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[1] Assim também acontece com a profecia que diz: “Levantai, ó príncipes, vossas portas; abri-vos, portas eternas, para que entre o rei da glória”. Alguns de vós se atrevem a interpretá-la referindo-se a Ezequias, outros a Salomão. Contudo, de maneira alguma se pode demonstrar que tal profecia se refira a este ou àquele ou a qualquer outro dos chamados vossos reis, mas unicamente a esse nosso Cristo, que apareceu sem glória e desonrado, como disseram Isaías, Davi e todas as Escrituras. Ele, porém, por vontade do Pai, é Senhor das potências que lhes entregou; ele ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu, como o declaravam esse mesmo salmo e as demais Escrituras. Estas conjuntamente o anunciavam como Senhor das potências, como agora podeis convencer-vos, se quereis, por aquilo que está acontecendo diante da vossa vista.

[2] Com efeito, todo demônio se submete e é vencido, e é esconjurado no nome desse mesmo Filho de Deus e primogênito de toda a criação, que nasceu da virgem e se fez homem passível, foi crucificado por vosso povo sob Pôncio Pilatos, morreu, ressuscitou dentre os mortos e subiu ao céu. Contudo, se vós os esconjurais em nome de qualquer de vossos reis, justos, profetas ou patriarcas, nenhum desses demônios se submeterá a vós.

[3] Talvez se submetam, se os esconjurais em nome do Deus de Abraão, do Deus de Isaac e do Deus de Jacó. Contudo, os vossos exorcistas se valem dos mesmos artifícios que os pagãos e usam incensos e amuletos.

[4] Que são anjos e potências aqueles para os quais as palavras desta profecia de Davi manda levantar as portas para que entre o Senhor das potências, ressuscitado dentre os mortos por vontade do Pai, Jesus Cristo, a palavra do próprio Davi o demonstrou. Recordai-vos-ei essa palavra novamente, em atenção àqueles que não assistiram à nossa conversa de ontem; em atenção a eles, repito resumidamente as coisas que eu disse ontem.

[5] Se agora vos repito aquilo que já antes tinha dito muitas vezes, não me parece coisa fora de propósito. Sempre estamos vendo o sol, a lua e os outros astros percorrer o mesmo caminho, trazendo-nos mudanças de estações; não é porque se perguntou muitas vezes a um contador quanto são dois mais dois e por sempre ter respondido quatro, que ele deixará de dizer que são quatro. Quanto mais se afirma com certeza, sempre se diz e se afirma do mesmo modo. Assim sendo, seria ridículo que alguém, tendo as Escrituras dos profetas como objeto de sua conversa, as abandonasse e não repetisse sempre as mesmas, mas pensasse em cogitar coisas melhores por conta própria.

[6] Portanto, a palavra de Davi citada, na qual Deus manifestava ter anjos e potências no céu, é esta: “Louvai o Senhor nos céus; louvai-o nas alturas. Louvai-o todos os seus anjos, louvai-o todas as suas potências”.

[7] Um dos que se haviam juntado a eles no segundo dia, chamado Manaséas, disse: “Nós também nos alegramos que repitas o que já foi dito, em atenção a nós.”

[8] Eu disse: “Amigos, escutai a qual Escritura me remeto ao fazer isso. Jesus nos mandou amar inclusive os inimigos; a mesma coisa foi anunciada por Isaías em extensa passagem, na qual ele também alude ao mistério da nossa regeneração e, em geral, de todos aqueles que esperam que Cristo aparecerá em Jerusalém e se esforçam em agradar-lhe com suas obras.”

[9] As palavras de Isaías são estas: “Ouvi a palavra do Senhor, vós que temeis a sua palavra. Dizei ‘irmãos nossos’ aos que vos odeiam e que abominam que o nome do Senhor seja glorificado. Para vossa alegria, ele apareceu e eles ficaram envergonhados. Da cidade vem uma voz de alarido, voz do povo, voz do Senhor, que dá aos soberbos o que eles merecem. Antes que a parturiente desse à luz e antes que lhe chegassem as dores do parto, deu à luz um varão. Quem ouviu tal coisa ou quem viu algo semelhante? A terra ficou em parto um só dia e deu à luz de um só vez a um povo, pois Sião sentiu as dores de parto e deu à luz seus filhos. Eu dei essa expectativa também àquela que concebe, diz o Senhor. Tanto a fecunda, como a estéril, fui eu que as fiz, diz o Senhor. Alegra-te, Jerusalém, e congregai-vos todos vós que a amais. Regozijai-vos todos vós que chorais sobre ela, para que vos amamenteis e sejais saciados pelo seio de sua consolação, para que, amamentados, sejais acariciados pela entrada gloriosa dele.”

[10] Dito isso, acrescentei: “Escutai como este que, depois de ser crucificado, as Escrituras demonstram que há de vir glorioso, foi simbolizado pela árvore da vida, que se diz ter sido plantada no paraíso, e pelo que aconteceu a todos os justos. Moisés foi enviado com uma vara para a redenção do povo e, segurando-a na mão em direção ao povo, cortou o mar ao meio; através dela, viu brotar água da rocha e, jogando madeira na água de Marra, que era amarga, tornou-a doce.”

[11] “Jogando umas varas nos canais das águas, Jacó conseguiu que as ovelhas de seu tio materno ficassem prenhes, a fim de apossar-se das crias. Ele mesmo se gloria de ter atravessado o rio por meio da vara. Ele disse ter visto uma escada, e a Escritura nos manifestou que sobre ela estava Deus. E já demonstramos pelas Escrituras que esse Deus não era o Pai. Tendo Jacó derramado óleo no mesmo lugar, o próprio Deus que lhe aparecera dá testemunho de ter sido para ele que ungiu ali a pedra.”

[12] Também já demonstramos, com várias passagens das Escrituras, que Cristo é chamado simbolicamente “pedra” e que também a ele se refere toda unção, seja de azeite, seja de mirra ou qualquer outro composto de bálsamo, pois assim diz a palavra: “Por isso o teu Deus te ungiu, o teu Deus, com óleo de alegria, de preferência aos teus companheiros”. É assim que dele participaram os reis e ungidos, todos os que são chamados reis e ungidos, da mesma maneira como ele próprio recebeu de seu Pai o fato de ser Rei, Cristo, Sacerdote, Mensageiro e todos os outros títulos que ele tem ou teve.

[13] A vara de Aarão, que brotou, o indicou para sumo sacerdote. Isaías profetizou que ele nasceria como rebento da raiz de Jessé. E Davi diz que o justo é como “uma árvore plantada junto às correntes das águas, que dá fruto em seu tempo e cuja folha não cai”. Outro texto diz: “O justo floresce como palmeira.”

[14] Deus apareceu a Abraão junto a uma árvore, como está escrito: “Junto ao carvalho de Mambré”. O povo encontrou setenta salgueiros e doze fontes, logo que atravessou o Jordão. Davi diz que Deus o consola com sua vara e seu bastão.

[15] Eliseu, tendo atirado um pedaço de madeira no rio Jordão, tirou fora o machado de ferro, com que os filhos dos profetas tinham saído para cortar madeira, a fim de construir a casa em que desejavam recitar e meditar a lei e os mandamentos de Deus. Da mesma forma, nós estávamos banhados pelos gravíssimos pecados que tínhamos cometido, mas nosso Cristo nos redimiu quando foi crucificado sobre o madeiro e quando nos purificou pela água, e nos converteu em casa de oração e adoração. Também foi uma vara que mostrou que Judá era o pai dos filhos que por um grande mistério tinham nascido de Tamarl.

[16] Tendo eu falado essas coisas, Trifão disse: “Não quero que penses que te faço minhas perguntas com a única intenção de atrapalhar o que dizes. Quero antes aprender a respeito dos pontos sobre os quais te pergunto.”

[17] “Dize-me, agora: de um lado, Isaías diz: ‘Sairá um rebento da raiz de Jessé e uma flor subirá da raiz de Jessé e sobre ele descansará o Espírito de Deus, Espírito de sabedoria e inteligência, Espírito de conselho e fortaleza, Espírito de ciência e piedade, e o Espírito a encherá do temor de Deus’, por outro lado, tu me confessaste que essa passagem se aplica a Cristo e afirmas que ele é Deus preexistente e que, por desígnio do Pai, nasceu encarnado da virgem. Como se pode demonstrar que preexiste aquele que é enchido de todas as potências do Espírito Santo, que aí a palavra enumera por meio de Isaías, como alguém que não as tivesse?”

[18] Eu lhe respondi: “Perguntaste com agudez e inteligência, pois realmente parece haver aqui uma dificuldade. Escuta, porém, o que vou dizer, para que entendas também porque ela existe. A palavra não diz que as potências do Espírito aqui enumeradas viriam sobre ele como se estivesse falto delas, mas porque elas iriam descansar sobre ele, isto é, que nele teria fim o fato de que em vosso povo continuasse a haver profetas, como antigamente. Isso podeis confrontar com vossos próprios olhos. Com efeito, depois de Cristo não surgiu entre vós absolutamente nenhum profeta.”

[19] “Considerai que os próprios profetas que existiram entre vós, cada um deles recebeu uma ou outra potência de Deus para falar e realizar aquelas coisas que nós agora conhecemos por meio das Escrituras. Prestai atenção no que vos digo. Salomão teve espírito de sabedoria, Daniel de inteligência e conselho, Moisés de fortaleza e piedade, Elias de temor e Isaías de ciência. O mesmo se pode dizer dos outros, que tiveram cada um uma só, ou uma alternando com a outra, como Jeremias, os Doze, Davi e, em geral, todos os profetas que existiram entre vós.”

[20] “Descansou, portanto, quer dizer cessou, tendo vindo aquele depois do qual, cumpridos os tempos dessa sua dispensação entre os homens, haveriam de cessar em vós e, descansando nele, como foi profetizado, converter-se novamente em dons da mesma graça do poder daquele Espírito, que Cristo reparte entre os que nele crêem, a cada um conforme ele julga ser digno.”

[21] “Já vos disse como foi profetizado que ele deveria fazer isso depois de sua ascensão aos céus, e agora vos repito. A Escritura diz: ‘Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos filhos dos homens’. E se diz de novo em outra profecia: ‘E, depois disso, acontecerá que derramarei meu Espírito sobre toda carne, sobre meus servos e minhas servas, e profetizarão’.”

[22] Assim, entre nós, podem-se ver homens e mulheres que possuem carismas do Espírito de Deus. Desse modo, foi profetizado que as potências do Espírito, enumeradas por Isaías, deveriam vir sobre Cristo, não porque ele estivesse falto de seu poder, mas porque daí por diante não deveriam mais existir. Seja também de testemunho para vós o que contei sobre aquilo que fizeram os magos da Arábia, os quais, apenas nascera o menino, foram adorá-lo.

[23] É que desde o seu nascimento ele teve seu próprio poder. Depois foi crescendo conforme o desenvolvimento comum de todos os outros homens, usou os meios adequados de vida, deu a cada crescimento o que lhe correspondia, comeu de todo tipo de alimentos e permaneceu oculto mais ou menos trinta anos, até que apareceu João, precedendo-o como arauto de sua vinda e adiantando-se a ele no caminho do batismo, como já demonstrei antes.

[24] Foi então que, vindo Jesus ao rio Jordão, onde João estava batizando, desceu à água e acendeu-se um fogo no Jordão; quando subiu da água, os que foram apóstolos desse nosso Cristo escreveram que voou sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba.

[25] Sabemos que Cristo foi ao Jordão não porque tivesse necessidade do batismo, nem de que viesse sobre ele o Espírito Santo em forma de pomba, como também não se dignou nascer e ser sacrificado porque necessitasse disso, mas por amor ao gênero humano, que desde Adão havia incorrido na morte e no erro da serpente, cada um cometendo o mal por sua própria culpa.

[26] Com efeito, tendo Deus criado homens e anjos dotados de livre-arbítrio e autonomia, quis que cada um fizesse aquilo para o qual foi por ele capacitado e, caso escolhessem o que lhe é agradável, iria mantê-los isentos de morte e castigo. Caso, porém, cometessem o mal, castigaria cada um como lhe aprouvesse.

[27] Nem o fato de entrar em Jerusalém, montado num jumento, conforme demonstramos que estava profetizado, lhe deu o poder de ser Cristo, mas deu ele um sinal aos homens de que era Cristo, do mesmo modo que nos dias de João teve que ser dado um sinal pelo qual os homens reconhecessem que ele era Cristo.

[28] Com efeito, quando João estava junto ao Jordão, pregando o batismo de penitência, cingido por um cinturão de pele e vestido de pêlos de camelo, comendo apenas gafanhotos e mel silvestre, as pessoas pensavam que ele era Cristo. Ele, porém, lhes gritava: “Eu não sou o Cristo, mas uma voz daquele que grita. De fato, virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não sou digno de carregar.”

[29] Quando Jesus chegou ao Jordão, ele era considerado como filho do carpinteiro José, e apareceu sem beleza, como as Escrituras haviam anunciado, e ele próprio foi considerado como carpinteiro. Foi assim que fabricou obras dessa profissão — arados e jugos — enquanto estava entre os homens, ensinando por meio deles o símbolo da justiça e o que é uma vida de trabalho.

[30] Foi então que, por causa dos homens, como já disse antes, o Espírito Santo voou sobre ele em forma de pomba e, ao mesmo tempo, veio do céu uma voz, a mesma que foi dita por meio de Davi, quando o próprio Pai disse pessoalmente o que este diria a Cristo: “Tu és o meu filho, eu hoje te gerei”. O Pai chama nascimento de seu filho o momento em que o conhecimento dele chegaria aos homens.

[31] Trifão replicou: “Sabes muito bem que o nosso povo todo espera pelo Cristo. Também te concedemos que todas as passagens das Escrituras, que citaste, se referem a ele. Eu pessoalmente te declaro também que o nome de Jesus dado ao filho de Nave levou-me a ceder também nesse ponto.”

[32] “O que duvidamos é que o Cristo tivesse de morrer tão vergonhosamente, pois na lei se diz que é maldito aquele que morre crucificado. De modo que, por enquanto, é muito difícil para mim convencer-me disso. Que as Escrituras tenham anunciado um Cristo passível é evidente. O que desejo saber, se tiveres um argumento a demonstrar, é o fato de que ele teria que sofrer um suplício que está maldito na lei.”

[33] Eu respondi: “Se Cristo não tivesse que sofrer; se os profetas não tivessem predito que, por causa das iniqüidades do seu povo, teria de ser levado à morte, ser desonrado, açoitado, contado entre os malfeitores e levado como ovelha ao matadouro — ele, cuja origem o profeta disse que ninguém seria capaz de explicar —, haveria motivo para maravilhar-se. Contudo, se é isso que o distingue e o mostra para todo mundo, como nós também não creríamos nele com toda segurança? Todos os que ouvem as palavras dos profetas, logo que ouvem que ele foi crucificado, dirão que este é o Cristo e não outro.”

[34] Trifão disse: “Instrui-nos sobre isso através das Escrituras, para que também nós nos convençamos. Com efeito, sabemos que ele haveria de sofrer e ser conduzido como ovelha ao matadouro. O que nos tens que demonstrar é que ele também deveria ser crucificado e morrer de morte tão desonrosa e amaldiçoada pela própria lei. Nós, de fato, não podemos sequer imaginar isso.”

[35] Eu respondi: “Tu sabes, como vós mesmos concordastes, que tudo o que os profetas disseram e fizeram foi envolvido em comparações e símbolos, de modo que a maior parte das coisas não podem ser facilmente entendidas por todos, pois eles ocultaram a verdade que existe nesses símbolos, a fim de que aqueles que a buscam a encontrem e aprendam com esforço.”

[36] Eles confirmaram: “De fato, concordamos com isso.”

[37] Eu continuei: “Agora escuta o seguinte: o fato é que Moisés com os sinais que fez, foi o primeiro que manifestou essa suposta maldição da cruz.”

[38] Ele perguntou: “A que sinais tu te referes?”

[39] Eu expliquei: “Quando o povo fazia guerra contra Amalec e o filho de Nave, a quem foi dado o nome de Jesus, comandava a batalha, Moisés orava a Deus com as mãos estendidas. Hor e Aarão as sustentaram o dia todo, para que elas não se abaixassem por causa do cansaço. Como está escrito nos próprios livros de Moisés, o povo era vencido se essa figura que imitava a cruz cedia um pouco; entretanto, enquanto permanecia nessa forma, Amalec era derrotado.”

[40] “E se o povo tinha forças, era por causa da cruz que as tinha. De fato, o povo levava vantagem não porque Moisés orava dessa forma, mas porque ele formava o sinal da cruz, pois era o nome de Jesus que comandava a batalha. Com efeito, quem de vós não sabe que a melhor forma de aplacar a Deus é a que se faz com gemidos e lágrimas, com o corpo prostrado e joelhos dobrados? Contudo esse modo de orar sentado numa pedra, nem Moisés nem ninguém o fizera antes nem o fez depois. Por outro lado, a própria pedra, como já demonstrei, é um símbolo de Cristo.”

[41] Para dar a entender por outro sinal o poder do mistério da cruz, Deus formulou através de Moisés a bênção com que abençoou José: “Da bênção do Senhor a terra dele, das estações do céu, dos orvalhos e das fontes do abismo subterrâneo, dos frutos conforme os giros do sol e das conjunções dos meses, do cume dos montes antigos, do cimo das colinas, dos rios perenes e da plenitude dos frutos da terra. O beneplácito daquele que apareceu na sarça sobre a cabeça de José e sobre a sua fronte. Primogênito entre seus irmãos, ele é glorificado. Sua beleza é a do touro, seus chifres são os chifres do unicórnio; com eles chifrará o conjunto das nações até as extremidades da terra.”

[42] Pois bem. Não se pode dizer que os chifres do unicórnio formem figura diferente da cruz. Com efeito, uma haste da cruz se ergue verticalmente e dela surge a parte superior, quando se ajustou a haste transversal. Seus extremos aparecem de um lado e de outro, como chifres unidos em um único chifre. Além disso, a estaca, que se ergue no meio e sobre a qual se apóia o corpo do crucificado, também é como um chifre saliente. Este também aparenta-se com um chifre, configurado e cravado com outros chifres.

[43] Quando se diz: “Com eles chifrará todas as nações em conjunto até as extremidades da terra”, manifestava-se o que agora se realizou em todas as nações. De fato, chifradas, isto é, compungidas por esse mistério da cruz, pessoas de todas as nações se converteram ao culto a Deus, abandonando seus ídolos vãos e demônios. Por outro lado, o mesmo sinal se manifesta como maldição e condenação aos incrédulos, do mesmo modo como, tendo o povo saído do Egito, Amalec era derrotado e Israel vencia por causa da figura formada pelos braços estendidos de Moisés e pelo nome de Jesus dado ao filho de Nave.

[44] Também aquela outra figura e sinal contra as serpentes que picaram Israel evidentemente foi instituído para salvação dos que creem que, desde aquela época, foi anunciada a morte da serpente através daquele que deveria ser crucificado, e a salvação daqueles que, picados por ela, se refugiam naquele que enviou seu Filho ao mundo para ser crucificado. O Espírito profético, de fato, não pretendia ensinar-nos, através de Moisés, a depositar nossa fé numa serpente. Tanto que nos manifesta como ela foi amaldiçoada por Deus desde o princípio e, em Isaías, nos dá a entender que será morta como inimiga pela grande espada, que é Cristo.

[45] Se alguém não recebeu de Deus grande graça para entender os ditos e ações dos profetas, de nada lhe servirá repetir superficialmente suas expressões ou ações, se não sabe explicá-las. Ao contrário, não parecerão desprezíveis ao povo, se são repetidos por gente que não as entende.

[46] Suponhamos que vos fosse proposta a seguinte questão: Por que, Henoc, Noé com seus filhos e outros semelhantes a eles, tendo sido gratos a Deus sem terem nascido na circuncisão e guardado os sábados teria Deus que exigir, depois de tantas gerações, que os homens se justifiquem através de outros dirigentes e de outra legislação, desde Abraão até Moisés por meio da circuncisão, e desde Moisés fora da circuncisão, por outras ordens, como os sábados, os sacrifícios, as cinzas e ofertas? A única resposta que tendes será demonstrar, como eu fiz antes, que Deus, por ser presciente, soube que o vosso povo um dia mereceria ser expulso de Jerusalém e que a ninguém seria permitido nela entrar.

[47] E nem mesmo a Abraão Deus lhe deu testemunho de ser justo por causa da circuncisão, mas por causa da fé, porque, antes de ser circuncidado, assim foi dito sobre ele: “Abraão creu em Deus e lhe foi reputado como justiça”.

[48] Também nós, portanto, que cremos em Deus, por meio de Cristo, no prepúcio da nossa carne, e possuímos uma circuncisão que é vantagem para aqueles que a possuem, isto é, a circuncisão do coração, esperamos aparecer justos e gratos a Deus, pois já recebemos o seu testemunho por meio de seus profetas. Contudo, os mandamentos que recebestes de guardar o sábado e oferecer sacrifícios, e que o Senhor se dignaria dar o seu nome a um lugar particular, tudo isso era para evitar que, caindo na idolatria e esquecendo-vos de Deus, vos tornásseis sacrílegos e ímpios, como se pode ver que sempre o fostes.

[49] Que essa seja a causa pela qual Deus vos deu os mandamentos sobre os sábados e sacrifícios, já foi antes demonstrado por mim. Todavia, por causa dos que vieram hoje, quero repetir quase todas as razões. Com efeito, se assim não fosse, poderíamos acusar a Deus de não ter previsão e de não ensinar a todos a conhecer e praticar as mesmas normas de justiça, e a fé que muitas gerações de homens tiveram antes de Moisés. Então, não existiria a palavra que diz: “Deus é verdadeiro e justo, e todos os seus caminhos são retidão, e nele não há injustiça.”

[50] Mas como essa palavra é verdadeira, Deus também quer que vós não sejais sempre insensatos e amantes de vós mesmos, mas que vos salveis unidos a Cristo, aquele que agradou a Deus e foi atestado, como eu disse antes, tomando as minhas provas das santas palavras proféticas.

[51] Com efeito, Deus proporciona ao gênero humano o que sempre e absolutamente é justo. Proporciona-lhe toda a justiça, e assim todos reconhecem que são maus o adultério, a fornicação, o assassinato e coisas semelhantes, ainda que todos cometam esses crimes. Todavia, quando os cometem, ao menos não podem deixar de reconhecer que estão cometendo uma iniqüidade, caso excetuemos aquelas pessoas que, cheias de espírito impuro e corrompidas pela educação, costumes e leis perversas, perderam as noções naturais ou antes as apagaram e reprimiram.

[52] A prova está em que mesmo essas pessoas não querem sofrer a mesma coisa que elas fazem às outras e, em toda a sua má consciência, reprovam em si umas às outras aquilo que cada uma faz. Daí, parece-me que disse bem nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, quando afirmou que toda justiça e piedade se resume em dois mandamentos, que são: “Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua força, e ao teu próximo como a ti mesmo.”

[53] Com efeito, quem ama a Deus com todo o seu coração e com toda a sua força, estando cheio de sentimento religioso, não honrará a nenhum outro deus, embora pela vontade de Deus honre aquele Anjo que é amado pelo próprio Senhor e Deus. Aquele que ama ao próximo como a si mesmo, desejará para ele os mesmos bens que deseja para si próprio, porque ninguém desejará males para si mesmo.

[54] Portanto, aquele que ama ao seu próximo pedirá em sua oração e fará por seu próximo o mesmo que faz para si; e o próximo do homem não é mais do que o animal racional, submetido às mesmas paixões, que é o homem. Visto, portanto, que a justiça se divide em duas partes, em relação a Deus e em relação aos homens, todo aquele que, segundo a palavra, ama ao Senhor Deus de todo coração e com toda a sua força e ao seu próximo como a si mesmo, pode verdadeiramente considerar-se justo.

[55] Vós, porém, jamais demonstrastes ter amizade ou amor nem para com Deus, nem para com os profetas, nem uns para com os outros, mas em todo tempo, como está provado, fostes idólatras e assassinos dos justos, até ao ponto de pôr vossas mãos sobre o próprio Cristo. E ainda agora vos obstinais na vossa maldade, amaldiçoando aqueles que demonstram que esse mesmo que foi crucificado por vós é o Cristo. Não contentes com isso, pretendeis demonstrar que foi crucificado como inimigo de Deus e amaldiçoado por ele, quando a crucifixão foi obra de vossa insensatez.

[56] Com efeito, através dos sinais feitos por Moisés, tendes motivos para compreender que Jesus é o Cristo, mas vós não quereis entender; ao contrário, pensando que nós também somos insensatos, nos propões questões que vos vêm à cabeça, quando sois vós que ficais sem palavras ao encontrar um cristão instruído.

[57] Se não é assim, então dizei-me: não foi Deus, por meio de Moisés, quem mandou não fazer absolutamente nenhuma imagem ou representação de coisas lá do alto do céu, nem cá de baixo da terra? No entanto, no deserto, ele mesmo fez Moisés fabricar a serpente de bronze e a colocou como sinal, pelo qual se curavam os que eram picados pelas serpentes. Nem por isso vamos dizer que Deus seja culpável de injustiça.

[58] E, como eu já disse, com isso Deus anunciava um mistério, pelo qual destruiria o poder da serpente, que foi autora da transgressão de Adão; e, ao mesmo tempo, anunciava salvação para aqueles que crêem naquele que era simbolizado por esse sinal, isto é, naquele que deveria ser crucificado e os haveria de livrar das picadas da serpente, que são as más ações, as idolatrias e demais iniqüidades.

[59] Com efeito, se não é assim que deva ser entendido, dai-me um motivo por que Moisés ergueu como sinal a serpente de bronze e mandou que os picados olhassem para ela e eles se curavam. Fez isso depois que ele próprio tinha ordenado que ninguém absolutamente fabricasse imagem.

[60] Então, outro dos que tinham vindo no segundo dia disse: “Disseste a verdade. Não temos argumento para responder. Com efeito, eu mesmo perguntei muitas vezes aos nossos mestres sobre isso e ninguém me deu uma explicação. Continua, pois, o que estás dizendo, porque nós te esperamos como alguém que nos revela um mistério, pois até os ensinamentos dos profetas são objeto de calúnias.”

[61] Eu continuei: “Assim como Deus mandou fazer um sinal por meio da serpente de bronze e não tem culpa disso, também na lei há uma maldição contra os que morrem crucificados, mas essa maldição não recai sobre o Cristo de Deus, pelo qual Deus salva todos os que fizeram obras dignas de maldição.”

[62] Com efeito, todo gênero humano perceberá que está sob maldição. Segundo a lei de Moisés, chama-se maldito todo aquele que não persevera no cumprimento do que está escrito na lei. E que ninguém a tenha cumprido exatamente, nem vós mesmos vos atreveis a contradizer. Uns guardaram mais os seus mandamentos e outros menos. Se os que estão submissos a essa lei carregam maldição por não tê-la observado inteiramente, quanto mais não a carregam todas as nações entregues à idolatria, à corrupção dos jovens e a outros males que praticam?

[63] Portanto, se foi da vontade do Pai do universo que seu Cristo carregasse por amor o gênero humano com a maldição de todos, sabendo que o ressuscitaria depois de crucificado e morto, por que falais como de um maldito daquele que se dignou sofrer tudo isso pelo desígnio do Pai? Valeria mais que chorásseis a vós mesmos. De fato, é certo que foi o seu próprio Pai quem o fez sofrer tudo o que ele sofreu por causa do gênero humano, mas vós não agistes para cumprir um desígnio de Deus, assim como ao matar os profetas não realizastes uma obra de piedade.

[64] E que ninguém de vós diga: “Se o Pai quis que o Cristo sofresse para que, por meio de suas chagas, viesse a cura para o gênero humano, nós não cometemos nenhum pecado.” Porque se dissésseis isso, arrependendo-vos dos vossos pecados, reconhecendo que Jesus é o Cristo e observando os seus mandamentos, vossos pecados vos seriam perdoados, como eu já disse antes;

[65] Todavia, se maldizeis não somente a ele, mas também aos que nele crêem, e tirais a vida destes porque tendes poder para isso, como ele não requererá de vós ter posto sobre ele vossas mãos, como homens criminosos e pecadores, levando ao extremo vossa dureza de coração e insensatez?

[66] Com efeito, o que está dito na lei: “É maldito todo aquele que for suspenso no madeiro”, fortifica ainda mais a nossa esperança que pende de Cristo crucificado, pois Deus não amaldiçoa esse crucificado, mas predisse o que vós e outros semelhantes a vós faríeis, ignorando que Jesus existe antes de tudo e é o eterno sacerdote de Deus, Rei e Ungido.

[67] E vedes que claramente assim acontece. Porque vós amaldiçoais em vossas sinagogas todos aqueles que dele recebem o fato de ser cristãos, e as demais nações, tornando efetiva a vossa maldição, tirais a vida pelo simples fato de alguém se confessar cristão.

[68] Nós, porém, dizemos a vós todos: sois nossos irmãos. Reconhecei forçosamente a verdade de Deus. Nem os gentios, nem vós fazeis de nós, mas vos empenhais em que neguemos o nome de Cristo, e nós preferimos antes morrer e, de fato, nos submetemos à morte, porque estamos seguros que Deus dará a nós todos os bens que ele nos prometeu por meio de Cristo.

[69] Além disso tudo, nós oramos por vós, a fim de que alcanceis misericórdia de Cristo, pois ele nos ensinou a pedir até pelos nossos inimigos, dizendo: “Amai vossos inimigos, sede benignos e misericordiosos, como o vosso Pai celeste.” De fato, podemos ver quão benigno e misericordioso é o Deus onipotente, pois ele faz sair o seu sol sobre ingratos e justos, e chover sobre santos e ímpios. E também ensinou a todos nós que ele haveria de julgar.

[70] Também não foi por acaso que o profeta Moisés permaneceu até a tarde mantendo a figura da cruz, quando Hor e Aarão lhe sustentavam os braços, pois também o Senhor permaneceu sobre a cruz até quase o entardecer; e pelo entardecer o sepultaram, para ressuscitar no terceiro dia. Isso foi assim expresso por Davi: “Com a minha voz gritei ao Senhor, e ele me ouviu do seu monte santo. Eu adormeci e o torpor se apoderou de mim. Levantei-me, porque o Senhor me protegeu.”

[71] Da mesma forma, Isaías disse sobre o modo como Cristo deveria morrer: “Estendi as minhas mãos a um povo que não crê e que contradiz, aos que andam por um caminho que não é bom.”

[72] E o próprio Isaías diz que ele haveria de ressuscitar: “Sua sepultura será tirada do meio” e “darei os ricos em troca da sua morte.”

[73] Em outra passagem, no salmo 22, Davi também alude à paixão e à cruz, numa comparação misteriosa: “Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram um por um todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes.” Com efeito, quando o crucificaram, ao cravar-lhe os cravos, perfuraram-lhe as mãos e os pés. Os mesmos que o crucificaram repartiram entre si as roupas dele, cada um lançando a sorte sobre o que queria escolher.

[74] Também dizeis que este salmo não se aplica a Cristo, pois estais completamente cegos e não percebeis que a ninguém do vosso povo, que tenha tido o título de rei, perfuraram as mãos e os pés enquanto estava vivo, nem morreu por este mistério, isto é, crucificado, mas apenas esse Jesus.

[75] O salmo 22 se aplica perfeitamente à paixão e morte de Jesus.

[76] Recitar-vos-ei o salmo inteiro, para que escuteis sua piedade para com o Pai e como a ele refere tudo, pedindo-lhe que o salve da morte, ao mesmo tempo que mostra no salmo quais eram os que se haviam levantado contra ele, e demonstra que era verdadeiramente homem, capaz de sofrer.

[77] O salmo é este: “Ó Deus, ó Deus meu, atende-me. Por que me abandonaste? Longe da minha salvação estão as palavras dos meus pecados. Ó Deus meu, gritarei durante o dia a ti, e tu não me escutarás; gritarei à noite, e não é coisa que eu ignore. Mas tu habitas em teu santuário, ó glória de Israel! Em ti esperaram os nossos pais; esperaram, e tu os livraste. Clamaram a ti e se salvaram; esperaram em ti e não se envergonharam.”

[78] Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo. Todos os que me contemplaram zombaram de mim; falaram com seus lábios e moveram a cabeça: “Esperou no Senhor, que ele o livre e salve, pois lhe quer bem.”

[79] Porque tu és aquele que me tiraste do ventre, a minha esperança desde os peitos de minha mãe: sobre ti fui lançado desde o seio dela. Desde o ventre da minha mãe, tu és o meu Deus. Não te afastes de mim, porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra.

[80] Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Abriram contra mim a sua boca, como leão esperto e rugidor. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre. Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato, e tu me afundaste até o pó da morte.

[81] Porque me rodearam muitos cães, um bando de ímpios me cercou. Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si as minhas roupas e sobre a minha túnica lançaram sortes.

[82] Tu, porém, Senhor, não afastes de mim a tua ajuda, atende à minha petição. Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação. Narrarei o teu nome entre os meus irmãos e no meio da congregação entoarei hinos a ti. Louvai o Senhor, vós que o temeis; glorificai-o, toda a descendência de Jacó. Tema-o toda a descendência de Israel.

 

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