Aviso ao leitor
Este livro - Diálogo de Justino com o Judeu Trifão - é apresentado aqui como literatura patrística do século II: uma obra apologética e disputacional que registra, em forma de diálogo, argumentos cristãos sobre Escrituras, messianismo e identidade do povo de Deus em conversa com um interlocutor judeu. Não integra o cânon bíblico nas tradições protestante, católica romana ou ortodoxa. Sua presença nesta biblioteca tem finalidade histórica, teológica e comparativa, útil para entender como cristãos antigos interpretavam o Antigo Testamento e dialogavam (ou polemizavam) com o judaísmo de seu tempo.
[1] Apesar disso, fabricastes o bezerro de ouro e fornicastes com as filhas dos estrangeiros, entregando-vos com afã à idolatria; e mesmo depois, quando já vos havia sido entregue a terra com tão grande prodígio.[2] De fato, vós mesmos contemplastes o sol parar, por ordem daquele homem que recebeu o nome de Jesus, e não se pôs durante trinta e seis horas, e outros prodígios que foram feitos em vosso favor conforme o tempo oportuno.[3] Parece-me agora oportuno recordar apenas mais um, porque contribui para que compreendais Jesus, o qual reconhecemos como Cristo, Filho de Deus, ele que foi crucificado, ressuscitou, subiu aos céus e que virá novamente para julgar todos os homens sem exceção, inclusive o próprio Adão.[4] Eu continuei: — Vós sabeis que, quando a tenda do testemunho foi roubada pelos habitantes de Azoto, inimigos do povo de Israel, e eles foram feridos por uma praga terrível e incurável, decidiram colocá-la sobre um carro, ao qual atrelaram novilhas com crias recentes, pois queriam uma prova de que tinham sido feridos pelo poder de Deus por causa da tenda do testemunho e se, de fato, Deus queria que ela fosse devolvida ao lugar de onde a tinham roubado.[5] Feito isso, as novilhas, sem que ninguém as guiasse, não foram para o lugar de onde a tenda tinha sido tirada, mas para o campo de um homem chamado Ausés, o mesmo nome daquele cujo nome foi mudado para Jesus, como já foi dito, e que introduziu o povo na terra e a distribuiu através de sorteio.[6] Chegando ao campo de Ausés, elas aí pararam. Isso demonstrava que elas foram guiadas pela força do nome, do mesmo modo como o povo, que havia restado dos que saíram do Egito, foi guiado para a terra por aquele que recebeu o nome de Jesus e antes se chamava Ausés.[7] Apesar de todos esses grandes prodígios e maravilhas realizadas em vosso favor e que vistes no tempo oportuno, sois repreendidos pelos profetas por terdes inclusive sacrificado vossos filhos aos demônios; a isso, acrescentastes tão grandes crimes, como cometestes contra Cristo, e ainda continuais a cometer.[8] Oxalá alcanceis da parte de Deus e de seu Cristo total misericórdia, e vos salveis![9] Com efeito, sabendo Deus que deveríeis assim fazer, vos amaldiçoou por meio do profeta Isaías: “Ai de suas almas! Aconselharam-se mal contra si mesmos, dizendo: ‘Amarremos o justo, porque ele nos é molesto’. Por isso, comerão os produtos de suas próprias ações. Ai do iníquo! Males lhe acontecerão, conforme as obras de suas mãos. Povo meu, vossos opressores vos saqueiam e vossos exatores vos governam.[10] Povo meu, aqueles que vos chamam felizes vos enganam e baralham a vereda de vossos caminhos. Agora, porém, julgará o seu povo, e o próprio Senhor virá estabelecer julgamento contra os anciãos e contra seus príncipes. Por que pusestes fogo em minha vinha e o que roubastes do pobre está em vossas casas? Por que cometeis a iniqüidade contra o meu povo e encheis de confusão o rosto dos humildes?”[11] Em outro lugar, o mesmo profeta diz sobre o mesmo assunto: “Ai dos que arrastam seus pecados com uma longa corda e suas iniqüidades como o jugo de uma novilha! Os que dizem: ‘Que venha logo e chegue o desígnio do Santo de Israel, para que o conheçamos! Ai dos que chamam bem ao mal e mal ao bem; os que fazem da luz trevas e das trevas luz; os que transformam o amargo em doce e o doce em amargo! Ai dos que são prudentes para si mesmos e sábios aos próprios olhos![12] Ai dos que são fortes entre vós, dos que bebem vinho, os poderosos que misturam a bebida! Ai dos que justificam o ímpio com seus subornos e arrancam do justo seus direitos! Por isso, do mesmo modo como a palha é queimada por uma brasa de fogo e consumida pela chama ardente, assim sua raiz será como pó e sua flor será levada como poeira.[13] Porque não quiseram a lei do Senhor Sabaot, mas irritaram a palavra do Senhor, o Santo de Israel. O Senhor Sabaot se indignou com ira, estendeu sua mão sobre eles e os golpeou; irritou-se contra os montes, e seus cadáveres se converteram em lixo no meio do caminho. Apesar disso não se converteram, mas sua mão continua estendida”.[14] De fato, vossa mão ainda está estendida para fazer o mal, pois nem mesmo depois de matar Cristo fazeis penitência, mas nos odiais por termos acreditado no Deus que é Pai do universo e, sempre que tendes poder para isso, nos tirais a vida.[15] Vós não cessais de amaldiçoá-lo e a nós que dele viemos. Nós, porém, rogamos por vós e por todos os homens em geral, como nosso Cristo e Senhor nos ensinou a fazer, ele que nos mandou orar por nossos inimigos, amar os que nos odeiam e abençoar os que nos amaldiçoam.[16] Se, portanto, os ensinamentos dos profetas e até os do próprio Jesus vos comovem em algo, é melhor que sigais a Deus do que aos vossos mestres, insensatos e cegos, que ainda agora vos permitem ter quatro ou cinco mulheres; se um vê uma mulher bonita e a cobiça, eles contam o que fez Jacó, aquele que foi chamado Israel, e os demais patriarcas, e afirmam que não se comete pecado nenhum fazendo o que eles fizeram.[17] Até nisso são miseráveis e insensatos.[18] Na verdade, como eu disse anteriormente, em cada uma dessas ações se cumpriam dispensações de grandes mistérios. Vou explicar qual dispensação e profecia se realizava nos casamentos de Jacó, para que também aqui reconheçais como vossos mestres nunca olharam para o mais divino que em cada ação se realizava, mas sempre de modo rasteiro e até em vista de paixões de corrupção.[19] Portanto, prestai atenção no que vos digo.[20] Os casamentos de Jacó eram figura do que Cristo realizaria. De fato, não era lícito para Jacó tomar ao mesmo tempo duas irmãs em matrimônio.[21] Ele serve Labão por causa de suas duas filhas e, enganado sobre a mais jovem, o serviu novamente outros sete anos.[22] Lia era vosso povo e sinagoga, e Raquel a nossa Igreja. Cristo está até agora servindo por uma e outra, assim como pelos servos de ambas.[23] Com efeito, assim como Noé deu como servo de dois de seus filhos a descendência do terceiro, agora chegou Cristo para o restabelecimento de ambos, dos livres e dos que dentre eles são escravos, concedendo os mesmos privilégios a todos os que guardarem os seus mandamentos, de modo que os filhos que Jacó teve com as escravas e as livres fossem todos filhos de igual honra.[24] Contudo, segundo a ordem e a presciência, foi predito como será cada um.[25] Jacó serviu a Labão em troca dos rebanhos manchados e multiformes. Também Cristo serviu até a cruz em favor dos homens de toda descendência, variados e multiformes, ganhando-os por meio do seu sangue e do mistério da cruz.[26] Lia tinha os olhos doentes, e os olhos de vossas almas também estão muito doentes.[27] Raquel roubou os deuses de Labão e os escondeu até o dia de hoje. E também para nós acabaram-se os deuses tradicionais, feitos de matéria.[28] Jacó foi o tempo todo odiado por seu irmão, e agora nós e também nosso Senhor somos odiados por vós e, em geral, por todos os homens, embora sendo, de fato, todos irmãos por natureza.[29] Jacó foi chamado Israel, e aquele que é e se chama Jesus está demonstrado que é Israel e Messias ou Cristo.[30] Quando a Escritura diz: “Eu sou o Senhor, o Deus, o Santo Israel, aquele que constituiu Israel como vosso rei”, não percebeis que está verdadeiramente falando de Cristo, o rei eterno?[31] De fato, vós sabeis muito bem que Jacó, o filho de Isaac, nunca foi rei.[32] Por isso, a própria Escritura, explicando-nos quem é chamado de rei Jacó e Israel, assim diz: “Jacó é o meu servo: eu o protegerei; Israel é o meu eleito: minha alma o receberá. Eu coloquei sobre ele o meu espírito, e ele trará direito às nações. Não gritará, nem se ouvirá a sua voz; não quebrará a cana rachada, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que a vitória traga o direito por retribuição, e não se cansará até que ponha o julgamento sobre a terra. E as nações confiarão em seu nome”.[33] Por acaso, os que vêm das nações, e até vós, confiam mais no patriarca Jacó do que em Cristo?[34] Por conseguinte, como se diz que Cristo é Jacó e Israel, da mesma forma, nós, que saímos do ventre de Cristo como pedra de uma pedreira, somos a verdadeira descendência de Israel.[35] Mas prestemos maior atenção à passagem da Escritura que diz: “Tirarei a descendência de Jacó e de Judá, e ela herdará o meu monte santo, e os meus escolhidos e os meus servos o herdarão e nele habitarão. No matagal haverá currais de rebanhos e o vale de Acor será acampamento de rebanhos graúdos do povo que me procurou.[36] A vós, porém, que me abandonais e vos esqueceis do meu monte santo, que preparais uma mesa para os demônios e misturais as taças para o demônio, eu vos entregarei à espada. Todos vós caireis degolados, porque eu vos chamei, e vós não me escutastes, fizestes o mal diante de mim e escolhestes o que eu não queria”.[37] São essas as palavras da Escritura. Vós mesmos concordareis que a descendência de Jacó, de que aqui se fala, é outra, e que não se refere a vosso povo, como se poderia pensar.[38] Com efeito, não se concebe como os descendentes de Jacó deixem entrar os nascidos de Jacó; nem como Deus, de um lado, reprove o povo como indigno da herança e, depois, a prometa aos mesmos, como se os aceitasse.[39] A verdade é que o profeta diz na passagem anterior: “E agora tu, casa de Jacó, vinde e caminhemos na luz do Senhor, porque ele rejeitou o seu povo, a casa de Jacó, porque o país deles encheu-se, como no princípio, de adivinhações e augúrios”.[40] Portanto, devem-se entender aqui duas descendências de Judá e duas linhagens, assim como duas casas de Jacó: uma que nasce da carne e do sangue, e outra da fé e do espírito.[41] Com efeito, vede agora como Deus fala ao povo. Antes ele diz: “Do mesmo modo que se encontrará um grão num cacho e se dirá: ‘A uva não está podre, pois ela contém uma bênção’, da mesma forma eu agirei em favor de quem me servir. Por causa dele não farei todos perecerem”.[42] E depois acrescenta: “E tirarei a descendência de Jacó e de Judá”. A coisa, portanto, é evidente.[43] Se ele se irrita desse modo contra aqueles e os ameaça de os reduzir a uma porção mínima, então os que anunciam que tirará são outros, que habitarão em seu monte santo.[44] Estes são os que ele disse que semearia e geraria.[45] Vós, com efeito, nem suportais que ele vos chame, nem o ouvis quando ele vos fala, mas praticastes o mal diante do Senhor.[46] O cúmulo de vossa maldade é que, depois que o assassinastes, continuais odiando o Justo e a ser o que são: piedosos, justos e humanos.[47] Por isso, diz o Senhor: “Ai de suas almas! Porque formaram um mau desígnio contra si mesmos, dizendo: Eliminemos o Justo, porque ele nos é molesto”.[48] Vós, de fato, não oferecestes sacrifícios ao deus Baal, como vossos pais, nem oferecestes pães cozidos ao exército dos céus em bosques e lugares altos.[49] Todavia, não recebestes a Cristo; e quem o desconhece, desconhece a vontade do Pai; quem insulta e odeia a Cristo, odeia e insulta aquele que o enviou; e quem não crê em Cristo, não crê na predição dos profetas, que anunciaram a sua boa nova e a proclamaram a todo o mundo.[50] Irmãos, não faleis mal daquele Jesus que foi crucificado, nem zombeis de suas feridas, pelas quais todos podem ser curados, como também nós o fomos.[51] Seria bom que, seguindo as palavras da Escritura, circuncidásseis a vossa dureza de coração, circuncisão que não tendes por uma resolução interior.[52] Com efeito, a circuncisão foi dada como sinal, não como obra de justiça, como as Escrituras nos forçam a admitir.[53] Portanto, não para injuriar o Filho de Deus, nem jamais caçoeis do rei de Israel, seguindo os vossos mestres fariseus.[54] Assim os presidentes de vossas sinagogas vos ensinam depois da oração.[55] Se aquele que toca os que agradam a Deus é como se tivesse tocando a Deus na pupila dos olhos, muito mais aquele que toca em seu Amado.[56] E que Jesus seja o Amado de Deus, já foi suficientemente demonstrado.[57] Como ficassem calados, eu continuei: — Amigos, agora cito para vós as Escrituras como foram interpretadas pelos Setenta.[58] Com efeito, antes eu as citei como vós as tendes, para provar que opinião tínheis sobre o ponto particular.[59] Ao trazer-vos a passagem: “Ai deles! Porque formaram um desígnio mau contra si mesmos, dizendo…”.[60] Continuei depois conforme os Setenta: “Eliminemos o justo, porque ele nos é molesto”.[61] Em troca, no começo de nossa conversa, eu vos citei como quereis que tenha sido dito: “Amarremos o justo, porque ele nos é molesto”.[62] Contudo, vós vos distraístes com alguma outra coisa e parece que ouvistes as minhas palavras sem compreendê-las.[63] Agora, porém, como o dia está para terminar e o sol vai chegando ao poente, vou acrescentar um só ponto ao que já disse e terminarei o meu discurso.[64] É claro que o que já está contido no que disse antes, mas parece-me justo repeti-lo novamente.[65] Eu prossegui: — Senhores, sabeis que em Isaías Deus diz a Jerusalém: “No dilúvio de Noé eu te salvei”.[66] O que Deus quis dizer com isso é que no dilúvio realizou-se o mistério daqueles que se salvam.[67] De fato, o justo Noé, com os outros homens do dilúvio, isto é, sua mulher, seus três filhos e as mulheres de seus filhos, ao todo oito, representa o dia que por ser número é oitavo, no qual apareceu o nosso Cristo, ressuscitado dos mortos; embora, por sua virtude, continue sempre a ser o primeiro dia.[68] Dessa forma, Cristo, sendo primogênito de toda a criação, também se tornou princípio de uma nova descendência, regenerada por ele com a água, a fé e o madeiro que continha o mistério da cruz, de modo que também Noé se salvou com os seus, carregado sobre as águas pelo madeiro da arca.[69] Portanto, quando o profeta diz: “No tempo de Noé eu te salvei”, ele fala, como eu disse antes, com o povo que tem para com Deus a mesma fé que Noé e os mesmos mistérios de salvação.[70] Com efeito, com a vara entre as mãos, Moisés conduziu o vosso povo através do mar.[71] Claro que supondes que o profeta fala apenas de vosso povo ou terra; contudo, como consta pelas Escrituras que toda a terra foi inundada e a água subiu quinze côvados por cima de todos os montes, é claro que não falava da terra, mas do povo que obedece a Deus, a quem também tinha preparado de ante-mão um descanso em Jerusalém, como se pode demonstrar pelos mesmos símbolos que aparecem no dilúvio.[72] Em outras palavras, pela água, pela fé e pelo madeiro, escaparão do futuro julgamento de Deus aqueles que de antemão foram previstos e fazem penitência de seus pecados.[73] No tempo de Noé, foi profetizado outro mistério que não conheceis, e é o seguinte. Por ocasião das bênçãos com que Noé abençoou dois de seus filhos, também amaldiçoou o filho do seu filho, pois o Espírito profético não quis que ele amaldiçoasse o seu próprio filho, que por Deus fora abençoado com os outros.[74] Contudo, como o castigo daquele que havia pecado, zombando da nudez de seu pai, iria passar para toda a sua descendência, a maldição começou por seu filho.[75] Noé, portanto, predisse com suas palavras que os descendentes de Sem ocupariam as propriedades e casas de Canaã e que, por sua vez, os descendentes de Jafé se apoderariam ou reteriam o que os semitas haviam tirado dos descendentes de Canaã, de modo que eles retiveram o que haviam tirado dos de Canaã.[76] Que assim tenha acontecido, escutai vós, pois descendeis de Sem, atacastes a terra dos filhos de Canaã e a retivestes.[77] Agora, é claro que os filhos de Jafé, caindo sobre vós conforme com o desígnio de Deus, tiraram e retiveram vossas terras.[78] Eis, por fim, o próprio texto: “Noé despertou do vinho, soube o que o seu filho menor havia feito com ele, e disse: ‘Maldito seja o menino Canaã: torne-se escravo de seus irmãos’.[79] E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem, e Canaã será o seu servo. Que o Senhor dilate a Jafé e ele more nas casas de Sem, e Canaã será o seu servo”.[80] Portanto, tendo sido abençoados dois povos, os descendentes de Sem e de Jafé, e decretado que primeiro os de Sem iriam possuir as moradas de Canaã e que depois os de Jafé sucederiam os de Sem nas mesmas propriedades, tendo sido entregue um só povo, o de Canaã, à servidão dos outros dois, Cristo veio, conforme a virtude que lhe foi dada pelo Pai onipotente, para chamar à amizade, penitência e convivência todos os santos na mesma terra, cuja posse lhes promete, conforme foi antes demonstrado.[81] Portanto, os homens de todas as origens, seja livres, seja escravos, se crerem em Cristo e reconhecerem a verdade de suas palavras e as dos profetas, têm a segurança de que viverão junto com ele naquela terra e herdarão os bens eternos e incorruptíveis.[82] Daí que Jacó, como já falei, sendo figura de Cristo, uniu-se às escravas de suas duas mulheres livres e gerou filhos com elas, para anunciar antecipadamente que Cristo também receberia tanto os livres como os cananeus que eram escravos entre os povos de Jafé, e tornaria a todos eles filhos herdeiros.[83] Que eles sejam nós, vós não podeis compreender, porque não sois capazes de beber da fonte viva de Deus, mas das cisternas rotas, que não podem conter a água, como diz a Escritura.[84] Tais cisternas rotas, incapazes de reter a água, são as que os vossos próprios mestres cavaram, como declara expressamente a Escritura: “Ensinando ensinamentos, mandamentos de homens”.[85] Quanto a isso tudo, eles enganam a si próprios e também a vós, supondo que, de qualquer modo, todos aqueles que descendem de Abraão segundo a carne, por mais que sejam pecadores, incrédulos e desobedientes a Deus, receberão o reino eterno.[86] Conforme as Escrituras, isso é pura fantasia.[87] Caso contrário, Isaías não teria dito: “Se o Senhor Sabaot não nos tivesse deixado uma semente, nos teríamos tornado como Sodoma e Gomorra”.[88] E Ezequiel: “Mesmo que Noé, Jacó e Daniel reclamassem seus filhos e filhas, não lhes seriam dados. Não. Nem o pai será dado pelo filho, nem o filho pelo pai, mas cada um perecerá por seu próprio pecado e cada um se salvará por sua própria justiça”.[89] E Isaías diz ainda: “Olharão os membros dos que transgrediram: seu verme não terá descanso e o seu fogo não se extinguirá, e serão espetáculo para todo homem”.[90] Por fim, nosso Senhor não teria dito, conforme a vontade do Pai e Senhor de todo o universo que o enviou: “Virão do oriente e do ocidente e sentar-se-ão à mesa com Abraão, Isaac e Jacó no reino dos céus; mas os filhos do reino serão atirados nas trevas exteriores”.[91] Mas também ficou demonstrado antes que os que foram pré-conhecidos como maus no futuro, tanto anjos como homens, não são maus por culpa de Deus, mas é por sua própria culpa que cada um deverá aparecer diante de Deus.

