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[1] Eu lhe respondi: — Trifão, não haverá e nem houve outro Deus desde a eternidade, além daquele que criou e ordenou este universo. Também não cremos que o nosso Deus seja diferente do vosso, mas o mesmo que tirou vossos antepassados da terra do Egito, “com mão poderosa e braço excelso”. Também não depositamos a nossa confiança em qualquer outro, dado que não existe, mas no mesmo que vós a depositais, no Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Contudo, nós não a depositamos por meio de Moisés ou da Lei, pois nesse caso estaríamos fazendo o mesmo que vós.

[2] Com efeito, ó Trifão, eu li que deveria vir uma lei perfeita e uma aliança soberana em relação às outras, que agora devem ser guardadas por todos os homens que desejam a herança de Deus. A Lei dada sobre o monte Horeb já está velha e pertence apenas a vós. A outra, porém, pertence a todos. Uma lei colocada contra outra lei anula a primeira; uma aliança feita posteriormente também deixa sem efeito a primeira. Cristo nos foi dado como lei eterna e definitiva e como aliança fiel, depois da qual não há mais nem lei, nem ordem, nem mandamento.

[3] Ou não leste o que diz Isaías? “Escutai-me, escutai-me, povo meu; e os reis dêem-me ouvidos. Porque de mim sairá uma lei e o meu julgamento para iluminar as nações. Minha justiça se aproxima depressa, minha salvação logo sairá e em meu braço as nações esperarão”. E por meio de Jeremias, se refere à nova aliança, dizendo o seguinte: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, e eu estabelecerei com a casa de Israel e com a casa de Judá uma nova aliança, não como a que estabeleci com seus pais no dia em que os tomei pela mão para tirá-los da terra do Egito”.

[4] Deus, portanto, anunciou que estabeleceria uma nova aliança e esta para iluminar as nações. Vemos e estamos convencidos de que, por meio do nome de Jesus Cristo crucificado, as pessoas se afastam da idolatria e de toda iniqüidade, para aproximar-se de Deus, suportando até a morte para confessá-lo e manter a sua religião. Todos podem compreender que esta é a lei nova e a nova Aliança, assim como a expectativa daqueles que, de todas as nações, esperam os bens de Deus.

[5] Com efeito, nós somos o povo de Israel verdadeiro e espiritual, a descendência de Judá e de Jacó, de Isaac e de Abraão, que foi atestado por Deus enquanto ainda era incircunciso e que foi abençoado e chamado pai de muitas nações. Nós somos aqueles que se aproximaram de Deus por meio desse Cristo crucificado, como ficará demonstrado quando continuarmos os nossos raciocínios.

[6] Eu continuei: — Isaías também diz em outra passagem: “Escutai minhas palavras e vivereis, e estabelecerei convosco uma aliança eterna, as promessas fiéis de Davi. Pede o testemunho que lhe dei para as nações: nações que não te conhecem te invocarão; povos que não sabem que existes se refugiarão em ti, por causa do teu Deus, o Santo de Israel, pois ele te glorificou”.

[7] Vós desonrastes essa lei e desprezastes essa nova aliança santa, e nem mesmo agora a recebeis, nem fazeis penitência por ter praticado o mal. Tendes o ouvido fechado, vossos olhos obcecados e o coração envolvido com gorduras. Jeremias grita, e vós não o escutais. Tendes vosso legislador diante de vós, e não o vedes. A boa-nova é anunciada aos pobres, os cegos a vêem, e vós não a entendeis.

[8] É necessária a segunda circuncisão, e vós continuais com vosso orgulho do corpo. A nova lei quer que guardeis o sábado continuamente, e vós, que passais um dia sem fazer nada, já vos considerais religiosos, sem saber o motivo por que vos foi ordenado o sábado. O Senhor nosso Deus não se compraz nisso. Se entre vós há um perjuro ou ladrão, que deixe de sê-lo; se há um adúltero, arrependa-se e assim terá observado os deliciosos e verdadeiros sábados de Deus. Se alguém entre vós não tem as mãos limpas, purifique-se e ficará puro.

[9] De fato, Isaías não vos mandou a um banho, para vos falar de vossos assassínios e outros pecados, pois toda a água do mar não seria suficiente para isso. Foi para aquele banho de salvação que o profeta indicou para os que se arrependem e se purificam. Não por meio de sangue de bodes e ovelhas, nem pela cinza dos bezerros, nem pelas oferendas de flor de farinha, mas pela fé, por meio do sangue de Cristo e da sua morte.

[10] Ele morreu para essa finalidade, como disse o próprio Isaías quando falou: “O Senhor revelará seu braço santo diante de todas as nações e todas elas e as montanhas da terra verão a salvação que vem de Deus. Retirai-vos, retirai-vos, retirai-vos, saí dali e não toqueis nada impuro, saí do meio dela. Vós que levais os vasos do Senhor separai-vos, porque não caminhareis em tumulto, porque diante de vós caminhará o Senhor, e aquele que vos congrega é o Senhor Deus, Israel. Eis que o meu servo entenderá, será exaltado e muito glorificado”.

[11] Do mesmo modo que muitos se pasmarão a teu respeito, por mais desonrada que a tua figura e a tua glória fiquem diante dos homens, também muitas nações ficarão maravilhadas com ele e os reis conterão a própria boca, porque aqueles que não tiveram notícia dele o verão e os que não o tinham ouvido entenderão. Senhor, quem acreditou no que ouviu de nós? E a quem foi revelado o braço do Senhor? Anunciamos como um servo diante dele, como raiz em terra sedenta.

[12] Ele não tem figura nem glória; nós o vimos e ele não tinha figura nem beleza. Seu aspecto era sem honra e desfigurado e mais desfigurado que o dos filhos dos homens. Homem cheio de chagas e que sabe carregar a doença; que tem a face desviada; foi desonrado e não foi considerado. Carrega sobre si nossos pecados e sofre por nossa causa, e nós consideramos que ele era castigado, ferido e maltratado.

[13] Mas ele foi ferido por nossos pecados e enfraquecido por nossas iniqüidades. A disciplina da vossa paz está sobre ele; por sua chagas fomos curados. Como ovelhas, todos nós nos extraviamos. Cada um andava errante por seu caminho, e o Senhor o entregou pelos nossos pecados. Ao ser maltratado, ele não abriu a boca. Como ovelha foi conduzido ao matadouro e como o cordeiro que está mudo ele não abre a boca.

[14] Sua sentença foi tirada na humilhação, mas quem explicará a sua geração? Porque a sua vida é arrebatada da terra. Pelas iniqüidades do meu povo ele vai para a morte. Darei os maus no lugar de sua sepultura e os ricos no lugar de sua morte. Porque ele não cometeu iniqüidade, nem se encontrou mentira em sua boca, e o Senhor quer purificar a sua chaga. Se derdes pelo pecado, vossa alma verá uma descendência de longa vida.

[15] O Senhor quer tirar a sua alma da fadiga, mostrar-lhe a luz, plasmar o seu entendimento e justificar o justo que serviu bem a muitos. Ele carregará sobre si nossos pecados e por isso herdará muitos e repartirá os despojos dos fortes, porque sua alma foi entregue à morte. Ele foi reputado entre os injustos, carregou os pecados de muitos e foi entregue por suas iniqüidades.

[16] Alegra-te, estéril, que não dás à luz; salta e grita de alegria, tu que não sofres dores de parto, porque são mais numerosos os filhos da abandonada do que os daquela que tem marido. Porque o Senhor disse: alarga o lugar da tua tenda e das tuas moradas, fixa-as sem poupar espaço; alarga as tuas cordas e afirma bem os teus cravos; estende-te à direita e à esquerda, e tua descendência herdará nações e tu habitarás cidades abandonadas.

[17] Não temas pelo fato de ter sido envergonhada, nem te confundas por ter sido ultrajada. Com efeito, esquecerás para sempre a vergonha e não voltarás a lembrar o ultraje da tua viuvez. Pois o Senhor fez um nome para si mesmo e o que te libertou será chamado Deus de Israel em toda a terra. O Senhor te chamou como mulher abandonada e tímida, como mulher rejeitada desde a sua juventude.

[18] Assim, como diz Isaías, por esse banho da penitência e do conhecimento que foi instituído por causa da iniqüidade dos povos de Deus, nós alcançamos a fé e sabemos que esse, predito pelo profeta, é o único que pode purificar aqueles que fazem penitência; essa é a água da vida. Esses poços que cavastes para vós mesmos estão gastos e para nada vos servem. Com efeito, que proveito tem um banho que só limpa a carne e o corpo?

[19] Lavai a vossa alma da ira, da avareza, da inveja e do ódio, e o vosso corpo ficará limpo. Isso é o que significam os ázimos, ou seja, que não pratiqueis as velhas obras do mau fermento. Vós, porém, entendeis carnalmente e tendes tudo isso como religião, mesmo quando estais com as almas cheias de engano e, francamente, de toda maldade.

[20] Por isso, depois de comerdes pão ázimo por sete dias, Deus mandou que pusséseis fermento novo na massa, isto é, que pratiqueis obras novas e não volteis a repetir as antigas obras más. E para mostrar que é isso que vos pede esse novo legislador, citar-vos-ei novamente as palavras que já disse, acrescentando outras que foram omitidas.

[21] Foram ditas assim por Isaías: “Escutai-me, e a vossa alma viverá e estabelecerei convosco uma aliança eterna, as promessas fiéis de Davi. Eis que eu as dei para vós com o testemunho para as nações, como príncipe e legislador para os povos. Nações que não te conhecem te invocarão e povos que de ti não sabem se refugiarão em ti, por causa do teu Deus, o Santo de Israel.

[22] Buscai a Deus e, quando o tiverdes encontrado, invocai-o, enquanto está perto de vós. Que o ímpio abandone os seus caminhos e o homem iníquo seus conselhos; converta-se ao Senhor e encontrará misericórdia, porque ele certamente perdoará vossos pecados. Porque os meus desejos não são como os vossos desejos, nem os meus caminhos como os vossos caminhos.

[23] Porque assim como a neve ou a chuva cai do céu e não volta até que empape a terra e faça produzir e brotar, dando semente para aquele que semeia e pão para comer, assim será a palavra que sair da minha boca: não voltará sem que antes cumpra o que eu queira e faça prosperar meus mandamentos.

[24] Porque saireis com alegria, e com júbilo sereis ensinados. Porque os montes e colinas saltarão ao receber-vos e todas as árvores do campo baterão palmas com suas folhagens, e em lugar do espinheiro crescerá o cipreste, em lugar da urtiga brotará o mirto. Isso trará renome ao Senhor e um sinal eterno, que nunca será extirpado.

[25] Eu prossegui: — Trifão, essas palavras e outras semelhantes pronunciadas pelos profetas se referem em parte ao primeiro advento de Cristo, anunciando que ele apareceria sem glória nem beleza e sujeito à morte; e parte se refere à segunda vinda, quando ele se apresentará com glória acima das nuvens, e o vosso povo verá e reconhecerá aquele a quem transpassou, como disseram antes Oséias, um dos doze profetas, e Daniel.

[26] Sabei agora qual é o verdadeiro jejum de Deus que deveis fazer, como diz Isaías, para que agradeis a Deus.

[27] De fato, Isaías clamou assim: “Grita com força e não te contenhas, levanta a tua voz como trombeta e anuncia a meu povo suas transgressões e à casa de Jacó suas iniqüidades. Eles me buscam todos os dias e desejam conhecer meus caminhos, como se fossem povo que pratica a justiça e que não abandona o direito de Deus.

[28] Agora pedem-me julgamento justo, mostram interesse em estar junto com Deus, dizendo: ‘Por que temos jejuado e tu não vês? Temos mortificado as nossas almas e não tomas conhecimento disso?’ Porque nos dias dos vossos jejuns fazeis vossas vontades e explorais vossos súditos. Vede que jejuais para querelas e rixas e feris os humildes a soco. Com que finalidade jejuais, para que hoje só se ouçam gritos de vossa voz?

[29] Não é esse o jejum que escolhi, nem o dia para o homem humilhar a sua alma. Nem que dobres o teu pescoço como um aro e te deites no pano de saco e na cinza, nem mesmo assim poderás dizer que é um jejum e um dia aceito pelo Senhor. Não é esse o jejum que eu escolhi, diz o Senhor. Ao contrário, desamarra toda atadura de indignidade, rompe os laços dos contratos violentos, deixa os aflitos saírem em liberdade e rasga todo documento injusto.

[30] Reparte o teu pão com o faminto e abriga em tua casa os pobres sem teto. Se vires alguém nu, veste-o, e não te afastes com soberba dos teus próprios parentes. Então a tua luz surgirá pela manhã, as tuas roupas logo resplandecerão, a tua justiça caminhará diante de ti e a glória do Senhor te cobrirá. Então gritarás, e Deus te ouvirá. Quando ainda estiveres falando, ele te dirá: ‘Eis-me aqui’.

[31] Se tirares de ti mesmo a atadura, a mão levantada e a palavra de murmuração; se deres de coração o teu pão para o faminto e saciares a alma humilhada, então a tua luz se levantará nas trevas, as tuas trevas serão como o meio-dia e o teu Deus estará contigo para sempre, e tu te fartarás conforme a tua alma desejar e teus ossos se engordarão e serão como bosque embriagado e fonte de água ou terra onde não há falta de água.

[32] Circuncidai, portanto, o prepúcio do vosso coração, como o pedem as palavras de Deus em todos esses discursos.

[33] O próprio Deus, por meio de Moisés, clama deste modo: “Circuncidai a dureza do vosso coração e não mais endureçais a vossa cerviz. Porque o Senhor, nosso Deus e Senhor dos senhores, é Deus forte e terrível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno”. E o Levítico: “Já que transgrediram, desprezaram-me e caminharam tortuosamente diante de mim, eu também caminharei tortuosamente com eles e os aniquilarei na terra de seus inimigos. Então se confundirá o seu coração incircunciso”.

[34] Porque a circuncisão, que se iniciou com Abraão, foi dada como sinal, a fim de que sejais distinguidos dos outros homens e também de nós. E, desse modo, sofrais sozinhos o que agora estais sofrendo com justiça, e vossas terras fiquem desertas, vossas cidades sejam abrasadas e os estrangeiros comam vossos frutos diante de vós, e ninguém de vós possa entrar em Jerusalém.

[35] Porque não há nenhum outro sinal que vos distinga do resto dos homens, além da circuncisão da vossa carne. E ninguém de vós, penso, ousará dizer que Deus não previu ou que não prevê agora o que está para vir e que não dá a cada um o que merece. Essas coisas aconteceram a vós com razão e justiça.

[36] Porque matastes o Justo e, antes dele, os seus profetas. E agora rejeitais os que esperam nele e em Deus onipotente e criador de todas as coisas, que o enviou e, no que depende de vós, o desonrais, maldizendo em vossas sinagogas aqueles que crêem em Cristo. Não tendes poder para pôr vossas mãos sobre nós, porque sois impedidos pelos que agora mandam; mas fizestes isso sempre que vos foi possível.

[37] É por isso que Deus clama contra vós por meio de Isaías: “Vede como pereceu o justo e ninguém reflete sobre isso. Porque o justo é arrebatado de diante da iniqüidade. Ele estará em paz; a sua sepultura foi arrebatada do meio deles. Vós, porém, aproximai-vos daqui, filhos iníquos, descendência de adúlteros, filhos de prostituta. De quem caçoastes e contra quem abristes a boca e soltastes a língua?”

[38] As outras nações não têm tanta culpa da iniqüidade que se comete contra nós e contra Cristo como vós, que sois a causa do preconceito injusto que elas têm contra ele e contra nós, que viemos dele. Com efeito, depois de crucificar aquele que era o único homem irrepreensível e justo, por cujas feridas são curados os que se aproximam do Pai por meio dele, quando soubestes que havia ressuscitado e subido aos céus como as profecias haviam anunciado, não só não fizestes penitência de vossas más ações, mas escolhestes homens especiais de Jerusalém e os mandastes por todo o mundo, a fim de espalhar que havia aparecido uma ímpia seita de cristãos e espalharam as calúnias que todos aqueles que não vos conhecem repetem contra nós.

[39] De modo que não só sois culpados de vossa própria iniqüidade, mas também da iniqüidade de todos os homens, e com razão Isaías clama: “Por vossa culpa o meu nome é blasfemado entre as nações”. E: “Ai da alma deles! Pois tomaram um mau conselho contra si próprios, dizendo: ‘Acorrentemos o justo, pois ele nos molesta’. Por isso, eles comerão o fruto de suas obras. Ai do iníquo! Os males lhe acontecerão, conforme as obras de suas mãos”. E diz novamente em outra passagem: “Ai dos que arrastam seus pecados como uma longa corda e suas iniqüidades como o tirante de um jugo de novilha; os que dizem: ‘Que se apresse logo e chegue já o conselho do Santo de Israel, para que o conheçamos’. Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem chamam mal, dos que transformam a luz em trevas e as trevas em luz, dos que mudam o amargo em doce e o doce em amargo”.

[40] Vós, portanto, vos empenhastes para que se espalhasse por todo o mundo calúnias amargas, tenebrosas e iníquas contra aquele homem, o único sem culpa e justo, enviado por Deus aos homens. De fato, ele vos pareceu molesto, quando gritava entre vós: “Minha casa é casa de oração, e vós a transformastes num covil de ladrões.” E jogou pelo chão as mesas dos cambistas que estavam no Templo.

[41] E gritou: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã e da arruda, e não pensais no amor de Deus e na justiça. Sepulcros caiados, que parecem bonitos por fora e por dentro estão cheios de ossos de cadáveres.” E aos escribas: “Ai de vós, escribas, pois tendes as chaves e não entrais, nem deixais entrar os que querem. Guias cegos!”

[42] Uma vez que tu, Trifão, já leste os ensinamentos de nosso Salvador, como tu mesmo confessaste, não creio ter feito algo fora de lugar citar algumas breves sentenças dele junto com as dos profetas.

[43] Lavai-vos, portanto, tornai-vos limpos agora e tirai de vossas almas os pecados; mas lavai-vos no banho que Deus vos ordena e circuncidai-vos com a verdadeira circuncisão. Também nós observaríamos essa circuncisão carnal, guardaríamos os sábados e todas as vossas festas se não soubéssemos o motivo pelo qual vos foram ordenadas, isto é, por causa de vossas iniqüidades e da vossa dureza de coração.

[44] Porque, se suportamos tudo o que nos faz sofrer por parte dos homens e dos maus demônios, de modo que até no meio do mais espantoso, a morte e os tormentos, rogamos que Deus tenha misericórdia daqueles que nos tratam assim. E em nada nos desejamos vingar deles, assim como o nosso novo Legislador nos ordenou. Ó Trifão, como não haveríamos de guardar o que em nada nos prejudica, isto é, a circuncisão carnal, os sábados e as festas?

[45] Trifão observou: — É exatamente isso que nos deixa perplexos. Suportais esses tormentos e não observais também os outros pontos sobre os quais estamos agora discutindo.

[46] Continuei: — Não os observamos porque essa circuncisão não é necessária para todos, mas só para vós, e isso, como eu disse antes, para que sofrais o que agora com justiça estais sofrendo. Também não tomamos vosso banho, esse de vossos poços rotos, pois ele não é nada em comparação com o nosso banho da vida.

[47] Justamente por isso Deus clama que abandonastes a ele, fonte viva, e cavastes para vós poços rotos que não poderão conter água. Vós que sois circuncidados na carne necessitais da nossa circuncisão; nós, porém, que temos a espiritual, de nada nos serve a outra. Porque se aquela fosse necessária, como vós pensais, Deus não teria criado Adão com prepúcio; não lhe teriam agradado os dons de Abel, que lhe ofereceu sacrifícios sem ser circuncidado; não lhe teria igualmente agradado o incircunciso Henoc, o qual não foi mais encontrado porque Deus o arrebatou.

[48] Ló, incircunciso, escapou de Sodoma, sob a escolta dos próprios anjos e do Senhor. Noé é o princípio de outra linhagem humana; embora incircunciso, entrou com seus filhos na arca. Também era incircunciso Melquisedec, sacerdote do Altíssimo, a quem Abraão, o primeiro que foi circuncidado na sua carne, ofereceu os dízimos e por ele foi abençoado. E Deus anunciou, por meio de Davi, que devia estabelecer o sacerdote eterno segundo a ordem de Melquisedec.

[49] Portanto, essa circuncisão era necessária apenas para vós, a fim de que, como diz Oséias, um dos doze profetas, “o povo não seja povo e a nação não seja nação”.

[50] Sem o sábado, também agradaram a Deus todos os justos anteriormente nomeados e, depois deles, Abraão e todos os filhos de Abraão até Moisés, sob cuja guia o vosso povo fabricou um bezerro no deserto, mostrando-se injusto e ingrato para com Deus.

[51] Então Deus acomodou-se a esse povo, mandando que lhe oferecessem sacrifícios como se fosse a seu nome, a fim de que não idolatrásseis. Mesmo assim, não observastes isso, mas chegastes a sacrificar vossos filhos aos demônios. Deus, portanto, vos ordenou o sábado para que vos lembrásseis dele. Com efeito, sua palavra diz isso, quando ele fala: “Para que conheçais que eu sou o Deus que vos libertou”.

[52] Também mandou que vos abstivésseis de certos alimentos, a fim de que, até no comer e beber, tivésseis Deus diante dos olhos, pois sempre estais inclinados e prontos a vos afastar do seu conhecimento, conforme o próprio Moisés falou: “O povo comeu e bebeu, e depois levantou-se para se divertir”. E em outro lugar: “Jacó comeu, fartou-se, engordou e escoiceou o amado: engordou, ficou robusto, corpulento e abandonou a Deus, que o criara”. Noé era justo, e Deus lhe permitiu comer todo ser animado, menos a carne com o sangue, isto é, o sufocado, conforme relata Moisés, no livro do Gênesis.

[53] Ele queria objetar-me as palavras do Gênesis: “Como as ervas do campo”. Então, eu me adiantei e disse: — Porque não entendeis a expressão “como as ervas do campo” tal como foi dita por Deus, isto é, que assim como ele criou as ervas para alimentar o homem, da mesma forma lhe deu os animais para comer carne.

[54] Pelo fato de que não comemos algumas das ervas, vós concluís que, desde aquele tempo, fora ordenado a Noé fazer uma diferença. Vossa interpretação, porém, não merece nenhum crédito. Em primeiro lugar, eu poderia dizer e afirmar que todo legume é erva que se pode comer, mas não me deterei nisso.

[55] A verdade é que se fazemos distinção entre as ervas do campo e nem de todas elas comemos, isso não se deve ao fato de serem profanas ou impuras, mas ao de serem amargas, venenosas ou espinhosas. Contudo, as que são doces, nutritivas e belas, tanto as nascidas no mar como na terra, essas nós as buscamos com avidez e as comemos.

[56] Da mesma forma, Deus ordenou que vos abstivésseis de alimentos impuros, injustos e ilegítimos, porque, mesmo comendo o maná no deserto e vendo todos os prodígios que Deus fazia para vós, fabricastes o bezerro de ouro e o adorastes. É por isso que, com justiça, ele não deixa de gritar: “Filhos insensatos, nos quais não há fidelidade”.

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