Não sou feita de ouro, sou feita de pó
Trago o cansaço no rosto, mas o peito é só
Um espaço aberto pra um pouco de luz
Pra um Deus que vem quando o mundo recusa a cruz
E se eu choro, é semente no chão
Se eu caio, é só mais um passo em vão
Pra quem acha que a dor é o fim
Não sabe o que nasce em mim
O Reino começa onde ninguém olha
Entre o pranto e a demora
No silêncio de quem sofre e ora
O Reino começa onde ninguém nota
No abraço que consola
Na força de quem não volta
Mansidão não é medo, é fogo contido
É não deixar o ódio ser o meu abrigo
É ser terra firme mesmo sem chão
É herdar a paz sem ter posse, nem dom
Ser pobre de espírito é ser inteiro
Quando sei que preciso de alguém primeiro
É saber que a vida é só empréstimo
E o amor, o verdadeiro testamento
O Reino começa onde ninguém olha
Entre o pranto e a demora
No silêncio de quem sofre e ora
O Reino começa onde ninguém nota
No abraço que consola
Na força de quem não volta
Felizes os quebrados, os que sangram pra curar
Felizes os cansados, os que ousam esperar
O céu começa aqui, dentro da ferida
O Reino é pra quem ainda acredita
O Reino começa onde ninguém olha
No olhar que perdoa
Na voz que ainda entoa
O Reino começa onde ninguém nota
No gesto que demora
Mas muda a história toda

