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[1] Portanto, esses filósofos nada sabem sobre essas questões, pois não são capazes de dizer sequer o que é a alma. Parece que não sabem. Tampouco, se pode dizer que ela seja imortal, porque, se é imortal, é claro que deva ser incriada. Eu lhe disse: de fato alguns, chamados platônicos, a consideram incriada e imortal. Ele perguntou: tu também consideras o mundo incriado? Alguns dizem isso, mas não tenho a mesma opinião.

[2] Fazes muito bem. Com efeito, por qual motivo um corpo tão sólido, resistente, composto e variável e que a cada dia morre e nasce, procederia de algum princípio? Todavia, se o mundo é criado, forçosamente as almas também o serão e haverá um momento em que elas não existirão. De fato, foram feitas por causa dos homens e dos outros seres vivos, ainda que digas que elas foram criadas completamente separadas e não junto com seus próprios corpos. Parece que é exatamente assim. Então são imortais. Não, uma vez que o mundo se manifesta como criado.

[3] Contudo, eu não afirmo que todas as almas morram. Isso seria uma verdadeira sorte para os maus. Digo, então, que as almas dos justos permanecem num lugar melhor e as injustas e más ficam em outro lugar, esperando o tempo do julgamento. Desse modo, as que se manifestaram dignas de Deus não morrem; as outras são castigadas enquanto Deus quiser que existam e sejam castigadas.

[4] Por acaso, estás dizendo o mesmo que Platão sugere no Timeu a respeito do mundo, isto é, que em si mesmo, enquanto foi criado, ele também é corruptível, mas não se dissolverá, nem terá parte na morte por vontade de Deus? Pensas o mesmo também a respeito da alma e, em geral, a respeito de todo o resto? Com efeito, além de Deus, tudo o que existe ou há de existir possui natureza corruptível e sujeita a desaparecer e deixar de existir. Apenas Deus é incriado e incorruptível e, por isso, ele é Deus; mas, além dele, todo o resto é criado e corruptível. Por esse motivo, as almas morrem e são castigadas.

[5] De fato, se fossem incriadas, elas não pecariam, nem estariam cheias de insensatez, nem seriam covardes ou temerárias, nem passariam voluntariamente para os corpos de porcos, serpentes ou cães, nem seria lícito obrigá-las a isso, caso fossem incriadas. De fato, o incriado é semelhante ao incriado e não apenas semelhante, mas igual e idêntico, sem que seja possível um ultrapassar o outro em poder ou em honra.

[6] Daí se conclui que não é possível existir dois seres incriados. De fato, se neles houvesse alguma diferença, jamais poderíamos encontrar a causa dela, por mais que a procurássemos; pelo contrário, remontando com o pensamento até o infinito, teríamos que parar, vencidos, num só incriado, e dizer que ele é a causa de tudo o mais. Eu perguntei: por acaso, tudo isso passou distraído a Platão e Pitágoras, homens sábios, que se tornaram para nós como a muralha e fortaleza da filosofia?

[7] Ele me respondeu: não me importo com Platão ou Pitágoras ou qualquer outra pessoa que tenha sustentado essas opiniões. De fato, a verdade é esta e podes compreendê-la com o seguinte raciocínio: a alma ou é vida ou tem vida. Se ela é vida, terá que fazer viver outra coisa e não a si mesma, da mesma forma que o movimento move outra coisa mais do que a si mesmo. Ninguém poderá contradizer o fato de que a alma viva. Portanto, se ela vive, não vive por ser vida, mas porque participa da vida. Uma coisa é aquilo que participa e outra aquilo do qual participa. Se a alma participa da vida é porque Deus quer que ela viva.

[8] Portanto, da mesma forma, um dia ela deixará de participar, quando Deus quiser que ela não viva. De fato, o viver não é próprio dela como o é de Deus. Como o homem não subsiste sempre e a alma não está sempre unida ao corpo, mas, quando chega o momento de se desfazer essa harmonia, a alma abandona o corpo e o homem deixa de existir. De modo semelhante, chegando o momento em que a alma tenha que deixar de existir, o espírito vivificante se afasta dela e a alma deixa de existir, voltando novamente para o lugar de onde tinha sido tomada.

[9] Eu perguntei: então a quem vamos tomar como mestre ou de quem poderemos tirar algum proveito, se nem mesmo nestes se encontra a verdade? O velho replicou: há muito tempo, existiam alguns homens mais antigos do que todos estes considerados filósofos, homens bem-aventurados, justos e amigos de Deus, que falaram inspirados pelo espírito divino e, divinamente inspirados, predisseram o futuro que está se cumprindo exatamente agora. São os chamados profetas.

[10] Somente eles viram e anunciaram a verdade aos homens, sem temer ou adular ninguém, sem deixar-se vencer pela vanglória; pelo contrário, repletos do Espírito Santo, disseram apenas o que viram e ouviram. Seus escritos se conservam ainda hoje, e quem os lê e neles acredita pode tirar o maior proveito nas questões a respeito do princípio e fim das coisas e sobre aquelas coisas que o filósofo deve saber.

[11] Com efeito, eles nunca fizeram seus discursos com demonstração, pois eles são testemunhas fidedignas da verdade, acima de toda demonstração. Além disso, os acontecimentos passados e os atuais obrigam-nos a aderir às suas palavras. É justo crer neles também pelos milagres que faziam, pois mediante eles glorificavam a Deus criador e pai do universo, e anunciavam a Cristo, seu Filho, que dele procede.

[12] Em troca, os falsos profetas, cheios de espírito enganoso e impuro, não fizeram nem fazem isso, mas atrevem-se a realizar certos prodígios para espantar os homens e glorificar aos espíritos do erro e aos demônios. Quanto a ti, antes de tudo, roga que as portas da luz te sejam abertas, pois estas coisas nem todos as podem ver e compreender, a não ser aqueles a quem Deus e seu Cristo concedem o dom de compreender.

[13] Ditas essas coisas e muitas outras, que não é o caso de referir agora, o velho foi embora, depois de exortar-me a seguir os seus conselhos. E eu não voltei a vê-lo mais. Contudo, senti imediatamente que se acendia um fogo em minha alma e se apoderava de mim o amor pelos profetas e por aqueles homens amigos de Cristo.

[14] Refletindo comigo mesmo sobre os raciocínios do ancião, cheguei à conclusão de que somente essa é a filosofia segura e proveitosa. Desse modo, portanto, e por esses motivos, sou filósofo, e desejaria que todos os homens, com o mesmo empenho que eu, seguissem as doutrinas do Salvador. Com efeito, nelas há alguma coisa de temível e são capazes de comover os que se afastam do caminho reto, ao mesmo tempo que elas se convertem em dulcíssimo descanso para aqueles que nelas meditam.

[15] Também tu, se te preocupas com algo de ti mesmo, se aspiras por tua salvação e tens confiança em Deus, como pessoa que não está alheia a essas coisas, é possível para ti alcançar a felicidade, reconhecendo o Cristo de Deus e iniciando-te em seus mistérios.

[16] Apenas terminei de dizer essas coisas, caríssimo amigo, os companheiros de Trifão deram uma gargalhada, e ele me disse sorrindo: aceito algumas das coisas que disseste e admiro o teu fervor pelas coisas divinas. Todavia, teria sido melhor que continuasses a professar a filosofia de Platão ou de algum outro, praticando a constância, o domínio de ti mesmo e a castidade, em vez de te deixares enganar por doutrinas mentirosas e seguir a homens indignos.

[17] Com efeito, enquanto permanecias naquele estilo de filosofia e levavas a vida de maneira irrepreensível, ainda te restava esperança de um destino melhor. Contudo, uma vez que abandonaste a Deus e puseste tua esperança num homem, que salvação te resta?

[18] Portanto, se queres ouvir o meu conselho, pois eu te considero meu amigo, primeiro faze-te circuncidar e depois observa, segundo o nosso costume, o sábado, as festas, as luas novas de Deus, cumprindo tudo o que está escrito na Lei. Talvez possas então alcançar misericórdia da parte de Deus. Quanto a Cristo ou Messias, se ele nasceu e está em algum lugar, é desconhecido e nem ele próprio conhece a si mesmo e não terá nenhum poder, até que venha Elias para ungi-lo e manifestá-lo a todos. Quanto a vós, porém, dando ouvidos a vozes vãs, fabricais para vós mesmos um Cristo e por sua causa estais agora perecendo sem objetivo nenhum.

[19] Eu repliquei: tens desculpa, ó homem, e podes ser perdoado. Com efeito, não sabes o que estás dizendo, pois, seguindo mestres que não entendem as Escrituras, estás como que adivinhando e dizendo o que te vem à mente. Se queres ouvir o meu raciocínio sobre isso, perceberás que não estamos enganados e que jamais deixaremos de confessar a Cristo, por mais ultrajes que os homens nos inflijam e por mais que o pior dos tiranos se empenhe em fazer que apostatemos. Com efeito, vou mostrar-te imediatamente que não demos crédito a fábulas vãs, nem a doutrinas não demonstradas, mas cheias do espírito de Deus e das quais brota o poder e floresce a graça.

[20] Então os companheiros de Trifão deram novamente uma gargalhada e começaram a gritar de forma não educada. Eu me levantei e estava pronto para ir embora. Trifão, porém, pegando-me pelo manto, disse-me que não me deixaria até que eu tivesse cumprido a minha promessa.

[21] Eu lhe repliquei: contanto que os teus companheiros não façam barulho e não se comportem de modo tão mal-educado. Se quiserem, escutem em silêncio; caso tenham alguma tarefa mais importante que os impeça de ouvir, podem ir embora. Quanto a nós, retiremo-nos um pouco mais e sentemo-nos para terminar a nossa discussão.

[22] Trifão concordou que assim fizéssemos e, de acordo, dirigimo-nos para o meio do estádio de Xistog. Dois dos seus companheiros se separaram, caçoando do nosso empenho. Quando chegamos ao lugar onde há bancos de pedra de um e outro lado, dois companheiros de Trifão sentaram-se num dos bancos, um deles tocou no assunto da guerra que havia terminado na Judéia, e começaram a conversar sobre ela.

[23] Quando eles terminaram, voltei a falar-lhes: há mais alguma coisa que reprovais em nós, amigos? Ou apenas o fato de não vivermos conforme a vossa Lei, nem circuncidarmos o nosso corpo como vossos antepassados, nem guardarmos os sábados como vós o fazeis? Ou nossa vida e moral também é objeto de calúnia entre vós? Quero dizer, por acaso também acreditais que devoramos os homens e que, depois do banquete, apagadas as luzes, nos entregamos a uniões ilícitas? Ou, finalmente, condenais em nós apenas o fato de darmos adesão a doutrinas como as que professamos e que não cremos, conforme pensais, numa opinião verdadeira?

[24] Trifão respondeu: isto é o que nos surpreende. Tudo isso que o povo comenta são coisas indignas de crédito, pois afastam-se muito da natureza humana. Quanto a mim, conheço os vossos mandamentos contidos naquilo que se chama Evangelho. São tão maravilhosos e grandes que chego a pensar que ninguém é capaz de cumpri-los. Já tive a curiosidade de lê-los.

[25] Antes, o que nos deixa sobretudo perplexos é o fato de que vós, que dizeis praticar a religião e vos considerais superiores à plebe pagã, em nada sois melhores do que eles, nem viveis uma vida diferente dos pagãos. Não guardais as festas e sábados, nem praticais a circuncisão.

[26] Além disso, pondes vossas esperanças num homem crucificado, confiando receber de Deus algum bem sem guardar os mandamentos dele. Ou não leste que será exterminada da sua descendência toda pessoa que não for circuncidada no oitavo dia? E Ele ordenou isso tanto para os estrangeiros como para os escravos comprados a preço de dinheiro.

[27] Tendo desprezado a própria aliança, vós vos descuidais de suas consequências, e ainda procurais convencer-nos de que conheceis a Deus, quando não fazeis nada do que fazem os que temem a Deus. Portanto, se tens algo a responder a essas coisas e nos demonstras de que modo conservais a esperança sem observar a Lei, com prazer te escutaremos e juntos examinaremos os outros pontos semelhantes.

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