nada com meus conterrâneos, isto é, com os samaritanos, comuniquei por escrito ao imperador que estão enganados em seguir o mago Simão, de seu próprio povo, que eles afirmam ser deus, acima de todo princípio, poder e força.

[22] Como eles ficassem em silêncio, continuei: — Quando a Escritura fala de Cristo por meio de Davi, não diz que as nações serão abençoadas em sua descendência, mas nele. Eis as palavras: “Seu nome se levantaria para sempre acima do sol, nele serão abençoadas todas as nações”.

[23] Portanto, se em Cristo todas as nações são abençoadas e nós, que viemos de todas as nações, nele cremos, então ele é o Cristo e nós somos aqueles que foram abençoados em Cristo.

[24] Como está escrito, outrora Deus permitiu que o sol fosse adorado. Contudo, não se vê que alguém estivesse disposto a morrer por sua fé no sol; em troca, pelo nome de Jesus, facilmente vemos como gente de todos os tipos de homens suportaram isso e suportam tudo em vez de renegá-lo.

[25] É que a palavra da sua verdade é mais abrasadora e luminosa do que o poder do sol, e penetra as profundidades do coração e da inteligência. É por isso que a palavra diz: “Acima do sol se levantará o seu nome”.

[26] E em outra passagem Zacarias diz: “O seu nome é Oriente”. Falando sobre ele, o próprio Zacarias havia dito: “Tribo por tribo se lamentará”.

[27] De fato, se em sua primeira vinda, que foi sem glória, sem formosura e desprezível, Cristo brilhou e teve tanta força que nenhuma descendência humana o desconhece e todos fazem penitência, cada um abandonando a sua antiga má conduta e até os demônios se submetem ao seu nome e este é temido por todos os impérios e reinos, mais do que todo o mundo dos mortos, não irá ele, em sua vinda em glória, destruir absolutamente todos os que o odiaram e dele iniquamente apostataram, ao mesmo tempo concedendo descanso aos seus e dando-lhes tudo o que esperam?

[28] A nós, portanto, foi-nos concedido ouvir, compreender e ser salvos por meio de Cristo e conhecer tudo o que se refere ao Pai. Por isso se lhe dizia: “Grande coisa é para ti seres chamado meu filho, levantar as tribos de Jacó e reunir as dispersões de Israel. Eu te coloquei como luz das nações, para que sejas a sua salvação, até os confins da terra”.

[29] Certamente pensais que isso se refere à geora e aos prosélitos; na realidade, porém, foi dito para nós, que fomos iluminados por Jesus.

[30] Em outro caso, Cristo também teria dado testemunho em favor deles. A verdade, porém, é que, como ele mesmo afirmou, vós vos tornais duplamente filhos do inferno.

[31] As palavras dos profetas, portanto, não foram ditas para eles, mas para nós, a quem se refere também a palavra: “Conduzirei os cegos por caminhos que não conheciam e eles andarão por veredas que não conheciam. Eu sou testemunha, diz o Senhor, e também o meu filho, a quem escolhi”.

[32] Por quem, portanto, Cristo dá testemunho? Claramente por aqueles que acreditaram. Os prosélitos, porém, não só não crêem, mas blasfemam duas vezes mais do que vós o nome de Jesus, e querem matar e atormentar a todos nós que nele cremos, tornando-se a todo custo semelhantes a vós.

[33] Em outra passagem, Deus clama outra vez: “Eu, o Senhor, te chamei na justiça. Tomar-te-ei pela mão, fortalecer-te-ei e te estabelecerei como aliança do povo, como luz das nações, para que abras os olhos dos cegos e tires do cárcere os prisioneiros”.

[34] Amigos, tudo isso foi dito em relação a Cristo e às nações por ele iluminadas. Ou dirás mais uma vez que se fala da lei e dos prosélitos?

[35] Nesse momento, como estavam no teatro, alguns dos que haviam chegado no segundo dia começaram a gritar: — Como assim? Não se fala aqui da lei e dos que são por ela iluminados? E estes são os prosélitos!

[36] Olhando para Trifão, eu contestei: — De modo nenhum! Se a lei fosse capaz de iluminar as nações e aqueles que a possuem, para que seria necessária uma nova aliança? Contudo, já que Deus anunciou que enviaria uma nova aliança, uma lei e um mandamento eterno, não devemos entender a antiga lei e seus prosélitos, mas Cristo e os seus, a nós, os gentios, a quem ele iluminou, como diz em algum lugar da Escritura: “No tempo propício eu te ouvi e no dia da salvação eu te ajudei. Eu te estabeleci como aliança das nações para restabelecer a terra e herdar os desertos como herança”.

[37] Portanto, qual é a herança de Cristo? Não são as nações? Qual é a aliança de Deus? Não é Cristo? Como diz em outro lugar: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade”.

[38] Assim como todas essas coisas se referem a Cristo e aos gentios, assim também pensais ser ditas aquelas. Com efeito, para nada os prosélitos necessitam de uma nova aliança, pois já existe só e única lei para todos os circuncidados.

[39] De fato, sobre esses a Escritura diz: “Acrescentar-se-á a eles também a geora, e acrescentar-se-á à casa de Jacó”.

[40] Além disso, pelo fato de estar circuncidado, o prosélito juntou-se ao povo como se fosse nativo; nós, porém, mesmo que mereçamos ser chamados povo de Deus, somos, todavia, gentios por não estarmos circuncidados.

[41] Por outro lado, é ridículo pensar que os olhos dos prosélitos foram abertos e os vossos não; que vós sejais chamados cegos e surdos, e eles iluminados.

[42] No fim, teremos o cúmulo do ridículo, se disserdes que a lei foi dada para os prosélitos e vós não a conhecestes sequer.

[43] Temeríeis, então, a cólera de Deus e não teríeis que passar pela vergonha de serdes chamados filhos iníquos e errantes, quando Deus diz a cada momento: “Filhos nos quais não há fidelidade”.

[44] E: “Quem é o cego, senão os meus servos? E os surdos, senão aqueles que os governam? Os filhos de Deus se tornaram cegos. Vistes muitas vezes, mas não vos precavestes; vossos ouvidos estavam abertos, mas não ouvistes”.

[45] Parece-vos bom esse louvor de Deus e conveniente esse testemunho para servos de Deus? Por mais que o ouçais, não tendes vergonha e não estremeceis diante das ameaças de Deus, porque sois um povo ignorante e duro de coração.

[46] “Por isso, eis que continuarei transportando esse, diz o Senhor. Eu os transportarei, destruirei a sabedoria de seus sábios e esconderei a prudência de seus prudentes”.

[47] E isso com razão, pois não sois sábios, nem prudentes, mas espertos e astutos. Se sois sábios, o sois apenas para praticar o mal, mas sois impotentes para conhecer o desígnio oculto de Deus e a aliança fiel do Senhor ou encontrar os caminhos eternos.

[48] Portanto, diz a Escritura: “Levantarei contra Israel e contra Judá uma descendência de homens e uma descendência de feras”.

[49] E por meio de Isaías, assim fala sobre o outro Israel: “Naquele dia, haverá um terceiro Israel entre os assírios e os egípcios, abençoado na terra que o Senhor dos exércitos abençoou, dizendo: Bendito será o meu povo que está no Egito e aquele que está entre os assírios, e a minha herança é Israel”.

[50] Portanto, se Deus abençoa esse povo, o chama de Israel e diz que ele é sua herança, por que não vos converteis, mas vos enganais a vós mesmos, como se fôsseis o único Israel, e maldizendo o povo que é bendito por Deus?

[51] Pois quando falava a Jerusalém e ao seu território, disse também o seguinte: “Gerarei para vós homens, que serão o meu povo de Israel. Eles vos herdarão, e vós sereis possessão deles e acontecerá que não ficareis sem ter filhos com eles”.

[52] Então Trifão replicou: — Como vós sois Israel e a Escritura diz tudo isso de vós?

[53] Eu respondi: — Se já não tivéssemos tratado extensamente dessa questão, eu pensaria que estás me perguntando isso por não ter compreendido. Todavia, como a questão já ficou demonstrada, e tu concordaste, não creio que agora se trate de ignorância tua, nem que tenhas novamente vontade de discutir, mas tu me provocas para que eu repita a demonstração também para estes.

[54] Trifão concordou, piscando os olhos, e eu continuei: — Ouvi com os ouvidos, para ver se entendeis. Novamente em Isaías, falando sobre Cristo, Deus o chama por comparação Jacó e Israel. Assim diz: “Jacó é o meu servo, eu o protegerei; Israel é o meu escolhido, eu porei sobre ele o meu espírito, e ele trará justiça para as nações. Não discutirá, nem gritará, e ninguém ouvirá a sua voz nas praças. Não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha fumegante, mas trará justiça à verdade e não se cansará até que estabeleça o julgamento sobre a terra. E as nações depositarão a esperança em seu nome”.

[55] Portanto, como do único Jacó, que também foi chamado de Israel, toda a vossa descendência tomou os nomes de Jacó e de Israel, igualmente nós, por Cristo, que nos gerou para Deus, nos chamamos e somos verdadeiros filhos de Jacó, de Israel, de Judá, de Davi e de Deus, nós que guardamos os mandamentos de Cristo.

[56] Como vi que ficaram alvoroçados com a afirmação de que também nós somos filhos de Deus, adiantei-me às perguntas deles e disse: — Amigos, escutai como o Espírito Santo fala desse povo, que são todos filhos do Altíssimo e que no meio da sua assembléia estará Cristo, fazendo justiça de toda a descendência de homens.

[57] As palavras são ditas por Davi, conforme o vosso texto: “Deus se levantou na assembléia dos deuses e em seu meio está julgando os deuses. Até quando julgareis com injustiça e olhareis o rosto dos pecadores? Julgai o órfão e o mendigo e farei justiça ao humilde e ao pobre. Libertai o pobre e tirai o mendigo da mão do pecador. Não entenderam, nem caíram em si mesmos; caminham nas trevas e todos os fundamentos da terra se abalarão. E disse: Sois deuses e todos filhos do Altíssimo, mas morreis como um homem e caireis como um dos príncipes. Levanta-te, ó Deus, e julga a terra, porque tu herdarás em todas as nações”.

[58] Todavia, na versão dos Setenta, se diz: “Vede que morrereis como homens e caireis como um dos príncipes”, aludindo à desobediência dos homens, isto é, de Adão e Eva, e à queda de um dos príncipes, aquele que se chama serpente, e deu uma grande queda por ter enganado Eva.

[59] Mas não citei agora a passagem por causa dessa variante, e sim para vos demonstrar que o Espírito Santo repreende os homens, porque, tendo sido criados impassíveis e imortais, como Deus, com a condição de guardar os seus mandamentos, e tendo-lhes concedido ser chamados filhos de Deus, são eles que, por tornar-se semelhantes a Adão e Eva, produzem a morte para si mesmos.

[60] A interpretação do salmo pode ser aquela que desejardes; mesmo assim, fica demonstrado que foi concedido aos homens chegar a ser deuses e que todos podem se transformar em filhos do Altíssimo, e que é por culpa sua que, como Adão e Eva, são julgados e condenados.

[61] Além disso, que Cristo é chamado Deus é coisa que está fartamente provada.

[62] Amigos, gostaria que vós me instruísseis sobre a força do nome de Israel.

[63] Como todos se calassem, continuei: — Direi o que sei, seja porque não me parece justo que alguém que saiba não o diga, seja porque não suspeito que vós o sabeis e que, por inveja ou imperícia, sempre quereis enganar a vós mesmos.

[64] Direi, porém, tudo com simplicidade e nobremente, como diz o meu Senhor: “Saiu o semeador a semear sua semente: uma parte caiu no caminho, outra entre espinhos, outra entre pedras e outra em terra boa”.

[65] Portanto, na esperança de que em alguma parte haverá terra boa, deve-se falar. De fato, aquele meu Senhor, sendo forte e poderoso, se o conhecêsseis bem, ao vir, exigirá de cada um o que lhe pertence, e não condenará o seu administrador que, por saber que o seu Senhor é poderoso e exigirá o que lhe pertence, colocou toda a sua parte no banco, e não a enterrou por nenhum motivo.

[66] O nome Israel significa o seguinte: homem que vence a força. Porque “isra” é “homem que vence”; “el” é “força”.

[67] Por isso, através do mistério da luta que Jacó enfrentou com aquele que lhe apareceu para cumprir a vontade do Pai, mas que era Deus, por ser Filho primogênito antes de todas as criaturas, foi profetizado que o Cristo, feito homem, faria.

[68] Foi assim que, quando se fez homem, aproximou-se dele o diabo, isto é, a força que se chama serpente e Satanás, para tentá-lo e lutando para derrubá-lo, pois exigiu que o adorasse. Contudo, foi ele quem o destruiu e derrubou, acusando-o de perverso, pois, contra as Escrituras, exigia ser adorado como Deus, tornando-se apóstata da sentença divina.

[69] De fato, Jesus responde-lhe: “Está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás”.

[70] Vencido e confuso, o diabo então se retirou.

[71] Todavia, como nosso Cristo deveria sentir sua força entorpecida na fadiga e aceitação de sua paixão, quando seria crucificado, também isso foi anunciado de antemão no fato de tocar e entorpecer o músculo de Jacó.

[72] Desde o começo, porém, era o seu nome de Israel, com o qual chamou o bem-aventurado Jacó, abençoando-o com o seu próprio nome e anunciando assim que todos os que por ele se refugiam no Pai são o Israel abençoado.

[73] Vós, porém, que nada disso compreendeis e nem estais preparados para compreender, esperais absolutamente salvar-vos pelo simples fato de ser filhos de Jacó segundo a descendência da carne. Nisso também vos enganais a vós mesmos, coisa que já demonstrei fartamente.

[74] Mas quem é esse que uma vez é chamado Anjo do grande conselho, Homem por Ezequiel, Filho do Homem por Daniel, Menino por Isaías, Cristo e Deus adorável por Davi, Cristo e Pedra por muitos, Sabedoria por Salomão, José, Judá e Estrela por Moisés, Oriente por Zacarias, Paciente, Jacó e Israel pelo próprio Isaías, e que recebe os nomes de Vara, Flor, Pedra angular e Filho de Deus?

[75] Trifão, se soubésseis, não blasfemaríeis contra ele que já veio, que nasceu, sofreu e subiu ao céu, e que virá outra vez. Então vossas doze tribos baterão no peito.

[76] Se compreendêsseis o que os profetas disseram, vós não negaríeis que ele é Deus, Filho do único, ingênito e inefável Deus.

[77] Com efeito, em uma passagem do Êxodo, Moisés diz: “Deus falou a Moisés e lhe disse: Eu sou o Senhor e apareci a Abraão, Isaac e Jacó, Deus deles; não lhes revelei, porém, o meu nome, mas estabeleci com eles minha aliança”.

[78] Outra vez diz assim: “Um homem lutava contra Jacó”. Em seguida, afirma que é Deus: “Vi Deus face a face e minha alma foi salva”. Isso se afirma que Jacó o disse.

[79] E ainda escreveu que Jacó chamou de “Face de Deus” o lugar onde lutou, apareceu-lhe e o abençoou.

[80] De modo semelhante, Moisés conta que Deus apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, quando, ao meio-dia, estava sentado à porta de sua tenda.

[81] Depois, narrando isso, diz: “E levantando os olhos viu e eis que três homens estavam em pé diante dele; ao vê-los, correu ao seu encontro”.

[82] Pouco depois, um deles promete um filho a Abraão: “Como é que Sara se pôs a rir, dizendo: ‘Como darei à luz, pois já estou velha?’ Por acaso, existe alguma coisa impossível para Deus? Nesta mesma época voltarei, e Sara terá um filho. E se afastaram de Abraão.”

[83] Sobre eles, diz novamente: “E, levantando-se dali, os homens olharam para Sodoma”.

[84] Depois diz a Abraão quem era e quem é: “Não ocultarei ao meu servo Abraão o que farei”, e tudo o resto que Moisés narra, e que eu já comentei.

[85] Então repeti essas passagens, e disse: — Por elas se demonstra que esse, que está subordinado ao Pai e serve à sua vontade, que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó e aos outros profetas, é descrito como verdadeiro Deus.

[86] Acrescentei um ponto que não havia dito antes: — Do mesmo modo, quando o povo desejou comer carne e Moisés não acreditou naquele, também aí chamado Anjo, que lhe prometia que Deus a daria até que se fartassem, esclarece ter sido ele mesmo, que era Deus e Anjo enviado pelo Pai, quem disse e fez tais coisas.

[87] Com efeito, a Escritura continua dizendo: “E o Senhor disse a Moisés: Será que a mão do Senhor não basta? Agora saberás se minha palavra te atingirá ou não”.

[88] De novo, em outra passagem, diz assim: “E o Senhor disse-me: Tu não passarás esse Jordão. O Senhor teu Deus, que caminha diante de tua face, aniquilará sozinho as nações”.

[89] Existem outras expressões semelhantes ditas pelo legislador e pelos profetas, mas eu creio que já citei o suficiente.

[90] Quando meu Deus diz: “O Deus subiu de Abraão”, ou: “Deus falou a Moisés”, ou: “O Senhor desceu para ver a torre que os filhos dos homens haviam construído”, ou ainda quando diz: “Deus fechou a arca de Noé por fora”, não penseis que é o Deus ingênito que sobe e desce de algum lugar.

[91] De fato, o Pai inefável Senhor de todas as coisas não chega a alguma parte e não passeia, nem dorme ou se levanta, mas permanece sempre em sua própria região, onde quer que ela se situe, olhando com olhar penetrante, ouvindo com agudez, não com olhos e ouvidos, mas por um poder inefável.

[92] Ele vigia tudo e tudo conhece, e ninguém de nós lhe está oculto. Sem que tenha que mover-se, ele que não cabe em nenhum lugar, nem no mundo inteiro e que já existia antes que o mundo existisse.

[93] Como então poderia ter falado a alguém, aparecer a alguém, circunscrever-se a uma pequena porção de terra, se o povo não pôde resistir à glória de seu enviado no Sinai, se o próprio Moisés não pôde entrar na tenda que ele havia construído, pois estava cheia da glória de Deus, se o sacerdote não teve forças para ficar em pé diante do Templo quando Salomão levou a arca para a casa que o próprio Salomão havia construído em Jerusalém?

[94] Portanto, nem Abraão, nem Isaac, nem Jacó, nem qualquer outro homem jamais viu aquele que é Pai inefável e Senhor absoluto de todas as coisas e também do próprio Cristo, mas viu seu Filho, que também é Deus por vontade daquele, e Anjo por estar a serviço de seus desígnios, aquele mesmo que o Pai quis que nascesse homem por meio da virgem e que, em outro tempo, se tornou fogo para falar com Moisés a partir da sarça.

[95] De fato, se não entendemos dessa forma as Escrituras, ter-se-á que admitir que o Pai e Senhor do universo não estava no céu quando Moisés nos conta: “O Senhor fez chover sobre Sodoma fogo e enxofre da parte do Senhor, desde o céu”.

[96] A mesma coisa que Davi nos diz: “Levantai, ó príncipes, as vossas portas; levantai-vos, portas eternas, e entrará o rei da glória”.

[97] Por fim, quando nos diz: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo para teus pés”.

[98] Demonstrei profundamente que Cristo, que é Senhor e Deus, Filho de Deus, antes apareceu prodigiosamente como Homem, como Anjo e também na glória do fogo, como na visão da sarça e no julgamento de Sodoma.

[99] Todavia, citei novamente tudo o que tinha escrito antes, tomado do Êxodo, tanto sobre a visão da sarça, como sobre o nome de Jesus, e continuei: — Amigos, não penseis que estou repetindo tudo isso muitas vezes por puro palavreado, mas porque sei que alguns querem prever a minha interpretação, dizendo que a Potência que aparece a Moisés, a Abraão ou a Jacó, da parte do Pai de tudo, chama-se Anjo quando vem aos homens, porque, por meio dela, as mensagens do Pai são trazidas aos homens, e chama-se glória, porque às vezes aparece em grandeza imensa; outras vezes recebe o nome de Varão e Homem, porque aparece nessas formas, segundo a vontade do Pai; chama-se Palavra, porque leva aos homens o que o Pai lhes fala.

[100] Essa Potência seria inseparável e indivisível do Pai, como dizem, da mesma forma que a luz do sol, que ilumina a terra, é inseparável e indivisível do sol que está no céu.

[101] E como este, no poente, leva consigo a luz, assim também, conforme essa teoria, quando o Pai deseja, ele faz saltar de si certa Potência e, quando quer, novamente a recolhe a si. Ensinam que ele cria os anjos também desse modo.

[102] Que existem os anjos e que são seres permanentes e não se reduzem àquilo de que tiveram princípio, são coisas já demonstradas.

[103] Embora brevemente, antes eu também examinei a questão de que essa Potência, a palavra profética chama ao mesmo tempo Deus e Anjo, e isso já demonstramos amplamente, não só é distinta pelo nome, como a luz se distingue do sol, mas é também numericamente outra e então disse que essa Potência é gerada pelo Pai, pelo seu poder e vontade, mas não por cisão ou corte, como se a substância do Pai se dividisse, da mesma forma que todas as outras que se dividem ou cortam não são as mesmas antes e depois de se dividirem.

[104] Dei então o exemplo de como vemos os fogos se acenderem a partir de outro e como, todavia, não diminui nada daquele do qual muitos outros podem se acender, mas permanece o mesmo.

[105] Agora vou repetir-vos as razões em que fundamentei a minha demonstração. Quando a Escritura diz: “O Senhor fez chover fogo da parte do Senhor, desde o céu”, a palavra profética indica numericamente dois: um sobre a terra, que ela diz ter descido para ver o clamor de Sodoma; e outro nos céus, que é o Senhor do Senhor que está na terra, e seu Pai e Deus e, ao mesmo tempo, a causa de ele ser poderoso, Senhor e Deus.

[106] Da mesma forma, quando citei a palavra dita por Deus no princípio: “Eis que Adão se tornou como um de nós”, esse “como um de nós” é também expressão de número, e essas palavras não admitem explicação tipológica, como pretendem os sofistas, incapazes de dizer a verdade ou de entendê-la.

[107] Na Sabedoria também se diz: “Já que vos anunciei o que acontece cada dia, lembro-me de contar-vos o que existe desde a eternidade. O Senhor me criou como princípio de seus caminhos para as suas obras: antes do tempo, colocou meus alicerces no princípio, antes de fazer a terra, antes de fazer os abismos, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes de lançar os fundamentos dos montes, gerou-me antes das colinas”.

[108] Terminada a citação, continuei: — Ouvintes, entendei, se é que prestastes atenção. Que essa descendência é gerada pelo Pai antes de todas as criaturas, a Palavra o dá a entender claramente. Todos concordarão que aquele que é gerado é numericamente distinto daquele que o gera.

[109] Todos concordaram, e eu continuei: — Agora algumas palavras que não lembrei antes. Foram misteriosamente ditas por Moisés, o servo fiel de Deus. São estas: “Céus, alegrai-vos com ele, e todos os anjos de Deus o adorem”.

[110] E citei o restante de suas palavras: — “Nações, alegrai-vos com seu povo, e que todos os anjos de Deus sejam fortes com ele, porque o sangue de seus filhos foi vingado, e o vingará e fará justiça contra seus inimigos, pagará aos que o odeiam, e o Senhor limpará a terra do seu povo”.

[111] Dizendo isso, Moisés quer significar que nós, as nações, nos alegremos com o seu povo, isto é, com Abraão, Isaac e Jacó e os profetas e, em geral, com todos os que nesse povo agradaram a Deus, conforme com o que anteriormente convimos.

[112] Todavia, não entendamos isso de toda a vossa descendência, pois sabemos, por meio de Isaías, que os membros dos que foram transgressores serão devorados por um verme e um fogo que não tem descanso, permanecendo imortais, de forma a se tornarem espetáculo para toda carne.

[113] Senhores, agora vou citar-vos outras palavras dos discursos de Moisés, pelas quais podereis compreender como antigamente Deus dispersou todos os homens, conforme suas descendências e línguas, escolhendo para si o vosso povo, geração inútil, desobediente e incrédula.

[114] Em troca, ele mostrou que os escolhidos de todas as nações obedecem ao seu desígnio por meio de Cristo e, por isso, o chama de Jacó e lhe dá o nome de Israel. É preciso que aqueles sejam, como eu disse antes, fartamente, o verdadeiro Jacó e Israel.

[115] É assim que, ao dizer: “Nações, alegrai-vos com o seu povo”, ele dá às nações a mesma herança e a mesma denominação que ao povo de Deus.

[116] Mas quando diz que as nações se alegram com o seu povo, usa a palavra “nação”, para vos reprovar. Com efeito, vós o irritastes, entregando-vos à idolatria. A eles, porém, que eram idólatras, ele concedeu a graça de conhecer a sua vontade e participar da sua herança.

[117] Vou, portanto, citar-vos as palavras pelas quais se vê como Deus dividiu todas as nações: “Pergunta a teus pai, e ele te contará; e a teus avós, e eles te dirão. Quando o Altíssimo dividia as nações, quando dispersava os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos filhos de Israel, e a porção do Senhor foi o seu povo Jacó, e a corda de sua herança foi Israel”.

[118] Depois, fiz notar que os Setenta traduziram: “Estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos anjos de Deus”. Como, porém, essa variante não é importante em nada para o meu raciocínio, eu citei a vossa interpretação.

[119] Se quisésseis dizer a verdade, teríeis que confessar que nós, que fomos chamados por ele graças ao mistério da cruz, desprezado e cheio de opróbrio, somos mais fiéis para com Deus.

[120] Nós, que por nossa confissão da fé, por nossa obediência e nossa piedade, somos condenados a tormentos até à morte pelos demônios e pelo exército do diabo, graças aos serviços que vós lhes prestais, nós, que suportamos tudo para não negar, nem com a palavra, a Cristo, por quem fomos chamados à Salvação que nos foi preparada por nosso Pai, somos mais fiéis do que vós.

[121] Apesar de terdes sido resgatados do Egito com braço excelso e rumor de grande glória, quando o mar se dividiu e transformou-se em caminho seco para vós e nele Deus matou os que vos perseguiram com enorme exército e esplêndidos carros, afundando-os nas mesmas águas que vos tinham deixado passar.

[122] Somos mais fiéis do que vós, apesar de ter-vos iluminado uma coluna de luz, com a qual tivestes o privilégio, acima de qualquer outro povo do mundo, de usar uma luz própria que não diminui e nunca se apaga; apesar do maná, pão dos anjos, ter chovido do céu para vós, para que vivêsseis sem necessidade de amassar; apesar da água de Marra ter-se convertido em água doce para vós;

[123] Apesar de vos ter sido dado um sinal daquele que era destinado a ser crucificado, como eu já disse, terdes sido mordidos pelas serpentes, pois Deus, para quem vos mostrastes sempre ingratos, antecipou-se em manifestar-vos gratuitamente todos os seus mistérios antes de seus próprios tempos;

[124] Apesar de outro sinal, isto é, a figura que Moisés formou ao estender os braços e o nome de Jesus dado ao filho de Nave, quando guerreavam contra Amalec.

[125] E Deus ordenou que se pusesse por escrito esse fato, para que o nome de Jesus entrasse em vossos ouvidos, dizendo-vos que esse é quem apagaria de debaixo do céu a lembrança de Amalec.

[126] Que a lembrança de Amalec continua ainda depois do filho de Nave é evidente; em troca, que por Jesus crucificado, cuja vida era anunciada por todos esses símbolos, haveriam de ser exterminados os demônios, que todos os principados e reinos reverenciariam seu nome e que os que nele crêem, pertencentes a toda linhagem de homens, mostraram-se pacíficos e piedosos, são coisas que Deus está tornando manifestas.

[127] Trifão, esse é o sentido das palavras por mim citadas.

[128] Além disso, quando desejastes comer carne, vos foi dada uma multidão de codornizes, impossível de se contar; brotou-vos água de uma rocha; uma nuvem vos seguia, para dar sombra contra o calor e proteção contra o frio, e anunciava a figura de um novo céu; as correias de vossas sandálias não se rompiam e estas não se gastavam e vossas roupas não se rasgavam, mas cresciam com os jovens que as vestiam.

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 11 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-11/ Sat, 14 Mar 2026 13:25:40 +0000 https://vcirculi.com/?p=35526 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Dito isso, acrescentei: — Demonstrar-vos-ei que todo esse salmo foi dito em relação a Cristo. Para isso, comentarei novamente algumas passagens. As próprias palavras com que ele começa: “Ó Deus, ó meu Deus, por que me abandonaste?” predisseram muito tempo atrás o que Cristo deveria dizer. Com efeito, ao ser crucificado, ele disse: “Deus, Deus meu, por que me abandonaste?”

[2] E as palavras seguintes também se referem à coisas que ele deveria fazer. “Longe da minha salvação as palavras dos meus pecados. Ó Deus meu, gritarei durante o dia a ti, e tu não me escutarás; gritarei à noite, e não é coisa que eu ignore”. Foi assim que na noite em que ia ser crucificado, tomando consigo três dos seus discípulos, dirigiu-se ao monte chamado das Oliveiras, situado próximo ao templo de Jerusalém, e ali orou, dizendo: “Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice”. Pouco depois, acrescenta em sua oração: “Não como eu quero, mas como tu queres”. Com isso ele manifestava que era verdadeiramente homem passível.

[3] E para que ninguém objetasse: “Ele ignorava que teria de padecer?” acrescenta-se imediatamente no salmo: “E não é coisa que eu ignore”. Do mesmo modo como também Deus não ignorava nada, quando perguntou a Adão onde estava e a Caim sobre o paradeiro de Abel, mas desejava interrogar cada um sobre o que era e para que até nós chegasse o conhecimento de tudo, ficando consignado por escrito, assim Jesus deu a entender que não agia por própria ignorância, mas denunciava a ignorância daqueles que acreditavam que ele não era o Cristo e imaginavam que o conduzissem à morte e que, como um homem qualquer, permaneceria para sempre na região dos mortos.

[4] A frase seguinte: “Mas tu habitas no santuário, ó glória de Israel!” significava que ele faria algo digno de glória e admiração, ressuscitando dentre os mortos ao terceiro dia, depois de ter sido crucificado. De fato, ele recebeu essa glória de seu Pai, porque já demonstrei que Cristo recebe os nomes de Jacó e Israel. Não só se anuncia misteriosamente sobre ele na bênção de José e Judá, mas também no Evangelho está escrito que ele disse: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e aquele a quem o Filho o revelar”.

[5] Com efeito, ele nos revelou todas aquelas coisas que, por sua graça, entendemos das Escrituras, reconhecendo que ele é o primogênito de Deus, antes de todas as criaturas e, ao mesmo tempo, filho dos patriarcas, pois se dignou nascer homem, sem formosura, sem honra e passível, feito carne de uma virgem da descendência dos patriarcas.

[6] Por isso, em seus próprios discursos, falando de sua futura paixão, disse: “É preciso que o Filho do Homem sofra muito, seja reprovado pelos fariseus e escribas, seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia”. Ele se chamava a si mesmo Filho do Homem, seja por causa do seu nascimento de uma virgem da descendência de Davi, Jacó, Isaac e Abraão, seja porque o próprio Adão é pai desses que acabo de enumerar, dos quais Maria tem a sua origem. De fato, sabemos que os pais das filhas são também pais dos filhos delas.

[7] A um de seus discípulos, que até então se chamava Simão, Jesus mudou-lhe o nome para Pedro, porque ele o reconheceu, por revelação do Pai, como Cristo Filho de Deus. E nós o temos descrito como Filho de Deus nas Memórias dos Apóstolos e como tal o confessamos. Por um lado, entendemos que, por poder e vontade do Pai, dele procedeu, antes de todas as criaturas, Cristo, que nos discursos dos profetas é chamado Sabedoria, Dia, Oriente, Espada, Pedra, Vara, Jacó e Israel. Por outro lado, confessamos que ele nasceu da virgem como homem, a fim de que pelo mesmo caminho que iniciou a desobediência da serpente, por esse também ela fosse destruída.

[8] De fato, quando ainda era virgem e incorrupta, Eva, tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte. A virgem Marial, porém, concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe deu a boa notícia de que o Espírito do Senhor viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, através do que o santo que dela nasceu seria o Filho de Deus. A isso, ela respondeu: “Faça-se em mim segundo a palavra”.

[9] E da virgem nasceu Jesus, ao qual demonstramos que tantas Escrituras se referem, pelo qual Deus destrói a serpente e os anjos e homens que a ela se assemelham, e livra da morte aqueles que se arrependem de suas más ações e nele crêem.

[10] O salmo continua: “Em ti esperaram os nossos pais; esperaram, e tu os livraste. Clamaram a ti e se salvaram; esperaram em ti e não se envergonharam. Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo”. Assim foi demonstrado que ele reconhecia como pais os que esperaram em Deus e foram por ele salvos, aqueles que foram pais da virgem, da qual ele nasceu feito homem; ao mesmo tempo, dá a entender que ele próprio será salvo por Deus, mas não se gloria de fazer nada por sua própria vontade ou força.

[11] Foi assim que ele próprio fez quando esteve na terra. De fato, quando alguém lhe disse: “Bom Mestre”, ele respondeu: “Por que me chamas bom? Somente um é bom: o meu Pai que está nos céus”. Quanto às palavras: “Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo”, são uma predição do que realmente está acontecendo; de fato, há zombaria em todo lugar para nós, homens que nele cremos; e chama-se desprezo do povo porque, desprezado e desonrado pelo povo, sofreu tudo o que fizestes com ele.

[12] A frase seguinte: “Todos os que me contemplavam zombaram de mim; falaram com seus lábios e moveram a cabeça: ‘Esperou no Senhor, que ele o livre e salve, pois lhe quer bem’”, é igualmente clara predição do que aconteceu. Com efeito, os que o olhavam crucificado moviam suas cabeças, retorciam os lábios, esfregavam o nariz, dizendo sarcasticamente entre si: “Dizia-se Filho de Deus. Que desça da cruz e ande. Que Deus o salve”.

[13] O salmo continua: “Minha esperança desde os peitos de minha mãe: sobre ti fui lançado desde o seio dela. Desde o ventre da minha mãe, tu és o meu Deus. Não te afastes de mim, porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre. Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Tudo isso é um anúncio antecipado do que realmente aconteceu.

[14] Quanto às palavras: “A minha esperança desde os peitos de minha mãe”: apenas nascido em Belém, como eu disse antes, já quis matá-lo o rei Herodes, que fora informado pelos magos da Arábia e, por ordem de Deus, José tomou o menino e foi para o Egito com Maria. Isso porque o Pai havia determinado que Aquele que ele próprio havia gerado não morresse, até que, chegando à idade adulta, tivesse anunciado a sua palavra.

[15] Talvez alguém nos pergunte: “Não poderia Deus de preferência matar Herodes?” Ao que respondo logo: Não poderia Deus no princípio ter eliminado a serpente, para não ter que dizer: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela?” Não poderia Deus criar imediatamente uma multidão de homens?

[16] Todavia, como ele sabia que era coisa boa, criou os anjos e os homens livres para realizar o bem e determinou os tempos até o momento que ele sabe que será bom eles possuírem livre-arbítrio. E porque igualmente considerou bom, estabeleceu julgamentos universais e particulares, embora sem atentar contra a liberdade. É assim que a palavra diz na construção da torre, quando houve a multiplicação e confusão das línguas: “O Senhor disse: Eis uma só raça e um só lábio. E começaram a fazer isso. Agora não desistirão de qualquer coisa que tenham empreendido”.

[17] Também é uma profecia do que, por vontade do Pai, deveria acontecer a Cristo, as seguintes palavras: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Com efeito, a força de sua poderosa palavra, com a qual confundia sempre os fariseus e escribas que discutiam com ele e, em geral, os mestres do vosso povo, ficou contida, como uma fonte impetuosa de abundante água, cuja corrente fosse desviada, pois ele se calou e, diante de Pilatos, não quis responder a ninguém uma só palavra.

[18] Dizer que “tu és o meu Deus, não te afastes de mim” é, ao mesmo tempo, algo de quem nos deseja ensinar que todos nós devemos colocar a nossa confiança no Deus que fez todas as coisas e somente nele procurar salvação e socorro, e não pensar, como o comum dos homens, que podemos nos salvar por nossa descendência, riqueza, força ou sabedoria. Isso é o que vós fizestes sempre, certa vez fabricando para vós um bezerro de ouro e sempre vos mostrando ingratos e assassinos dos justos, e ao mesmo tempo, vos orgulhando de vossa descendência. Com efeito, se o Filho de Deus nos diz que não pode salvar-se sem a ajuda de Deus nem por ser Filho, nem por ser forte ou sábio, mas por ser impecável, não ter pecado nem pela palavra como diz Isaías: “Não cometeu pecado, nem se encontrou engano em sua boca”, como não percebeis que vos estais enganando a vós mesmos, vós e os outros que esperais salvar-vos sem essa confiança?

[19] O que em seguida se diz no salmo: “Porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Abriram contra mim a sua boca, como leão esperto e rugidor. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água”, foi igualmente uma antecipação do que realmente lhe aconteceu. Com efeito, na noite em que pessoas do vosso povo, enviadas pelos fariseus, escribas e mestres, o atacaram no monte das Oliveiras, aí o rodearam aqueles que a palavra chama de novilhos bravos e destruidores.

[20] Acrescentando: “Touros fortes me cercaram”, profeticamente indicou os que agiram de modo semelhante aos novilhos, quando Jesus foi conduzido diante dos vossos mestres. A palavra os chama de touros, porque sabemos que dos touros procedem os novilhos. Portanto, assim como os touros são pais dos novilhos, da mesma forma os vossos mestres foram a causa de que seus filhos saíssem para prender Jesus no monte das Oliveiras e o conduzissem diante deles. Também as palavras: “Não há quem me socorra” exprimem o que aconteceu, pois de fato ninguém, nem um só homem, saiu para defender sua inocência.

[21] As palavras: “Abriram contra mim a sua boca, como leão rugidor”, significam aquele que então era rei dos judeus e também se chamava Herodes, sucessor daquele outro Herodes que, quando Jesus nasceu, matou todos os meninos nascidos em Belém naquele tempo, acreditando que entre eles pegaria inevitavelmente aquele de quem lhe haviam falado, ao chegar, os magos da Arábia; ele não sabia o plano daquele que é mais forte que todos, o qual havia mandado José e Maria tomarem a criança e partirem com ele para o Egito e aí permanecerem até que de novo lhes revelasse que poderiam voltar para a sua própria terra. Com efeito, ali permaneceram retirados até que morreu Herodes, o assassino dos meninos de Belém, e lhe sucedeu Arquelau. Este, porém, morreu antes que Cristo chegasse, conforme a vontade do Pai, segundo o plano por este disposto de morrer crucificado.

[22] Herodes sucedeu, portanto, a Arquelau, tomou o poder que lhe correspondia. E foi a ele que Pilatos, para se reconciliar, enviou Jesus amarrado. Deus sabia de antemão que isso aconteceria, e por isso falou assim: “Amarraram-no e o levaram ao assírio, como presente para o rei”.

[23] Deu ao diabo o nome de leão que ruge contra ele, o qual Moisés chama de serpente, que em Jó e Zacarias é chamado de diabo, e que é apelidado por Jesus de Satanás, nome composto cujo significado foi tomado daquilo mesmo que o diabo fazia. De fato, Satan, tanto na língua dos hebreus como dos sírios, significa apóstata; nas, em hebraico, quer dizer serpente. Satanás é composto dessas duas palavras.

[24] Quando Jesus acabava de sair do rio Jordão e ouvia a voz que lhe dizia: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”, está escrito nas Memórias dos Apóstolos que o diabo, aproximando-se dele, o tentou até dizer-lhe: “Adora-me”. A isso, Cristo retrucou: “Retira-te, Satanás. Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás”. Do mesmo modo como ele conseguiu enganar Adão, se dizia que ele poderia lhe fazer algo.

[25] As palavras: “Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre”, também foram uma profecia do que aconteceu naquela noite em que o foram prender no monte das Oliveiras.

[26] Com efeito, nas Memórias, que eu digo terem sido compostas pelos Apóstolos ou por aqueles que o seguiram, está escrito que ele derramou suor com gotas de sangue, quando orava e dizia: “Se for possível, afaste-se este cálice”. Isso evidentemente porque seu coração e seus ossos tremiam, como se o seu coração fosse cera derretida em seu ventre. Com isso, podemos ver como verdadeiramente o Pai quis que seu Filho, por amor a nós, passasse por esses sofrimentos. E não nos aconteça dizer que, sendo ele Filho de Deus, não era afetado por nada do que fazia ou passava.

[27] A frase: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato” era, como eu disse antes, profecia de seu silêncio, pois ele, que havia chamado de ignorantes os vossos mestres, não respondeu nada a ninguém.

[28] As palavras: “Tu me afundaste até ao pó da morte. Porque me rodearam muitos cães, um bando de ímpios me cercou. Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si minhas roupas e sobre minha túnica lançaram sortes”, como eu já disse antes, anunciavam a morte pela qual o bando de ímpios deveria condená-lo, os quais são chamados de cães. Alude também aos caçadores, porque os mesmos que foram dar-lhe caça, reuniram-se, pois estavam apressados para condená-lo à morte. Tais acontecimentos estão escritos nas Memórias dos Apóstolos.

[29] Já foi dito como os verdugos, depois de crucificá-lo, repartiram entre si as roupas dele.

[30] O salmo continua: “Tu, porém, Senhor, não afastes de mim a tua ajuda, atende à minha proteção. Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”. Tudo isso é ensinamento e anúncio do que nele tem e teve de acontecer. De fato, como já indiquei, tal como aprendemos pelas Memórias, ele é o unigênito do Pai do universo, particularmente nascido deste como Verbo e Potência, e depois nascido da virgem como homem.

[31] Também estava predito que ele morreria crucificado. Com efeito, as palavras: “Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”, davam igualmente a entender qual era o suplício pelo qual ele deveria morrer, isto é, pela cruz. Já antes vos interpretei que os chifres do unicórnio somente podem aludir à forma da cruz.

[32] Ao pedir que livrasse sua alma da espada, da boca do leão e da pata do cão, estava pedindo que ninguém se apoderasse de sua alma, a fim de que nós, ao chegarmos ao fim de nossa vida, peçamos o mesmo Deus, o qual pode afastar de nós todo anjo impiedoso e mau, para que não se apodere de nossa alma.

[33] Já vos demonstrei que as almas sobrevivem através do fato de que a alma de Samuel foi evocada pela pitonisa, como Saul lhe havia pedido. Daí se vê que todas as almas de homens tão justos e profetas como Samuel podem cair sob o poder de potências semelhantes àquela que operava na pitonisa e pelos próprios fatos temos que confessar isso.

[34] Por isso, Deus nos ensinou por seu próprio Filho a lutar com todas as nossas forças para sermos justos e pedir, ao sair deste mundo, que nossa alma não caia em poder de nenhuma potência semelhante. Assim, no momento de entregar seu espírito sobre a cruz, ele disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”, como se sabe pelas Memórias.

[35] Ele também exortava seus discípulos a superar a conduta dos fariseus, pois do contrário não se salvariam. Nas Memórias está escrito que ele disse: “Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”.

[36] Como Jesus sabia que seu Pai lhe concederia o que pedisse e o ressuscitaria dentre os mortos, exortou a todos os que temem a Deus para que o louvassem, pois tinha sido misericordioso com todo o gênero humano que crê, mediante sua morte na cruz. Ele se colocou no meio de seus irmãos, seus apóstolos, os quais, depois da ressurreição, persuadindo-se do que ele lhes havia dito antes sobre tudo aquilo que ele deveria sofrer e de que tudo estava anunciado pelos profetas, arrependeram-se de tê-lo abandonado quando foi crucificado. Estando no meio deles, entoou um hino a Deus, como consta nas Memórias dos Apóstolos. É o que declaram as palavras finais do salmo: “Narrarei o teu nome entre os meus irmãos e no meio da congregação entoarei hinos a ti. Louvai ao Senhor, vós que o temeis; glorificai-o, toda a descendência de Jacó. Tema-o, toda a descendência de Israel”.

[37] O fato de Jesus ter mudado para Pedro o nome anterior de um de seus apóstolos e que esteja escrito nas Memórias que ele fez o mesmo com os filhos de Zebedeu, mudando-lhes o nome para Boanerges, isto é, filhos do trovão, significava que fora ele que dera os nomes de Jacó a Israel e o nome de Jesus a Ausés. E pelo nome de Jesus foi introduzido na terra prometida aos patriarcas aquilo que sobrou do povo que saiu do Egito.

[38] Moisés manifestou que ele se levantaria como estrela em meio à descendência de Abraão, ao dizer: “Uma estrela de Jacó se levantará e um chefe de Israel”. E outra Escritura diz: “Eis um homem. Seu nome é Oriente”. Assim, ao levantar-se no céu uma estrela, logo que Cristo nasceu, como se narra nas Memórias de seus Apóstolos, os magos da Arábia, através dela, o reconheceram, foram e o adoraram.

[39] Como ele havia de ressuscitar ao terceiro dia após ser crucificado, está escrito nas Memórias dos Apóstolos que os do vosso povo, ao discutir com ele, lhe disseram: “Mostra-nos um sinal”. E ele replicou: “Esta geração má e adúltera busca um sinal, e não lhes será dado nenhum sinal além daquele do profeta Jonas”. Embora o tenha dito de alguma maneira oculta, todavia os fiéis puderam entender que, depois de ser crucificado, ressuscitaria no terceiro dia.

[40] Jesus pôs às claras que vossa geração era mais perversa e adúltera do que os habitantes da cidade de Nínive. De fato, quando Jonas, depois que um enorme peixe o vomitou três dias após tê-lo tragado, lhes pregou que dentro de três dias pereceriam em massa, estes anunciaram um jejum geral para todos os viventes, homens e animais, para que se vestissem de panos de saco, gemessem intensamente, se arrependessem sinceramente de coração e se afastassem da iniqüidade. Eles tinham fé que Deus é misericordioso e benigno para com todos os que se afastam da maldade, de modo que até o próprio rei dessa cidade e seus oficiais permaneceram, vestidos de panos de saco, no jejum e súplicas a Deus, até que sua cidade não fosse destruída.

[41] Jonas, porém, aborreceu-se pelo fato de a cidade não ter sido destruída no terceiro dia, como ele havia pregado. E então, a providência de Deus fez brotar uma hera, cuja sombra o profeta sentou-a para se proteger do calor. A hera tinha brotado de repente, sem que Jonas a tivesse plantado ou regado, para lhe fornecer sombra. E por outra providência, Deus fez com que ela secasse, e Jonas teve pena disso. Então, Deus o repreendeu, porque Jonas não tinha razão de estar aborrecido pelo fato de a cidade dos ninivitas não ter sido destruída, e lhe disse: “Como perdoaste a hera pela qual não te fatigaste, nem a criaste, uma hera que veio em sua noite e em sua noite mesmo desapareceu, e eu não perdoaria Nínive, a grande cidade, na qual habitam mais de cento e vinte mil homens que não sabem distinguir a direita da esquerda, e muitos animais?”

[42] Apesar de todo o vosso povo conhecer a história de Jonas e de que Cristo, estando entre vós, gritou que vos daria o sinal de Jonas, exortando-vos para que, ao menos com sua ressurreição dos mortos, vos arrependêsseis de vossas más ações e, como os ninivitas, clamásseis com lágrimas a Deus, para que a vossa nação e cidade não fossem tomadas e destruídas, como de fato aconteceu.

[43] Vós, logo que soubestes que ele havia ressuscitado dos mortos, não só não fizestes penitência, mas, como eu disse antes, escolhestes homens especializados e os enviastes por toda a terra para que repetissem, como arautos, que uma seita sem Deus e sem lei se tinha levantado em nome de um Jesus da Galiléia, que fora impostor. Dizeis: “Nós o crucificamos, mas os discípulos dele, depois de roubá-lo do sepulcro em que fora colocado depois de ser despregado da cruz, agora enganam o povo dizendo que ele ressuscitou dos mortos e subiu aos céus.” Chegastes a caluniá-lo por ter ensinado essas doutrinas ímpias, iníquas e sacrílegas que vós espalhais por toda a humanidade contra nós, que o confessamos como Cristo, Mestre e Filho de Deus.

[44] Finalmente, depois que vossa cidade foi tomada e a vossa terra ficou desolada, mesmo assim não fazeis penitência, mas vos atreveis a maldizer a ele e a todos os que nele crêem. Todavia, nós não aborrecemos nem a vós, nem àqueles que, por vossa culpa, pensam todas essas abominações a nosso respeito. Ao contrário, rogamos que, pelo menos agora, façais penitência e alcanceis todos a misericórdia do Deus, que é Pai do universo, compassivo e misericordioso.

[45] Permiti-me que vos cite algumas breves palavras de Miquéias, um dos doze profetas. Por elas, podereis ver como os gentios fizeram penitência do mal em que antes erravam, logo que ouviram e aprenderam a doutrina que seus apóstolos, saindo de Jerusalém, lhes anunciaram.

[46] As palavras são as seguintes: “Nos últimos dias, o monte do Senhor será visível, preparado sobre o cume dos montes, erguido sobre as colinas. A ele afluirão os povos e para aí marcharão muitas nações, e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, e seu caminho será iluminado para nós e andaremos em suas veredas. Porque de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor. Ele julgará em meio a muitos povos e até longe argüirá nações fortes. Quebrarão suas espadas para fazer arados e suas lanças para fazer foices. Já não haverá medo de que uma nação levante a espada contra outra nação, ou que continuem aprendendo a guerrear.

[47] O homem se sentará debaixo de sua figueira, e não haverá quem lhe infunda medo, porque a boca do Senhor dos exércitos falou. Com efeito, todos os povos caminharão em nome de seus deuses; nós, porém, caminharemos em nome do Senhor nosso Deus para sempre. E acontecerá naquele dia: eu congregarei a atribulada, juntarei a expulsa e aquela a quem maltratei. Farei da atribulada um resto e da oprimida um povo poderoso. E o Senhor reinará sobre eles no monte Sião, desde agora e para sempre”.

[48] Terminada a citação, acrescentei: — Senhores, sei muito bem que vossos mestres reconhecem que todas as palavras dessa passagem se referem a Cristo. Contudo, sei também, por suas afirmações, que o Cristo ainda não veio e, caso tivesse vindo, ninguém sabe quem ele é. Quando se apresentar de modo claro e glorioso, então se reconhecerá quem ele é, dizem eles.

[49] E então, acrescentam, cumprir-se-á o que se diz nessa passagem da profecia, como se agora suas palavras não tivessem nenhum cumprimento. Os insensatos não compreendem o que todos os meus raciocínios demonstraram, isto é, que estão anunciadas duas vindas de Cristo: uma, em que se predisse que apareceria passível, sem glória, sem honra, e seria crucificado; outra, em que viria dos céus com glória, quando o homem da apostasia, aquele que profere insolências contra o Altíssimo, se atrever a cometer iniqüidades contra nós, cristãos, contra nós que, conhecendo a religião através da lei e da palavra que saiu de Jerusalém pela obra dos apóstolos de Jesus, nos refugiamos no Deus de Jacó e no Deus de Israel.

[50] Nós estávamos antes cheios de guerra, de mortes mútuas e de toda maldade, mas renunciamos em toda a terra aos instrumentos guerreiros e transformamos as espadas em arados e as lanças em instrumentos para cultivar a terra, e cultivamos a piedade, a justiça, a caridade, a fé e a esperança, que nos vêm de Deus Pai por meio do seu Filho crucificado. Cada um de nós senta-se debaixo da sua parreira, isto é, cada um usa apenas de sua legítima mulher. Com efeito, vós sabeis que a palavra profética diz: “E sua mulher como vinha fértil”.

[51] É claro que ninguém é capaz de nos intimidar ou nos submeter à servidão, nós que, em toda a terra, cremos em Jesus. Decapitam-nos, pregam-nos em cruzes, atiram-nos às feras, à prisão, ao fogo, e nos submetem a todo tipo de torturas. Todavia, está à vista de todos que não apostatamos de nossa fé. Ao contrário, quanto maiores são os nossos sofrimentos, mais ainda se multiplicam os que abraçam a fé e a piedade pelo nome de Jesus. Da mesma forma que se faz com a vinha, à qual se podam os galhos que já deram fruto, para que brotem outros fortes e férteis, o mesmo acontece conosco. Com efeito, a vinha plantada por Deus e pelo Cristo Salvador é o seu povo.

[52] O resto da profecia, de fato, cumprir-se-á em sua segunda vinda. Falar da atribulada e expulsa é dizer que, quanto ao que depende de vós e de todos os outros homens, cada cristão é expulso não só de suas próprias posses, mas do mundo inteiro, pois não permitis o direito à vida a nenhum deles.

[53] Vós, todavia, dizeis que isso aconteceu ao vosso povo; porém, se sois expulsos, depois que fostes derrotados na guerra, com razão sofreis isso, como o testemunham todas as Escrituras. Nós, contudo, que nada de semelhante fizemos, uma vez que reconhecemos a verdade de Deus, dele recebemos o testemunho de que nos tira da terra junto com Cristo, o mais justo, o único sem mancha ou pecado. Isaías clama: “Eis como o justo pereceu e ninguém percebe em seu coração; homens justos são eliminados e ninguém considera isso”.

[54] Explicando o símbolo dos dois bodes oferecidos no jejum, já mostrei que, por meio deles, Moisés quis misteriosamente significar as duas vindas de Cristo. A mesma coisa era também simbolicamente anunciada e dita no que fizeram Moisés e Josué. Com efeito, um deles permaneceu sobre a colina, até o entardecer, com os braços estendidos, graças àqueles que os sustentavam, o que não era mais do que a figura da cruz. O outro, que teve o seu nome mudado para Jesus, dirigia a batalha e Israel vencia.

[55] Cumpre considerar um pormenor naqueles dois homens santos e profetas de Deus, ou seja, que um só deles não era capaz de ambos os mistérios, isto é, a figura da cruz e a figura da imposição do nome. Só há, houve e haverá um com essa força: é aquele diante de cujo nome treme toda potência, com medo de ser por ele destruída. Nosso Cristo, portanto, não foi amaldiçoado pela lei, por ter sofrido e sido crucificado. Ao contrário, sozinho ele manifestou que haveria de salvar os que não se afastam de sua fé.

[56] Os que se salvaram no Egito, quando pereceram os primogênitos dos egípcios, deveram a sua salvação ao sangue do cordeiro pascal, com que untavam um e outro lado dos umbrais e travessas das portas. É que o cordeiro pascal era Cristo, que devia ser sacrificado mais tarde, como disse Isaías. “Ele foi levado como ovelha ao matadouro”. E está escrito que o prendestes no dia da Páscoa e no dia da Páscoa o crucificastes. Assim como os que estavam no Egito foram salvos pelo sangue do cordeiro pascal, da mesma forma o sangue de Cristo salvará da morte os que têm fé.

[57] De fato, acaso Deus iria se equivocar se não encontrasse esse sinal sobre as portas? Não sei quem possa afirmar isso, mas o fato é que antecipadamente anunciava a salvação que viria para todo o gênero humano por meio do sangue de Cristo.

[58] O mesmo sinal da fita escarlate que os exploradores mandados por Jesus, filho de Nave, deram em Jericó à prostituta Raab, dizendo-lhe que a pendurasse na janela por onde os fizera descer para enganar os inimigos, foi também símbolo do sangue de Cristo. Por meio dele, salvar-se-ão os que antes se entregavam à fornicação e à iniqüidade, pessoas de todas as nações que recebem o perdão de seus pecados e não tornam mais a pecar.

[59] Vós, porém, ao explicar essas coisas de maneira tão pobre, tendes que acusar Deus de muita fraqueza, se as ouvis simplesmente e não penetrais a força do que se diz. Se assim fosse, poder-se-ia condenar ao próprio Moisés como transgressor da lei, pois ele que ordenara não se fizesse imagem nenhuma do que há no céu, na terra ou no mar, em seguida ele mesmo mandou fazer a serpente de bronze e, colocando-a numa cruz, mandou que os picados olhassem para ela, e os que olhavam ficavam curados.

[60] Dever-se-ia então entender que foi a serpente que salvou o povo, ela que, como eu já disse, foi amaldiçoada por Deus no princípio e à qual matará com sua grande espada, como diz Isaías? Será que devemos entender essas passagens da maneira tão insensata como as explicam vossos mestres e não como símbolos? Não referiremos o sinal à imagem de Jesus crucificado, pois que também Moisés com seus braços estendidos e o nome de Jesus dado ao filho de Nave faziam com que vosso povo vencesse?

[61] Desse modo, cessa toda dificuldade sobre o modo de agir do legislador. De fato, ele não abandonou a Deus ao persuadir o povo que pusesse sua confiança naquela fera, por meio da qual teve início a transgressão e a desobediência. Isso aconteceu com muita inteligência e mistério e foi dito pelo bem-aventurado profeta. E se se tem exato conhecimento deles, não há nada que se possa razoavelmente reprovar nos ditos e ações de todos os profetas em geral.

[62] Vossos mestres, porém, apenas se entretêm cavilando questões como essas. De fato, nessa passagem não se nomeiam camelos fêmeas ou o que são os chamados camelos fêmeas, ou por que se medem tantas e tantas medidas de azeite, tantas quantidades de flor de farinha para as ofertas, ainda mais que isso é interpretado pobremente e de maneira baixa. Por outro lado, as grandes questões, as que realmente merecem ser investigadas, eles não se atrevem a propô-las nem a explicá-las. Além do mais, eles vos ordenam que não nos escuteis quando as explicamos e que vós não converseis de maneira alguma conosco. Sendo assim, não é com razão que ouçam o que a eles disse nosso Senhor Jesus Cristo? “Sepulcros caiados! Por fora aparecem formosos e por dentro estão cheios de vossos cadáveres. Vós pagais o dízimo da hortelã e, em troca, engolis um camelo. Guias cegos!”

[63] Portanto, se não abandonardes os ensinamentos dos que se exaltam a si mesmos e gostam de ser chamados: “Rabi! Rabi!”; se não vos aproximardes das palavras proféticas com a decisão de estardes dispostos a sofrer por parte de vossos homens o mesmo que os profetas sofreram, com certeza não tirareis nenhum proveito de seus escritos.

[64] Contudo, para falar sobre a revelação feita sobre Jesus Cristo, o Santo, tomo novamente a palavra do profeta e afirmo que essa revelação se cumpriu também em nós, que pusemos a nossa fé nesse Sumo Sacerdote crucificado. De fato, nós que vivíamos entre fornicações e simplesmente em todo tipo de ações sujas, com a ajuda da graça que nos veio de nosso Jesus, por vontade de seu Pai, nos despojamos de todas as impurezas de que estávamos vestidos. O diabo nos ataca como eterno adversário e quer arrastar a todos nós para si; mas o anjo do Senhor, isto é, a força de Deus que nos é enviada por Jesus Cristo, o repreende e ele se afasta de nós.

[65] Nós fomos como que tirados do fogo, primeiro purificados de nossos pecados passados e depois libertos da tribulação e incêndio em que o diabo e todos os seus ministros querem nos abrasar. Todavia, também das mãos desses nos arranca Jesus, Filho de Deus, que nos prometeu, se guardarmos os seus mandamentos, vestir-nos com as vestes que preparou para nós e também preparar-nos um reino eterno.

[66] Com efeito, da mesma forma que aquele Jesus, a quem o profeta chama sacerdote, apareceu com vestes sujas por ter tomado como esposa uma prostituta, como se diz, mas depois foi chamado de tição tirado do fogo por ter recebido o perdão de seus pecados e ter sido repreendido o diabo que se lhe opunha, nós também, que cremos como um só homem no Deus criador do universo, pelo nome de seu Filho primogênito, nos despojamos de nossas vestes sujas, isto é, de nossos pecados. E abrasados pelas palavras do seu chamamento, somos a verdadeira descendência dos sumos sacerdotes de Deus, como o próprio Deus o atesta, dizendo que em todo lugar nas nações nós lhe oferecemos sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não aceita sacrifícios de qualquer um, a não ser de seus sacerdotes.

[67] Deus, portanto, testemunha que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que lhe são oferecidos em nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, isto é, os da Eucaristia do pão e do vinho, que os cristãos celebram em todo lugar da terra. Por outro lado, Deus rejeita os sacrifícios que vós lhe ofereceis por meio de vossos sacerdotes, pois diz: “Não receberei de vossas mãos os vossos sacrifícios, porque desde o nascer do sol até o seu ocaso, o meu nome é glorificado nas nações e vós o profanais”.

[68] Ainda hoje continuais dizendo teimosamente que Deus afirma que não receberia os sacrifícios que lhe eram oferecidos em Jerusalém pelos israelitas que naquele tempo a habitavam; mas que aceitava as orações que lhe faziam os homens daquele povo que se encontravam na dispersão. E essas orações é que são chamadas de sacrifícios. Concordo que as orações e ações de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus.

[69] São justamente apenas esses que os cristãos aprenderam a oferecer na comemoração do pão e do vinho, na qual se recorda a paixão que o Filho de Deus sofreu por eles. Contudo, os vossos sacerdotes e os vossos mestres fizeram com que o nome dele fosse profanado e blasfemado por toda a terra; as vestes sujas são as blasfêmias que lançais sobre todos aqueles que recebem do nome de Jesus a sua origem de cristãos; mas Deus poderosamente as tirará de nós, quando ressuscitar a todos, tornando uns incorruptíveis, imortais, isentos de dor e colocando-os em seu reino eterno.

[70] Vós vos enganais, vós e vossos mestres, interpretando as palavras de Malaquias como ditas sobre a gente do vosso povo que vivia na dispersão, cujas orações são chamadas de sacrifícios puros e agradáveis a Deus. Reconhecei que mentis e que procurais enganar completamente a vós mesmos. De fato, primeiramente, nem mesmo agora vosso povo se estende do oriente ao ocidente, mas existem nações onde jamais habitou alguém da vossa raça. Por outro lado, não existe nenhuma raça de homens, chamem-se eles bárbaros, gregos ou com outro nome qualquer, habitem eles em casas, chamem-se nômades sem residência, ou morem em tendas de pastores, entre os quais não se ofereçam, em nome de Jesus crucificado, orações e ações de graças ao Pai e Criador de todas as coisas.

[71] Em segundo lugar, quando o profeta Malaquias disse essas palavras, ainda não estáveis dispersos por todas as partes da terra em que estivestes depois, como se demonstra pelas próprias palavras das Escrituras.

[72] Seria melhor pôr fim à vossa obstinação e fazer penitência, antes que chegue o dia do julgamento, no qual todas as vossas tribos baterão no peito por terem transpassado esse Cristo, como já demonstrei estar predito pela Escritura. Expliquei também que o Senhor jurou “segundo a ordem de Melquisedec” e o que se predizia com isso. Já disse também como é que se referia à sepultura e ressurreição de Cristo a profecia de Isaías, ao dizer: “Sua sepultura foi tirada do vosso meio”. Afirmei igualmente em vários lugares que ele é juiz dos vivos e dos mortos.

[73] O próprio Natã, falando com Davi sobre Cristo, assim disse: “Serei para ele pai e ele será para mim filho, e não afastarei dele a minha misericórdia, como fiz com aqueles que vieram antes dele. Estabelecê-lo-ei em minha casa e em seu próprio reino para sempre”. E é a esse e não a outro que Ezequiel designa como príncipe na casa. Com efeito, ele é sacerdote eleito e rei eterno, o Cristo, como Filho de Deus. Em sua vinda, não penseis que Isaías ou os outros profetas digam que se deverá oferecer sobre o altar sacrifícios de sangue ou de libações, e sim louvores e ações de graças verdadeiras e espirituais.

[74] Nós não cremos em Cristo em vão, nem fomos enganados por aqueles que assim nos ensinaram, mas isso aconteceu por maravilhosa providência de Deus, para que, pelo chamamento da nova e eterna aliança, isto é, de Cristo, nós fôssemos mais inteligentes e religiosos que vós, que vos considerais amantes de Deus e inteligentes, mas não o sois.

[75] Maravilhado com isso, Isaías disse: “Os reis refrearão a própria boca, pois aqueles a quem ele não foi revelado, o verão; aqueles que não ouviram falar sobre ele, entenderão. Senhor, quem acreditou naquilo que ouviu de nós e a quem o braço do Senhor foi revelado?” Trifão, ao dizer isso, não o faço sem repetir, como posso, as mesmas coisas, em atenção aos que hoje se juntaram a ti, embora o faça brevemente e resumindo muito.

[76] Trifão disse-me: — Fazes muito bem, e mesmo que repetisses a mesma coisa de maneira mais ampla, sabes que eu e meus companheiros nos alegramos ao ouvir-te.

 

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 10 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-10/ Sat, 14 Mar 2026 13:16:12 +0000 https://vcirculi.com/?p=35518 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Assim também acontece com a profecia que diz: “Levantai, ó príncipes, vossas portas; abri-vos, portas eternas, para que entre o rei da glória”. Alguns de vós se atrevem a interpretá-la referindo-se a Ezequias, outros a Salomão. Contudo, de maneira alguma se pode demonstrar que tal profecia se refira a este ou àquele ou a qualquer outro dos chamados vossos reis, mas unicamente a esse nosso Cristo, que apareceu sem glória e desonrado, como disseram Isaías, Davi e todas as Escrituras. Ele, porém, por vontade do Pai, é Senhor das potências que lhes entregou; ele ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu, como o declaravam esse mesmo salmo e as demais Escrituras. Estas conjuntamente o anunciavam como Senhor das potências, como agora podeis convencer-vos, se quereis, por aquilo que está acontecendo diante da vossa vista.

[2] Com efeito, todo demônio se submete e é vencido, e é esconjurado no nome desse mesmo Filho de Deus e primogênito de toda a criação, que nasceu da virgem e se fez homem passível, foi crucificado por vosso povo sob Pôncio Pilatos, morreu, ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu. Contudo, se vós os esconjurais em nome de qualquer de vossos reis, justos, profetas ou patriarcas, nenhum desses demônios se submeterá a vós.

[3] Talvez se submetam, se os esconjurais em nome do Deus de Abraão, do Deus de Isaac e do Deus de Jacó. Contudo, os vossos exorcistas se valem dos mesmos artifícios que os pagãos e usam incensos e amuletos.

[4] Que são anjos e potências aqueles para os quais as palavras desta profecia de Davi manda levantar as portas para que entre o Senhor das potências, ressuscitado dentre os mortos por vontade do Pai, Jesus Cristo, a palavra do próprio Davi o demonstrou. Recordai-vos-ei essa palavra novamente, em atenção àqueles que não assistiram à nossa conversa de ontem; em atenção a eles, repito resumidamente as coisas que eu disse ontem.

[5] Se agora vos repito aquilo que já antes tinha dito muitas vezes, não me parece coisa fora de propósito. Sempre estamos vendo o sol, a lua e os outros astros percorrer o mesmo caminho, trazendo-nos mudanças de estações; não é porque se perguntou muitas vezes a um contador quanto são dois mais dois e por sempre ter respondido quatro, que ele deixará de dizer que são quatro. Quanto mais se afirma com certeza, sempre se diz e se afirma do mesmo modo. Assim sendo, seria ridículo que alguém, tendo as Escrituras dos profetas como objeto de sua conversa, as abandonasse e não repetisse sempre as mesmas, mas pensasse em cogitar coisas melhores por conta própria.

[6] Portanto, a palavra de Davi citada, na qual Deus manifestava ter anjos e potências no céu, é esta: “Louvai o Senhor nos céus; louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos, louvai-o todas as suas potências”.

[7] Um dos que se haviam juntado a eles no segundo dia, chamado Manaséas, disse: “Nós também nos alegramos que repitas o que já foi dito, em atenção a nós.”

[8] Eu disse: “Amigos, escutai a qual Escritura me remeto ao fazer isso. Jesus nos mandou amar inclusive os inimigos; a mesma coisa foi anunciada por Isaías em extensa passagem, na qual ele também alude ao mistério da nossa regeneração e, em geral, de todos aqueles que esperam que Cristo aparecerá em Jerusalém e se esforçam em agradar-lhe com suas obras.”

[9] As palavras de Isaías são estas: “Ouvi a palavra do Senhor, vós que temeis a sua palavra. Dizei ‘irmãos nossos’ aos que vos odeiam e que abominam que o nome do Senhor seja glorificado. Para vossa alegria, ele apareceu e eles ficaram envergonhados. Da cidade vem uma voz de alarido, voz do povo, voz do Senhor, que dá aos soberbos o que eles merecem. Antes que a parturiente desse à luz e antes que lhe chegassem as dores do parto, deu à luz um varão. Quem ouviu tal coisa ou quem viu algo semelhante? A terra ficou em parto um só dia e deu à luz de um só vez a um povo, pois Sião sentiu as dores de parto e deu à luz seus filhos. Eu dei essa expectativa também àquela que concebe, diz o Senhor. Tanto a fecunda, como a estéril, fui eu que as fiz, diz o Senhor. Alegra-te, Jerusalém, e congregai-vos todos vós que a amais. Regozijai-vos todos vós que chorais sobre ela, para que vos amamenteis e sejais saciados pelo seio de sua consolação, para que, amamentados, sejais acariciados pela entrada gloriosa dele.”

[10] Dito isso, acrescentei: “Escutai como este que, depois de ser crucificado, as Escrituras demonstram que há de vir glorioso, foi simbolizado pela árvore da vida, que se diz ter sido plantada no paraíso, e pelo que aconteceu a todos os justos. Moisés foi enviado com uma vara para a redenção do povo e, segurando-a na mão em direção ao povo, cortou o mar ao meio; através dela, viu brotar água da rocha e, jogando madeira na água de Marra, que era amarga, tornou-a doce.”

[11] “Jogando umas varas nos canais das águas, Jacó conseguiu que as ovelhas de seu tio materno ficassem prenhes, a fim de apossar-se das crias. Ele mesmo se gloria de ter atravessado o rio por meio da vara. Ele disse ter visto uma escada, e a Escritura nos manifestou que sobre ela estava Deus. E já demonstramos pelas Escrituras que esse Deus não era o Pai. Tendo Jacó derramado óleo no mesmo lugar, o próprio Deus que lhe aparecera dá testemunho de ter sido para ele que ungiu ali a pedra.”

[12] Também já demonstramos, com várias passagens das Escrituras, que Cristo é chamado simbolicamente “pedra” e que também a ele se refere toda unção, seja de azeite, seja de mirra ou qualquer outro composto de bálsamo, pois assim diz a palavra: “Por isso o teu Deus te ungiu, o teu Deus, com óleo de alegria, de preferência aos teus companheiros”. É assim que dele participaram os reis e ungidos, todos os que são chamados reis e ungidos, da mesma maneira como ele próprio recebeu de seu Pai o fato de ser Rei, Cristo, Sacerdote, Mensageiro e todos os outros títulos que ele tem ou teve.

[13] A vara de Aarão, que brotou, o indicou para sumo sacerdote. Isaías profetizou que ele nasceria como rebento da raiz de Jessé. E Davi diz que o justo é como “uma árvore plantada junto às correntes das águas, que dá fruto em seu tempo e cuja folha não cai”. Outro texto diz: “O justo floresce como palmeira.”

[14] Deus apareceu a Abraão junto a uma árvore, como está escrito: “Junto ao carvalho de Mambré”. O povo encontrou setenta salgueiros e doze fontes, logo que atravessou o Jordão. Davi diz que Deus o consola com sua vara e seu bastão.

[15] Eliseu, tendo atirado um pedaço de madeira no rio Jordão, tirou fora o machado de ferro, com que os filhos dos profetas tinham saído para cortar madeira, a fim de construir a casa em que desejavam recitar e meditar a lei e os mandamentos de Deus. Da mesma forma, nós estávamos banhados pelos gravíssimos pecados que tínhamos cometido, mas nosso Cristo nos redimiu quando foi crucificado sobre o madeiro e quando nos purificou pela água, e nos converteu em casa de oração e adoração. Também foi uma vara que mostrou que Judá era o pai dos filhos que por um grande mistério tinham nascido de Tamarl.

[16] Tendo eu falado essas coisas, Trifão disse: “Não quero que penses que te faço minhas perguntas com a única intenção de atrapalhar o que dizes. Quero antes aprender a respeito dos pontos sobre os quais te pergunto.”

[17] “Dize-me, agora: de um lado, Isaías diz: ‘Sairá um rebento da raiz de Jessé e uma flor subirá da raiz de Jessé e sobre ele descansará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência e piedade, e o Espírito a encherá do temor de Deus’, por outro lado, tu me confessaste que essa passagem se aplica a Cristo e afirmas que ele é Deus preexistente e que, por desígnio do Pai, nasceu encarnado da virgem. Como se pode demonstrar que preexiste aquele que é enchido de todas as potências do Espírito Santo, que aí a palavra enumera por meio de Isaías, como alguém que não as tivesse?”

[18] Eu lhe respondi: “Perguntaste com agudez e inteligência, pois realmente parece haver aqui uma dificuldade. Escuta, porém, o que vou dizer, para que entendas também porque ela existe. A palavra não diz que as potências do Espírito aqui enumeradas viriam sobre ele como se estivesse falto delas, mas porque elas iriam descansar sobre ele, isto é, que nele teria fim o fato de que em vosso povo continuasse a haver profetas, como antigamente. Isso podeis confrontar com vossos próprios olhos. Com efeito, depois de Cristo não surgiu entre vós absolutamente nenhum profeta.”

[19] “Considerai que os próprios profetas que existiram entre vós, cada um deles recebeu uma ou outra potência de Deus para falar e realizar aquelas coisas que nós agora conhecemos por meio das Escrituras. Prestai atenção no que vos digo. Salomão teve espírito de sabedoria, Daniel de inteligência e conselho, Moisés de fortaleza e piedade, Elias de temor e Isaías de ciência. O mesmo se pode dizer dos outros, que tiveram cada um uma só, ou uma alternando com a outra, como Jeremias, os Doze, Davi e, em geral, todos os profetas que existiram entre vós.”

[20] “Descansou, portanto, quer dizer cessou, tendo vindo aquele depois do qual, cumpridos os tempos dessa sua dispensação entre os homens, haveriam de cessar em vós e, descansando nele, como foi profetizado, converter-se novamente em dons da mesma graça do poder daquele Espírito, que Cristo reparte entre os que nele crêem, a cada um conforme ele julga ser digno.”

[21] “Já vos disse como foi profetizado que ele deveria fazer isso depois de sua ascensão aos céus, e agora vos repito. A Escritura diz: ‘Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos filhos dos homens’. E se diz de novo em outra profecia: ‘E, depois disso, acontecerá que derramarei meu Espírito sobre toda carne, sobre meus servos e minhas servas, e profetizarão’.”

[22] Assim, entre nós, podem-se ver homens e mulheres que possuem carismas do Espírito de Deus. Desse modo, foi profetizado que as potências do Espírito, enumeradas por Isaías, deveriam vir sobre Cristo, não porque ele estivesse falto de seu poder, mas porque daí por diante não deveriam mais existir. Seja também de testemunho para vós o que contei sobre aquilo que fizeram os magos da Arábia, os quais, apenas nascera o menino, foram adorá-lo.

[23] É que desde o seu nascimento ele teve seu próprio poder. Depois foi crescendo conforme o desenvolvimento comum de todos os outros homens, usou os meios adequados de vida, deu a cada crescimento o que lhe correspondia, comeu de todo tipo de alimentos e permaneceu oculto mais ou menos trinta anos, até que apareceu João, precedendo-o como arauto de sua vinda e adiantando-se a ele no caminho do batismo, como já demonstrei antes.

[24] Foi então que, vindo Jesus ao rio Jordão, onde João estava batizando, desceu à água e acendeu-se um fogo no Jordão; quando subiu da água, os que foram apóstolos desse nosso Cristo escreveram que voou sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba.

[25] Sabemos que Cristo foi ao Jordão não porque tivesse necessidade do batismo, nem de que viesse sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba, como também não se dignou nascer e ser sacrificado porque necessitasse disso, mas por amor ao gênero humano, que desde Adão havia incorrido na morte e no erro da serpente, cada um cometendo o mal por sua própria culpa.

[26] Com efeito, tendo Deus criado homens e anjos dotados de livre-arbítrio e autonomia, quis que cada um fizesse aquilo para o qual foi por ele capacitado e, caso escolhessem o que lhe é agradável, iria mantê-los isentos de morte e castigo. Caso, porém, cometessem o mal, castigaria cada um como lhe aprouvesse.

[27] Nem o fato de entrar em Jerusalém, montado num jumento, conforme demonstramos que estava profetizado, lhe deu o poder de ser Cristo, mas deu ele um sinal aos homens de que era Cristo, do mesmo modo que nos dias de João teve que ser dado um sinal pelo qual os homens reconhecessem que ele era Cristo.

[28] Com efeito, quando João estava junto ao Jordão, pregando o batismo de penitência, cingido por um cinturão de pele e vestido de pêlos de camelo, comendo apenas gafanhotos e mel silvestre, as pessoas pensavam que ele era Cristo. Ele, porém, lhes gritava: “Eu não sou o Cristo, mas uma voz daquele que grita. De fato, virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar.”

[29] Quando Jesus chegou ao Jordão, ele era considerado como filho do carpinteiro José, e apareceu sem beleza, como as Escrituras haviam anunciado, e ele próprio foi considerado como carpinteiro. Foi assim que fabricou obras dessa profissão — arados e jugos — enquanto estava entre os homens, ensinando por meio deles o símbolo da justiça e o que é uma vida de trabalho.

[30] Foi então que, por causa dos homens, como já disse antes, o Espírito Santo voou sobre ele em forma de pomba e, ao mesmo tempo, veio do céu uma voz, a mesma que foi dita por meio de Davi, quando o próprio Pai disse pessoalmente o que este diria a Cristo: “Tu és o meu filho, eu hoje te gerei”. O Pai chama nascimento de seu filho o momento em que o conhecimento dele chegaria aos homens.

[31] Trifão replicou: “Sabes muito bem que o nosso povo todo espera pelo Cristo. Também te concedemos que todas as passagens das Escrituras, que citaste, se referem a ele. Eu pessoalmente te declaro também que o nome de Jesus dado ao filho de Nave levou-me a ceder também nesse ponto.”

[32] “O que duvidamos é que o Cristo tivesse de morrer tão vergonhosamente, pois na lei se diz que é maldito aquele que morre crucificado. De modo que, por enquanto, é muito difícil para mim convencer-me disso. Que as Escrituras tenham anunciado um Cristo passível é evidente. O que desejo saber, se tiveres um argumento a demonstrar, é o fato de que ele teria que sofrer um suplício que está maldito na lei.”

[33] Eu respondi: “Se Cristo não tivesse que sofrer; se os profetas não tivessem predito que, por causa das iniqüidades do seu povo, teria de ser levado à morte, ser desonrado, açoitado, contado entre os malfeitores e levado como ovelha ao matadouro — ele, cuja origem o profeta disse que ninguém seria capaz de explicar —, haveria motivo para maravilhar-se. Contudo, se é isso que o distingue e o mostra para todo mundo, como nós também não creríamos nele com toda segurança? Todos os que ouvem as palavras dos profetas, logo que ouvem que ele foi crucificado, dirão que este é o Cristo e não outro.”

[34] Trifão disse: “Instrui-nos sobre isso através das Escrituras, para que também nós nos convençamos. Com efeito, sabemos que ele haveria de sofrer e ser conduzido como ovelha ao matadouro. O que nos tens que demonstrar é que ele também deveria ser crucificado e morrer de morte tão desonrosa e amaldiçoada pela própria lei. Nós, de fato, não podemos sequer imaginar isso.”

[35] Eu respondi: “Tu sabes, como vós mesmos concordastes, que tudo o que os profetas disseram e fizeram foi envolvido em comparações e símbolos, de modo que a maior parte das coisas não podem ser facilmente entendidas por todos, pois eles ocultaram a verdade que existe nesses símbolos, a fim de que aqueles que a buscam a encontrem e aprendam com esforço.”

[36] Eles confirmaram: “De fato, concordamos com isso.”

[37] Eu continuei: “Agora escuta o seguinte: o fato é que Moisés com os sinais que fez, foi o primeiro que manifestou essa suposta maldição da cruz.”

[38] Ele perguntou: “A que sinais tu te referes?”

[39] Eu expliquei: “Quando o povo fazia guerra contra Amalec e o filho de Nave, a quem foi dado o nome de Jesus, comandava a batalha, Moisés orava a Deus com as mãos estendidas. Hor e Aarão as sustentaram o dia todo, para que elas não se abaixassem por causa do cansaço. Como está escrito nos próprios livros de Moisés, o povo era vencido se essa figura que imitava a cruz cedia um pouco; entretanto, enquanto permanecia nessa forma, Amalec era derrotado.”

[40] “E se o povo tinha forças, era por causa da cruz que as tinha. De fato, o povo levava vantagem não porque Moisés orava dessa forma, mas porque ele formava o sinal da cruz, pois era o nome de Jesus que comandava a batalha. Com efeito, quem de vós não sabe que a melhor forma de aplacar a Deus é a que se faz com gemidos e lágrimas, com o corpo prostrado e joelhos dobrados? Contudo esse modo de orar sentado numa pedra, nem Moisés nem ninguém o fizera antes nem o fez depois. Por outro lado, a própria pedra, como já demonstrei, é um símbolo de Cristo.”

[41] Para dar a entender por outro sinal o poder do mistério da cruz, Deus formulou através de Moisés a bênção com que abençoou José: “Da bênção do Senhor a terra dele, das estações do céu, dos orvalhos e das fontes do abismo subterrâneo, dos frutos conforme os giros do sol e das conjunções dos meses, do cume dos montes antigos, do cimo das colinas, dos rios perenes e da plenitude dos frutos da terra. O beneplácito daquele que apareceu na sarça sobre a cabeça de José e sobre a sua fronte. Primogênito entre seus irmãos, ele é glorificado. Sua beleza é a do touro, seus chifres são os chifres do unicórnio; com eles chifrará o conjunto das nações até as extremidades da terra.”

[42] Pois bem. Não se pode dizer que os chifres do unicórnio formem figura diferente da cruz. Com efeito, uma haste da cruz se ergue verticalmente e dela surge a parte superior, quando se ajustou a haste transversal. Seus extremos aparecem de um lado e de outro, como chifres unidos em um único chifre. Além disso, a estaca, que se ergue no meio e sobre a qual se apóia o corpo do crucificado, também é como um chifre saliente. Este também aparenta-se com um chifre, configurado e cravado com outros chifres.

[43] Quando se diz: “Com eles chifrará todas as nações em conjunto até as extremidades da terra”, manifestava-se o que agora se realizou em todas as nações. De fato, chifradas, isto é, compungidas por esse mistério da cruz, pessoas de todas as nações se converteram ao culto a Deus, abandonando seus ídolos vãos e demônios. Por outro lado, o mesmo sinal se manifesta como maldição e condenação aos incrédulos, do mesmo modo como, tendo o povo saído do Egito, Amalec era derrotado e Israel vencia por causa da figura formada pelos braços estendidos de Moisés e pelo nome de Jesus dado ao filho de Nave.

[44] Também aquela outra figura e sinal contra as serpentes que picaram Israel evidentemente foi instituído para salvação dos que creem que, desde aquela época, foi anunciada a morte da serpente através daquele que deveria ser crucificado, e a salvação daqueles que, picados por ela, se refugiam naquele que enviou seu Filho ao mundo para ser crucificado. O Espírito profético, de fato, não pretendia ensinar-nos, através de Moisés, a depositar nossa fé numa serpente. Tanto que nos manifesta como ela foi amaldiçoada por Deus desde o princípio e, em Isaías, nos dá a entender que será morta como inimiga pela grande espada, que é Cristo.

[45] Se alguém não recebeu de Deus grande graça para entender os ditos e ações dos profetas, de nada lhe servirá repetir superficialmente suas expressões ou ações, se não sabe explicá-las. Ao contrário, não parecerão desprezíveis ao povo, se são repetidos por gente que não as entende.

[46] Suponhamos que vos fosse proposta a seguinte questão: Por que, Henoc, Noé com seus filhos e outros semelhantes a eles, tendo sido gratos a Deus sem terem nascido na circuncisão e guardado os sábados teria Deus que exigir, depois de tantas gerações, que os homens se justifiquem através de outros dirigentes e de outra legislação, desde Abraão até Moisés por meio da circuncisão, e desde Moisés fora da circuncisão, por outras ordens, como os sábados, os sacrifícios, as cinzas e ofertas? A única resposta que tendes será demonstrar, como eu fiz antes, que Deus, por ser presciente, soube que o vosso povo um dia mereceria ser expulso de Jerusalém e que a ninguém seria permitido nela entrar.

[47] E nem mesmo a Abraão Deus lhe deu testemunho de ser justo por causa da circuncisão, mas por causa da fé, porque, antes de ser circuncidado, assim foi dito sobre ele: “Abraão creu em Deus e lhe foi reputado como justiça”.

[48] Também nós, portanto, que cremos em Deus, por meio de Cristo, no prepúcio da nossa carne, e possuímos uma circuncisão que é vantagem para aqueles que a possuem, isto é, a circuncisão do coração, esperamos aparecer justos e gratos a Deus, pois já recebemos o seu testemunho por meio de seus profetas. Contudo, os mandamentos que recebestes de guardar o sábado e oferecer sacrifícios, e que o Senhor se dignaria dar o seu nome a um lugar particular, tudo isso era para evitar que, caindo na idolatria e esquecendo-vos de Deus, vos tornásseis sacrílegos e ímpios, como se pode ver que sempre o fostes.

[49] Que essa seja a causa pela qual Deus vos deu os mandamentos sobre os sábados e sacrifícios, já foi antes demonstrado por mim. Todavia, por causa dos que vieram hoje, quero repetir quase todas as razões. Com efeito, se assim não fosse, poderíamos acusar a Deus de não ter previsão e de não ensinar a todos a conhecer e praticar as mesmas normas de justiça, e a fé que muitas gerações de homens tiveram antes de Moisés. Então, não existiria a palavra que diz: “Deus é verdadeiro e justo, e todos os seus caminhos são retidão, e nele não há injustiça.”

[50] Mas como essa palavra é verdadeira, Deus também quer que vós não sejais sempre insensatos e amantes de vós mesmos, mas que vos salveis unidos a Cristo, aquele que agradou a Deus e foi atestado, como eu disse antes, tomando as minhas provas das santas palavras proféticas.

[51] Com efeito, Deus proporciona ao gênero humano o que sempre e absolutamente é justo. Proporciona-lhe toda a justiça, e assim todos reconhecem que são maus o adultério, a fornicação, o assassinato e coisas semelhantes, ainda que todos cometam esses crimes. Todavia, quando os cometem, ao menos não podem deixar de reconhecer que estão cometendo uma iniqüidade, caso excetuemos aquelas pessoas que, cheias de espírito impuro e corrompidas pela educação, costumes e leis perversas, perderam as noções naturais ou antes as apagaram e reprimiram.

[52] A prova está em que mesmo essas pessoas não querem sofrer a mesma coisa que elas fazem às outras e, em toda a sua má consciência, reprovam em si umas às outras aquilo que cada uma faz. Daí, parece-me que disse bem nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, quando afirmou que toda justiça e piedade se resume em dois mandamentos, que são: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua força, e ao teu próximo como a ti mesmo.”

[53] Com efeito, quem ama a Deus com todo o seu coração e com toda a sua força, estando cheio de sentimento religioso, não honrará a nenhum outro deus, embora pela vontade de Deus honre aquele Anjo que é amado pelo próprio Senhor e Deus. Aquele que ama ao próximo como a si mesmo, desejará para ele os mesmos bens que deseja para si próprio, porque ninguém desejará males para si mesmo.

[54] Portanto, aquele que ama ao seu próximo pedirá em sua oração e fará por seu próximo o mesmo que faz para si; e o próximo do homem não é mais do que o animal racional, submetido às mesmas paixões, que é o homem. Visto, portanto, que a justiça se divide em duas partes, em relação a Deus e em relação aos homens, todo aquele que, segundo a palavra, ama ao Senhor Deus de todo coração e com toda a sua força e ao seu próximo como a si mesmo, pode verdadeiramente considerar-se justo.

[55] Vós, porém, jamais demonstrastes ter amizade ou amor nem para com Deus, nem para com os profetas, nem uns para com os outros, mas em todo tempo, como está provado, fostes idólatras e assassinos dos justos, até ao ponto de pôr vossas mãos sobre o próprio Cristo. E ainda agora vos obstinais na vossa maldade, amaldiçoando aqueles que demonstram que esse mesmo que foi crucificado por vós é o Cristo. Não contentes com isso, pretendeis demonstrar que foi crucificado como inimigo de Deus e amaldiçoado por ele, quando a crucifixão foi obra de vossa insensatez.

[56] Com efeito, através dos sinais feitos por Moisés, tendes motivos para compreender que Jesus é o Cristo, mas vós não quereis entender; ao contrário, pensando que nós também somos insensatos, nos propões questões que vos vêm à cabeça, quando sois vós que ficais sem palavras ao encontrar um cristão instruído.

[57] Se não é assim, então dizei-me: não foi Deus, por meio de Moisés, quem mandou não fazer absolutamente nenhuma imagem ou representação de coisas lá do alto do céu, nem cá de baixo da terra? No entanto, no deserto, ele mesmo fez Moisés fabricar a serpente de bronze e a colocou como sinal, pelo qual se curavam os que eram picados pelas serpentes. Nem por isso vamos dizer que Deus seja culpável de injustiça.

[58] E, como eu já disse, com isso Deus anunciava um mistério, pelo qual destruiria o poder da serpente, que foi autora da transgressão de Adão; e, ao mesmo tempo, anunciava salvação para aqueles que crêem naquele que era simbolizado por esse sinal, isto é, naquele que deveria ser crucificado e os haveria de livrar das picadas da serpente, que são as más ações, as idolatrias e demais iniqüidades.

[59] Com efeito, se não é assim que deva ser entendido, dai-me um motivo por que Moisés ergueu como sinal a serpente de bronze e mandou que os picados olhassem para ela e eles se curavam. Fez isso depois que ele próprio tinha ordenado que ninguém absolutamente fabricasse imagem.

[60] Então, outro dos que tinham vindo no segundo dia disse: “Disseste a verdade. Não temos argumento para responder. Com efeito, eu mesmo perguntei muitas vezes aos nossos mestres sobre isso e ninguém me deu uma explicação. Continua, pois, o que estás dizendo, porque nós te esperamos como alguém que nos revela um mistério, pois até os ensinamentos dos profetas são objeto de calúnias.”

[61] Eu continuei: “Assim como Deus mandou fazer um sinal por meio da serpente de bronze e não tem culpa disso, também na lei há uma maldição contra os que morrem crucificados, mas essa maldição não recai sobre o Cristo de Deus, pelo qual Deus salva todos os que fizeram obras dignas de maldição.”

[62] Com efeito, todo gênero humano perceberá que está sob maldição. Segundo a lei de Moisés, chama-se maldito todo aquele que não persevera no cumprimento do que está escrito na lei. E que ninguém a tenha cumprido exatamente, nem vós mesmos vos atreveis a contradizer. Uns guardaram mais os seus mandamentos e outros menos. Se os que estão submissos a essa lei carregam maldição por não tê-la observado inteiramente, quanto mais não a carregam todas as nações entregues à idolatria, à corrupção dos jovens e a outros males que praticam?

[63] Portanto, se foi da vontade do Pai do universo que seu Cristo carregasse por amor o gênero humano com a maldição de todos, sabendo que o ressuscitaria depois de crucificado e morto, por que falais como de um maldito daquele que se dignou sofrer tudo isso pelo desígnio do Pai? Valeria mais que chorásseis a vós mesmos. De fato, é certo que foi o seu próprio Pai quem o fez sofrer tudo o que ele sofreu por causa do gênero humano, mas vós não agistes para cumprir um desígnio de Deus, assim como ao matar os profetas não realizastes uma obra de piedade.

[64] E que ninguém de vós diga: “Se o Pai quis que o Cristo sofresse para que, por meio de suas chagas, viesse a cura para o gênero humano, nós não cometemos nenhum pecado.” Porque se dissésseis isso, arrependendo-vos dos vossos pecados, reconhecendo que Jesus é o Cristo e observando os seus mandamentos, vossos pecados vos seriam perdoados, como eu já disse antes;

[65] Todavia, se maldizeis não somente a ele, mas também aos que nele crêem, e tirais a vida destes porque tendes poder para isso, como ele não requererá de vós ter posto sobre ele vossas mãos, como homens criminosos e pecadores, levando ao extremo vossa dureza de coração e insensatez?

[66] Com efeito, o que está dito na lei: “É maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”, fortifica ainda mais a nossa esperança que pende de Cristo crucificado, pois Deus não amaldiçoa esse crucificado, mas predisse o que vós e outros semelhantes a vós faríeis, ignorando que Jesus existe antes de tudo e é o eterno sacerdote de Deus, Rei e Ungido.

[67] E vedes que claramente assim acontece. Porque vós amaldiçoais em vossas sinagogas todos aqueles que dele recebem o fato de ser cristãos, e as demais nações, tornando efetiva a vossa maldição, tirais a vida pelo simples fato de alguém se confessar cristão.

[68] Nós, porém, dizemos a vós todos: sois nossos irmãos. Reconhecei forçosamente a verdade de Deus. Nem os gentios, nem vós fazeis de nós, mas vos empenhais em que neguemos o nome de Cristo, e nós preferimos antes morrer e, de fato, nos submetemos à morte, porque estamos seguros que Deus dará a nós todos os bens que ele nos prometeu por meio de Cristo.

[69] Além disso tudo, nós oramos por vós, a fim de que alcanceis misericórdia de Cristo, pois ele nos ensinou a pedir até pelos nossos inimigos, dizendo: “Amai vossos inimigos, sede benignos e misericordiosos, como o vosso Pai celeste.” De fato, podemos ver quão benigno e misericordioso é o Deus onipotente, pois ele faz sair o seu sol sobre ingratos e justos, e chover sobre santos e ímpios. E também ensinou a todos nós que ele haveria de julgar.

[70] Também não foi por acaso que o profeta Moisés permaneceu até a tarde mantendo a figura da cruz, quando Hor e Aarão lhe sustentavam os braços, pois também o Senhor permaneceu sobre a cruz até quase o entardecer; e pelo entardecer o sepultaram, para ressuscitar no terceiro dia. Isso foi assim expresso por Davi: “Com a minha voz gritei ao Senhor, e ele me ouviu do seu monte santo. Eu adormeci e o torpor se apoderou de mim. Levantei-me, porque o Senhor me protegeu.”

[71] Da mesma forma, Isaías disse sobre o modo como Cristo deveria morrer: “Estendi as minhas mãos a um povo que não crê e que contradiz, aos que andam por um caminho que não é bom.”

[72] E o próprio Isaías diz que ele haveria de ressuscitar: “Sua sepultura será tirada do meio” e “darei os ricos em troca da sua morte.”

[73] Em outra passagem, no salmo 22, Davi também alude à paixão e à cruz, numa comparação misteriosa: “Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram um por um todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes.” Com efeito, quando o crucificaram, ao cravar-lhe os cravos, perfuraram-lhe as mãos e os pés. Os mesmos que o crucificaram repartiram entre si as roupas dele, cada um lançando a sorte sobre o que queria escolher.

[74] Também dizeis que este salmo não se aplica a Cristo, pois estais completamente cegos e não percebeis que a ninguém do vosso povo, que tenha tido o título de rei, perfuraram as mãos e os pés enquanto estava vivo, nem morreu por este mistério, isto é, crucificado, mas apenas esse Jesus.

[75] O salmo 22 se aplica perfeitamente à paixão e morte de Jesus.

[76] Recitar-vos-ei o salmo inteiro, para que escuteis sua piedade para com o Pai e como a ele refere tudo, pedindo-lhe que o salve da morte, ao mesmo tempo que mostra no salmo quais eram os que se haviam levantado contra ele, e demonstra que era verdadeiramente homem, capaz de sofrer.

[77] O salmo é este: “Ó Deus, ó Deus meu, atende-me. Por que me abandonaste? Longe da minha salvação estão as palavras dos meus pecados. Ó Deus meu, gritarei durante o dia a ti, e tu não me escutarás; gritarei à noite, e não é coisa que eu ignore. Mas tu habitas em teu santuário, ó glória de Israel! Em ti esperaram os nossos pais; esperaram, e tu os livraste. Clamaram a ti e se salvaram; esperaram em ti e não se envergonharam.”

[78] Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo. Todos os que me contemplaram zombaram de mim; falaram com seus lábios e moveram a cabeça: “Esperou no Senhor, que ele o livre e salve, pois lhe quer bem.”

[79] Porque tu és aquele que me tiraste do ventre, a minha esperança desde os peitos de minha mãe: sobre ti fui lançado desde o seio dela. Desde o ventre da minha mãe, tu és o meu Deus. Não te afastes de mim, porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra.

[80] Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Abriram contra mim a sua boca, como leão esperto e rugidor. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre. Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato, e tu me afundaste até o pó da morte.

[81] Porque me rodearam muitos cães, um bando de ímpios me cercou. Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes.

[82] Tu, porém, Senhor, não afastes de mim a tua ajuda, atende à minha petição. Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação. Narrarei o teu nome entre os meus irmãos e no meio da congregação entoarei hinos a ti. Louvai o Senhor, vós que o temeis; glorificai-o, toda a descendência de Jacó. Tema-o toda a descendência de Israel.

 

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 9 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-9/ Sat, 14 Mar 2026 13:06:38 +0000 https://vcirculi.com/?p=35510 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Eu continuei: — Saibas, pois, Trifão, que aquilo que esse, que se chama diabo, fez dizer, de modo alterado, entre os gregos, assim como tudo o que realizou por meio dos magos do Egito ou dos falsos profetas no tempo de Eliasu, tudo isso não é mais do que uma confirmação do meu conhecimento e da minha fé nas Escrituras.

[2] Desse modo, quando dizem que Dioniso é filho de Zeus, nascido da união dele com Sêmele, e o tornam inventor da videira e contam que, depois de morrer despedaçado, ressuscitou e subiu ao céu, e introduzem o asno em seus mistérios, não tenho o direito de ver aí alterada a profecia do patriarca Jacó, antes citada e escrita por Moisés?

[3] De Héracles nos dizem que foi forte e percorreu toda a terra, que também foi filho de Zeus, que nasceu de Alcmena e que, depois de morto, subiu ao céu. Tudo isso não é igualmente um arremedo da Escritura, referida a Cristo: “Forte como um gigante para percorrer o seu caminho”?

[4] Finalmente, quando nos apresenta Asclépio ressuscitando mortos e curando as outras doenças, não direi que também nisso o diabo quer imitar as profecias sobre Cristo?

[5] Mas como não vos citei nenhuma Escritura que indique que Cristo devia realizar essas curas, terei forçosamente que relembrar ao menos uma. Por meio dela, vos será fácil compreender como para os que eram um deserto no que se refere ao conhecimento de Deus, isto é, aos pagãos, que tendo olhos não viam e tendo coração não entendiam, pois adoravam objetos de matéria, a Palavra lhes predisse que renegariam a estes e poriam a sua confiança nesse Cristo.

[6] A profecia diz o seguinte: “Alegra-te, deserto, que estás sedento; regozija-te, deserto, e floresce como lírio. Os desertos do Jordão regozijaram-se e florescerão. Foi-lhe dada a glória do Líbano e a magnificência do Carmelo. E meu povo verá a altura do Senhor e a glória de Deus. Fortalecei-vos, mãos enfraquecidas e joelhos debilitados. Consolai-vos, pusilânimes de coração; fortalecei-vos e não temais. Vede que o nosso Deus paga em julgamento, e ele pagará. Ele virá e nos salvará. Então os olhos dos cegos se abrirão e os ouvidos dos surdos ouvirão; então o coxo saltará como cervo e a língua dos mudos falará com clareza. Porque a água irrompeu no deserto, e uma torrente na terra sedenta; e a que não tinha água se transformará em terra encharcada, e na terra sedenta saltará uma fonte de água”.

[7] Como fonte de água viva da parte de Deus, este Cristo brotou no deserto do conhecimento de Deus, isto é, na terra das nações. Ele apareceu no meio do vosso povo, curou os cegos de nascimento segundo a carne, os surdos e coxos, fazendo, apenas com a sua palavra, que uns saltassem, outros ouvissem, outros recobrassem a vista; ressuscitando os mortos e dando-lhes a vida, por suas obras estimulava os homens para que o reconhecessem.

[8] Eles, porém, mesmo vendo tais prodígios, os consideraram como coisa mágica e, de fato, tiveram a ousadia de dizer que Jesus era um mago e sedutor do povo. Mas ele fazia isso para persuadir aos que iriam acreditar naquele que, mesmo quando alguém tivesse algum defeito corporal, como guardião dos ensinamentos que por meio dele nos foram dados, o ressuscitará íntegro em sua segunda vinda e, ao mesmo tempo, o tornará imortal, incorruptível e impassível.

[9] Quando os que ensinam os mistérios de Mitrax afirmam que ele nasceu de uma pedra, e chamam “gruta” o lugar onde se iniciam os seus crentes, como não reconhecer aqui o que disse Daniel: “Uma pedra foi cortada da grande montanha sem mão nenhuma”, e da mesma forma o que disse Isaías, cujas palavras todas tentaram arremedar?

[10] Com efeito, tiveram a arte de introduzir entre eles até palavras sobre a prática da justiça.

[11] Sou obrigado a citar-vos as palavras ditas por Isaías, a fim de que, por meio delas, percebais que é assim. São as seguintes: “Vós que estais distantes, escutai o que eu fiz; os que se aproximam conhecerão a minha força. Afastaram-se os que em Sião eram iníquos. O tremor surpreenderá os ímpios. Quem vos anunciará o lugar eterno? Aquele que caminha na justiça, aquele que anda no caminho reto, aquele que odeia a iniqüidade e a injustiça, aquele que guarda as mãos limpas de subornos e tapa seus ouvidos para não ouvir o julgamento injusto de sangue; fecha seus olhos para não ver a injustiça: esse habitará na caverna elevada de um forte rochedo.

[12] Ser-lhe-á dado pão e a sua água lhe será assegurada. Vereis o rei com glória e vossos olhos verão longe. Vossa alma meditará o temor do Senhor. Onde está aquele que enumera os que são alimentados, o povo pequeno e grande? Não se aconselharam com ele, não reconheceram a profundidade das vozes, de modo que não ouviram. Povo envilecido e que não tem inteligência quando ouve”.

[13] Portanto, é evidente que nesta profecia ele também fala sobre o pão que nosso Cristo nos mandou celebrar como memória dele se ter feito homem por amor dos que nele crêem — pelos quais também se tornou passível —, e do cálice que, como lembrança do seu sangue, nos mandou igualmente consagrar com ação de graças.

[14] A mesma profecia deixa claro que veremos este mesmo como rei glorioso, e suas próprias palavras estão dizendo aos gritos que o povo que foi de antemão conhecido como seu crente, também foi conhecido como meditante do temor do Senhor.

[15] Essas Escrituras também clamam que aqueles que imaginam conhecer a letra das Escrituras, ao ouvirem as profecias, não atingem a compreensão delas. Portanto, Trifão, quando ouço falar que Perseu nasceu de uma virgem, compreendo que a serpente enganadora também quis arremedar isso.

[16] Não me deixo persuadir por vossos mestres, que não admitem estar bem feita a tradução de vossos setenta anciãos que estiveram com Ptolomeu, rei do Egito, mas colocaram-se eles mesmos a traduzir.

[17] Além disso, quero que saibais que eles eliminaram completamente muitas passagens da versão dos setenta anciãos que estiveram com o rei Ptolomeu, nas quais se demonstra que esse mesmo Jesus crucificado foi claramente anunciado como Deus e homem, e que havia de ser crucificado e morrer.

[18] Como sei que todos de vossa raça os rejeitam, não me detenho em discuti-los, mas passo às provas tomadas dos que ainda admitis.

[19] Com efeito, todos vós reconheceis todos os textos que até agora vos citei, exceto o seguinte: “Eis que uma virgem conceberá”, que vós dizeis que se deve ler: “Eis que uma jovem conceberá”. Eu vos prometi demonstrar que esta profecia não se refere a Ezequias, como vos ensinaram, mas a este meu Cristo.

[20] Trifão disse: — Antes, pedimos que nos digas algumas das Escrituras que tu dizes terem sido completamente eliminadas.

[21] Eu lhe respondi: — Farei como desejardes. Dos comentários que Esdras fez à lei da Páscoa, tiraram a seguinte passagem: “E Esdras disse ao povo: Esta Páscoa é nosso salvador e nosso refúgio. Se refletirdes e subir ao vosso coração que iremos humilhá-lo na cruz e, depois disso, esperardes nele, este lugar jamais ficará desolado, diz o Senhor das virtudes. Porém, se não crerdes nele, nem ouvirdes a sua pregação, sereis a zombaria das nações.”

[22] Das profecias de Jeremias tiraram também esta passagem: “Eu sou como cordeiro que é levado para o sacrifício. Contra mim cogitaram pensamentos, dizendo: Vinde, atiremos um pedaço de madeira em seu pão, arranquemo-lo da terra dos vivos e o nome dele nunca mais será lembrado”.

[23] Esta passagem de Jeremias ainda se encontra em alguns exemplares das sinagogas dos judeus, pois a eliminação foi feita recentemente. Pois bem. Quando por essas palavras se procura demonstrar que os judeus conspiraram contra o próprio Cristo, decidindo tirar-lhe a vida pelo suplício da cruz, e que ele é indicado, conforme foi profetizado por Isaías, como o cordeiro que é levado ao matadouro e aí se nos apresenta como cordeiro inocente, por não terem o que responder, eles se refugiam na blasfêmia.

[24] Das palavras de Jeremias também eliminaram esta passagem: “O Senhor, o Deus Santo de Israel, lembrou-se de seus mortos, dos que dormiram na terra amontoada, e desceu até eles para anunciar-lhes a sua salvação”.

[25] Do salmo 96, das palavras de Davi, eliminaram estas curtas expressões: “Do alto do madeiro”. Porque dizendo a palavra: Dizei entre as nações: o Senhor reina do alto do madeiro, deixaram apenas: “Dizei entre as nações: o Senhor reina”.

[26] Entre as nações, nunca se referiu a homem nenhum de vossa descendência como Deus e Senhor, que tenha reinado, exceto desse que foi crucificado, do qual, no mesmo salmo, o Espírito Santo nos diz que se salvou e ressuscitou, dando-nos a entender que não é semelhante aos deuses das nações; estes, de fato, são apenas imagens de demônios.

[27] E para que compreendais o que estou dizendo, vou recitar-vos todo o salmo, que assim diz: “Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai ao Senhor, terra inteira; cantai ao Senhor e bendizei o seu nome. Levai dia a dia a boa nova da sua salvação. Anunciai entre as nações a sua glória, em todos os povos as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e muito digno de louvor. Ele é terrível sobre todos os deuses. Porque todos os deuses das nações são demônios, mas o Senhor fez os céus. Louvor e beleza estão diante dele, santidade e magnificência estão em seu santuário. Levai ao Senhor, famílias das nações, levai ao Senhor glória e honra. Levai ao Senhor glória em seu nome. Tomai sacrifícios e entrai em seus átrios, adorai ao Senhor em seu átrio santo. Que a terra inteira estremeça em sua presença. Dizei entre as nações: O Senhor reina do alto do madeiro. Porque ele endireitou a terra, que não se abalará. Julgará os povos com retidão. Alegrem-se os céus e regozije-se a terra; estremeça o mar e tudo o que ele contém. Todas as árvores do bosque se alegrarão na presença do Senhor, porque ele vem, porque vem para julgar a terra. Julgará o orbe da terra com justiça e os povos com a sua verdade”.

[28] Trifão disse: — Se, de fato, nossos chefes do povo suprimiram algo das Escrituras, como tu dizes, é coisa que só Deus sabe; contudo, parece incrível.

[29] Eu repliquei: — Sim, parece incrível, porque isso é mais terrível do que ter fabricado o bezerro de ouro, depois de terem sido saciados na terra com o maná celestial; é mais terrível do que sacrificar os filhos aos demônios e matar os próprios profetas. Entretanto, agis como se não tivésseis ouvido as Escrituras que eu vos disse que eles suprimiram. De fato, para demonstrar as questões que discutimos, são suficientes e até sobram as que foram citadas e as que vos citarei daquelas que são conservadas por vós.

[30] Trifão disse: — Sabemos que as citaste porque nós pedimos. Quanto ao último salmo que tomaste das palavras de Davi, não me parece que se refira a um outro além do Pai, aquele que fez o céu e a terra. Tu, porém, dizes que se refere a esse Jesus passível, que te esforças por demonstrar-nos ser o Cristo.

[31] Eu repondi: — Eu vos peço: enquanto eu vos recito este salmo, refleti sobre a expressão que o Espírito Santo emprega, e sabereis que não falo mal e que nem vós estais realmente sendo enganados. Desse modo, atendendo-vos a vós mesmos, poderíeis compreender muitas outras coisas ditas pelo Espírito Santo: “Cantai ao Senhor, terra inteira; cantai ao Senhor e bendizei o seu nome; cantai ao Senhor um cântico novo. Levai dia a dia a boa nova da sua salvação e anunciai a todos os povos as suas maravilhas”.

[32] O que o Espírito Santo ordena aqui é que cantem sem interrupção e celebrem com instrumentos o Deus e Pai do universo todos aqueles que em toda a terra conheceram esse mistério salvador, isto é, a paixão de Cristo, pela qual ele os salvou, reconhecendo que é digno de louvor e terrível e criador do céu e da terra aquele que por amor ao gênero humano realizou essa salvação, e também aquele que morreu crucificado e a quem ele concedeu ser rei sobre toda a terra.

[33] “…a terra, em que este entrará, e me abandonarão e desfarão a minha aliança que eu estabeleci com eles naquele dia. Eu os abandonarei e afastarei deles o meu rosto. Haverá aniquilação e muitos males e tribulações o alcançarão; e dirá, naquele dia: Estes males me aconteceram, porque o Senhor meu Deus não está entre nós; mas eu com afastamento afastarei deles o meu rosto, naquele dia, por causa de todas as maldades que fizeram, pois voltaram-se para deuses estrangeiros”.

[34] Além disso, de modo misterioso, Moisés deu a entender, no livro do Êxodo, que o próprio nome de Deus era Jesus, dizendo que não foi manifestado a Abraão, nem a Jacó, e nós o compreendemos. Porque ele diz assim: “O Senhor disse a Moisés: ‘Dize a este povo: Eis que eu envio o meu anjo diante de ti, para que te guarde no caminho e te introduza na terra que preparei para ti. Atende a ele, escuta-o, e não lhe desobedeças, porque ele não te abandonará, pois o meu nome está nele”.

[35] Portanto, quem introduziu vossos pais na terra, compreendei-o de uma vez por todas, foi aquele que, chamando-se antes Ausés, recebeu o nome de Jesus. Com efeito, se compreendeis isso, reconhecereis que o nome do mesmo que disse a Moisés: “Meu nome está nele”, era Jesus. De fato, ele também se chamava Israel e, do mesmo modo, mudou o nome de Jacó para esse nome.

[36] Além disso, mediante Isaías, os profetas são claramente chamados de anjos e enviados de Deus. Com efeito, eles são enviados para anunciar o que ele quer. Isaías assim diz: “Envia-me”. É algo manifesto a todos que aquele que recebeu o nome de Jesus foi profeta poderoso e grande.

[37] Pois bem. Se sabemos que esse Deus se manifestou em várias formas a Abraão, Jacó e Moisés, como duvidamos e não cremos que ele poderia, conforme o desígnio do Pai do universo, nascer homem da virgem, tendo tantas Escrituras pelas quais literalmente é fácil entender que assim de fato aconteceu, conforme o desígnio do Pai?

[38] De fato, ao dizer “como filho do homem” àquele que recebe o reino eterno, Daniel nos dá a entender justamente isso. Com efeito, dizer “como filho do homem” significa que ele apareceu e nasceu como homem e deixa claro ao mesmo tempo que não é de gérmen humano.

[39] E quando Isaías diz: “Quem contará a sua geração?” deixa claro que sua origem é inexplicável, porque ninguém, que seja homem, nascido de homens, tem origem inexplicável.

[40] E quando Moisés diz que “ele lavaria sua roupa no sangue da uva”, não é o que já vos disse muitas vezes ele ter profetizado misteriosamente? De fato, Moisés deu a entender antecipadamente que Cristo teria sangue sim, mas não de homens, do mesmo modo como não é o homem quem dá origem ao sangue da uva, e sim Deus.

[41] E Isaías, ao chamá-lo de anjo do grande conselho, não manifestou antecipadamente que Cristo, uma vez vindo, haveria de ser mestre daquilo que ensinou? De fato, os grandes conselhos do Pai a respeito de todos os homens, que lhe foram agradáveis ou o serão, assim como sobre os anjos ou homens que se afastaram de sua vontade, somente Cristo os ensinou sem qualquer véu.

[42] “Virão do oriente e do ocidente e se reclinarão com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do Reino serão atirados nas trevas exteriores.”

[43] “Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não comemos e bebemos, profetizamos e expulsamos demônios em teu nome?’ Então eu lhes direi: ‘Apartai-vos de mim’”.

[44] Em outras passagens, também disse as palavras com as quais condenará os que não são dignos de salvar-se: “Ide para as trevas exteriores que meu Pai preparou para Satanás e seus anjos”.

[45] De novo, em outra passagem, disse: “Eu vos dou poder para pisar sobre serpentes, escorpiões, centopéias e por cima de todo o poder do inimigo”. Nós, que cremos em nosso Senhor Jesus, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, exorcizando, temos sob o nosso poder os demônios e espíritos maus.

[46] Com efeito, se pelos profetas foi misteriosamente anunciado que Cristo devia vir de forma passível e depois alcançar o senhorio sobre todas as coisas, sem dúvida ninguém era capaz de entender isso, até que ele próprio persuadiu seus apóstolos que assim estava expressamente anunciado nas Escrituras.

[47] Com efeito, antes de ser crucificado, ele gritava: “É preciso que o Filho do Homem sofra muito, seja rejeitado pelos escribas e fariseus, seja crucificado e ressuscite no terceiro dia”.

[48] E Davi proclamou que havia de nascer do ventre antes do sol e da lua, conforme o desígnio do Pai, e manifestou que, por ser Cristo, era Deus forte e adorável.

[49] Trifão replicou: — Realmente confesso que tantos argumentos assim são suficientes para me convencer. Contudo, quero que saibas que ainda estou esperando que demonstres aquela tua palavra que já pronunciaste muitas vezes. Vai até o fim para nós, para que vejamos como demonstras que a profecia de Isaías se refere a esse vosso Cristo. Nós dizemos que essa profecia foi feita sobre Ezequias.

[50] Eu lhe respondi: — Como desejais, também farei isso. Antes, porém, demonstrai-me, pois que foi profetizado sobre Ezequias, como antes de ser capaz de dizer “pai” e “mãe” tomou o poder de Damasco e os despojos de Samaria diante do rei dos assírios.

[51] Com efeito, não se pode concordar convosco pelo fato de interpretardes como desejais, dizendo que Ezequias fez a guerra contra os de Damasco e os de Samaria na presença do rei dos assírios. “De fato, antes que o menino saiba dizer pai e mãe, tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei dos assírios”, disse a palavra profética.

[52] Com efeito, o espírito profético não teria dito isso, acrescentando “antes de o menino saber dizer pai e mãe, ele tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria”, mas teria dito simplesmente: “E dará à luz um filho e tomará o poder e os despojos de Samaria”.

[53] Poderíeis então dizer que como Deus previa que Ezequias iria tomar isso, ele o predisse. Todavia, é fato que a profecia disse isso, com este acréscimo: “Antes de o menino saber dizer pai e mãe, tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria”.

[54] Agora, vós não podeis demonstrar que isso aconteceu alguma vez a algum judeu; nós, porém, podemos demonstrar que se realizou em nosso Cristo.

[55] Com efeito, logo que ele nasceu, alguns magos vieram da Arábia para adorá-lo, depois de se apresentarem a Herodes, que era então rei da vossa terra. Herodes, por causa de seu caráter ímpio e iníquo, é aquele a quem a palavra chama de rei dos assírios.

[56] Eu continuei: — De fato, sabeis dessas coisas. Muitas vezes o Espírito Santo fala por meio de parábolas e comparações, como fez com o povo de Jerusalém, dizendo muitas vezes: “Teu pai foi um amorreu e tua mãe uma hetéia”.

[57] Com efeito, esse rei Herodes informou-se com os anciãos de vosso povo. Os magos tinham então chegado da Arábia, dizendo terem visto aparecer uma estrela no céu e terem conhecido, por ela ter nascido em vossa terra, um rei, a quem eles vinham adorar.

[58] Os anciãos disseram que ele devia ter nascido em Belém, porque no profeta assim está escrito: “E tu, Belém, terra de Judá, de modo nenhum és a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá o chefe que apascentará o meu povo”.

[59] Portanto, os magos da Arábia chegaram a Belém, adoraram o menino e lhe ofereceram seus dons de ouro, incenso e mirra.

[60] Contudo, depois de adorar o menino em Belém, receberam ordem, através de uma revelação, para não voltarem a Herodes.

[61] José, o esposo de Maria, queria antes expulsar de casa a sua esposa, acreditando que ela estava grávida por alguma relação com um homem, isto é, por adultério.

[62] Todavia, por meio de uma visão, foi-lhe ordenado não expulsar a sua esposa; o anjo que lhe apareceu lhe explicou que o que ela levava em seu seio era obra do Espírito Santo.

[63] Temeroso, José não a expulsou de casa. Ao contrário, na ocasião do primeiro recenseamento da Judéia, no tempo de Quirino, subiu de Nazaré, onde vivia, para inscrever-se em Belém, sua terra de origem.

[64] Com efeito, José procedia por descendência da tribo de Judá, que havia povoado essa terra. Ele, juntamente com Maria, recebe a ordem de partir para o Egito e permanecer aí com o menino, até que novamente lhes seja revelado que podem voltar para a Judéia.

[65] Antes, porém, quando o menino nasceu em Belém, como José não encontrasse onde alojar-se nessa aldeia, retirou-se para uma gruta próxima. Então, estando aí os dois, Maria deu à luz a Cristo e o colocou num presépio, onde os magos da Arábia o encontraram ao chegar.

[66] Já vos citei as palavras com que Isaías profetizou sobre o símbolo da gruta. Por causa dos que vieram hoje convosco, vou recordá-las novamente.

[67] Citei de novo a passagem de Isaías, anteriormente transcrita, repetindo-lhes que, justamente com essas palavras de Isaías, o diabo fez com que os mestres das iniciações de Mitra digam que as praticam no lugar que eles chamam de gruta.

[68] Eu continuei: — Como os magos da Arábia não voltassem para vê-lo, conforme ele havia pedido, mas, seguindo a ordem que lhes fora dada, voltassem ao seu país por outro caminho; como José, juntamente com Maria e o menino, conforme também lhes fora revelado, houvessem já partido para o Egito; não conhecendo o menino que os magos tinham vindo adorar, Herodes mandou matar, sem exceção, todos os meninos de Belém.

[69] E isso foi profetizado por Jeremias, pois assim diz o Espírito Santo por meio dele: “Uma voz se ouviu em Ramá, pranto e muito lamento. Raquel chora seus filhos e não quer consolar-se, porque já não existem”.

[70] Portanto, pela voz que deveria ouvir-se desde Ramá, isto é, desde a Arábia, pois até agora se conserva na Arábia um lugar chamado Ramá, o pranto deveria encher o lugar onde está enterrada Raquel, a mulher do santo patriarca Jacó, que foi chamado Israel; isto é: o pranto encheria Belém, com as mulheres chorando seus próprios filhos assassinados e não aceitando consolo em sua desgraça.

[71] Ademais, quando Isaías diz: “Tomará o poder de Damasco e os despojos de Samaria”, ele quis dizer que logo que Cristo nascesse, seria vencido por ele o poder do demônio mau, que mora em Damasco, coisa que vemos ter-se cumprido.

[72] De fato, os magos que antes tinham sido presa do demônio para a realização de todo tipo de más ações realizadas por influência dele, depois de irem e adorarem a Cristo, se afastaram daquele poder que os havia combatido, o qual misteriosamente a palavra nos diz que morava em Damasco.

[73] E por ser pecador e iníquo, com razão a palavra chama aquele poder de “Samaria”. Que Damasco pertenceu e pertence à Arábia, ainda que atualmente esteja circunscrita à chamada Siro-Fenícia, é coisa que nem vós podereis negar.

[74] Amigos, concluindo tudo isso, seria bom que vós aprendêsseis o que não entendeis de nós, cristãos, que recebemos a graça de Deus, e não lutar de todos os modos para sustentar as vossas próprias doutrinas, desprezando as de Deus.

[75] Por isso, também para nós foi transferida essa graça, como diz Isaías: “Este povo se aproxima de mim. Com seus lábios me honram, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me reverenciam, ensinando preceitos e doutrinas de homens. Por isso, eis que vou continuar transportando este povo, e o transportarei. Tirarei a sabedoria dos seus sábios e anularei a inteligência de seus inteligentes”.

[76] Trifão, um pouco incomodado, mas conservando respeito pelas Escrituras, como se via claramente por seu semblante, disse-me: — As palavras de Deus são santas, mas as vossas interpretações são artificiosas, como aparece pelas que acabas de fazer. Além disso, blasfemas, pois dizes que os anjos foram maus e se afastaram de Deus.

[77] Eu, em tom mais suave, pois desejava dispô-lo a me ouvir, respondi-lhe dizendo: — Amigo, admiro esse teu respeito e peço a Deus que te dê a mesma disposição para com aquele sobre quem está escrito que os anjos servem, como diz Daniel que ele foi apresentado como Filho de Homem ao Ancião dos dias e lhe foi dado todo o reino pelos séculos dos séculos.

[78] Amigo, para que reconheças que não foi a ousadia que nos guiou nessa interpretação que estás censurando, eu te citarei o testemunho do próprio Isaías, o qual diz que os anjos maus habitavam e ainda habitam em Tânis, região do Egito.

[79] Eis as suas palavras: “Ai dos filhos desertores! Isto diz o Senhor: Formastes um conselho não por mim e fizestes alianças não por meu espírito, para acrescentar pecados a pecados. Sem me haverdes consultado, desceis ao Egito, para ser ajudados pelo faraó e protegidos sob a sombra dos egípcios; mas a proteção do faraó se transformará em vossa vergonha e a confiança nos egípcios em opróbrio. Porque em Tânis há príncipes que são anjos maus. Em vão se cansarão com um povo que não lhes servirá de ajuda, mas de vergonha e opróbrio”.

[80] Também Zacarias, como tu mesmo recordaste, diz que o diabo se colocou à direita do sacerdote Jesus como adversário e que o Senhor disse: “Que te acuse o Senhor que escolheu Jerusalém”.

[81] E em Jó também está escrito, numa passagem também citada por ti, que os anjos vieram colocar-se na presença de Deus e que com eles veio também o diabo. Sabemos que os magos do Egito tentaram imitar os prodígios realizados por Deus através de seu fiel servo Moisés.

[82] Por fim, não ignorais que Davi disse que os deuses das nações são demônios.

[83] Diante disso, Trifão me respondeu: — Amigo, já te disse que tu te esforças em tudo para te agarrares às Escrituras. Dize-me, porém: vós realmente confessais que a cidade de Jerusalém será reconstruída e esperais que aí vosso povo irá reunir-se e alegrar-se com Cristo, com os patriarcas, os profetas e os santos de nossa descendência, e até com os prosélitos que viveram antes da vinda de vosso Cristo? Ou chegaste a essa conclusão somente para dar a impressão de que ganhavas de nós a todo custo na discussão?

[84] Eu lhe retruquei: — Trifão, não sou tão baixo para dizer alguma coisa diferente do que sinto. Antes já lhe confessei que eu e muitos outros sentimos dessa forma, de modo que sabemos absolutamente que assim acontecerá. Todavia, também te mostrei que há muitos cristãos, de mentalidade pura e piedosa, que não admitem essas ideias.

[85] Com efeito, os que se chamam cristãos, mas são realmente hereges sem Deus e sem piedade, já te expliquei, ensinam apenas blasfêmias, impiedades e insensatez. Quanto a mim, para que saibais que não digo isso apenas diante de vós, penso compor, conforme a minha possibilidade, um resumo de todos os argumentos que vos apresentei.

[86] Nele escreverei que confesso a mesma coisa que digo diante de vós. De fato, eu não me disponho a seguir homens ou ensinamentos humanos, mas a Deus e aos ensinamentos que dele provêm.

[87] Se vós encontrastes alguns que se dizem cristãos e não confessam isso, mas atrevem-se a blasfemar contra o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó, e dizem que não há ressurreição dos mortos, mas que no momento de morrer suas almas são recebidas no céu, não os considereis como cristãos.

[88] Quando se examina atentamente a coisa, ninguém considerará como judeus os saduceus e seitas semelhantes dos genistas, meristas, galileus, helenianos, fariseus e batistas, mas como pessoas que se chamam judeus e filhos de Abraão, porém que honram a Deus somente com os lábios, como ele próprio clama, enquanto o seu coração está muito longe dele.

[89] De minha parte, eu e alguns outros cristãos de mentalidade correta não só admitimos a futura ressurreição da carne, mas também mil anos em Jerusalém reconstruída, embelezada e aumentada, como o prometem Ezequiel, Isaías e os outros profetas.

[90] Com efeito, Isaías diz a respeito desse tempo de mil anos: “Haverá céu novo e terra nova e não se recordarão dos passados, nem lhes virão à lembrança, mas encontrarão na terra alegria e regozijo que eu crio. Porque eis que eu trago a Jerusalém regozijo e a meu povo alegria, e me regozijarei em Jerusalém e me alegrarei com o meu povo. Nela não mais se ouvirá voz de pranto, nem voz de grito: Aí não nascerá mais um prematuro que vive dias, nem velho que não preencha seu tempo, porque o jovem será filho de cem anos e o pecador, quando morrer, será filho de cem anos, e será amaldiçoado.

[91] Construirão casas, e as habitarão; plantarão vinhas e comerão seus produtos; não construirão e outros habitarão; nem plantarão e outros comerão. Porque os dias do meu povo serão conforme os dias da árvore da vida: as obras de seus trabalhos envelhecerão. Os meus escolhidos não trabalharão em vão, nem gerarão filhos para a maldição, porque são descendência justa e abençoada pelo Senhor, e seus netos estão com eles.

[92] Acontecerá que, antes de gritarem, eu já os terei ouvido; enquanto ainda estiverem falando, eu direi: ‘O que foi?’ Então o lobo e o cordeiro pastarão juntos; o leão comerá capim como o boi, e a serpente comerá terra como pão. Não danificarão, nem destruirão nada no monte santo, diz o Senhor”.

[93] O que se diz nestas palavras: “Porque os dias do meu povo serão conforme os dias da árvore da vida: as obras de seus trabalhos envelhecerão”? Compreendemos que significa misteriosamente os mil anos. Com efeito, como foi dito a Adão que ele morreria no dia em que comesse da árvore da vida, sabemos que os mil anos não se realizaram.

[94] Compreendemos também que vem ao encontro de nosso propósito a expressão: “Um dia do Senhor é como mil anos”.

[95] Além disso, houve entre nós um homem chamado João, um dos apóstolos de Cristo, que, numa revelação que lhe foi feita, profetizou que os que tiverem acreditado em nosso Cristo passarão mil anos em Jerusalém e que, depois disso, viria a ressurreição universal e, dizendo brevemente, a ressurreição eterna e o julgamento de todos juntos.

[96] A mesma coisa foi dita por nosso Senhor: “Não se casarão, nem serão dadas em matrimônio, mas serão como os anjos, pois são filhos do Deus da ressurreição”.

[97] Entre nós, com efeito, até o presente existem carismas proféticos. De onde, vós mesmos deveis compreender que os de antes que existiam em vosso povo, passaram para nós.

[98] Contudo, da mesma forma que entre os santos profetas que houve entre vós se misturaram também falsos profetas, hoje também entre nós existem muitos falsos mestres. Nosso Senhor já nos avisara de antemão que nos precavêssemos deles, de modo que nada nos pegasse de surpresa, pois sabemos que ele previu o que havia de nos acontecer depois de sua ressurreição dos mortos e subida ao céu.

[99] Com efeito, ele disse que seríamos assassinados e odiados por causa do seu nome e que muitos falsos profetas e falsos cristos apareceriam em seu nome e fariam muitos se extraviarem, o que realmente acontece.

[100] Porque muitos, com marca falsa de verdade, ensinaram em seu nome coisas ímpias, blasfemas e iníquas; ensinaram e continuam ensinando o que o espírito impuro do diabo lhes inspirou em suas mentes.

[101] De minha parte, tanto em relação a eles como a vós, ponho todo o meu empenho em tirá-los do erro, sabendo que todo aquele que, podendo dizer a verdade, não a diz, será julgado por Deus como o próprio Deus o testemunhou por meio de Ezequiel, dizendo: “Eu te coloquei como vigia da casa de Judá. Se o pecador pecar e tu não o repreenderes, ele certamente perecerá em seu pecado. Mas eu reclamarei de ti o sangue dele. Se o repreenderes, porém, ficarás sem culpa”.

[102] Portanto, por temor de Deus, também nós nos esforçamos em conversar conforme as Escrituras, não por amor ao dinheiro, à honra ou ao prazer, coisas que ninguém pode nos atirar no rosto.

[103] Também não queremos viver como os príncipes do vosso povo, que Deus acusa com estas palavras: “Vossos príncipes são companheiros de ladrões, que amam os presentes e procuram a recompensa”.

[104] Todavia, se também entre nós encontrais alguns desse tipo, ao menos não blasfemeis contra Cristo por causa deles, nem vos esforceis para interpretar falsamente as Escrituras.

[105] Vossos mestres tiveram a ousadia de afirmar que se aplica a Ezequias esta frase: “O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo para teus pés.” Tratar-se-ia da ordem que lhe foi dada para sentar-se à direita do templo, quando o rei dos assírios lhe enviou uma embaixada ameaçadora e através de Isaías lhe foi dito que não tivesse medo.

[106] Quanto a nós, sabemos e reconhecemos que se cumpriu o que foi dito por Isaías. De fato, o rei dos assírios se retirou sem ter conquistado Jerusalém nos dias de Ezequias e o anjo do Senhor exterminou uns cento e oitenta e cinco mil do acampamento dos assírios.

[107] Contudo, é evidente que o salmo não fala dele. Seu teor é o seguinte: “O Senhor disse a meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo para teus pés. Enviará um cetro de poder sobre Jerusalém e dominará em meio dos teus inimigos. No esplendor dos santos, antes do astro da manhã, eu te gerei. Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec”.

[108] Pois bem. Quem não confessa que Ezequias não é sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec? Quem não sabe que não foi ele que libertou Jerusalém? Quem não está a par de que não foi Ezequias que enviou um cetro de poder sobre Jerusalém, nem dominou em meio a seus inimigos, e sim que foi Deus quem afastou os inimigos de Ezequias, que chorava e se lamentava?

[109] Nosso Jesus, porém, sem ainda ter vindo glorioso, enviou a Jerusalém um cetro de justiça, isto é, a palavra do chamado e da conversão dirigida a todas as nações sobre as quais dominavam os demônios, como o diz Davi: “Os deuses das nações são demônios”.

[110] E sua poderosa palavra persuadiu muitos a abandonarem os demônios a quem serviam e a crer, por meio dele, no Deus onipotente, porque os deuses das nações são demônios.

[111] Por fim, a frase: “No esplendor dos santos, antes do astro da manhã, eu te gerei”, já dissemos antes que se refere a Cristo.

[112] Quanto à frase: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”, foi dita em relação a Cristo.

[113] De fato, se este, de quem Isaías falava, não haveria de nascer de uma virgem, então por que o Espírito Santo clamava: “Eis que o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”?

[114] Se também este teria que nascer de união carnal como qualquer outro primogênito, então por que Deus falava em realizar um sinal que não fosse comum a todos os primogênitos?

[115] No entanto, trata-se verdadeiramente de um sinal maravilhoso e digno de ser crido pelo gênero humano: de um ventre virginal nasceria como verdadeiro menino, feito carne, aquele que é primogênito de todas as criaturas.

[116] E esse é aquele que antecipadamente, por meio do Espírito profético, Deus anunciou de uma e outra forma, como já vos mostrei, para que, quando acontecesse, reconhecêssemos ter acontecido por poder e desígnio do Criador de todas as coisas.

[117] Do mesmo modo, Eva foi formada de uma costela de Adão e assim também, pela palavra de Deus, no princípio foram criados todos os seres viventes.

[118] Vós, porém, inclusive nesta passagem, tendes a ousadia de mudar a interpretação dada pelos vossos anciãos que trabalharam junto a Ptolomeu, rei do Egito.

[119] E dizeis que não consta no texto original o que eles interpretaram, mas: “Eis que uma mulher jovem conceberá”, como se fosse sinal de grande obra que uma mulher conceba através de relação carnal, coisa que fazem todas as mulheres jovens, exceto as estéreis.

[120] E mesmo estas, se Deus quiser, pode fazê-las conceber.

[121] De fato, a mãe de Samuel, que não concebia, concebeu por vontade de Deus; do mesmo modo, a mulher do santo patriarca Abraão, assim como Isabel, aquela que deu à luz João Batista, e outras.

[122] De modo que não tendes motivo para supor que Deus não possa fazer o que ele quiser.

[123] Sobretudo, tendo sido profetizado que haveria de acontecer, não vos atrevais a mudar ou interpretar falsamente as Escrituras, pois com isso prejudicareis somente a vós mesmos e não a Deus.

 

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 8 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-8/ Sat, 14 Mar 2026 12:59:36 +0000 https://vcirculi.com/?p=35502 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Eu lhe disse: — Citar-vos-ei passagens das Escrituras e não pretendo oferecer-vos discursos retoricamente preparados, pois não tenho talento para tal coisa. Deus apenas me deu graça para entender as Escrituras e, sem recompensa ou inveja, convido a que todos participem dessa graça, para que eu não tenha de prestar contas disso no julgamento em que Deus, Criador do universo, nos julgará por meio do meu Senhor Jesus Cristo.

[2] Trifão replicou: — Também quanto a isso tu te comportas conforme a piedade. Todavia, parece que falas com ironia ao dizer que não possuis a arte dos discursos.

[3] Eu lhe respondi novamente: — Se assim te parece, assim seja. Todavia, creio que eu disse a verdade. Seja como for, compreendei as novas provas que vos quero dar.

[4] Trifão respondeu: — Apresenta-as.

[5] Eu continuei: — Irmãos, Moisés também escreve que este que apareceu aos patriarcas e que se chama Deus, também se chama anjo e Senhor, a fim de que por meio desses nomes percebais como ele serve ao Pai do universo, como já concordastes, e, confirmados por novas provas, o sustenteis firmemente.

[6] Portanto, contando a palavra de Deus, por meio de Moisés, a história de Jacó, neto de Abraão, ele assim diz: “Aconteceu que, quando as ovelhas se juntavam e concebiam, eu as vi com os meus olhos em sonhos. Os bodes e os carneiros cobriam as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. E o anjo de Deus disse-me em sonhos: ‘Jacó! Jacó!’”

[7] Eu lhe respondi: ‘Que foi, Senhor?’ Ele me disse: ‘Levanta os teus olhos e olha os bodes e os carneiros que cobrem as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. Porque vi tudo o que Labão faz contigo. Eu sou o Deus que apareceu a ti no lugar de Deus, onde me ungiste uma pedra e me fizeste um voto. Agora, portanto, levanta-te, sai desta terra e vai para a terra onde nasceste, e eu estarei contigo’.”

[8] Novamente, em outra passagem, falando do mesmo Jacó, ele assim diz: “Levantando-se naquela noite, Jacó tomou suas duas mulheres, as duas servas, os seus onze filhos, e atravessou o vau do Jaboc. Tomou-os, atravessou a torrente e fez passar todas as suas coisas. Jacó ficou sozinho, e um anjo lutou com ele até o amanhecer. Vendo que não conseguia vencê-lo, tocou-lhe o músculo da coxa e o músculo da coxa de Jacó ficou entorpecido, enquanto lutava com o anjo. Este lhe disse: ‘Deixa-me, pois a manhã já está chegando’.”

[9] Jacó replicou: ‘Não te soltarei até que me abençoes’. O anjo lhe perguntou: ‘Qual é o teu nome?’ Ele respondeu: ‘Jacó’. O anjo lhe disse: ‘Daqui por diante não te chamarás Jacó, mas o teu nome será Israel. Já que mediste forças com Deus, também serás poderoso com os homens’. Jacó lhe perguntou: ‘Dize-me qual é o teu nome’. Ele respondeu: ‘Para que perguntas o meu nome?’ E o abençoou. E Jacó deu àquele lugar o nome de Face de Deus. Com efeito vi Deus face a face e a minha alma se alegrou.

[10] Novamente, em outra passagem, falando sobre o mesmo Jacó, diz o seguinte: “Jacó chegou a Luza, que está na terra de Canaã — Luza é Betel — , e todo o povo que estava com ele. Edificou aí um altar e deu a esse lugar o nome de Betel, porque aí Deus lhe havia aparecido, quando fugia da presença de seu irmão Esaú. Então morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada na parte inferior de Betel, sob o carvalho. E Jacó lhe deu o nome de Carvalho-do-Pranto. Deus apareceu ainda a Jacó em Luza, quando voltou da Mesopotâmia da Síria, e o abençoou. Deus lhe disse: Teu nome não será mais Jacó, mas teu nome será Israel.”

[11] É chamado Deus; é e será Deus.

[12] Como todos consentissem com acenos de cabeça, eu prossegui: — Porque julgo-as necessárias, citar-vos-ei as palavras que nos narra como, ao fugir de seu irmão Esaú, lhe apareceu esse que é anjo, Deus e Senhor, o mesmo que em forma de varão apareceu a Abraão e em forma de homem lutou com o próprio Jacó.

[13] Ei-las: “Jacó partiu do poço do juramento e foi para Harã e depois a um lugar onde dormiu, pois o sol já se havia posto. Tomou uma pedra daquele lugar, a fez de travesseiro, dormiu naquele lugar e sonhou. Viu uma escada fixada na terra e cujo cimo chegava ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E o Senhor estava em cima dela.

[14] E lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e de Isaac. Não temas. Darei a ti e à tua descendência a terra sobre a qual dormes. E tua descendência será como o pó da terra e se expandirá até o mar, ao meio-dia, ao norte e a oriente. E em tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Vê: eu estou contigo, guardando-te em todo caminho por onde andares. Farei com que voltes a esta terra e não tenhas medo que eu te abandone até que se cumpra o que te disse’.

[15] Jacó despertou de seu sonho e disse: ‘O Senhor está neste lugar e eu não sabia’. Teve medo e disse: ‘Este lugar é terrível! É a casa de Deus e a porta do céu.’ Jacó então se levantou, tomou a pedra que fizera de travesseiro, a dispôs em coluna e derramou óleo na sua ponta. E Jacó deu àquele lugar o nome de Casa de Deus. Antes a cidade se chamava Ulamarús.

[16] Dito isso, acrescentei: — Permiti que vos demonstre também através do livro do Êxodo como o mesmo que apareceu a Abraão e Jacó como anjo Deus, Senhor, varão e homem, foi visto por Moisés e falou com ele na chama de fogo na sarça.

[17] Eles responderam que me ouviriam com prazer, sem cansar-se e fervorosamente. Por isso, eu continuei: — Eis o que está escrito no livro do Êxodo: “Depois desses muitos dias, morreu o rei do Egito e os filhos de Israel gemeram por causa dos trabalhos”, e o restante até: “Vai e reúne os anciãos de Israel e lhes dirá. ‘O Senhor Deus de vossos pais apareceu a mim, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó, dizendo-me: Com visita visito a vós e a tudo o que acontece no Egito’.”

[18] Em seguida, acrescentei: — Senhores, compreendeis que aquele que Moisés disse ter-lhe falado como anjo na chama de fogo, esse mesmo, por ser Deus, manifestou a Moisés que ele é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó?

[19] Trifão disse: — Não é essa a conclusão que tiramos das palavras citadas, e sim que foi um anjo quem apareceu na chama de fogo e foi Deus quem falou com Moisés. Desse modo, na visão de outrora houve juntamente um anjo e Deus.

[20] Eu respondi novamente: — Amigos, ainda que isso tenha acontecido outrora, isto é, que na visão concedida a Moisés tenha havido um anjo e Deus, como foi demonstrado pelas palavras antes transcritas, não pode ter sido o Criador do universo o Deus que disse a Moisés que era o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, mas aquele que já vos demonstrei que apareceu a Abraão e a Jacó, aquele que serve à vontade do Criador do universo e que, de fato, cumpriu os desígnios dele no julgamento de Sodoma. De modo que ainda que fosse como dizeis, que ali houve dois, um anjo e Deus, certamente ninguém, por pouca inteligência que tenha, se atreveria a dizer que foi o Criador e Pai do universo que, deixando todas as suas moradas supra-celestes, apareceu em uma pequena porção da terra.

[21] Trifão disse: — Como nos demonstraste que aquele que apareceu a Abraão, e se chama Deus e Senhor, infligiu a Sodoma o castigo que o Senhor que está no céu mandou-lhe infligir, agora entendemos, mesmo supondo que tenha havido um anjo com o Deus que apareceu a Moisés, que o Deus que lhe falou da sarça não foi o Deus criador de todas as coisas, mas aquele que se nos demonstrou ter aparecido a Abraão, Isaac e Jacó. Ele se chama mensageiro do Deus criador do universo, e se compreende que o seja, por ser ele que anuncia aos homens as mensagens do Pai criador de todas as coisas.

[22] Eu continuei: — Trifão, agora vou demonstrar-vos que na visão de Moisés, esse mesmo que se chama anjo e é Deus, foi o único que apareceu a Moisés e conversou com ele. Com efeito, a Palavra diz assim: “O Senhor apareceu-lhe em chama de fogo na sarça. Ele via que a sarça ardia, mas não se queimava. Então Moisés disse: ‘Aproximar-me-ei para ver esta grande visão: a sarça não se queima’. Então o Senhor, quando viu que Moisés se aproximava para ver, chamou-o da sarça”.

[23] Pois bem. O modo com que ele apareceu a Jacó em sonhos, a Palavra o chama de anjo. Contudo, esse anjo que lhe aparece em sonhos nos diz a mesma palavra que ele disse: “Eu sou o Deus que te apareceu, quando fugias da presença de Esaú, teu irmão”. A respeito de Abraão, nos narrou que o castigo de Sodoma foi infligido pelo Senhor por parte do Senhor que está nos céus. Assim aqui, ao dizer que o anjo do Senhor apareceu a Moisés e dando-nos imediatamente a entender que esse mesmo é Deus e Senhor, a Palavra nos fala do mesmo Deus sobre o qual nos dá a entender, por tantos testemunhos antes citados, ser ele que serve ao Deus que está acima do mundo e acima do qual não há nenhum outro.

[24] Eu prossegui: — Amigos, apresentar-vos-ei outro testemunho das Escrituras sobre um princípio anterior a todas as criaturas que Deus gerou, certa potência racional de si mesmo, que é chamada pelo Espírito Santo Glória do Senhor, às vezes Filho, outras Sabedoria, ou ainda Anjo ou Deus, Senhor, Palavra. Ela mesma se autodenomina Chefe do exército, ao aparecer em forma de homem a Josué, filho de Nave. Todas essas denominações lhe são atribuídas por estar a serviço da vontade do Pai e por ter sido gerada pela vontade do Pai.

[25] Não percebemos que algo semelhante se dá conosco? De fato, ao emitir uma palavra, geramos a palavra não por corte, diminuindo a razão que existe em nós ao emiti-la. Vemos coisa parecida também no fogo que acende outro, sem que diminua aquele da qual a chama foi tomada, mas permanecendo o mesmo. O fogo aceso também aparece com o seu próprio ser, sem ter diminuído em nada aquele no qual foi aceso.

[26] Entretanto, será a palavra da sabedoria que me dará testemunho, pois ela é esse mesmo Deus gerado pelo Pai do universo e que subsiste como palavra, sabedoria, poder e glória daquele que a gerou. Ela diz o seguinte, pela boca de Salomão: “Depois de anunciar-vos o que acontece cada dia, ater-me-ei a enumerar-vos as coisas que existem desde a eternidade. O Senhor me gerou como princípio de seus caminhos para as suas obras. Alicerçou-me antes do tempo, no princípio, antes de fazer a terra, antes de criar os abismos, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes de assentar as montanhas, antes de todas as colinas, ele me gerou. O Senhor fez as regiões, a terra inabitada e os montes que se habitam debaixo do céu. Quando ele preparava o céu, eu lhe fazia companhia; quando colocava seu trono acima dos ventos, quando dava solidez às nuvens do alto, quando solidificava as fontes do abismo, quando firmava os alicerces da terra, junto a ele estava eu, harmonizando. Era comigo que ele se alegrava; em todo o tempo, dia a dia, eu me regozijava em sua presença, porque ele se regozijava terminando a terra e se regozijava nos filhos dos homens.

[27] Agora, filho, escuta-me. Bem-aventurado o varão que me escutar e o homem que guardar meus caminhos, vigiando diariamente as minhas portas e observando os umbrais de minhas entradas. Porque minhas saídas são saídas de vida e a complacência está preparada pelo Senhor. Contudo, os que pecam contra mim são ímpios contra a própria alma; os que me odeiam amam a morte.”

[28] Amigos, foi do mesmo modo que a palavra de Deus se expressou pela boca de Moisés ao indicar-nos que o Deus que se manifestou a nós falou a mesma coisa na criação do homem, dizendo estas palavras: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre as feras, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus fez o homem; à imagem de Deus o fez; macho e fêmea os fez. E Deus os abençoou, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai sobre ela.”

[29] Para que não deturpeis as palavras citadas e digais o que dizem os vossos mestres, que Deus se dirigiu a si mesmo ao dizer “façamos”, como nós, ao fazer algo, dizemos “façamos”, ou que falou com os elementos, isto é, com a terra e outras coisas de que sabemos que o homem é composto, e a eles disse “façamos”, citar-vos-ei agora outras palavras do mesmo Moisés. Através delas, sem nenhuma discussão possível, temos de reconhecer que Deus conversou com alguém que era numericamente distinto e igualmente racional.

[30] Ei-las: “Eis que Adão se tornou como um de nós para conhecer o bem e o mal”. Portanto, ao dizer “como um de nós”, indica o número dos que entre si conversam e que, no mínimo, são dois. Não posso aceitar como verdadeiro o que dogmatiza aquela que entre vós se chama heresia, nem os seus mestres são capazes de provar que Deus fala com anjos ou que o corpo humano é obra de anjos.

[31] Mas esse gerado, emitido realmente pelo Pai, estava com ele antes de todas as criaturas e com ele o Pai conversa, como nos manifestou a palavra por meio de Salomão, ao dizer-nos que, antes de todas as criaturas, foi gerado por Deus como princípio e progênie esse mesmo que é chamado sabedoria por Salomão.

[32] A mesma coisa se diz pela revelação feita a Josué, filho de Nave. E para que, por esta passagem, vejais com clareza o que vos digo, escutai o que se narra no livro de Josué.

[33] É o seguinte: “Quando Josué estava em Jericó, aconteceu que, levantando os olhos, ele viu um homem de pé diante de si. Adiantando-se, Josué perguntou: ‘És um dos nossos ou dos inimigos?’ Ele replicou: ‘Eu sou o chefe do exército do Senhor e acabei de chegar’. Então Josué se prostrou com o rosto por terra e lhe disse: ‘Senhor, o que ordenas ao teu servo?’ O chefe do exército do Senhor disse a Josué: ‘Desata as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa’. Jericó estava fechada e fortificada e ninguém saía dela. O Senhor disse a Josué: ‘Vê. Entrego-te Jericó submissa, juntamente com o rei que nela reside, por mais poderosos que sejam por sua força’.”

[34] Trifão disse: — Amigo, esse ponto tu demonstraste com firmeza e abundantemente. Agora demonstra o fato de que esse se dignou nascer homem de uma virgem, segundo a vontade de seu Pai, ser crucificado e morrer. Por fim, prova-nos que, depois disso, ele ressuscitou e subiu ao céu.

[35] Eu respondi: — Isso também já foi demonstrado pelas passagens por mim citadas e que, por consideração a vós, citarei e as comentarei novamente para ver se consigo que cheguemos a acordo também sobre isso. Pelo menos a palavra de Isaías disse: “Quem contará a sua geração? Porque sua vida é arrebatada da terra” não te parece ter sido dita no sentido de que aquele que Deus falou ter sido entregue à morte pelas iniqüidades do seu povo não descende de homens? E de seu sangue, como falei antes, disse Moisés, falando misteriosamente, que lavaria sua veste no sangue da uva, dando a entender que o seu sangue não viria de germe humano, mas da vontade de Deus.

[36] E as palavras de Davi: “Nos esplendores dos teus santos, do ventre, antes do astro da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” não significam para vós que, desde a antiguidade e num ventre humano, haveria de gerá-lo aquele que é Deus e Pai do universo?

[37] Em outra passagem, também citada antes, ele diz: “Teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos. O cetro do teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade. Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria mais do que aos teus companheiros. Mirra, aloés e cássia exalam das tuas vestes e das moradas de marfim, pelas quais te festejam. Em teu cortejo há filhas de reis. A rainha se apresentou à tua direita, vestida com roupa recamada de ouro e de várias cores. Escuta, filha, vê e inclina o teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua beleza. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás.”

[38] Essas palavras dão a entender claramente que se deve adorar a ele, que é Deus e Cristo, testemunhado pelo Criador deste mundo. E, de modo não menos claro, nos anunciam que o Verbo de Deus fala, como se fosse com sua filha, com aqueles que nele crêem, como se fossem uma só alma, uma só congregação, uma só Igreja — a Igreja que nasce de seu nome e dele participa, pois todos nós nos chamamos cristãos —, ao mesmo tempo que nos ensinam a esquecer-nos dos nossos antigos costumes, que vieram de nossos pais, no lugar onde se diz: “Ouve, filha, vê e inclina a teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás.”

[39] Trifão replicou: — Vós, que procedeis das nações, podeis reconhecê-lo como Senhor, como Cristo e como Deus, conforme o indicam as Escrituras. Vós que, a partir do seu nome, viestes a ser chamados de cristãos. Nós, porém, que servimos ao próprio Deus que fez este mundo, não temos nenhuma necessidade de confessá-lo ou de adorá-lo.

[40] A isso eu respondi: — Trifão, se eu fosse como vós, homem amigo de disputas e vazio, não continuaria a discutir convosco, pois não estais dispostos a entender o que se diz. Pensais apenas em aguçar a mente para responder. Todavia, como temo o julgamento de Deus, não me apresso a afirmar, a respeito de ninguém de vossa raça, que não pertença ao número dos que, pela graça do Deus dos exércitos, podem salvar-se. Por isso, por mais malícia que demonstreis, continuarei respondendo a tudo o que objetardes e contradizerdes. É o que faço absolutamente com todos, de qualquer nação que sejam e que queiram discutir comigo ou informar-se sobre essas questões.

[41] Agora, porém, que os que se salvam de vossa raça, se salvam por Cristo e estão ao seu lado, é algo que já deveríeis ter compreendido se tivésseis prestado atenção às passagens da Escritura anteriormente citadas por mim e, é claro, não me teríeis perguntado sobre isso. Vou, então, novamente citar as palavras de Davi, e peço-vos que vos esforceis por entendê-las e não só para mostrar vossa maldade e contradizê-las.

[42] As palavras que Davi disse são as seguintes: “O Senhor reina; que os povos se irritem. Ele se assenta sobre os querubins; que a terra estremeça. O Senhor é grande em Sião e excelso sobre todos os povos. Que eles confessem o teu grande nome, porque é terrível e santo, e a majestade do rei ama o julgamento. Tu preparaste retidões, realizaste em Jacó julgamento e justiça. Exaltai o Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele é santo. Moisés e Aarão entre os seus sacerdotes; Samuel entre os que invocam o seu nome. Invocavam o Senhor, e ele os escutava. Falava-lhes da coluna de nuvem, porque guardavam os seus testemunhos e as ordens que ele lhes dera.”

[43] Há também outras palavras de Davi, também já citadas antes, que vós insensatamente aplicais a Salomão, por levarem o título “A Salomão”. Todavia, já demonstrei que não se referem a Salomão. Por meio delas, prova-se que este Jesus existia antes do sol e que todos os do vosso povo que se salvarem, se salvarão por meio dele.

[44] São estas: “Ó Deus, concede o teu julgamento ao rei e a tua justiça ao filho do rei. Ele julgará o teu povo com justiça e os teus necessitados com eqüidade. Que os montes façam brotar paz para o povo e as colinas, a justiça. Ele julgará os necessitados do povo e salvará os filhos dos pobres, e abaterá o caluniador. Ele permanecerá tanto como o sol e antes que a lua, por geração de gerações”, até a seguinte passagem: “O seu nome permanece antes que o sol e nele todas as nações serão abençoadas. Todas as nações o proclamarão feliz. Bendito seja o Senhor Deus de Israel, o único que realiza maravilhas, e bendito o seu nome glorioso pelos séculos dos séculos. Toda a terra ficará repleta de sua glória. Assim seja. Assim seja.”

[45] Por outras palavras, que vos citei anteriormente como ditas também por Davi, deveis recordar que Jesus tinha de sair das alturas dos céus e voltar novamente para os mesmos lugares, a fim de que o reconheçais como Deus que vem de cima e como homem nascido entre homens, e que novamente deviam vir aqueles ao qual deviam ver e, por causa dele, bater no peito os mesmos que o transpassaram.

[46] São estas: “Os céus contam a glória de Deus e o firmamento anuncia a criação de suas mãos. O dia anuncia a palavra ao dia e a noite anuncia o conhecimento à noite. Não há falas nem discursos, onde não se ouçam as vozes deles. Para toda a terra saiu o seu som e até os confins do orbe da terra chegaram as suas palavras. No sol ele colocou a sua tenda e ele, como esposo que sai de seu quarto nupcial, se alegrará forte como gigante, para percorrer o seu caminho: de uma extremidade do céu é a sua saída, e até a outra extremidade do céu vai o seu percurso e não há quem se esconda do seu calor.”

[47] Eu recomecei meu raciocínio onde havia interrompido minha demonstração de que Cristo nascera de uma virgem e que isso havia sido profetizado por Isaías. Repeti a profecia.

[48] É esta: “O Senhor continuou falando com Acaz e lhe disse: ‘Pede para ti um sinal do Senhor teu Deus, seja nas profundezas, seja nas alturas’. Acaz respondeu: ‘Não pedirei e não tentarei ao Senhor’. Isaías então disse: ‘Escuta, casa de Davi! Por acaso vos parece pouco enfrentar aos homens, de tal maneira que enfrentais também ao Senhor? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe darão o nome de Emanuel. Comerá manteiga e mel.’”

[49] Antes que conheça e escolha o mal, escolherá o bem. Por isso, antes que o menino conheça o bem e o mal, rechaçará o mal para escolher o bem. Por isso, antes que o menino saiba dizer pai e mãe, receberá o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei dos assírios. E a terra, que suportas duramente, será tomada por causa dos dois reis. Contudo, Deus trará sobre ti, sobre teu povo e sobre a casa do teu pai dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim separou de Judá o rei dos assírios.

[50] Pois bem. É evidente para todos que, além do nosso Cristo, ninguém jamais nasceu de uma virgem na descendência carnal de Abraão, nem se disse tal coisa de alguém.

[51] Trifão contestou: — A Escritura não diz: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”, mas: “Eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho”. O resto segue como disseste. Toda a profecia está relacionada com Ezequias, no qual consta ter-se cumprido tudo, conforme a profecia.

[52] Por outro lado, nos mitos dos chamados gregos conta-se que Perseu nasceu de Dânae, sendo esta virgem, pois fluiu até ela, em forma de chuva de ouro, aquele que entre eles é chamado Zeus. É vergonhoso para vós dizerdes coisas semelhantes a eles. Seria melhor dizer que esse Jesus nasceu homem dos homens e que se demonstra pela Escrituras que ele é o Cristo. Deveríeis crer que ele mereceu ser escolhido para Cristo por ter vivido de maneira perfeita conforme a lei. Contudo, não venhais com monstruosidades, a não ser que queirais provar ser tão estúpidos como os gregos.

[53] Então eu respondi: — Trifão, quero que tu te convenças, e todos os homens em geral, de uma coisa: mesmo quando me dirigirdes as maiores chacotas e sarcasmos, não conseguireis afastar-me do meu propósito.

[54] Ao contrário: das mesmas razões e fatos que me propondes para refutar-me, continuarei tirando, juntamente com o testemunho das Escrituras, as provas do que digo.

[55] Certamente não ages corretamente, nem amas a verdade, ao pretender voltar atrás naquilo que já tínhamos chegado a um acordo, isto é, que alguns dos mandamentos dados por Moisés se devem à dureza de coração do vosso povo. De fato, dizes que Jesus foi escolhido e feito Cristo por causa de sua conduta conforme a lei e que isso é prova de que ele é o Cristo.

[56] Trifão disse: — Tu mesmo nos confessaste que ele foi até circuncidado e que guardou todas as observâncias legais instituídas por Moisés.

[57] Eu respondi: — Confessei e confesso. Não confessei, porém, que ele se submeteu a isso para que, por sua observância, devesse ser justificado, e sim para cumprir a economia que desejava o Pai seu e de todas as coisas, Senhor e Deus. Confesso também que ele se dignou morrer crucificado, fazer-se homem e sofrer tudo o que os de vossa descendência quiseram fazer com ele.

[58] Contudo, Trifão, já que negas de novo admitir o que antes havias admitido, responde-me: os justos e patriarcas que viveram antes de Moisés sem ter guardado nada do que consta pela palavra que teve em Moisés seu princípio de ordenação, salvar-se-ão na herança dos bem-aventurados, ou não?

[59] Trifão replicou: — As Escrituras obrigam-me a concordar contigo.

[60] Da mesma forma, eu te pergunto novamente: quanto a vossas ofertas e sacrifícios, Deus ordenou a vossos pais que os realizassem por ter ele necessidade delas, ou por causa da dureza do coração deles e inclinação para a idolatria?

[61] Trifão respondeu: — As Escrituras nos obrigam a confessar também isso.

[62] Eu continuei: — As Escrituras também não anunciaram de antemão que Deus promete estabelecer uma aliança nova, distinta da aliança do monte Horeb?

[63] Trifão disse: — Anunciaram também isso.

[64] Eu retomei: — A antiga aliança não foi ordenada a vossos pais por temor e tremor, até o ponto de vossos pais não poderem ouvir a Deus?

[65] Também com isso ele concordou.

[66] Eu disse: — O que se conclui então daí? Que Deus prometeu que haverá outra aliança não estabelecida como foi estabelecida a primeira, sem temor, nem tremor, nem raios. Ele disse que ela seria estabelecida e que Deus mostraria qual mandamento e obra entende como eternos e apropriados a todo o gênero humano e que é o que ele ordenou, como os profetas proclamam, atendendo à dureza de coração do vosso povo.

[67] Trifão disse: — Quem ama a verdade e não a disputa, forçosamente deverá admitir também isso.

[68] Eu continuei: — Não sei como podes acusar alguém de ser amigo de disputas, quando tu mesmo te mostrastes muitas vezes assim, contradizendo frequentemente as mesmas coisas que antes havias admitido.

[69] Trifão replicou: — Estás tentando demonstrar algo incrível e pouco menos que impossível, isto é, que Deus poderia suportar nascer e tornar-se homem.

[70] Eu respondi: — Se eu tivesse me proposto demonstrar-vos isso, apoiando-me em ensinamentos ou argumentos humanos, é certo que não me aguentaríeis. O caso, porém, é que enquanto eu vos peço que reconheçais as Escrituras que falam abundantemente a esse respeito, citando-as na maioria das vezes literalmente, vós vos tornais duros de coração para compreender o pensamento e a vontade de Deus. Se estais decididos a permanecer sempre assim, de modo nenhum vou me prejudicar com isso. Todavia, tendo da mesma forma de tratar convosco como antes, eu me separarei de vós.

[71] Trifão disse: — Amigo, considera que chegaste a possuir o que tens com muito trabalho e esforço. Nós também, somente depois de examinar cuidadosamente as questões que ocorrem, devemos admitir aquilo a que as Escrituras nos obrigam.

[72] Eu respondi: — Não estou pedindo que não luteis de todas as formas no exame do que discutimos. Peço que, não tendo nada a objetar, não contradigais o que antes dissestes admitir.

[73] Trifão me respondeu: — Vamos tentar fazer assim.

[74] Eu continuei: — Ao que já vos perguntei, quero acrescentar outras perguntas, pois com estas tentarei terminar rapidamente o meu raciocínio.

[75] Trifão disse: — Pode perguntar.

[76] Eu prossegui: — Por acaso vos parece que existe outro a quem se deva adorar e a quem nas Escrituras se chama Senhor e Deus, além do Criador do universo, deste universo inteiro e além do seu Cristo, que, graças a tantos testemunhos das Escrituras, vos foi demonstrado que se fez homem?

[77] Trifão respondeu: — Como podemos confessar que exista, quando fizemos tão grande discussão sobre se absolutamente existe outro, além do único Pai?

[78] Eu repliquei: — Preciso fazer-vos esta pergunta para ver se agora não pensais de maneira diferente daquilo que antes aceitastes.

[79] Trifão disse: — Não, homem.

[80] Eu continuei: — Se, de fato, o admitis realmente, como diz a palavra: “Quem contará a sua geração?” Não devereis já compreender que Cristo não é de descendência humana?

[81] Trifão replicou: — Então, como diz a palavra a Davi que Deus tomará de seu flanco um filho para si e que ele erguerá o reino e se sentará no trono da sua glória?

[82] Eu respondi: — Trifão, se a profecia dita por Isaías não se dirigisse à casa de Davi: “Eis que uma virgem conceberá”, mas à outra casa das doze tribos, talvez a questão apresentasse alguma dificuldade. Contudo, como esta profecia se refere à casa de Davi, Isaías explicou como aconteceria o que misteriosamente foi dito por Deus a Davi.

[83] Eu continuei: — Amigos, a não ser que ignoreis que muitas palavras ditas de modo obscuro, em parábolas, em mistérios ou em símbolos de ações foram explicadas pelos profetas que sucederam aos que as disseram ou realizaram.

[84] Trifão confirmou: — Certamente.

[85] Eu prossegui: — Portanto, se vos demonstro que esta profecia se refere a nosso Cristo e não, como vós dizeis, a Ezequias, não será bom que eu também vos exorte a não crer em vossos mestres, que se atrevem a afirmar que, em alguns pontos, não é exata a tradução feita pelos vossos setenta anciãos que se hospedaram junto a Ptolomeu, rei do Egito?

[86] Desse modo, quando uma passagem da Escritura os argúi fortemente de opinião insensata e pessoal, eles se atrevem a dizer que no texto original não está assim. E os que pensam poder forçar e aplicar às ações humanas que imaginam convenientes, dizem que isso não foi por causa de nosso Jesus Cristo, mas por quem eles pretendem interpretá-lo.

[87] Por outro lado, se lhes citamos Escrituras que demonstram expressamente que o Cristo há de ser ao mesmo tempo passível e adorável e Deus — são essas que citei a vós —, concordam forçosamente que se referem a Cristo, mas têm a ousadia de dizer que Jesus não é o Cristo, apesar de confessar que há de vir um Deus para sofrer, reinar e ser adorado. Eu me encarreguei de demonstrar que tal modo de pensar é, ao mesmo tempo, ridículo e insensato. Contudo, como tenho pressa de responder ao que me objetaste de modo ridículo, responderei a isso primeiro e, mais adiante, apresentarei as provas sobre o restante.

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[1] Trifão replicou: — Parece-me que os que afirmam que Jesus foi apenas homem e que por eleição foi ungido e tornado Cristo dizem coisas mais críveis do que vós, ao dizer o que dizes. Todos nós, com efeito, esperamos o Cristo, que nascerá como homem, de homens, e a quem Elias virá ungir. E este se apresenta como o Cristo, deve-se pensar absolutamente que é homem, nascido de homens. Contudo, pelo fato de Elias não ter vindo, afirmo que esse não é o Cristo.

[2] Eu então perguntei-lhe novamente: — A palavra de Deus, por meio de Zacarias, não diz que Elias virá antes do grande e terrível dia do Senhor?

[3] Ele me respondeu: — Certamente.

[4] Eu continuei: — Portanto, a palavra de Deus leva-nos a admitir que foram profetizadas duas vindas: uma, em que havia de aparecer passível, desonrado e disforme; outra, em que viria glorioso e como juiz universal, como se demonstra pelos muitos testemunhos já alegados. Isso não nos leva a entender que a palavra de Deus anunciou que Elias seria precursor de Cristo na segunda vinda, isto é, do dia temível e grande?

[5] Ele me respondeu: — Certamente.

[6] Eu continuei: — Isso também nosso Senhor nos deixou em seus ensinamentos, quando disse que Elias devia vir, e nós sabemos que isso acontecerá quando nosso Senhor Jesus Cristo voltar do céu com glória. Na sua manifestação, o Espírito de Deus o precedeu como arauto, que esteve em Elias, também esteve em João, profeta do vosso povo, depois do qual nenhum outro profeta tornou a aparecer entre vós. Sentado junto ao rio Jordão, João gritava: “Eu vos batizo com água para a penitência; mas virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não mereço carregar. Ele vos batizará com Espírito Santo e com fogo. Sua pá já está em sua mão, e ele limpa a sua eira, e reunirá o trigo no celeiro e queimará a palha com fogo inextinguível”.

[7] Vosso rei Herodes mandou prender no cárcere esse mesmo profeta e, durante a festa do seu aniversário, uma sobrinha sua o agradou muito com sua dança, e ele falou que ela lhe pedisse o que desejasse. A mãe da jovem lhe sugeriu que pedisse a cabeça de João, que estava no cárcere; ela fez o pedido, e o rei mandou um carrasco e deu ordem que trouxesse a cabeça do profeta sobre uma bandeja.

[8] Foi por isso que o nosso Cristo, estando ainda sobre a terra, ao lhe dizerem alguns que antes do Cristo deveria vir Elias, respondeu: “Sim, Elias virá e restabelecerá tudo, mas eu vos asseguro que Elias já veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram”. E está escrito que “então seus discípulos perceberam que ele lhes havia falado de João Batista”.

[9] Trifão retrucou: — Também me parece absurdo o fato de que digas que o Espírito profético de Deus, que esteve com Elias, também esteve em João.

[10] Eu lhe respondi: — Não te parece que o mesmo aconteceu com Josué, filho de Nave, que sucedeu a Moisés na direção do povo? Deus mandou que Moisés lhe impusesse as mãos, dizendo: “Transferirei sobre ele parte do Espírito que há em ti”.

[11] Trifão disse: — Certamente.

[12] Eu continuei: — Portanto, da mesma forma que, estando Moisés ainda entre os homens, Deus transferiu sobre Josué parte do Espírito que nele estava, assim também pode fazer que de Elias o Espírito passasse para João. Assim como a primeira vinda de Cristo foi sem glória, também a primeira vinda do Espírito, apesar de permanecer sempre puro em Elias, foi sem glória, como a de Cristo.

[13] Com efeito, dizem que o Senhor guerreava contra Amalec com mão oculta. Entretanto, não podes negar que Amalec caiu. Se apenas com a vinda gloriosa de Cristo se dissesse que Amalec deveria ser combatido, que sentido teria a Escritura que diz: “Deus guerreia contra Amalec com mão oculta?” Portanto, podeis compreender que o Cristo crucificado teve alguma força oculta de Deus, pois diante dele os demônios e todos os principados e potestades da terra estremecem.

[14] Trifão observou: — Parece-me que estás bem treinado no trato com muitos em todas as questões e, por isso, preparado para responder a tudo o que te perguntam. Responde-me, portanto, antes de tudo, como podes demonstrar que existe outro Deus além do Criador do universo, e então me demonstrarás que ele se dignou nascer de uma virgem.

[15] Eu então lhe disse: — Permite-me antes citar algumas palavras do profeta Isaías sobre como João, que foi batizador e profeta, deveria preceder nosso Senhor Jesus Cristo.

[16] Trifão respondeu: — De acordo.

[17] Eu continuei: — Isaías predisse que João deveria preceder a Cristo, dizendo: “Ezequias disse a Isaías: ‘A palavra que o Senhor disse é boa. Haja paz e justiça em meus dias’ ”. E: “Consolai o povo, sacerdotes. Falai ao coração de Jerusalém e consolai-a, porque está cumprida a sua humilhação. Está desatado o seu pecado, porque recebeu da mão do Senhor o dobro dos seus pecados. Voz de quem grita no deserto: ‘Preparai os caminhos do Senhor, tornai retas as veredas do vosso Deus. Todo barranco será nivelado e todo monte e colina será aplainado. Tudo o que é torto será endireitado e tudo o que é áspero se transformará em caminho liso. Será vista a glória do Senhor, e todo homem verá a salvação de Deus. Porque o Senhor falou’.

[18] Voz do que diz: ‘Grita’. Eu disse: ‘Que gritarei?’ Toda carne é feno e toda a glória do homem como flor de feno. O feno secou e sua flor caiu, mas a palavra do Senhor permanece para sempre. Sobe a um monte elevado, tu que dás a boa nova a Sião. Levanta com força a tua voz, tu que levas a boa notícia a Jerusalém. Levantai-vos; não temais. Dize às cidades de Judá: ‘Eis que o vosso Deus, eis que o Senhor vem com força e seu braço chega com poder. Eis que o seu prêmio está com ele e sua obra está diante dele. Como pastor apascentará seu rebanho e com seu braço recolherá os cordeiros e consolará as ovelhas prenhes.

[19] Quem mediu a água com a sua mão, o céu com a palma da mão e a terra inteira com o punho? Quem pesou os montes na balança e o vale em seus pratos? Quem conheceu a mente do Senhor? Quem foi o seu conselheiro para que o ensinasse? Ou em quem ele deliberou, para dele receber instruções? Quem mostrou a ele a justiça ou lhe ensinou o caminho da inteligência? Todas as nações são como gota num balde, foram consideradas como um nada nos pratos da balança e serão tidas como cuspida. O Líbano não é suficiente para queimar e os quadrúpedes não bastam para o holocausto, e todas as nações são nada e são avaliadas como um nada.

[20] Ao terminar a minha citação, Trifão disse-me: — Amigo, todas as palavras da profecia que estás falando são ambíguas e não contêm nada de decisivo para a demonstração que procuras fazer.

[21] Eu lhe respondi: — Trifão, se em vosso povo não tivessem terminado as profecias, que não se verificaram mais depois de João Batista, talvez tivésseis razão em considerar como obscuras as coisas ditas.

[22] É certo, porém, que João o precedeu, gritando aos homens que fizessem penitência, e o próprio Cristo, quando João ainda estava no rio Jordão, apresentou-se a ele para pôr fim à sua missão profética e ao seu batismo. E foi ele quem então começou a dar a boa nova, dizendo: “O reino dos Céus está próximo”. Depois disse que ele devia sofrer muito por causa dos escribas e fariseus, ser crucificado, ressuscitar ao terceiro dia e voltar outra vez a Jerusalém, e então comer e beber novamente com os seus discípulos. Também predisse que, no intervalo de sua vinda, como já indiquei, em seu nome se levantariam seitas e falsos profetas. E é o que vemos acontecer. Visto que tudo isso é certo, como podeis ainda duvidar, quando é fácil vos convencer pelos próprios fatos?

[23] No que diz respeito ao fato de que em vosso povo não haveria mais nenhum profeta e que a nova aliança que Deus anunciou deveria estabelecer, estava já determinado, por ser ele o Cristo. Assim disse: “A Lei e os profetas até João Batista; daí por diante o reino dos Céus sofre violência, e são os violentos que o arrebatam. Se quereis aceitar, este é Elias que devia vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”.

[24] Eu acrescentei: — Também pelo patriarca Jacó foi profetizado que haveria duas vindas de Cristo: que na primeira ele seria mortal, que, depois de ele vir, não haveria mais na vossa descendência nem rei nem profeta e que as nações que cresceriam nesse Cristo passível esperariam mais uma vez por sua vinda. Todavia, por isso mesmo o Espírito Santo falou por comparação e misteriosamente.

[25] De qualquer modo, ele assim anuncia: “Judá, os teus irmãos te louvaram, tuas mãos sobre o dorso dos teus inimigos e os filhos de teu pai se prostrarão diante de ti. Judá é filhote de leão. Desde o teu nascimento, meu filho, subiste. Deitou-se como um leão e como filhote de leão. Quem o despertará? Não faltará um príncipe de Judá, nem um chefe saído de seus músculos, até que chegue o que está reservado para ele. Ele será a esperança das nações, amarrando o jumentinho à videira e à parreira o filhote de sua jumenta. Lavará no vinho a sua veste e no sangue da uva as suas roupas. Seus olhos estão vermelhos do vinho e seus dentes brancos como o leite”.

[26] Já que nunca faltou em vossa descendência nem profeta nem príncipe, desde que ela se iniciou até que Jesus Cristo nasceu e sofreu, não teríeis a insensatez e ousadia de negá-lo, nem poderíeis demonstrar a vossa negação. Com efeito, Herodes, sob o qual Cristo sofreu, embora afirmeis que ele era natural de Ascalon, todavia dizeis que foi sumo sacerdote na vossa descendência.

[27] De modo que desde então tivestes quem fizesse as ofertas conforme a lei de Moisés e observasse as outras prescrições legais, e também profetas que se sucederam até João — o mesmo que aconteceu quando o povo foi transportado para a Babilônia, depois que a terra foi tomada pelas armas e os vasos sagrados foram saqueados — e, por conseguinte, não faltou profeta entre vós para ser Senhor, guia e príncipe do vosso povo. De fato, sabe-se que o Espírito que habitava nos profetas também os ungia e estabelecia os reis.

[28] Por outro lado, depois da aparição e morte de Jesus, nosso Cristo, na vossa descendência de nenhum lado surgiu nem surge profeta algum. Deixastes até de estar submetidos a um rei próprio e, por fim, vossa terra foi devastada e abandonada como guarita no meio da plantação. E a Escritura diz por meio de Jacó: “Ele será a esperança das nações”, dando a entender simbolicamente as duas vindas de Cristo e que as nações creriam, fato que podeis comprovar com os próprios olhos. Com efeito, nós, que viemos de todas as nações, nos tornamos religiosos e justos pela fé em Jesus Cristo e esperamos novamente a sua vinda.

[29] As palavras: “Amarrará o jumentinho à videira e à parreira o filhote de sua jumenta” antecipavam a manifestação das obras que ele realizaria em sua primeira vinda e também da fé que as nações nele teriam. Estas eram, com efeito, como jumentinhos sem sela e que não gostam de jugo sobre seu pescoço, até que, chegando Cristo e enviando-as aos seus discípulos, ensinou-lhes sua doutrina e, carregando o jugo de sua palavra, submeteram suas costas a suportar tudo pelos bens que esperam e lhes foram por ele prometidos.

[30] E quando nosso Senhor Jesus Cristo estava para entrar em Jerusalém, mandou que seus discípulos lhe levassem uma jumenta que estava realmente amarrada com seu jumentinho à entrada de certa aldeia, chamada Betfagé, e sentado sobre ele entrou em Jerusalém. Visto que estava expressamente profetizado que este fato cumprir-se-ia no Cristo, cumprido e dado a conhecer por meio dele, tornou manifesto que ele era o Cristo. Todavia, apesar de todos esses fatos e de todas as demonstrações das Escrituras, vós permaneceis obstinados em vossa dureza de coração.

[31] O fato foi profetizado por Zacarias, um dos doze. Isso aconteceria assim: “Alegra-te muito, filha de Sião; grita de júbilo e anuncia, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador, manso e pobre, montado sobre um animal de carga, sobre um filhote de jumenta”.

[32] E o fato de que o Espírito profético mencione a jumenta, animal de carga, junto com seu jumentinho, e que ambos se sejam posse de Cristo, segundo o patriarca Jacó, e que, por outro lado, como já referi, ele tenha mandado que seus discípulos lhe levassem os dois animais, era uma profecia sobre aqueles que, junto com os que procedem das nações, haveriam de crer também de vossa Sinagoga. Com efeito, assim como o jumentinho sem sela era símbolo dos que vinham da gentilidade, a jumenta com sua sela era símbolo daqueles que vinham de vosso povo, pois vós carregais a lei pregada pelos profetas.

[33] Mas também por meio do profeta Zacarias foi profetizado que Cristo seria ferido e que os seus discípulos seriam dispersos, e isso de fato se cumpriu. Com efeito, depois que ele foi crucificado, os discípulos, que tinham vivido com ele, se dispersaram até que ele ressuscitou dos mortos e os convenceu de que fora profetizado que ele tinha que sofrer. Persuadidos, eles então saíram por todo o orbe da terra e ensinaram essas coisas.

[34] Por isso, também nós nos sentimos firmes na sua fé e doutrina, pois nossa convicção fundamenta-se nos testemunhos dos profetas e no fato de que, por toda a extensão da terra, vemos os que se converteram em homens religiosos no nome daquele crucificado. As palavras da profecia de Zacarias são estas: “Espada, desperta-te contra o meu pastor e contra o homem do meu povo, diz o Senhor dos exércitos. Fere o pastor, e suas ovelhas se dispersarão”.

[35] “Segundo Moisés conta, o patriarca Jacó profetizou: “Lavará no vinho a sua veste e no sangue da uva as suas roupas”. Ele dava a entender que Cristo lavaria em seu sangue aqueles que nele cressem. Com efeito, ele disse que o Espírito Santo é a veste dele para os que, por meio dele, receberam a remissão de seus pecados. Ele estará sempre presente a eles com sua força e lhes estará manifestamente presente na sua segunda vinda.

[36] Quando a Escritura diz “o sangue da uva”, ela quer significar figurativamente que Cristo tem de fato sangue, porém não por sua descendência humana, e sim pela força de Deus. Porque do mesmo modo que o sangue da uva não foi gerado pelo homem, mas por Deus, da mesma forma a Escritura indicou antecipadamente que o sangue de Cristo não viria da descendência humana, mas da força de Deus. Portanto, senhores, essa profecia que vos citei demonstra que Cristo não é homem nascido de homens, segundo a maneira comum dos homens.

[37] A isso Trifão respondeu: — Se conseguires confirmar essa tua tese com outros argumentos, levaremos em conta essa interpretação que aqui nos dás. Por enquanto, retoma o fio do teu discurso e demonstra-nos que o Espírito profético afirma existir outro Deus além do Criador do universo, evitando, porém, falar-nos do sol e da lua, a respeito dos quais está escrito que Deus permitiu que os pagãos adorassem como deuses. Usando exatamente essa passagem, os profetas dizem com frequência: “O teu Deus é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores”, acrescentando muitas vezes: “O grande, forte e temível”.

[38] Com efeito, não se diz isso como se eles realmente fossem deuses. A Escritura quer nos ensinar que somente o Deus verdadeiro, que fez o universo, é o Senhor dos supostos deuses e senhores. De fato, para convencer-nos disso, o Espírito Santo diz por meio do santo Davi: “Os deuses das nações” — considerados como deuses — “são imagens de demônios e não deuses”, e acrescenta uma maldição contra aqueles que os fazem e os adoram.

[39] Eu interrompi: — Trifão, não são essas as provas que eu vos queria apresentar, pois sei que com esses textos condenam-se os que adoram isso e outras coisas semelhantes, mas outras provas que ninguém conseguirá contradizer. Parecerão estranhas a ti, por mais que as leiais todos os dias. Então podereis compreender que, por causa de vossa maldade, Deus vos ocultou a sabedoria contida em suas palavras, com exceção de alguns, aos quais, pela graça de sua grande misericórdia, como disse Isaías, deixou como semente para a salvação, como Sodoma e Gomorra. Prestai, portanto, atenção às citações que farei das santas Escrituras. Elas não necessitarão de interpretação, mas apenas de serem ouvidas.

[40] Moisés, o bem-aventurado e fiel servo de Deus, declara que Deus é aquele que apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, enviado, juntamente com outros dois anjos, para julgar Sodoma, por outro que mora sempre nas regiões supracelestes, que em si mesmo nunca apareceu, nem jamais conversou com ninguém, aquele a quem conhecemos como Criador e Pai do universo.

[41] Com efeito, ele diz assim: “Deus lhe apareceu junto ao carvalho de Mambré, quando ele estava sentado diante da porta de sua tenda, ao meio-dia. Levantou os olhos, olhou, e eis que três homens pararam diante dele. Logo que os viu, correu ao encontro deles, desde a porta de sua tenda, prostrouse no chão e disse”, e o resto até: “Abraão levantou-se de madrugada, foi para o lugar em que havia estado diante do Senhor, olhou para Sodoma e Gomorra e para os arredores, e viu: eis que uma chama subia da terra como a fumaça de um forno”.

[42] Terminando a citação, perguntei-lhes se conheciam essa passagem.

[43] Eles me responderam afirmativamente, mas disseram que as palavras citadas nada tinham a ver com a demonstração de que existe outro Deus ou Senhor, ou que o Espírito Santo fale dele, além do Criador do universo.

[44] Eu repliquei: — Uma vez que conheceis essas Escrituras, tentarei persuadir-vos que, de fato, aqui se chama Deus e Senhor a outro que está submetido ao Criador do universo, e que ele é também chamado anjo ou mensageiro, pelo fato de ser ele quem anuncia aos homens tudo o que o Criador do Universo, acima do qual não existe outro Deus, quer que se lhes anuncie.

[45] Tornei a citar a passagem anterior e depois perguntei a Trifão: — Achas que foi Deus quem apareceu a Abraão sob o carvalho de Mambré, como diz a Escritura?

[46] Ele respondeu: — Exatamente.

[47] Eu continuei: — Era um dos três que o Espírito Santo profético diz que Abraão viu como homens.

[48] Ele respondeu: — Não. Ele viu Deus antes da aparição dos três. Por isso, os três eram anjos, os quais a Escritura chama de homens, dois deles enviados para a destruição de Sodoma e o outro para dar a Sara a boa notícia de que ela teria um filho; este, cumprida a sua missão, retirou-se.

[49] Eu repliquei: — Então, como é que um dos três que esteve na tenda disse: “No tempo certo, voltarei a ti e Sara terá um filho”? Será que de fato voltou, quando Sara teve o filho, e que também nessa passagem a palavra profética indica que ele é Deus? Para que vos fique claro o que digo, escutai as palavras que Moisés diz literalmente.

[50] São as seguintes: “Quando Sara viu o filho de Agar, a escrava egípcia, o qual tinha nascido para Abraão, brincando com Isaac, filho dela, disse a Abraão: ‘Expulsa de casa essa escrava e seu filho, pois o filho dessa escrava não será herdeiro junto com meu filho Isaac’. Essas palavras sobre o seu filho pareceram extremamente duras para Abraão. Deus, porém, disse a Abrão: ‘Não te pareça dura a palavra sobre o teu filho que tiveste com a escrava. Obedece a tudo o que Sara te disser, porque a tua descendência será chamada através de Isaac’ ”.

[51] Compreendeste, portanto, como aquele que, sob o carvalho, disse que voltaria, pois previa que seria preciso aconselhar Abraão sobre o que Sara lhe pedia, de fato voltou, e que é Deus, como o dão a entender as palavras da Escritura: “Deus disse a Abraão: ‘Não te apareça dura a palavra sobre o teu filho e a escrava’ ”.

[52] Trifão replicou: — Exato. Contudo, com isso não demonstraste que existe outro Deus, além daquele que apareceu a Abraão e aos outros patriarcas e profetas, mas somente que nós não compreendemos bem a passagem, pensando que os três que estiveram junto com Abraão na sua tenda eram todos anjos.

[53] Eu continuei: — Ainda que não me fosse possível demonstrar-vos pelas Escrituras que um daqueles três é Deus e é chamado mensageiro — pois, como já disse, ele anuncia o que o Deus criador do universo ordena para alguém — todavia, seria razoável que a este que apareceu a Abraão sobre a terra em forma de homem, como os outros dois anjos que o acompanhavam, dizer que este é Deus antes da criação do mundo, e vós o conheceis da mesma forma que o vosso povo o conhece.

[54] Ele respondeu: — Exatamente. Nós assim o consideramos até hoje.

[55] Eu disse novamente: — Voltando às Escrituras, tentarei convencer-vos de que este Deus, do qual se diz e escreve que apareceu a Abraão, a Jacó e a Moisés, é outro além do Deus criador do universo. Numericamente outro, e não no conhecimento e pensamento. Com efeito, afirmo que nunca fez, nem falou nada senão o que o Deus Criador do mundo, acima do qual não existe outro Deus, quer que ele faça e fale.

[56] Trifão replicou: — Demonstra-nos, então, que esse Deus existe, para que também nisso estejamos de acordo. Com efeito, não supomos que dirás que ele não fez, nem falou nada contra o pensamento do Criador do universo.

[57] Eu respondi: — A Escritura que eu citei esclarecerá a questão. Ela diz assim: “O sol saiu sobre a terra e Ló entrou em Segor. Então o Senhor fez chover sobre Sodoma enxofre e fogo do céu de junto do Senhor, e destruiu essas cidades e todos os seus arredores”.

[58] Então, o quarto dos que tinham ficado com Trifão exclamou: — Portanto, além do próprio Deus que apareceu a Abraão, deve-se dizer que este dos anjos que desceram até Sodoma também é Deus, pois mediante Moisés a Escritura o chama Senhor.

[59] Eu respondi: — Não é somente através dessa passagem que devemos confessar a todo custo o que existe, isto é: fora daquele que entendemos ser o Criador de todas as coisas, existe outro, chamado Senhor pelo Espírito Santo, e não só por meio de Moisés, mas também de Davi. Com efeito, por meio dele também foi dito: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés”, como foi citado antes. E de novo, em outras passagens: “O teu, trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos. O cetro do teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade. Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria mais do que aos teus companheiros”.

[60] Respondei-me agora se admitis que o Espírito Santo chama Deus e Senhor a outro além do Pai do universo e seu Cristo, e eu prometo demonstrar-vos pelas mesmas Escrituras que não foi a um dos anjos que desceram a Sodoma que a Escritura chama Senhor, mas ao que ia com eles e se chama Deus, que apareceu a Abraão.

[61] Trifão replicou: — Demonstra-o, pois, como vês, o dia está no fim e não estamos preparados para respostas tão perigosas, pois nunca ouvimos ninguém investigar, discutir ou demonstrar essas questões. Além disso, nem a ti suportaríamos, caso não referisses tudo às Escrituras. De fato, tu te esforças para colher delas teus argumentos e afirmas que não há ninguém acima do Deus Criador do universo.

[62] Eu continuei: — Sabeis, portanto, que a Escritura diz: “O Senhor disse a Abraão: Por que razão Sara começou a rir, dizendo: será que, de fato, eu darei à luz? Já estou velha. Haverá coisa impossível para Deus? Por este tempo voltarei a ti na hora certa e Sara terá um filho.” E pouco depois continua: “Levantando-se dali, os homens olharam para Sodoma e Gomorra. Abraão caminhava com eles, acompanhando-os. E o Senhor disse: Não quero esconder do meu servo Abraão o que estou para fazer”.

[63] Pouco depois continua: “Disse o Senhor: ‘O clamor de Sodoma e Gomorra aumenta e seus pecados são muitíssimo grandes. Portanto, descerei para ver se acontece conforme o clamor que chega até mim. Caso contrário, ficarei sabendo’. E partindo dali, os homens chegaram a Sodoma. Abraão, porém, ficou diante do Senhor e, aproximando-se dele, disse: ‘Aniquilarás o justo com o ímpio’ ”, e assim por diante. Como transcrevi antes toda a passagem, creio escrever novamente a mesma coisa, mas somente aquilo que me serviu de argumento com Trifão e seus companheiros.

[64] Então, continuando a citação, cheguei ao lugar onde se diz: “E tendo terminado de falar com Abraão, o Senhor se retirou. E Abraão voltou para o seu lugar. Os dois anjos chegaram a Sodoma à tarde. Ló estava sentado junto à porta de Sodoma”. E o restante até: “E estendendo as mãos, os homens pegaram Ló, puxaram-no até eles, puseram-no em casa, fecharam a porta.” E o que segue até: “E os anjos o tomaram pela mão, pela mão de sua mulher e seus filhos, pois o Senhor o perdoava.

[65] Aconteceu que, quando os fizeram sair, disseram-lhe: ‘Salva, salva a tua vida. Não olhes para trás, nem pares nas redondezas. Salva-te na montanha, para que não pereças junto’. Ló, porém, lhes respondeu: ‘Peço-te, Senhor, pois o teu servo encontrou misericórdia diante de ti e engrandeceste a tua justiça, fazendo que minha alma continue viva. Eu não posso salvar-me na montanha, pois temo que o mal me alcance e eu morra.

[66] Olha essa cidade próxima, onde posso me refugiar, embora ela seja pequena. Por ser pequena, eu aí estarei a salvo e minha alma viverá’. O Senhor lhe disse: ‘Olha que admirei a tua face e esse pedido para não destruir a cidade de que nos falaste. Apressa-te e põete a salvo aí, pois não poderei fazer nada até que entres nela’. Por isso, ele deu à cidade o nome de Segor. O sol saiu sobre a terra e Ló entrou em Segor. Então o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu da parte do Senhor, e destruiu aquelas cidades e toda a sua redondeza.

[67] Depois de uma pausa, acrescentei: — Amigos, não compreendeis agora que um dos três, aquele que é Deus e Senhor e serve àquele que está nos céus é Senhor dos anjos? De fato, depois que estes vão para Sodoma, ele fica para trás e conversa com Abraão, assim como escreveu Moisés; depois da conversa, quando ele próprio se retira, Abraão também volta para o seu lugar.

[68] Quando ele chega, já não são os dois anjos que falam com Ló, mas ele próprio, como a Escritura deixa claro; e ele é o Senhor, e do Senhor que está no céu, isto é, do Criador do universo, ele recebe o que derramará sobre Sodoma e Gomorra, a mesma coisa que a Escritura refere, quando diz: “O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu da parte do Senhor”.

[69] Quando me calei, Trifão disse: — De fato, a Escritura nos obriga a admitir o que nos dizes. Contudo, também concordarás que apresenta uma verdadeira dificuldade o que se diz sobre o fato de ele comer o que Abraão lhe preparou e apresentou.

[70] Eu lhe respondi: — De fato, está escrito que comeram. E se entendemos que refere isso aos três e não só aos dois, que eram realmente anjos e, como é claro para nós, se alimentam no céu, embora não comam os mesmos alimentos que nós, homens, usamos (com efeito, sobre o maná, com o qual vossos pais se alimentaram no deserto, a Escritura diz que comeram pão dos anjos). Portanto, fala-se dos três, e eu diria que a passagem em que se diz ter comido, deve ser entendida como quando dizemos do fogo que o devorou ou o consumiu inteiramente, mas de modo algum como se estivessem mastigando com a boca e os dentes. De modo que, com um pouco de prática da linguagem figurada, não há necessidade de ver nenhuma dificuldade aqui.

[71] Trifão replicou: — Talvez a solução da dificuldade esteja no modo de comer, segundo o qual, pelo fato de ter sido consumido o que Abrão lhes preparou, está escrito que comeram. Agora comece a nos dar a razão de como esse que apareceu como Deus a Abraão e é ministro do Deus do universo, gerado de uma virgem, nasceu, como disseste antes, na forma de homem, sujeito aos sofrimentos dos outros homens.

[72] Eu respondi: — Trifão, permite que eu antes reúna algumas outras provas sobre este assunto, a fim de que também sejais persuadidos disso, e logo te darei essa prova que me pedes.

[73] Ele disse: — Faze como quiseres. Com efeito, farás para mim coisa muito desejável.

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Diálogo de Justino com o Judeu Trifão 6 https://vcirculi.com/dialogo-de-justino-com-o-judeu-trifao-6/ Sat, 14 Mar 2026 12:50:14 +0000 https://vcirculi.com/?p=35486 Aviso ao leitor Este livro – Diálogo de Justino com o Judeu Trifão – é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra,...

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[1] Continuei: — A oferta de flor de farinha, senhores, que os que se purificavam da lepra deviam oferecer, era figura do pão da Eucaristia que nosso Senhor Jesus Cristo mandou oferecer em memória da paixão que ele padeceu por todos os homens que purificam suas almas de toda maldade, para que juntos demos graças a Deus por ter criado o mundo e por todo o amor que há nele pelo homem, por nos ter livrado da maldade na qual nascemos e por ter destruído completamente os principados e potestades através daquele que, segundo seu desígnio, nasceu passível.

[2] Portanto, quanto aos sacrifícios que vós antes oferecíeis, como já mostrei, diz Deus pela boca de Malaquias, um dos doze profetas: “Minha vontade não está convosco — diz o Senhor — e não quero receber sacrifícios de vossas mãos. De fato, desde onde o sol nasce até onde ele se põe, meu nome é glorificado entre as nações e em todo lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Grande é o meu nome entre as nações — diz o Senhor — e vós o profanais”.

[3] Assim, antecipadamente fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo lugar, isto é, o pão da Eucaristia e o cálice da própria Eucaristia, e ao mesmo tempo diz que nós glorificamos o seu nome e vós o profanais.

[4] Quanto ao mandamento da circuncisão, exigindo que todos os nascidos deveriam ser circuncidados absolutamente no oitavo dia, isso também era figura da verdadeira circuncisão, com a qual Jesus Cristo nosso Senhor, ressuscitado no primeiro dia da semana, nos circuncidou do erro e da maldade. Com efeito, o primeiro dia da semana, embora sendo o primeiro de todos os dias, se forem contados novamente todos os dias, ele se torna o oitavo da série, sem deixar de ser o primeiro.

[5] Assim também as doze campainhas que se mandava pendurar na veste talar do sumo sacerdote se referia aos doze apóstolos que estavam ligados ao poder de Cristo, sacerdote eterno, por meio dos quais toda a terra se encheu da glória e da graça de Deus e de seu Cristo. Por isso, Davi também diz: “A voz deles chegou a toda a terra e a palavra deles aos confins do orbe terrestre”.

[6] Como na pessoa dos apóstolos, que dizem não terem acreditado em Cristo porque lhes disseram, mas pelo poder de Cristo que os enviou, Isaías disse: “Quem creu naquilo que ouvimos e a quem se revelou o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como criança, como raiz em terra sedenta”, e o resto da profecia, que já citamos anteriormente.

[7] Dizendo em pessoa de muitos: “Anunciamos diante dele”, e acrescentando em seguida: “Como criança”, a Escritura dava a entender que os malvados, submetidos a ele, lhe obedeceriam e se tornariam todos como criança. Pode-se perceber isso no corpo: embora possuindo muitos membros, todos eles em conjunto são chamados e são de fato um só corpo. Do mesmo modo, um povo, uma igreja, embora composto numericamente de muitos, são chamados e denominados com um só nome, como se fossem uma coisa única.

[8] Senhores, eu poderia recorrer a todas as outras ordens dadas por Moisés e demonstrar-vos que são figuras, símbolos e anúncios do que aconteceria com Cristo e com aqueles que nele crêem, conhecidos de antemão, assim como também o que o próprio Cristo haveria de fazer. Creio, porém, que é suficiente o que até aqui foi citado. Por isso, passo ao raciocínio que a ordem do meu discurso exige.

[9] Assim como a circuncisão iniciou-se em Abraão e o sábado, sacrifícios, oferendas e festas com Moisés, e já foi demonstrado que tudo isso foi ordenado por causa da dureza do vosso coração, do mesmo modo, por vontade do Pai, tudo teria que terminar em Cristo, Filho de Deus, nascido da virgem da descendência de Abraão, da tribo de Judá e de Davi.

[10] E foi anunciado que ele, lei eterna e nova aliança para o mundo todo, deveria vir, como indicam todas as profecias por mim citadas.

[11] E nós, que por meio dele nos aproximamos de Deus, não recebemos essa circuncisão carnal, mas a espiritual, aquela que Henoc e outros observaram. Como éramos pecadores, a recebemos no batismo pela misericórdia de Deus. E a todos é igualmente permitido recebê-la.

[12] Como chegou o momento oportuno, falar-lhes-ei agora do mistério de seu nascimento. Que a descendência de Cristo não admite explicação humana, Isaías, como já foi aludido, disse o seguinte: “Quem cantará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra. Pelas iniqüidades do meu povo ele foi conduzido à morte”. O Espírito profético disse isso por ser inexplicável a descendência daquele que morreria para curar a todos nós, homens pecadores, com as suas chagas.

[13] Além disso, para que nós, que acreditamos nele, soubéssemos de que modo ele nasceria ao vir ao mundo, pelo mesmo Isaías o Espírito profético assim falou: “Pede para ti um sinal da parte do Senhor teu Deus, no abismo ou na altura”. E Acaz disse: “Não o pedirei, nem tentarei ao Senhor”. Isaías disse: “Ouvi agora, casa de Davi! É pouco para vós combater os homens, de modo que o fazeis também contra o Senhor? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: vede que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado com o nome de Emanuel. Ele comerá manteiga e mel. Antes que saiba escolher o mal, escolherá o bem. Por isso, antes que o menino saiba distinguir o bem ou o mal, rejeitará o mal para escolher o bem. Porque antes que o menino saiba dizer pai e mãe, receberá o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei dos assírios. E pela presença dos reis será tomada a terra que será para ti dura carga. Mas o Senhor trará sobre ti, sobre o teu povo e sobre a casa do teu pai dias como ainda não houve sobre ti desde o dia em que Efraim se separou de Judá para o rei dos assírios”.

[14] Todavia, é claro para todos que, fora o nosso Cristo, ninguém nasceu de uma virgem na descendência carnal de Abraão, nem de ninguém se afirmou tal coisa.

[15] Contudo, como vós e vossos mestres vos atreveis a dizer, primeiro que o texto da profecia de Isaías não diz “Vede que uma virgem conceberá”, mas: “Vede que uma mulher jovem conceberá e dará à luz”, e depois a interpretais como referida ao vosso rei Ezequias. Também tentarei discutir esse breve ponto contra vós e demonstrar-vos que a profecia se refere a esse que nós confessamos como Cristo.

[16] Desse modo, colocando todo o meu empenho em vos convencer com as minhas demonstrações, ficarei inteiramente sem culpa em relação a vós. Todavia, se vós, permanecendo na dureza de coração ou fracos na convicção por medo da morte decretada contra os cristãos, não quiserdes abraçar a verdade, toda a culpa será vossa e vos enganareis a vós mesmos, imaginando que, por ser descendência de Abraão segundo a carne, estais seguros de alcançar os bens que Deus prometeu conceder por meio de Cristo.

[17] Porque ninguém receberá nenhum desses bens de parte alguma, a não ser os que pela fé se assemelharem em sentimentos a Abraão e reconhecerem os mistérios todos, isto é, reconhecerem que alguns mandamentos foram dados a vós para cultuar a Deus e praticar a justiça, outros para anunciar misteriosamente a Cristo, ou por causa da dureza de coração do vosso povo. Que isso seja assim, o próprio Deus o disse em Ezequiel, falando deste modo: “Ainda que Jacó e Noé peçam por seus filhos ou suas filhas, não lhe serão dados”.

[18] Com relação ao mesmo assunto, em Isaías ele diz assim: “Disse o Senhor Deus: Sairão e verão os membros dos homens que pecaram. Porque o verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá, se tornarão espetáculo para o mundo todo”.

[19] De modo que, cortada de vossas almas essa esperança, vós deveis esforçar-vos para conhecer através de qual caminho virá até vós o perdão dos pecados e a esperança de herdar os bens prometidos. Esse caminho não é outro senão o de reconhecer a Jesus como Cristo, lavar-vos no banho que o profeta Isaías anunciou para a remissão dos pecados e, doravante, viver sem pecar.

[20] Trifão me disse: — Pode parecer que corto esses raciocínios, que afirmas ser necessário examinar. Todavia, tenho uma pergunta que quero investigar e primeiro deves supor-tar-me.

[21] Eu respondi: — Pergunta o que quiseres, conforme te ocorra. Procurarei voltar aos meus raciocínios e completálos, quando tiveres perguntado e eu respondido.

[22] Ele continuou: — Dize-me: os que tiverem vivido conforme a lei de Moisés viverão na ressurreição dos mortos como Jacó, Henoc e Noé, ou não?

[23] Eu respondi: — Amigo, ao citar-te as palavras de Ezequiel: “Ainda que Noé, Daniel e Jacó peçam por seus filhos e suas filhas, não lhes serão dados”, mas que evidentemente cada um se salvará por sua própria justiça, eu disse também que igualmente se salvarão os que tiverem vivido conforme a lei de Moisés. Com efeito, na lei de Moisés ordenam-se algumas coisas por natureza boas, piedosas e justas, que devem ser praticadas pelos que nelas crêem; outras, praticadas sob os que estavam sob a lei, estão escritas em vista da dureza de coração do povo.

[24] Dessa forma, portanto, os que cumpriram o que é universal, natural e eternamente bom, tornaram-se agradáveis a Deus e se salvarão por meio de Cristo na ressurreição, do mesmo modo que os justos que os precederam: Noé, Henoc, Jacó e todos os que existiram, juntamente com os que reconhecem este Cristo como Filho de Deus. Este é aquele que existia antes do luzeiro da manhã e da lua. Todavia, ele se dignou nascer feito homem daquela virgem da descendência de Davi, para, por meio desta sua economia, destruir a serpente perversa desde o princípio, assim como os anjos a ela semelhantes e fazer-nos desprezar a morte. Na segunda vinda de Cristo ela cessará totalmente nos que acreditaram nele e viveram de modo agradável a ele, e não existirá mais, quando alguns forem mandados ao fogo para serem sem cessar castigados, e outros gozarem de impassibilidade e incorruptibilidade, livres da dor e da morte.

[25] Ele continuou me perguntando: — E se alguns quiserem ainda agora viver fiéis ao que foi estabelecido por Moisés, embora crendo nesse Jesus crucificado e reconhecendo que ele é o Cristo de Deus e que a ele foi dado julgar absolutamente a todos e a ele pertence o reino eterno — também esses podem salvar-se?

[26] Eu respondi: — Vamos examinar juntos se agora é possível guardar tudo o que foi ordenado por Moisés.

[27] Trifão replicou: — Não. Como dissestes, reconhecemos que não é possível sacrificar o cordeiro pascal, nem os dois bodes que se mandava oferecer no jejum, nem absolutamente fazer as outras ofertas.

[28] Perguntei então: — Portanto, eu te peço: dize-me tu mesmo o que é possível observar. Porque deves te convencer que sem guardar as justificações eternas, isto é, sem praticá-las, ninguém pode absolutamente salvar-se.

[29] Ele respondeu: — Refiro-me a guardar o sábado, a circuncisão, a observância dos meses e os banhos dos que tiverem tocado alguma coisa do que Moisés proibiu ou que tiverem tido relação sexual.

[30] Eu lhe disse: — Parece-vos que se salvarão Abraão, Isaac, Jacó, Noé, Jó e os outros justos que existiram antes ou depois deles, como Sara, a mulher de Abraão, Rebeca de Isaac, Raquel e Lia de Jacó, e como essas todas as outras, até a mãe de Moisés, o servo fiel de Deus, que não observaram nada dessas coisas?

[31] Trifão replicou: — Abraão não se circuncidou, assim como os que vieram depois dele?

[32] Eu respondi: — Sei muito bem que Abraão e seus descendentes se circuncidaram, mas já lhes disse antes e longamente o motivo pelo qual lhes foi dada a circuncisão. E se o que eu disse não vos convence, vamos examinar novamente esse tema. Contudo, já sabeis que nenhum justo guardou absolutamente nenhuma dessas coisas que discutimos, nem recebeu ordem de guardá-las, se excetuarmos a circuncisão, que se iniciou com Abraão.

[33] Trifão disse: — Sabemos e confessamos que se salvam.

[34] Eu continuei: — Pela dureza de coração do vosso povo, deveis compreender que Deus vos deu todos esses mandamentos por meio de Moisés, a fim de que por tantas lembranças tivésseis a Deus sempre diante dos olhos em todas as vossas ações e não vos entregásseis à iniqüidade nem à impiedade. Por exemplo: ele mandou que vos cingísseis com fitas de púrpura, a fim de que por meio dela não vos esquecêsseis de Deus, e as fitas com certas letras escritas em finíssimas membranas, o que nós consideramos como absolutamente santo. Desse modo, Deus queria estimular-vos para que vos lembrásseis dele em todo momento, a cada vez que vos acusava em vossos corações.

[35] Não tendes sequer uma pequena lembrança da piedade para com Deus e nem mesmo assim lhe obedecestes não praticando a idolatria, pois no seu tempo Elias contou o número dos que não tinham dobrado os joelhos diante de Baal e disse que eram apenas sete mil. Isaías vos atira no rosto que até vossos filhos oferecestes em sacrifício aos ídolos.

[36] Nós, porém, para não sacrificar àqueles que sacrificamos em outros tempos, sofremos os últimos tormentos e nos alegramos de morrer, pois cremos que Deus nos ressuscitará por meio de seu Cristo e nos tornará incorruptíveis, impassíveis e imortais. Por fim, sabemos que tudo o que vos foi ordenado por causa da dureza de coração do vosso povo, nada tem a ver com a prática da justiça e da piedade.

[37] Trifão perguntou: — E se alguém quiser observar essas coisas, sabendo que é certo o que dizes, embora reconhecendo que Jesus é o Cristo, crendo nele e obedecendo-lhe, esse se salvaria?

[38] Eu lhe respondi: — Trifão, segundo o meu parecer, afirmo que essa pessoa se salvaria, contanto que não pretenda que os outros homens, isto é, os que vêm das nações, estejam circuncidados do erro por Jesus Cristo e tenham a todo custo que observar o mesmo que ele observa, afirmando que se não observarem não poderão salvar-se. É o que fizeste no começo de nosso diálogo, afirmando que eu não me salvaria se não observasse a vossa lei.

[39] Ele me replicou: — Então por que disseste: “Segundo o meu parecer”? Há quem diga que tais pessoas não se salvarão?

[40] Eu respondi: — Sim, Trifão. E há pessoas que não se atrevem a dirigir a palavra, nem a oferecer seu lar a elas. Mas eu não concordo com essas pessoas. Se pela fraqueza de sua inteligência continuam ainda observando o que lhes é possível da lei de Moisés, o que sabemos ter sido ordenado por causa da dureza de coração do povo, e juntamente com isso esperem em Cristo e queiram guardar o que eterna e naturalmente é justo e piedoso, e se decidam a conviver com os cristãos e fiéis, e não procurem, como já disse, persuadir os outros a se circuncidarem como eles, a guardar os sábados e outras prescrições da lei, estou de acordo com os que afirmam que se deve recebê-los e manter completa comunhão com eles, como homens que têm os mesmos sentimentos que nós e são irmãos na fé.

[41] Em troca, Trifão, aqueles de vossa raça que dizem crer em Cristo, mas a todo custo pretendem obrigar aqueles de todas as nações que acreditaram nele a viver conforme a lei de Moisés, ou que não se decidem a conviver com estes, também eu não aceito esses como cristãos.

[42] Todavia, aqueles que foram persuadidos por estes a viver conforme a lei, suponho que talvez se salvem, contanto que conservem a fé no Cristo de Deus. Os que digo que não podem absolutamente se salvar são os que, depois de confessar e reconhecer que Jesus é o Cristo, por uma causa qualquer passam a observar a lei, negando a Cristo e não se arrependem antes de morrer.

[43] Da mesma forma, afirmo que não se salvarão, por mais que sejam descendência de Abraão, os que vivem segundo a lei, mas não crêem em Cristo antes de morrer, e principalmente aqueles que nas sinagogas anatematizaram e anatematizam os que crêem nesse mesmo Cristo para alcançar a salvação e livrar-se do castigo do fogo.

[44] Com efeito, a bondade, a amizade de Deus e a imensidão de sua riqueza fazem com que aquele que se arrepende dos próprios pecados, como ele deixou claro através de Ezequiel, se torne justo e sem pecado. Em troca, aquele que passa da piedade e da justiça para a iniqüidade e a impiedade, ele o considera pecador, iníquo e ímpio. Por isso, nosso Senhor Jesus Cristo também diz: “No estado em que eu vos surpreender, aí também vos julgarei”.

[45] Trifão continuou: — Já ouvimos o que pensas sobre isso. Retoma o teu discurso onde havias parado e termina-o. Com efeito, ele me parece contraditório e absolutamente impossível de demonstrar, pois dizer que esse vosso Cristo preexiste como Deus antes dos séculos e que depois dignou-se nascer como homem e não é homem que venha dos homens, não só me parece absurdo como também insensato.

[46] Ao que respondi: — Sei que meu discurso parece absurdo, principalmente para os de vossa raça, pois jamais quisestes entender nem praticar as coisas de Deus, mas as de vossos mestres, como o próprio Deus clama.

[47] Todavia, Trifão, mesmo que eu não pudesse demonstrar que o Filho do Criador do universo preexiste como Deus e que nasceu como homem de uma virgem, nem por isso deixa de ser provado que Jesus é o Cristo de Deus. Pelo contrário, já está totalmente demonstrado que ele é o Cristo de Deus, seja qual for a sua natureza. Se eu não conseguir demonstrar a sua preexistência e que, conforme o desígnio do Pai, ele se dignou nascer com as nossas mesmas paixões, revestido de carne, o justo seria dizer que eu errei em minha demonstração e não negar que ele é o Cristo, mesmo que se tivesse feito homem nascido de homens e se demonstrasse que somente por eleição se tivesse tornado Cristo.

[48] Com efeito, amigos, há alguns de vossa descendência que confessam Jesus como o Cristo, mas afirmam que ele é homem nascido de homem. Não estou de acordo com eles, mesmo que a maioria dos que pensam como eu dissessem isso.

[49] De fato, o próprio Cristo não nos mandou seguir ensinamentos humanos, mas aquilo que os bem-aventurados profetas pregaram e ele próprio ensinou.

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