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[1] Dito isso, acrescentei: — Demonstrar-vos-ei que todo esse salmo foi dito em relação a Cristo. Para isso, comentarei novamente algumas passagens. As próprias palavras com que ele começa: “Ó Deus, ó meu Deus, por que me abandonaste?” predisseram muito tempo atrás o que Cristo deveria dizer. Com efeito, ao ser crucificado, ele disse: “Deus, Deus meu, por que me abandonaste?”

[2] E as palavras seguintes também se referem à coisas que ele deveria fazer. “Longe da minha salvação as palavras dos meus pecados. Ó Deus meu, gritarei durante o dia a ti, e tu não me escutarás; gritarei à noite, e não é coisa que eu ignore”. Foi assim que na noite em que ia ser crucificado, tomando consigo três dos seus discípulos, dirigiu-se ao monte chamado das Oliveiras, situado próximo ao templo de Jerusalém, e ali orou, dizendo: “Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice”. Pouco depois, acrescenta em sua oração: “Não como eu quero, mas como tu queres”. Com isso ele manifestava que era verdadeiramente homem passível.

[3] E para que ninguém objetasse: “Ele ignorava que teria de padecer?” acrescenta-se imediatamente no salmo: “E não é coisa que eu ignore”. Do mesmo modo como também Deus não ignorava nada, quando perguntou a Adão onde estava e a Caim sobre o paradeiro de Abel, mas desejava interrogar cada um sobre o que era e para que até nós chegasse o conhecimento de tudo, ficando consignado por escrito, assim Jesus deu a entender que não agia por própria ignorância, mas denunciava a ignorância daqueles que acreditavam que ele não era o Cristo e imaginavam que o conduzissem à morte e que, como um homem qualquer, permaneceria para sempre na região dos mortos.

[4] A frase seguinte: “Mas tu habitas no santuário, ó glória de Israel!” significava que ele faria algo digno de glória e admiração, ressuscitando dentre os mortos ao terceiro dia, depois de ter sido crucificado. De fato, ele recebeu essa glória de seu Pai, porque já demonstrei que Cristo recebe os nomes de Jacó e Israel. Não só se anuncia misteriosamente sobre ele na bênção de José e Judá, mas também no Evangelho está escrito que ele disse: “Tudo me foi entregue por meu Pai”. E: “Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai e aquele a quem o Filho o revelar”.

[5] Com efeito, ele nos revelou todas aquelas coisas que, por sua graça, entendemos das Escrituras, reconhecendo que ele é o primogênito de Deus, antes de todas as criaturas e, ao mesmo tempo, filho dos patriarcas, pois se dignou nascer homem, sem formosura, sem honra e passível, feito carne de uma virgem da descendência dos patriarcas.

[6] Por isso, em seus próprios discursos, falando de sua futura paixão, disse: “É preciso que o Filho do Homem sofra muito, seja reprovado pelos fariseus e escribas, seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia”. Ele se chamava a si mesmo Filho do Homem, seja por causa do seu nascimento de uma virgem da descendência de Davi, Jacó, Isaac e Abraão, seja porque o próprio Adão é pai desses que acabo de enumerar, dos quais Maria tem a sua origem. De fato, sabemos que os pais das filhas são também pais dos filhos delas.

[7] A um de seus discípulos, que até então se chamava Simão, Jesus mudou-lhe o nome para Pedro, porque ele o reconheceu, por revelação do Pai, como Cristo Filho de Deus. E nós o temos descrito como Filho de Deus nas Memórias dos Apóstolos e como tal o confessamos. Por um lado, entendemos que, por poder e vontade do Pai, dele procedeu, antes de todas as criaturas, Cristo, que nos discursos dos profetas é chamado Sabedoria, Dia, Oriente, Espada, Pedra, Vara, Jacó e Israel. Por outro lado, confessamos que ele nasceu da virgem como homem, a fim de que pelo mesmo caminho que iniciou a desobediência da serpente, por esse também ela fosse destruída.

[8] De fato, quando ainda era virgem e incorrupta, Eva, tendo concebido a palavra que a serpente lhe disse, deu à luz a desobediência e a morte. A virgem Marial, porém, concebeu fé e alegria, quando o anjo Gabriel lhe deu a boa notícia de que o Espírito do Senhor viria sobre ela e a força do Altíssimo a cobriria com sua sombra, através do que o santo que dela nasceu seria o Filho de Deus. A isso, ela respondeu: “Faça-se em mim segundo a palavra”.

[9] E da virgem nasceu Jesus, ao qual demonstramos que tantas Escrituras se referem, pelo qual Deus destrói a serpente e os anjos e homens que a ela se assemelham, e livra da morte aqueles que se arrependem de suas más ações e nele crêem.

[10] O salmo continua: “Em ti esperaram os nossos pais; esperaram, e tu os livraste. Clamaram a ti e se salvaram; esperaram em ti e não se envergonharam. Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo”. Assim foi demonstrado que ele reconhecia como pais os que esperaram em Deus e foram por ele salvos, aqueles que foram pais da virgem, da qual ele nasceu feito homem; ao mesmo tempo, dá a entender que ele próprio será salvo por Deus, mas não se gloria de fazer nada por sua própria vontade ou força.

[11] Foi assim que ele próprio fez quando esteve na terra. De fato, quando alguém lhe disse: “Bom Mestre”, ele respondeu: “Por que me chamas bom? Somente um é bom: o meu Pai que está nos céus”. Quanto às palavras: “Eu, porém, sou um verme, e não um homem, zombaria dos homens e desprezo do povo”, são uma predição do que realmente está acontecendo; de fato, há zombaria em todo lugar para nós, homens que nele cremos; e chama-se desprezo do povo porque, desprezado e desonrado pelo povo, sofreu tudo o que fizestes com ele.

[12] A frase seguinte: “Todos os que me contemplavam zombaram de mim; falaram com seus lábios e moveram a cabeça: ‘Esperou no Senhor, que ele o livre e salve, pois lhe quer bem’”, é igualmente clara predição do que aconteceu. Com efeito, os que o olhavam crucificado moviam suas cabeças, retorciam os lábios, esfregavam o nariz, dizendo sarcasticamente entre si: “Dizia-se Filho de Deus. Que desça da cruz e ande. Que Deus o salve”.

[13] O salmo continua: “Minha esperança desde os peitos de minha mãe: sobre ti fui lançado desde o seio dela. Desde o ventre da minha mãe, tu és o meu Deus. Não te afastes de mim, porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre. Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Tudo isso é um anúncio antecipado do que realmente aconteceu.

[14] Quanto às palavras: “A minha esperança desde os peitos de minha mãe”: apenas nascido em Belém, como eu disse antes, já quis matá-lo o rei Herodes, que fora informado pelos magos da Arábia e, por ordem de Deus, José tomou o menino e foi para o Egito com Maria. Isso porque o Pai havia determinado que Aquele que ele próprio havia gerado não morresse, até que, chegando à idade adulta, tivesse anunciado a sua palavra.

[15] Talvez alguém nos pergunte: “Não poderia Deus de preferência matar Herodes?” Ao que respondo logo: Não poderia Deus no princípio ter eliminado a serpente, para não ter que dizer: “Porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua descendência e a dela?” Não poderia Deus criar imediatamente uma multidão de homens?

[16] Todavia, como ele sabia que era coisa boa, criou os anjos e os homens livres para realizar o bem e determinou os tempos até o momento que ele sabe que será bom eles possuírem livre-arbítrio. E porque igualmente considerou bom, estabeleceu julgamentos universais e particulares, embora sem atentar contra a liberdade. É assim que a palavra diz na construção da torre, quando houve a multiplicação e confusão das línguas: “O Senhor disse: Eis uma só raça e um só lábio. E começaram a fazer isso. Agora não desistirão de qualquer coisa que tenham empreendido”.

[17] Também é uma profecia do que, por vontade do Pai, deveria acontecer a Cristo, as seguintes palavras: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato”. Com efeito, a força de sua poderosa palavra, com a qual confundia sempre os fariseus e escribas que discutiam com ele e, em geral, os mestres do vosso povo, ficou contida, como uma fonte impetuosa de abundante água, cuja corrente fosse desviada, pois ele se calou e, diante de Pilatos, não quis responder a ninguém uma só palavra.

[18] Dizer que “tu és o meu Deus, não te afastes de mim” é, ao mesmo tempo, algo de quem nos deseja ensinar que todos nós devemos colocar a nossa confiança no Deus que fez todas as coisas e somente nele procurar salvação e socorro, e não pensar, como o comum dos homens, que podemos nos salvar por nossa descendência, riqueza, força ou sabedoria. Isso é o que vós fizestes sempre, certa vez fabricando para vós um bezerro de ouro e sempre vos mostrando ingratos e assassinos dos justos, e ao mesmo tempo, vos orgulhando de vossa descendência. Com efeito, se o Filho de Deus nos diz que não pode salvar-se sem a ajuda de Deus nem por ser Filho, nem por ser forte ou sábio, mas por ser impecável, não ter pecado nem pela palavra como diz Isaías: “Não cometeu pecado, nem se encontrou engano em sua boca”, como não percebeis que vos estais enganando a vós mesmos, vós e os outros que esperais salvar-vos sem essa confiança?

[19] O que em seguida se diz no salmo: “Porque a tribulação está perto, e não há quem me socorra. Rodearam-me muitos novilhos, touros fortes me cercaram. Abriram contra mim a sua boca, como leão esperto e rugidor. Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água”, foi igualmente uma antecipação do que realmente lhe aconteceu. Com efeito, na noite em que pessoas do vosso povo, enviadas pelos fariseus, escribas e mestres, o atacaram no monte das Oliveiras, aí o rodearam aqueles que a palavra chama de novilhos bravos e destruidores.

[20] Acrescentando: “Touros fortes me cercaram”, profeticamente indicou os que agiram de modo semelhante aos novilhos, quando Jesus foi conduzido diante dos vossos mestres. A palavra os chama de touros, porque sabemos que dos touros procedem os novilhos. Portanto, assim como os touros são pais dos novilhos, da mesma forma os vossos mestres foram a causa de que seus filhos saíssem para prender Jesus no monte das Oliveiras e o conduzissem diante deles. Também as palavras: “Não há quem me socorra” exprimem o que aconteceu, pois de fato ninguém, nem um só homem, saiu para defender sua inocência.

[21] As palavras: “Abriram contra mim a sua boca, como leão rugidor”, significam aquele que então era rei dos judeus e também se chamava Herodes, sucessor daquele outro Herodes que, quando Jesus nasceu, matou todos os meninos nascidos em Belém naquele tempo, acreditando que entre eles pegaria inevitavelmente aquele de quem lhe haviam falado, ao chegar, os magos da Arábia; ele não sabia o plano daquele que é mais forte que todos, o qual havia mandado José e Maria tomarem a criança e partirem com ele para o Egito e aí permanecerem até que de novo lhes revelasse que poderiam voltar para a sua própria terra. Com efeito, ali permaneceram retirados até que morreu Herodes, o assassino dos meninos de Belém, e lhe sucedeu Arquelau. Este, porém, morreu antes que Cristo chegasse, conforme a vontade do Pai, segundo o plano por este disposto de morrer crucificado.

[22] Herodes sucedeu, portanto, a Arquelau, tomou o poder que lhe correspondia. E foi a ele que Pilatos, para se reconciliar, enviou Jesus amarrado. Deus sabia de antemão que isso aconteceria, e por isso falou assim: “Amarraram-no e o levaram ao assírio, como presente para o rei”.

[23] Deu ao diabo o nome de leão que ruge contra ele, o qual Moisés chama de serpente, que em Jó e Zacarias é chamado de diabo, e que é apelidado por Jesus de Satanás, nome composto cujo significado foi tomado daquilo mesmo que o diabo fazia. De fato, Satan, tanto na língua dos hebreus como dos sírios, significa apóstata; nas, em hebraico, quer dizer serpente. Satanás é composto dessas duas palavras.

[24] Quando Jesus acabava de sair do rio Jordão e ouvia a voz que lhe dizia: “Tu és o meu Filho, eu hoje te gerei”, está escrito nas Memórias dos Apóstolos que o diabo, aproximando-se dele, o tentou até dizer-lhe: “Adora-me”. A isso, Cristo retrucou: “Retira-te, Satanás. Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás”. Do mesmo modo como ele conseguiu enganar Adão, se dizia que ele poderia lhe fazer algo.

[25] As palavras: “Todos os meus ossos se derramaram e espalharam-se como água. O meu coração se tornou como cera, derretendo-se no meio do meu ventre”, também foram uma profecia do que aconteceu naquela noite em que o foram prender no monte das Oliveiras.

[26] Com efeito, nas Memórias, que eu digo terem sido compostas pelos Apóstolos ou por aqueles que o seguiram, está escrito que ele derramou suor com gotas de sangue, quando orava e dizia: “Se for possível, afaste-se este cálice”. Isso evidentemente porque seu coração e seus ossos tremiam, como se o seu coração fosse cera derretida em seu ventre. Com isso, podemos ver como verdadeiramente o Pai quis que seu Filho, por amor a nós, passasse por esses sofrimentos. E não nos aconteça dizer que, sendo ele Filho de Deus, não era afetado por nada do que fazia ou passava.

[27] A frase: “Minha força secou-se como um caco de telha e minha língua pegou-se ao meu palato” era, como eu disse antes, profecia de seu silêncio, pois ele, que havia chamado de ignorantes os vossos mestres, não respondeu nada a ninguém.

[28] As palavras: “Tu me afundaste até ao pó da morte. Porque me rodearam muitos cães, um bando de ímpios me cercou. Perfuraram minhas mãos e meus pés, e contaram todos os meus ossos. Eles me consideraram e contemplaram. Dividiram entre si minhas roupas e sobre minha túnica lançaram sortes”, como eu já disse antes, anunciavam a morte pela qual o bando de ímpios deveria condená-lo, os quais são chamados de cães. Alude também aos caçadores, porque os mesmos que foram dar-lhe caça, reuniram-se, pois estavam apressados para condená-lo à morte. Tais acontecimentos estão escritos nas Memórias dos Apóstolos.

[29] Já foi dito como os verdugos, depois de crucificá-lo, repartiram entre si as roupas dele.

[30] O salmo continua: “Tu, porém, Senhor, não afastes de mim a tua ajuda, atende à minha proteção. Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”. Tudo isso é ensinamento e anúncio do que nele tem e teve de acontecer. De fato, como já indiquei, tal como aprendemos pelas Memórias, ele é o unigênito do Pai do universo, particularmente nascido deste como Verbo e Potência, e depois nascido da virgem como homem.

[31] Também estava predito que ele morreria crucificado. Com efeito, as palavras: “Livra minha alma da espada e a minha unigênita da pata do cão. Salva-me das fauces do leão e dos chifres dos unicórnios, a minha humilhação”, davam igualmente a entender qual era o suplício pelo qual ele deveria morrer, isto é, pela cruz. Já antes vos interpretei que os chifres do unicórnio somente podem aludir à forma da cruz.

[32] Ao pedir que livrasse sua alma da espada, da boca do leão e da pata do cão, estava pedindo que ninguém se apoderasse de sua alma, a fim de que nós, ao chegarmos ao fim de nossa vida, peçamos o mesmo Deus, o qual pode afastar de nós todo anjo impiedoso e mau, para que não se apodere de nossa alma.

[33] Já vos demonstrei que as almas sobrevivem através do fato de que a alma de Samuel foi evocada pela pitonisa, como Saul lhe havia pedido. Daí se vê que todas as almas de homens tão justos e profetas como Samuel podem cair sob o poder de potências semelhantes àquela que operava na pitonisa e pelos próprios fatos temos que confessar isso.

[34] Por isso, Deus nos ensinou por seu próprio Filho a lutar com todas as nossas forças para sermos justos e pedir, ao sair deste mundo, que nossa alma não caia em poder de nenhuma potência semelhante. Assim, no momento de entregar seu espírito sobre a cruz, ele disse: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”, como se sabe pelas Memórias.

[35] Ele também exortava seus discípulos a superar a conduta dos fariseus, pois do contrário não se salvariam. Nas Memórias está escrito que ele disse: “Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”.

[36] Como Jesus sabia que seu Pai lhe concederia o que pedisse e o ressuscitaria dentre os mortos, exortou a todos os que temem a Deus para que o louvassem, pois tinha sido misericordioso com todo o gênero humano que crê, mediante sua morte na cruz. Ele se colocou no meio de seus irmãos, seus apóstolos, os quais, depois da ressurreição, persuadindo-se do que ele lhes havia dito antes sobre tudo aquilo que ele deveria sofrer e de que tudo estava anunciado pelos profetas, arrependeram-se de tê-lo abandonado quando foi crucificado. Estando no meio deles, entoou um hino a Deus, como consta nas Memórias dos Apóstolos. É o que declaram as palavras finais do salmo: “Narrarei o teu nome entre os meus irmãos e no meio da congregação entoarei hinos a ti. Louvai ao Senhor, vós que o temeis; glorificai-o, toda a descendência de Jacó. Tema-o, toda a descendência de Israel”.

[37] O fato de Jesus ter mudado para Pedro o nome anterior de um de seus apóstolos e que esteja escrito nas Memórias que ele fez o mesmo com os filhos de Zebedeu, mudando-lhes o nome para Boanerges, isto é, filhos do trovão, significava que fora ele que dera os nomes de Jacó a Israel e o nome de Jesus a Ausés. E pelo nome de Jesus foi introduzido na terra prometida aos patriarcas aquilo que sobrou do povo que saiu do Egito.

[38] Moisés manifestou que ele se levantaria como estrela em meio à descendência de Abraão, ao dizer: “Uma estrela de Jacó se levantará e um chefe de Israel”. E outra Escritura diz: “Eis um homem. Seu nome é Oriente”. Assim, ao levantar-se no céu uma estrela, logo que Cristo nasceu, como se narra nas Memórias de seus Apóstolos, os magos da Arábia, através dela, o reconheceram, foram e o adoraram.

[39] Como ele havia de ressuscitar ao terceiro dia após ser crucificado, está escrito nas Memórias dos Apóstolos que os do vosso povo, ao discutir com ele, lhe disseram: “Mostra-nos um sinal”. E ele replicou: “Esta geração má e adúltera busca um sinal, e não lhes será dado nenhum sinal além daquele do profeta Jonas”. Embora o tenha dito de alguma maneira oculta, todavia os fiéis puderam entender que, depois de ser crucificado, ressuscitaria no terceiro dia.

[40] Jesus pôs às claras que vossa geração era mais perversa e adúltera do que os habitantes da cidade de Nínive. De fato, quando Jonas, depois que um enorme peixe o vomitou três dias após tê-lo tragado, lhes pregou que dentro de três dias pereceriam em massa, estes anunciaram um jejum geral para todos os viventes, homens e animais, para que se vestissem de panos de saco, gemessem intensamente, se arrependessem sinceramente de coração e se afastassem da iniqüidade. Eles tinham fé que Deus é misericordioso e benigno para com todos os que se afastam da maldade, de modo que até o próprio rei dessa cidade e seus oficiais permaneceram, vestidos de panos de saco, no jejum e súplicas a Deus, até que sua cidade não fosse destruída.

[41] Jonas, porém, aborreceu-se pelo fato de a cidade não ter sido destruída no terceiro dia, como ele havia pregado. E então, a providência de Deus fez brotar uma hera, cuja sombra o profeta sentou-a para se proteger do calor. A hera tinha brotado de repente, sem que Jonas a tivesse plantado ou regado, para lhe fornecer sombra. E por outra providência, Deus fez com que ela secasse, e Jonas teve pena disso. Então, Deus o repreendeu, porque Jonas não tinha razão de estar aborrecido pelo fato de a cidade dos ninivitas não ter sido destruída, e lhe disse: “Como perdoaste a hera pela qual não te fatigaste, nem a criaste, uma hera que veio em sua noite e em sua noite mesmo desapareceu, e eu não perdoaria Nínive, a grande cidade, na qual habitam mais de cento e vinte mil homens que não sabem distinguir a direita da esquerda, e muitos animais?”

[42] Apesar de todo o vosso povo conhecer a história de Jonas e de que Cristo, estando entre vós, gritou que vos daria o sinal de Jonas, exortando-vos para que, ao menos com sua ressurreição dos mortos, vos arrependêsseis de vossas más ações e, como os ninivitas, clamásseis com lágrimas a Deus, para que a vossa nação e cidade não fossem tomadas e destruídas, como de fato aconteceu.

[43] Vós, logo que soubestes que ele havia ressuscitado dos mortos, não só não fizestes penitência, mas, como eu disse antes, escolhestes homens especializados e os enviastes por toda a terra para que repetissem, como arautos, que uma seita sem Deus e sem lei se tinha levantado em nome de um Jesus da Galiléia, que fora impostor. Dizeis: “Nós o crucificamos, mas os discípulos dele, depois de roubá-lo do sepulcro em que fora colocado depois de ser despregado da cruz, agora enganam o povo dizendo que ele ressuscitou dos mortos e subiu aos céus.” Chegastes a caluniá-lo por ter ensinado essas doutrinas ímpias, iníquas e sacrílegas que vós espalhais por toda a humanidade contra nós, que o confessamos como Cristo, Mestre e Filho de Deus.

[44] Finalmente, depois que vossa cidade foi tomada e a vossa terra ficou desolada, mesmo assim não fazeis penitência, mas vos atreveis a maldizer a ele e a todos os que nele crêem. Todavia, nós não aborrecemos nem a vós, nem àqueles que, por vossa culpa, pensam todas essas abominações a nosso respeito. Ao contrário, rogamos que, pelo menos agora, façais penitência e alcanceis todos a misericórdia do Deus, que é Pai do universo, compassivo e misericordioso.

[45] Permiti-me que vos cite algumas breves palavras de Miquéias, um dos doze profetas. Por elas, podereis ver como os gentios fizeram penitência do mal em que antes erravam, logo que ouviram e aprenderam a doutrina que seus apóstolos, saindo de Jerusalém, lhes anunciaram.

[46] As palavras são as seguintes: “Nos últimos dias, o monte do Senhor será visível, preparado sobre o cume dos montes, erguido sobre as colinas. A ele afluirão os povos e para aí marcharão muitas nações, e dirão: Vinde, subamos ao monte do Senhor e à casa do Deus de Jacó, e seu caminho será iluminado para nós e andaremos em suas veredas. Porque de Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor. Ele julgará em meio a muitos povos e até longe argüirá nações fortes. Quebrarão suas espadas para fazer arados e suas lanças para fazer foices. Já não haverá medo de que uma nação levante a espada contra outra nação, ou que continuem aprendendo a guerrear.

[47] O homem se sentará debaixo de sua figueira, e não haverá quem lhe infunda medo, porque a boca do Senhor dos exércitos falou. Com efeito, todos os povos caminharão em nome de seus deuses; nós, porém, caminharemos em nome do Senhor nosso Deus para sempre. E acontecerá naquele dia: eu congregarei a atribulada, juntarei a expulsa e aquela a quem maltratei. Farei da atribulada um resto e da oprimida um povo poderoso. E o Senhor reinará sobre eles no monte Sião, desde agora e para sempre”.

[48] Terminada a citação, acrescentei: — Senhores, sei muito bem que vossos mestres reconhecem que todas as palavras dessa passagem se referem a Cristo. Contudo, sei também, por suas afirmações, que o Cristo ainda não veio e, caso tivesse vindo, ninguém sabe quem ele é. Quando se apresentar de modo claro e glorioso, então se reconhecerá quem ele é, dizem eles.

[49] E então, acrescentam, cumprir-se-á o que se diz nessa passagem da profecia, como se agora suas palavras não tivessem nenhum cumprimento. Os insensatos não compreendem o que todos os meus raciocínios demonstraram, isto é, que estão anunciadas duas vindas de Cristo: uma, em que se predisse que apareceria passível, sem glória, sem honra, e seria crucificado; outra, em que viria dos céus com glória, quando o homem da apostasia, aquele que profere insolências contra o Altíssimo, se atrever a cometer iniqüidades contra nós, cristãos, contra nós que, conhecendo a religião através da lei e da palavra que saiu de Jerusalém pela obra dos apóstolos de Jesus, nos refugiamos no Deus de Jacó e no Deus de Israel.

[50] Nós estávamos antes cheios de guerra, de mortes mútuas e de toda maldade, mas renunciamos em toda a terra aos instrumentos guerreiros e transformamos as espadas em arados e as lanças em instrumentos para cultivar a terra, e cultivamos a piedade, a justiça, a caridade, a fé e a esperança, que nos vêm de Deus Pai por meio do seu Filho crucificado. Cada um de nós senta-se debaixo da sua parreira, isto é, cada um usa apenas de sua legítima mulher. Com efeito, vós sabeis que a palavra profética diz: “E sua mulher como vinha fértil”.

[51] É claro que ninguém é capaz de nos intimidar ou nos submeter à servidão, nós que, em toda a terra, cremos em Jesus. Decapitam-nos, pregam-nos em cruzes, atiram-nos às feras, à prisão, ao fogo, e nos submetem a todo tipo de torturas. Todavia, está à vista de todos que não apostatamos de nossa fé. Ao contrário, quanto maiores são os nossos sofrimentos, mais ainda se multiplicam os que abraçam a fé e a piedade pelo nome de Jesus. Da mesma forma que se faz com a vinha, à qual se podam os galhos que já deram fruto, para que brotem outros fortes e férteis, o mesmo acontece conosco. Com efeito, a vinha plantada por Deus e pelo Cristo Salvador é o seu povo.

[52] O resto da profecia, de fato, cumprir-se-á em sua segunda vinda. Falar da atribulada e expulsa é dizer que, quanto ao que depende de vós e de todos os outros homens, cada cristão é expulso não só de suas próprias posses, mas do mundo inteiro, pois não permitis o direito à vida a nenhum deles.

[53] Vós, todavia, dizeis que isso aconteceu ao vosso povo; porém, se sois expulsos, depois que fostes derrotados na guerra, com razão sofreis isso, como o testemunham todas as Escrituras. Nós, contudo, que nada de semelhante fizemos, uma vez que reconhecemos a verdade de Deus, dele recebemos o testemunho de que nos tira da terra junto com Cristo, o mais justo, o único sem mancha ou pecado. Isaías clama: “Eis como o justo pereceu e ninguém percebe em seu coração; homens justos são eliminados e ninguém considera isso”.

[54] Explicando o símbolo dos dois bodes oferecidos no jejum, já mostrei que, por meio deles, Moisés quis misteriosamente significar as duas vindas de Cristo. A mesma coisa era também simbolicamente anunciada e dita no que fizeram Moisés e Josué. Com efeito, um deles permaneceu sobre a colina, até o entardecer, com os braços estendidos, graças àqueles que os sustentavam, o que não era mais do que a figura da cruz. O outro, que teve o seu nome mudado para Jesus, dirigia a batalha e Israel vencia.

[55] Cumpre considerar um pormenor naqueles dois homens santos e profetas de Deus, ou seja, que um só deles não era capaz de ambos os mistérios, isto é, a figura da cruz e a figura da imposição do nome. Só há, houve e haverá um com essa força: é aquele diante de cujo nome treme toda potência, com medo de ser por ele destruída. Nosso Cristo, portanto, não foi amaldiçoado pela lei, por ter sofrido e sido crucificado. Ao contrário, sozinho ele manifestou que haveria de salvar os que não se afastam de sua fé.

[56] Os que se salvaram no Egito, quando pereceram os primogênitos dos egípcios, deveram a sua salvação ao sangue do cordeiro pascal, com que untavam um e outro lado dos umbrais e travessas das portas. É que o cordeiro pascal era Cristo, que devia ser sacrificado mais tarde, como disse Isaías. “Ele foi levado como ovelha ao matadouro”. E está escrito que o prendestes no dia da Páscoa e no dia da Páscoa o crucificastes. Assim como os que estavam no Egito foram salvos pelo sangue do cordeiro pascal, da mesma forma o sangue de Cristo salvará da morte os que têm fé.

[57] De fato, acaso Deus iria se equivocar se não encontrasse esse sinal sobre as portas? Não sei quem possa afirmar isso, mas o fato é que antecipadamente anunciava a salvação que viria para todo o gênero humano por meio do sangue de Cristo.

[58] O mesmo sinal da fita escarlate que os exploradores mandados por Jesus, filho de Nave, deram em Jericó à prostituta Raab, dizendo-lhe que a pendurasse na janela por onde os fizera descer para enganar os inimigos, foi também símbolo do sangue de Cristo. Por meio dele, salvar-se-ão os que antes se entregavam à fornicação e à iniqüidade, pessoas de todas as nações que recebem o perdão de seus pecados e não tornam mais a pecar.

[59] Vós, porém, ao explicar essas coisas de maneira tão pobre, tendes que acusar Deus de muita fraqueza, se as ouvis simplesmente e não penetrais a força do que se diz. Se assim fosse, poder-se-ia condenar ao próprio Moisés como transgressor da lei, pois ele que ordenara não se fizesse imagem nenhuma do que há no céu, na terra ou no mar, em seguida ele mesmo mandou fazer a serpente de bronze e, colocando-a numa cruz, mandou que os picados olhassem para ela, e os que olhavam ficavam curados.

[60] Dever-se-ia então entender que foi a serpente que salvou o povo, ela que, como eu já disse, foi amaldiçoada por Deus no princípio e à qual matará com sua grande espada, como diz Isaías? Será que devemos entender essas passagens da maneira tão insensata como as explicam vossos mestres e não como símbolos? Não referiremos o sinal à imagem de Jesus crucificado, pois que também Moisés com seus braços estendidos e o nome de Jesus dado ao filho de Nave faziam com que vosso povo vencesse?

[61] Desse modo, cessa toda dificuldade sobre o modo de agir do legislador. De fato, ele não abandonou a Deus ao persuadir o povo que pusesse sua confiança naquela fera, por meio da qual teve início a transgressão e a desobediência. Isso aconteceu com muita inteligência e mistério e foi dito pelo bem-aventurado profeta. E se se tem exato conhecimento deles, não há nada que se possa razoavelmente reprovar nos ditos e ações de todos os profetas em geral.

[62] Vossos mestres, porém, apenas se entretêm cavilando questões como essas. De fato, nessa passagem não se nomeiam camelos fêmeas ou o que são os chamados camelos fêmeas, ou por que se medem tantas e tantas medidas de azeite, tantas quantidades de flor de farinha para as ofertas, ainda mais que isso é interpretado pobremente e de maneira baixa. Por outro lado, as grandes questões, as que realmente merecem ser investigadas, eles não se atrevem a propô-las nem a explicá-las. Além do mais, eles vos ordenam que não nos escuteis quando as explicamos e que vós não converseis de maneira alguma conosco. Sendo assim, não é com razão que ouçam o que a eles disse nosso Senhor Jesus Cristo? “Sepulcros caiados! Por fora aparecem formosos e por dentro estão cheios de vossos cadáveres. Vós pagais o dízimo da hortelã e, em troca, engolis um camelo. Guias cegos!”

[63] Portanto, se não abandonardes os ensinamentos dos que se exaltam a si mesmos e gostam de ser chamados: “Rabi! Rabi!”; se não vos aproximardes das palavras proféticas com a decisão de estardes dispostos a sofrer por parte de vossos homens o mesmo que os profetas sofreram, com certeza não tirareis nenhum proveito de seus escritos.

[64] Contudo, para falar sobre a revelação feita sobre Jesus Cristo, o Santo, tomo novamente a palavra do profeta e afirmo que essa revelação se cumpriu também em nós, que pusemos a nossa fé nesse Sumo Sacerdote crucificado. De fato, nós que vivíamos entre fornicações e simplesmente em todo tipo de ações sujas, com a ajuda da graça que nos veio de nosso Jesus, por vontade de seu Pai, nos despojamos de todas as impurezas de que estávamos vestidos. O diabo nos ataca como eterno adversário e quer arrastar a todos nós para si; mas o anjo do Senhor, isto é, a força de Deus que nos é enviada por Jesus Cristo, o repreende e ele se afasta de nós.

[65] Nós fomos como que tirados do fogo, primeiro purificados de nossos pecados passados e depois libertos da tribulação e incêndio em que o diabo e todos os seus ministros querem nos abrasar. Todavia, também das mãos desses nos arranca Jesus, Filho de Deus, que nos prometeu, se guardarmos os seus mandamentos, vestir-nos com as vestes que preparou para nós e também preparar-nos um reino eterno.

[66] Com efeito, da mesma forma que aquele Jesus, a quem o profeta chama sacerdote, apareceu com vestes sujas por ter tomado como esposa uma prostituta, como se diz, mas depois foi chamado de tição tirado do fogo por ter recebido o perdão de seus pecados e ter sido repreendido o diabo que se lhe opunha, nós também, que cremos como um só homem no Deus criador do universo, pelo nome de seu Filho primogênito, nos despojamos de nossas vestes sujas, isto é, de nossos pecados. E abrasados pelas palavras do seu chamamento, somos a verdadeira descendência dos sumos sacerdotes de Deus, como o próprio Deus o atesta, dizendo que em todo lugar nas nações nós lhe oferecemos sacrifícios agradáveis e puros. Ora, Deus não aceita sacrifícios de qualquer um, a não ser de seus sacerdotes.

[67] Deus, portanto, testemunha que lhe são agradáveis todos os sacrifícios que lhe são oferecidos em nome de Jesus Cristo, os sacrifícios que este nos mandou oferecer, isto é, os da Eucaristia do pão e do vinho, que os cristãos celebram em todo lugar da terra. Por outro lado, Deus rejeita os sacrifícios que vós lhe ofereceis por meio de vossos sacerdotes, pois diz: “Não receberei de vossas mãos os vossos sacrifícios, porque desde o nascer do sol até o seu ocaso, o meu nome é glorificado nas nações e vós o profanais”.

[68] Ainda hoje continuais dizendo teimosamente que Deus afirma que não receberia os sacrifícios que lhe eram oferecidos em Jerusalém pelos israelitas que naquele tempo a habitavam; mas que aceitava as orações que lhe faziam os homens daquele povo que se encontravam na dispersão. E essas orações é que são chamadas de sacrifícios. Concordo que as orações e ações de graças feitas por homens dignos são os únicos sacrifícios perfeitos e agradáveis a Deus.

[69] São justamente apenas esses que os cristãos aprenderam a oferecer na comemoração do pão e do vinho, na qual se recorda a paixão que o Filho de Deus sofreu por eles. Contudo, os vossos sacerdotes e os vossos mestres fizeram com que o nome dele fosse profanado e blasfemado por toda a terra; as vestes sujas são as blasfêmias que lançais sobre todos aqueles que recebem do nome de Jesus a sua origem de cristãos; mas Deus poderosamente as tirará de nós, quando ressuscitar a todos, tornando uns incorruptíveis, imortais, isentos de dor e colocando-os em seu reino eterno.

[70] Vós vos enganais, vós e vossos mestres, interpretando as palavras de Malaquias como ditas sobre a gente do vosso povo que vivia na dispersão, cujas orações são chamadas de sacrifícios puros e agradáveis a Deus. Reconhecei que mentis e que procurais enganar completamente a vós mesmos. De fato, primeiramente, nem mesmo agora vosso povo se estende do oriente ao ocidente, mas existem nações onde jamais habitou alguém da vossa raça. Por outro lado, não existe nenhuma raça de homens, chamem-se eles bárbaros, gregos ou com outro nome qualquer, habitem eles em casas, chamem-se nômades sem residência, ou morem em tendas de pastores, entre os quais não se ofereçam, em nome de Jesus crucificado, orações e ações de graças ao Pai e Criador de todas as coisas.

[71] Em segundo lugar, quando o profeta Malaquias disse essas palavras, ainda não estáveis dispersos por todas as partes da terra em que estivestes depois, como se demonstra pelas próprias palavras das Escrituras.

[72] Seria melhor pôr fim à vossa obstinação e fazer penitência, antes que chegue o dia do julgamento, no qual todas as vossas tribos baterão no peito por terem transpassado esse Cristo, como já demonstrei estar predito pela Escritura. Expliquei também que o Senhor jurou “segundo a ordem de Melquisedec” e o que se predizia com isso. Já disse também como é que se referia à sepultura e ressurreição de Cristo a profecia de Isaías, ao dizer: “Sua sepultura foi tirada do vosso meio”. Afirmei igualmente em vários lugares que ele é juiz dos vivos e dos mortos.

[73] O próprio Natã, falando com Davi sobre Cristo, assim disse: “Serei para ele pai e ele será para mim filho, e não afastarei dele a minha misericórdia, como fiz com aqueles que vieram antes dele. Estabelecê-lo-ei em minha casa e em seu próprio reino para sempre”. E é a esse e não a outro que Ezequiel designa como príncipe na casa. Com efeito, ele é sacerdote eleito e rei eterno, o Cristo, como Filho de Deus. Em sua vinda, não penseis que Isaías ou os outros profetas digam que se deverá oferecer sobre o altar sacrifícios de sangue ou de libações, e sim louvores e ações de graças verdadeiras e espirituais.

[74] Nós não cremos em Cristo em vão, nem fomos enganados por aqueles que assim nos ensinaram, mas isso aconteceu por maravilhosa providência de Deus, para que, pelo chamamento da nova e eterna aliança, isto é, de Cristo, nós fôssemos mais inteligentes e religiosos que vós, que vos considerais amantes de Deus e inteligentes, mas não o sois.

[75] Maravilhado com isso, Isaías disse: “Os reis refrearão a própria boca, pois aqueles a quem ele não foi revelado, o verão; aqueles que não ouviram falar sobre ele, entenderão. Senhor, quem acreditou naquilo que ouviu de nós e a quem o braço do Senhor foi revelado?” Trifão, ao dizer isso, não o faço sem repetir, como posso, as mesmas coisas, em atenção aos que hoje se juntaram a ti, embora o faça brevemente e resumindo muito.

[76] Trifão disse-me: — Fazes muito bem, e mesmo que repetisses a mesma coisa de maneira mais ampla, sabes que eu e meus companheiros nos alegramos ao ouvir-te.

 

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