Aviso ao leitor
Este livro - Diálogo de Justino com o Judeu Trifão - é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra, em forma de diálogo, argumentos cristãos sobre Escrituras, messianismo e identidade do povo de Deus em conversa com um interlocutor judeu. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, útil para entender como cristãos antigos interpretavam o Antigo Testamento e dialogavam (ou polemizavam) com o judaísmo de seu tempo.
[1] Eu então continuei: — Amigos, por acaso pensais que poderíamos entender esses mistérios nas Escrituras se não tivéssemos recebido graça para entendê-los, por vontade daquele que assim quis?[2] Desse modo, se cumpriria o que foi dito por Moisés: “Irritaram-me com seus deuses estrangeiros, exacerbaram-me com suas abominações. Sacrificaram a demônios que não conhecem; vieram novos e recentes, dos quais seus pais não tinham notícia. Abandonaste o Deus que te criou, esqueceste o Deus que te alimenta. O Senhor viu isso, teve ciúmes, exacerbou-se pela ira de seus filhos e filhas, e disse: Afastarei deles a minha face e mostrarei o que lhes acontecerá nos últimos tempos. De fato, esta é uma geração perversa, filhos nos quais não há fidelidade. Excitaram-me ciúmes com um não-deus e irritaram-me com seus ídolos; por isso, eu também lhes excitarei ciúmes com um não-povo, os irritarei com um povo insensato. Acendeu-se um fogo em minha indignação, que abrasará até o fundo do Hades, devorará a terra e seus produtos, queimará os alicerces dos montes. Amontoarei catástrofes sobre eles.”[3] Depois que esse Justo foi crucificado, nós florescemos como povo novo e brotamos como espigas novas e férteis, da maneira como os profetas disseram: “Naquele dia, nações se refugiarão no Senhor para ser povo, e plantarão suas tendas no meio de toda a terra”.[4] Nós, porém, não somos apenas povo, mas povo santo, como já demonstrei: “E o chamarão de povo santo redimido pelo Senhor”.[5] Não somos, portanto, uma plebe desprezável, uma tribo bárbara, uma nação de cários ou frígios, mas Deus nos escolheu e, aos que não perguntaram por ele, se tornou manifesto ao dizer: “Eis que sou Deus para um povo que não havia invocado o meu nome”.[6] De fato, esse é o povo que outrora Deus prometera a Abraão, anunciando-lhe que seria pai de muitas nações, e não se referia aos árabes, egípcios ou idumeus, pois Ismael também foi pai de um grande povo, assim como Esaú, e ainda agora os amonitas são bastante numerosos. Quanto a Noé, ele foi pai do próprio Abraão e, em geral, de todo o gênero humano, seja qual for a linha dos antepassados.[7] Que vantagem Cristo concedeu aqui a Abraão? Tendo-o chamado por sua voz com o mesmo chamamento que nos fez, ao dizer-lhe que saísse da terra onde habitava, pela mesma voz também nos chamou e já deixamos aquela maneira de viver e malviver dos outros moradores da terra. E com Abraão herdaremos a terra santa, tomaremos posse de uma herança eterna sem fim, porque somos filhos de Abraão, pois temos a sua mesma fé.[8] Assim como Abraão creu na voz de Deus e isso lhe foi reputado como justiça, nós também cremos na voz de Deus, pois ele nos fala novamente pela boca dos apóstolos de Cristo, depois que ele foi anunciado pelos profetas, e por essa fé renunciamos até à morte a tudo o que pertence ao mundo. Portanto, Deus lhe promete um povo igualmente crente, religioso e justo, alegria do Pai, e não a vós, que não tendes fé.[9] Vede como as mesmas coisas são prometidas a Isaac e Jacó. Com efeito, diz o seguinte para Isaac: “Em tua descendência serão abençoadas as nações da terra”.[10] E para Jacó: “Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as tribos da terra”. Isso ele não diz a Esaú, Rubem ou a nenhum outro, mas somente para aqueles dos quais, por dispensação através de Maria virgem, haveria de nascer o Cristo.[11] Se consideras a bênção de Judá, verás o que eu digo. A descendência se divide a partir de Jacó e vai baixando através de Judá, Farés, Jessé e Davi. Tudo isso era símbolo de que alguns do vosso povo se achariam entre os filhos de Abraão, por encontrar-se também na parte de Cristo; outros, porém, são filhos de Abraão, mas semelhantes à areia da praia do mar, que é infecunda e sem fruto.[12] Certamente é numerosa e impossível de contar; porém, não produz absolutamente nada e só serve para beber a água do mar. Isso prova que uma grande parte da vossa gente bebe as doutrinas da amargura e da impiedade e vomitam a palavra de Deus.[13] A bênção de Judá diz: “Não faltará príncipe de Judá, nem chefe de seus músculos, até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações”. É evidente que isso não se disse sobre Judá, mas de Cristo.[14] De fato, nós, gente de todas as nações, não esperamos Judá, mas Jesus, que também tirou vossos pais do Egito. A profecia anunciou o advento de Cristo: “Até que venha aquele a quem está reservado. E ele será a esperança das nações”.[15] Jesus, portanto, veio como já demonstramos fartamente. E Jesus, cujo nome profanais e fazeis com que seja profanado por toda a terra, é esperado novamente, vindo sobre as nuvens.[16] Eu continuei: — Se fosse possível, discutiria convosco sobre a expressão que interpretais, dizendo que o original é: “Até que venha o que lhe está reservado”. Os setenta não interpretaram assim, mas: “Até que venha aquele a quem está reservado”.[17] Como o que vem em seguida indica que se disse de Cristo — de fato, diz: “E ele será a esperança das nações” — eu não discuto convosco por causa de uma pequena frase, do mesmo modo como não me empenhei em fundamentar minha demonstração sobre Jesus Cristo em Escrituras que não são reconhecidas por vós, como as passagens que citei do profeta Jeremias, de Esdras e de Davi, mas naquelas que até agora vós reconheceis.[18] Se os vossos mestres as tivessem entendido, sabei que eles as teriam feito desaparecer, como aconteceu com a morte de Isaías, que serrastes com uma serra de madeira. Isso também foi mistério de Cristo, que cortará em duas partes a gente do vosso povo, e concederá aos que merecem um reino eterno com os patriarcas e profetas, mas enviará os demais para o suplício do fogo inextinguível, juntamente com aqueles que, procedentes de todas as outras nações, são incrédulos como eles e não se arrependem.[19] De fato, ele disse: “Porque virão do ocidente e do oriente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão atirados nas trevas exteriores”.[20] Acrescentei: — Digo-vos isso porque não me preocupo com nada além de dizer a verdade. Não temerei ninguém, ainda que tivesse de ser imediatamente despedaçado por vós.[21] A prova é que, sem me preocupar em nada com meus conterrâneos, isto é, com os samaritanos, comuniquei por escrito ao imperador que estão enganados em seguir o mago Simão, de seu próprio povo, que eles afirmam ser deus, acima de todo princípio, poder e força.[22] Como eles ficassem em silêncio, continuei: — Quando a Escritura fala de Cristo por meio de Davi, não diz que as nações serão abençoadas em sua descendência, mas nele. Eis as palavras: “Seu nome se levantaria para sempre acima do sol, nele serão abençoadas todas as nações”.[23] Portanto, se em Cristo todas as nações são abençoadas e nós, que viemos de todas as nações, nele cremos, então ele é o Cristo e nós somos aqueles que foram abençoados em Cristo.[24] Como está escrito, outrora Deus permitiu que o sol fosse adorado. Contudo, não se vê que alguém estivesse disposto a morrer por sua fé no sol; em troca, pelo nome de Jesus, facilmente vemos como gente de todos os tipos de homens suportaram isso e suportam tudo em vez de renegá-lo.[25] É que a palavra da sua verdade é mais abrasadora e luminosa do que o poder do sol, e penetra as profundidades do coração e da inteligência. É por isso que a palavra diz: “Acima do sol se levantará o seu nome”.[26] E em outra passagem Zacarias diz: “O seu nome é Oriente”. Falando sobre ele, o próprio Zacarias havia dito: “Tribo por tribo se lamentará”.[27] De fato, se em sua primeira vinda, que foi sem glória, sem formosura e desprezível, Cristo brilhou e teve tanta força que nenhuma descendência humana o desconhece e todos fazem penitência, cada um abandonando a sua antiga má conduta e até os demônios se submetem ao seu nome e este é temido por todos os impérios e reinos, mais do que todo o mundo dos mortos, não irá ele, em sua vinda em glória, destruir absolutamente todos os que o odiaram e dele iniquamente apostataram, ao mesmo tempo concedendo descanso aos seus e dando-lhes tudo o que esperam?[28] A nós, portanto, foi-nos concedido ouvir, compreender e ser salvos por meio de Cristo e conhecer tudo o que se refere ao Pai. Por isso se lhe dizia: “Grande coisa é para ti seres chamado meu filho, levantar as tribos de Jacó e reunir as dispersões de Israel. Eu te coloquei como luz das nações, para que sejas a sua salvação, até os confins da terra”.[29] Certamente pensais que isso se refere à geora e aos prosélitos; na realidade, porém, foi dito para nós, que fomos iluminados por Jesus.[30] Em outro caso, Cristo também teria dado testemunho em favor deles. A verdade, porém, é que, como ele mesmo afirmou, vós vos tornais duplamente filhos do inferno.[31] As palavras dos profetas, portanto, não foram ditas para eles, mas para nós, a quem se refere também a palavra: “Conduzirei os cegos por caminhos que não conheciam e eles andarão por veredas que não conheciam. Eu sou testemunha, diz o Senhor, e também o meu filho, a quem escolhi”.[32] Por quem, portanto, Cristo dá testemunho? Claramente por aqueles que acreditaram. Os prosélitos, porém, não só não crêem, mas blasfemam duas vezes mais do que vós o nome de Jesus, e querem matar e atormentar a todos nós que nele cremos, tornando-se a todo custo semelhantes a vós.[33] Em outra passagem, Deus clama outra vez: “Eu, o Senhor, te chamei na justiça. Tomar-te-ei pela mão, fortalecer-te-ei e te estabelecerei como aliança do povo, como luz das nações, para que abras os olhos dos cegos e tires do cárcere os prisioneiros”.[34] Amigos, tudo isso foi dito em relação a Cristo e às nações por ele iluminadas. Ou dirás mais uma vez que se fala da lei e dos prosélitos?[35] Nesse momento, como estavam no teatro, alguns dos que haviam chegado no segundo dia começaram a gritar: — Como assim? Não se fala aqui da lei e dos que são por ela iluminados? E estes são os prosélitos![36] Olhando para Trifão, eu contestei: — De modo nenhum! Se a lei fosse capaz de iluminar as nações e aqueles que a possuem, para que seria necessária uma nova aliança? Contudo, já que Deus anunciou que enviaria uma nova aliança, uma lei e um mandamento eterno, não devemos entender a antiga lei e seus prosélitos, mas Cristo e os seus, a nós, os gentios, a quem ele iluminou, como diz em algum lugar da Escritura: “No tempo propício eu te ouvi e no dia da salvação eu te ajudei. Eu te estabeleci como aliança das nações para restabelecer a terra e herdar os desertos como herança”.[37] Portanto, qual é a herança de Cristo? Não são as nações? Qual é a aliança de Deus? Não é Cristo? Como diz em outro lugar: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me, e eu te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade”.[38] Assim como todas essas coisas se referem a Cristo e aos gentios, assim também pensais ser ditas aquelas. Com efeito, para nada os prosélitos necessitam de uma nova aliança, pois já existe só e única lei para todos os circuncidados.[39] De fato, sobre esses a Escritura diz: “Acrescentar-se-á a eles também a geora, e acrescentar-se-á à casa de Jacó”.[40] Além disso, pelo fato de estar circuncidado, o prosélito juntou-se ao povo como se fosse nativo; nós, porém, mesmo que mereçamos ser chamados povo de Deus, somos, todavia, gentios por não estarmos circuncidados.[41] Por outro lado, é ridículo pensar que os olhos dos prosélitos foram abertos e os vossos não; que vós sejais chamados cegos e surdos, e eles iluminados.[42] No fim, teremos o cúmulo do ridículo, se disserdes que a lei foi dada para os prosélitos e vós não a conhecestes sequer.[43] Temeríeis, então, a cólera de Deus e não teríeis que passar pela vergonha de serdes chamados filhos iníquos e errantes, quando Deus diz a cada momento: “Filhos nos quais não há fidelidade”.[44] E: “Quem é o cego, senão os meus servos? E os surdos, senão aqueles que os governam? Os filhos de Deus se tornaram cegos. Vistes muitas vezes, mas não vos precavestes; vossos ouvidos estavam abertos, mas não ouvistes”.[45] Parece-vos bom esse louvor de Deus e conveniente esse testemunho para servos de Deus? Por mais que o ouçais, não tendes vergonha e não estremeceis diante das ameaças de Deus, porque sois um povo ignorante e duro de coração.[46] “Por isso, eis que continuarei transportando esse, diz o Senhor. Eu os transportarei, destruirei a sabedoria de seus sábios e esconderei a prudência de seus prudentes”.[47] E isso com razão, pois não sois sábios, nem prudentes, mas espertos e astutos. Se sois sábios, o sois apenas para praticar o mal, mas sois impotentes para conhecer o desígnio oculto de Deus e a aliança fiel do Senhor ou encontrar os caminhos eternos.[48] Portanto, diz a Escritura: “Levantarei contra Israel e contra Judá uma descendência de homens e uma descendência de feras”.[49] E por meio de Isaías, assim fala sobre o outro Israel: “Naquele dia, haverá um terceiro Israel entre os assírios e os egípcios, abençoado na terra que o Senhor dos exércitos abençoou, dizendo: Bendito será o meu povo que está no Egito e aquele que está entre os assírios, e a minha herança é Israel”.[50] Portanto, se Deus abençoa esse povo, o chama de Israel e diz que ele é sua herança, por que não vos converteis, mas vos enganais a vós mesmos, como se fôsseis o único Israel, e maldizendo o povo que é bendito por Deus?[51] Pois quando falava a Jerusalém e ao seu território, disse também o seguinte: “Gerarei para vós homens, que serão o meu povo de Israel. Eles vos herdarão, e vós sereis possessão deles e acontecerá que não ficareis sem ter filhos com eles”.[52] Então Trifão replicou: — Como vós sois Israel e a Escritura diz tudo isso de vós?[53] Eu respondi: — Se já não tivéssemos tratado extensamente dessa questão, eu pensaria que estás me perguntando isso por não ter compreendido. Todavia, como a questão já ficou demonstrada, e tu concordaste, não creio que agora se trate de ignorância tua, nem que tenhas novamente vontade de discutir, mas tu me provocas para que eu repita a demonstração também para estes.[54] Trifão concordou, piscando os olhos, e eu continuei: — Ouvi com os ouvidos, para ver se entendeis. Novamente em Isaías, falando sobre Cristo, Deus o chama por comparação Jacó e Israel. Assim diz: “Jacó é o meu servo, eu o protegerei; Israel é o meu escolhido, eu porei sobre ele o meu espírito, e ele trará justiça para as nações. Não discutirá, nem gritará, e ninguém ouvirá a sua voz nas praças. Não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha fumegante, mas trará justiça à verdade e não se cansará até que estabeleça o julgamento sobre a terra. E as nações depositarão a esperança em seu nome”.[55] Portanto, como do único Jacó, que também foi chamado de Israel, toda a vossa descendência tomou os nomes de Jacó e de Israel, igualmente nós, por Cristo, que nos gerou para Deus, nos chamamos e somos verdadeiros filhos de Jacó, de Israel, de Judá, de Davi e de Deus, nós que guardamos os mandamentos de Cristo.[56] Como vi que ficaram alvoroçados com a afirmação de que também nós somos filhos de Deus, adiantei-me às perguntas deles e disse: — Amigos, escutai como o Espírito Santo fala desse povo, que são todos filhos do Altíssimo e que no meio da sua assembléia estará Cristo, fazendo justiça de toda a descendência de homens.[57] As palavras são ditas por Davi, conforme o vosso texto: “Deus se levantou na assembléia dos deuses e em seu meio está julgando os deuses. Até quando julgareis com injustiça e olhareis o rosto dos pecadores? Julgai o órfão e o mendigo e farei justiça ao humilde e ao pobre. Libertai o pobre e tirai o mendigo da mão do pecador. Não entenderam, nem caíram em si mesmos; caminham nas trevas e todos os fundamentos da terra se abalarão. E disse: Sois deuses e todos filhos do Altíssimo, mas morreis como um homem e caireis como um dos príncipes. Levanta-te, ó Deus, e julga a terra, porque tu herdarás em todas as nações”.[58] Todavia, na versão dos Setenta, se diz: “Vede que morrereis como homens e caireis como um dos príncipes”, aludindo à desobediência dos homens, isto é, de Adão e Eva, e à queda de um dos príncipes, aquele que se chama serpente, e deu uma grande queda por ter enganado Eva.[59] Mas não citei agora a passagem por causa dessa variante, e sim para vos demonstrar que o Espírito Santo repreende os homens, porque, tendo sido criados impassíveis e imortais, como Deus, com a condição de guardar os seus mandamentos, e tendo-lhes concedido ser chamados filhos de Deus, são eles que, por tornar-se semelhantes a Adão e Eva, produzem a morte para si mesmos.[60] A interpretação do salmo pode ser aquela que desejardes; mesmo assim, fica demonstrado que foi concedido aos homens chegar a ser deuses e que todos podem se transformar em filhos do Altíssimo, e que é por culpa sua que, como Adão e Eva, são julgados e condenados.[61] Além disso, que Cristo é chamado Deus é coisa que está fartamente provada.[62] Amigos, gostaria que vós me instruísseis sobre a força do nome de Israel.[63] Como todos se calassem, continuei: — Direi o que sei, seja porque não me parece justo que alguém que saiba não o diga, seja porque não suspeito que vós o sabeis e que, por inveja ou imperícia, sempre quereis enganar a vós mesmos.[64] Direi, porém, tudo com simplicidade e nobremente, como diz o meu Senhor: “Saiu o semeador a semear sua semente: uma parte caiu no caminho, outra entre espinhos, outra entre pedras e outra em terra boa”.[65] Portanto, na esperança de que em alguma parte haverá terra boa, deve-se falar. De fato, aquele meu Senhor, sendo forte e poderoso, se o conhecêsseis bem, ao vir, exigirá de cada um o que lhe pertence, e não condenará o seu administrador que, por saber que o seu Senhor é poderoso e exigirá o que lhe pertence, colocou toda a sua parte no banco, e não a enterrou por nenhum motivo.[66] O nome Israel significa o seguinte: homem que vence a força. Porque “isra” é “homem que vence”; “el” é “força”.[67] Por isso, através do mistério da luta que Jacó enfrentou com aquele que lhe apareceu para cumprir a vontade do Pai, mas que era Deus, por ser Filho primogênito antes de todas as criaturas, foi profetizado que o Cristo, feito homem, faria.[68] Foi assim que, quando se fez homem, aproximou-se dele o diabo, isto é, a força que se chama serpente e Satanás, para tentá-lo e lutando para derrubá-lo, pois exigiu que o adorasse. Contudo, foi ele quem o destruiu e derrubou, acusando-o de perverso, pois, contra as Escrituras, exigia ser adorado como Deus, tornando-se apóstata da sentença divina.[69] De fato, Jesus responde-lhe: “Está escrito: Adorarás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás”.[70] Vencido e confuso, o diabo então se retirou.[71] Todavia, como nosso Cristo deveria sentir sua força entorpecida na fadiga e aceitação de sua paixão, quando seria crucificado, também isso foi anunciado de antemão no fato de tocar e entorpecer o músculo de Jacó.[72] Desde o começo, porém, era o seu nome de Israel, com o qual chamou o bem-aventurado Jacó, abençoando-o com o seu próprio nome e anunciando assim que todos os que por ele se refugiam no Pai são o Israel abençoado.[73] Vós, porém, que nada disso compreendeis e nem estais preparados para compreender, esperais absolutamente salvar-vos pelo simples fato de ser filhos de Jacó segundo a descendência da carne. Nisso também vos enganais a vós mesmos, coisa que já demonstrei fartamente.[74] Mas quem é esse que uma vez é chamado Anjo do grande conselho, Homem por Ezequiel, Filho do Homem por Daniel, Menino por Isaías, Cristo e Deus adorável por Davi, Cristo e Pedra por muitos, Sabedoria por Salomão, José, Judá e Estrela por Moisés, Oriente por Zacarias, Paciente, Jacó e Israel pelo próprio Isaías, e que recebe os nomes de Vara, Flor, Pedra angular e Filho de Deus?[75] Trifão, se soubésseis, não blasfemaríeis contra ele que já veio, que nasceu, sofreu e subiu ao céu, e que virá outra vez. Então vossas doze tribos baterão no peito.[76] Se compreendêsseis o que os profetas disseram, vós não negaríeis que ele é Deus, Filho do único, ingênito e inefável Deus.[77] Com efeito, em uma passagem do Êxodo, Moisés diz: “Deus falou a Moisés e lhe disse: Eu sou o Senhor e apareci a Abraão, Isaac e Jacó, Deus deles; não lhes revelei, porém, o meu nome, mas estabeleci com eles minha aliança”.[78] Outra vez diz assim: “Um homem lutava contra Jacó”. Em seguida, afirma que é Deus: “Vi Deus face a face e minha alma foi salva”. Isso se afirma que Jacó o disse.[79] E ainda escreveu que Jacó chamou de “Face de Deus” o lugar onde lutou, apareceu-lhe e o abençoou.[80] De modo semelhante, Moisés conta que Deus apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, quando, ao meio-dia, estava sentado à porta de sua tenda.[81] Depois, narrando isso, diz: “E levantando os olhos viu e eis que três homens estavam em pé diante dele; ao vê-los, correu ao seu encontro”.[82] Pouco depois, um deles promete um filho a Abraão: “Como é que Sara se pôs a rir, dizendo: ‘Como darei à luz, pois já estou velha?’ Por acaso, existe alguma coisa impossível para Deus? Nesta mesma época voltarei, e Sara terá um filho. E se afastaram de Abraão.”[83] Sobre eles, diz novamente: “E, levantando-se dali, os homens olharam para Sodoma”.[84] Depois diz a Abraão quem era e quem é: “Não ocultarei ao meu servo Abraão o que farei”, e tudo o resto que Moisés narra, e que eu já comentei.[85] Então repeti essas passagens, e disse: — Por elas se demonstra que esse, que está subordinado ao Pai e serve à sua vontade, que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó e aos outros profetas, é descrito como verdadeiro Deus.[86] Acrescentei um ponto que não havia dito antes: — Do mesmo modo, quando o povo desejou comer carne e Moisés não acreditou naquele, também aí chamado Anjo, que lhe prometia que Deus a daria até que se fartassem, esclarece ter sido ele mesmo, que era Deus e Anjo enviado pelo Pai, quem disse e fez tais coisas.[87] Com efeito, a Escritura continua dizendo: “E o Senhor disse a Moisés: Será que a mão do Senhor não basta? Agora saberás se minha palavra te atingirá ou não”.[88] De novo, em outra passagem, diz assim: “E o Senhor disse-me: Tu não passarás esse Jordão. O Senhor teu Deus, que caminha diante de tua face, aniquilará sozinho as nações”.[89] Existem outras expressões semelhantes ditas pelo legislador e pelos profetas, mas eu creio que já citei o suficiente.[90] Quando meu Deus diz: “O Deus subiu de Abraão”, ou: “Deus falou a Moisés”, ou: “O Senhor desceu para ver a torre que os filhos dos homens haviam construído”, ou ainda quando diz: “Deus fechou a arca de Noé por fora”, não penseis que é o Deus ingênito que sobe e desce de algum lugar.[91] De fato, o Pai inefável Senhor de todas as coisas não chega a alguma parte e não passeia, nem dorme ou se levanta, mas permanece sempre em sua própria região, onde quer que ela se situe, olhando com olhar penetrante, ouvindo com agudez, não com olhos e ouvidos, mas por um poder inefável.[92] Ele vigia tudo e tudo conhece, e ninguém de nós lhe está oculto. Sem que tenha que mover-se, ele que não cabe em nenhum lugar, nem no mundo inteiro e que já existia antes que o mundo existisse.[93] Como então poderia ter falado a alguém, aparecer a alguém, circunscrever-se a uma pequena porção de terra, se o povo não pôde resistir à glória de seu enviado no Sinai, se o próprio Moisés não pôde entrar na tenda que ele havia construído, pois estava cheia da glória de Deus, se o sacerdote não teve forças para ficar em pé diante do Templo quando Salomão levou a arca para a casa que o próprio Salomão havia construído em Jerusalém?[94] Portanto, nem Abraão, nem Isaac, nem Jacó, nem qualquer outro homem jamais viu aquele que é Pai inefável e Senhor absoluto de todas as coisas e também do próprio Cristo, mas viu seu Filho, que também é Deus por vontade daquele, e Anjo por estar a serviço de seus desígnios, aquele mesmo que o Pai quis que nascesse homem por meio da virgem e que, em outro tempo, se tornou fogo para falar com Moisés a partir da sarça.[95] De fato, se não entendemos dessa forma as Escrituras, ter-se-á que admitir que o Pai e Senhor do universo não estava no céu quando Moisés nos conta: “O Senhor fez chover sobre Sodoma fogo e enxofre da parte do Senhor, desde o céu”.[96] A mesma coisa que Davi nos diz: “Levantai, ó príncipes, as vossas portas; levantai-vos, portas eternas, e entrará o rei da glória”.[97] Por fim, quando nos diz: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo para teus pés”.[98] Demonstrei profundamente que Cristo, que é Senhor e Deus, Filho de Deus, antes apareceu prodigiosamente como Homem, como Anjo e também na glória do fogo, como na visão da sarça e no julgamento de Sodoma.[99] Todavia, citei novamente tudo o que tinha escrito antes, tomado do Êxodo, tanto sobre a visão da sarça, como sobre o nome de Jesus, e continuei: — Amigos, não penseis que estou repetindo tudo isso muitas vezes por puro palavreado, mas porque sei que alguns querem prever a minha interpretação, dizendo que a Potência que aparece a Moisés, a Abraão ou a Jacó, da parte do Pai de tudo, chama-se Anjo quando vem aos homens, porque, por meio dela, as mensagens do Pai são trazidas aos homens, e chama-se glória, porque às vezes aparece em grandeza imensa; outras vezes recebe o nome de Varão e Homem, porque aparece nessas formas, segundo a vontade do Pai; chama-se Palavra, porque leva aos homens o que o Pai lhes fala.[100] Essa Potência seria inseparável e indivisível do Pai, como dizem, da mesma forma que a luz do sol, que ilumina a terra, é inseparável e indivisível do sol que está no céu.[101] E como este, no poente, leva consigo a luz, assim também, conforme essa teoria, quando o Pai deseja, ele faz saltar de si certa Potência e, quando quer, novamente a recolhe a si. Ensinam que ele cria os anjos também desse modo.[102] Que existem os anjos e que são seres permanentes e não se reduzem àquilo de que tiveram princípio, são coisas já demonstradas.[103] Embora brevemente, antes eu também examinei a questão de que essa Potência, a palavra profética chama ao mesmo tempo Deus e Anjo, e isso já demonstramos amplamente, não só é distinta pelo nome, como a luz se distingue do sol, mas é também numericamente outra e então disse que essa Potência é gerada pelo Pai, pelo seu poder e vontade, mas não por cisão ou corte, como se a substância do Pai se dividisse, da mesma forma que todas as outras que se dividem ou cortam não são as mesmas antes e depois de se dividirem.[104] Dei então o exemplo de como vemos os fogos se acenderem a partir de outro e como, todavia, não diminui nada daquele do qual muitos outros podem se acender, mas permanece o mesmo.[105] Agora vou repetir-vos as razões em que fundamentei a minha demonstração. Quando a Escritura diz: “O Senhor fez chover fogo da parte do Senhor, desde o céu”, a palavra profética indica numericamente dois: um sobre a terra, que ela diz ter descido para ver o clamor de Sodoma; e outro nos céus, que é o Senhor do Senhor que está na terra, e seu Pai e Deus e, ao mesmo tempo, a causa de ele ser poderoso, Senhor e Deus.[106] Da mesma forma, quando citei a palavra dita por Deus no princípio: “Eis que Adão se tornou como um de nós”, esse “como um de nós” é também expressão de número, e essas palavras não admitem explicação tipológica, como pretendem os sofistas, incapazes de dizer a verdade ou de entendê-la.[107] Na Sabedoria também se diz: “Já que vos anunciei o que acontece cada dia, lembro-me de contar-vos o que existe desde a eternidade. O Senhor me criou como princípio de seus caminhos para as suas obras: antes do tempo, colocou meus alicerces no princípio, antes de fazer a terra, antes de fazer os abismos, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes de lançar os fundamentos dos montes, gerou-me antes das colinas”.[108] Terminada a citação, continuei: — Ouvintes, entendei, se é que prestastes atenção. Que essa descendência é gerada pelo Pai antes de todas as criaturas, a Palavra o dá a entender claramente. Todos concordarão que aquele que é gerado é numericamente distinto daquele que o gera.[109] Todos concordaram, e eu continuei: — Agora algumas palavras que não lembrei antes. Foram misteriosamente ditas por Moisés, o servo fiel de Deus. São estas: “Céus, alegrai-vos com ele, e todos os anjos de Deus o adorem”.[110] E citei o restante de suas palavras: — “Nações, alegrai-vos com seu povo, e que todos os anjos de Deus sejam fortes com ele, porque o sangue de seus filhos foi vingado, e o vingará e fará justiça contra seus inimigos, pagará aos que o odeiam, e o Senhor limpará a terra do seu povo”.[111] Dizendo isso, Moisés quer significar que nós, as nações, nos alegremos com o seu povo, isto é, com Abraão, Isaac e Jacó e os profetas e, em geral, com todos os que nesse povo agradaram a Deus, conforme com o que anteriormente convimos.[112] Todavia, não entendamos isso de toda a vossa descendência, pois sabemos, por meio de Isaías, que os membros dos que foram transgressores serão devorados por um verme e um fogo que não tem descanso, permanecendo imortais, de forma a se tornarem espetáculo para toda carne.[113] Senhores, agora vou citar-vos outras palavras dos discursos de Moisés, pelas quais podereis compreender como antigamente Deus dispersou todos os homens, conforme suas descendências e línguas, escolhendo para si o vosso povo, geração inútil, desobediente e incrédula.[114] Em troca, ele mostrou que os escolhidos de todas as nações obedecem ao seu desígnio por meio de Cristo e, por isso, o chama de Jacó e lhe dá o nome de Israel. É preciso que aqueles sejam, como eu disse antes, fartamente, o verdadeiro Jacó e Israel.[115] É assim que, ao dizer: “Nações, alegrai-vos com o seu povo”, ele dá às nações a mesma herança e a mesma denominação que ao povo de Deus.[116] Mas quando diz que as nações se alegram com o seu povo, usa a palavra “nação”, para vos reprovar. Com efeito, vós o irritastes, entregando-vos à idolatria. A eles, porém, que eram idólatras, ele concedeu a graça de conhecer a sua vontade e participar da sua herança.[117] Vou, portanto, citar-vos as palavras pelas quais se vê como Deus dividiu todas as nações: “Pergunta a teus pai, e ele te contará; e a teus avós, e eles te dirão. Quando o Altíssimo dividia as nações, quando dispersava os filhos de Adão, estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos filhos de Israel, e a porção do Senhor foi o seu povo Jacó, e a corda de sua herança foi Israel”.[118] Depois, fiz notar que os Setenta traduziram: “Estabeleceu os limites das nações, segundo o número dos anjos de Deus”. Como, porém, essa variante não é importante em nada para o meu raciocínio, eu citei a vossa interpretação.[119] Se quisésseis dizer a verdade, teríeis que confessar que nós, que fomos chamados por ele graças ao mistério da cruz, desprezado e cheio de opróbrio, somos mais fiéis para com Deus.[120] Nós, que por nossa confissão da fé, por nossa obediência e nossa piedade, somos condenados a tormentos até à morte pelos demônios e pelo exército do diabo, graças aos serviços que vós lhes prestais, nós, que suportamos tudo para não negar, nem com a palavra, a Cristo, por quem fomos chamados à Salvação que nos foi preparada por nosso Pai, somos mais fiéis do que vós.[121] Apesar de terdes sido resgatados do Egito com braço excelso e rumor de grande glória, quando o mar se dividiu e transformou-se em caminho seco para vós e nele Deus matou os que vos perseguiram com enorme exército e esplêndidos carros, afundando-os nas mesmas águas que vos tinham deixado passar.[122] Somos mais fiéis do que vós, apesar de ter-vos iluminado uma coluna de luz, com a qual tivestes o privilégio, acima de qualquer outro povo do mundo, de usar uma luz própria que não diminui e nunca se apaga; apesar do maná, pão dos anjos, ter chovido do céu para vós, para que vivêsseis sem necessidade de amassar; apesar da água de Marra ter-se convertido em água doce para vós;[123] Apesar de vos ter sido dado um sinal daquele que era destinado a ser crucificado, como eu já disse, terdes sido mordidos pelas serpentes, pois Deus, para quem vos mostrastes sempre ingratos, antecipou-se em manifestar-vos gratuitamente todos os seus mistérios antes de seus próprios tempos;[124] Apesar de outro sinal, isto é, a figura que Moisés formou ao estender os braços e o nome de Jesus dado ao filho de Nave, quando guerreavam contra Amalec.[125] E Deus ordenou que se pusesse por escrito esse fato, para que o nome de Jesus entrasse em vossos ouvidos, dizendo-vos que esse é quem apagaria de debaixo do céu a lembrança de Amalec.[126] Que a lembrança de Amalec continua ainda depois do filho de Nave é evidente; em troca, que por Jesus crucificado, cuja vida era anunciada por todos esses símbolos, haveriam de ser exterminados os demônios, que todos os principados e reinos reverenciariam seu nome e que os que nele crêem, pertencentes a toda linhagem de homens, mostraram-se pacíficos e piedosos, são coisas que Deus está tornando manifestas.[127] Trifão, esse é o sentido das palavras por mim citadas.[128] Além disso, quando desejastes comer carne, vos foi dada uma multidão de codornizes, impossível de se contar; brotou-vos água de uma rocha; uma nuvem vos seguia, para dar sombra contra o calor e proteção contra o frio, e anunciava a figura de um novo céu; as correias de vossas sandálias não se rompiam e estas não se gastavam e vossas roupas não se rasgavam, mas cresciam com os jovens que as vestiam.

