[1] Para que não tenhais pretexto de dizer que era necessário que Cristo fosse crucificado e que em vosso povo houvesse transgressores da lei e que as coisas não podiam ser diferentes, eu me adiantarei para dizer em poucas palavras que Deus, querendo que anjos e homens seguissem o bem, dotados de razão para conhecer de onde vêm e a quem devem o ser que antes não tinham, e lhes impôs uma lei, pela qual serão julgados, caso não tenham agido conforme a reta razão. Portanto, por nossa própria culpa seremos convencidos de ter sido maus, homens e anjos, se antes não fizermos penitência.
[2] Contudo, se a palavra de Deus anuncia absolutamente que alguns anjos e homens serão castigados, isso foi predito porque ele de antemão conheceu que seriam maus e não se arrependeriam, não, porém, porque o próprio Deus assim os fizesse. De modo que, se fizerem penitência, todos os que quiserem poderão alcançar de Deus a misericórdia, e a palavra os chama antecipadamente de bem-aventurados: “Bem-aventurado o homem a quem Deus não lhe imputa pecado”, isto é, aquele que, arrependido de seus pecados, recebe de Deus o perdão. Não como vós e outros semelhantes a vós. Neste ponto, enganais a vós mesmos, dizendo que, por mais pecador que alguém seja, o Senhor não imputa o pecado, contanto que ele conheça a Deus.
[3] Uma prova dessa interpretação pode ser encontrada em Davi, cujo único pecado, o de vanglória, não lhe foi perdoado, até que chorou e se lamentou, da maneira que está escrito. Com efeito, se a um homem como ele não foi concedido o perdão antes de se arrepender, mas quando chorou e fez tudo aquilo, ele que foi tão grande rei, ungido e profeta, como é que os impuros e aqueles que foram completamente insensatos podem esperar que o Senhor não lhes impute os pecados que cometeram?
[4] Senhores, este único fato da transgressão de Davi com a mulher de Urias demonstra que os patriarcas não tinham muitas mulheres, como se se entregassem à dissolução, mas que, por meio deles, se realiza certa dispensação e se prefiguravam todos os mistérios. Com efeito, se fosse permitido tomar a mulher que se desejasse, no modo e no número que se quisesse, tal como os homens de vossa raça fazem em toda terra onde habitam ou são enviados, tomando as mulheres em nome do matrimônio, muito mais ter-se-ia permitido que Davi fizesse isso.
[5] Caríssimo Marco Pompeu, com estas palavras eu termino o meu discurso.
[6] Esperando um pouco de tempo, Trifão disse: — Vês que o nosso encontro aqui não foi de propósito. Todavia, eu te confesso que gostei muitíssimo da tua conversa e sei que os meus companheiros estão sentindo a mesma coisa. Com efeito, encontramos mais do que esperávamos e muito mais ainda do que era possível esperar. Se nos fosse dado fazer isso com mais frequência, examinando esses mesmos temas, o proveito seria ainda maior. Contudo, como estás para embarcar, esperando que algum navio desatraque, se vais embora de fato, não deixes de te lembrar de nós como amigos.
[7] Eu respondi: — De minha parte, se eu permanecesse aqui, gostaria de fazer isso diariamente. Porém, como quero partir, com a permissão e a ajuda de Deus, eu vos exorto que, tendo começado este grande combate por vossa salvação, vos esforceis por Cristo de Deus onipotente acima de vossos mestres.
[8] Depois disso, foram embora, fazendo novos votos por minha saúde na viagem e em tudo mais. Eu também, retribuindo os votos, disse-lhes: — Senhores, não vos posso desejar nada melhor, sem que, percebendo que por este caminho todo homem chega à felicidade, tenhais absolutamente a mesma fé que nós, isto é, que Jesus é o Cristo de Deus.

