[1] Em troca, deveis acusar vossa própria maldade, pe-lo fato de que Deus fique exposto às calúnias dos que não têm inteligência e pensam que ele não ensinou sempre a mesma justiça para todos. O fato é que a muitos homens pareceram sem razão e indignos de Deus tais ensinamentos da lei, por não terem recebido a graça de reconhecer que, por meio deles, Deus chamou para a conversão e a penitência o vosso povo inclinado à maldade e espiritualmente enfermo. A doutrina dos profetas, que veio depois da morte de Moisés, é eterna.
[2] Isso mesmo, senhores, é dito no salmo; e que nós, que alcançamos a sabedoria por meio deles, confessamos que as sentenças de Deus são mais doces do que o mel e o favo, se manifesta no fato de que, mesmo ameaçados de morte, não negamos o seu nome. Todos sabem que nós, que nele cremos, pedimos que ele nos preserve dos estranhos, isto é, dos espíritos maus e enganadores, como diz a palavra do profeta, na pessoa de um dos que nele crêem.
[3] Com efeito, sempre rogamos a Deus por meio de Jesus Cristo para que sejamos preservados dos demônios, que são estranhos à piedade de Deus, e que adorávamos antigamente, a fim de que, depois de nos convertermos a Deus, por meio de Jesus Cristo, sejamos irrepreensíveis. Com efeito, chamamos de auxiliador e redentor nosso aquele cujo nome faz estremecer até os demônios, os quais hoje mesmo se submetem, conjurados pelo nome de Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, procurador na Judéia. De modo que assim se torna claro para todos que seu Pai lhe concedeu tal poder, que em seu nome e pela economia de sua paixão até os demônios se submetem.
[4] Se agora vemos que houve e continua havendo um grande poder pela economia de sua paixão, que poder não terá com a sua vinda gloriosa? De fato, ele deverá vir como Filho do Homem, sobre as nuvens, em companhia dos anjos, como disse Daniel.
[5] Tais são as palavras do profeta: “Eu estava olhando, até que foram colocados assentos e o Ancião dos dias se assentou. Trazia uma roupa branca como a neve e os cabelos de sua cabeça eram como lã limpa; seu assento era como chama de fogo e suas rodas como fogo ardente. Um rio de fogo corria, saindo de sua frente. Milhares de milhares o serviam e dez vezes dez mil o assistiam. Foram abertos livros e estabeleceu-se o julgamento.
[6] Eu então prestava atenção à voz das grandes palavras que o chifre falava. A besta foi morta a pauladas, seu corpo pereceu e foi entregue como pasto para o fogo. Também das outras bestas foi tirado o império, embora se lhes tenha deixado a vida até a ocasião e o tempo. Eu olhava na visão da noite e eis que sobre as nuvens do céu se aproximava alguém semelhante a um Filho de Homem. Ele foi até o Ancião dos dias, parou em sua frente e os assistentes o apresentaram ao Ancião.
[7] Então foi-lhe dado poder e honra régia, assim como todas as nações da terra, segundo suas descendências, e toda a glória que o serve. Seu poder é poder eterno e não lhe será tirado; o seu reino não será destruído. Meu espírito estremeceu dentro de mim e as visões de minha cabeça me perturbavam. Então me aproximei de um dos assistentes e lhe pedi a explicação exata de todas essas coisas. Em resposta, ele me disse, manifestando a mim o julgamento das palavras: ‘Essas quatro grandes bestas são quatro reinos que serão aniquilados da terra e não receberão o reino neste século, nem pelos séculos dos séculos’.
[8] Então eu quis saber exatamente sobre a quarta besta, aquela que destruía tudo e era muito espantosa, cujos dentes eram de ferro e unhas de bronze. Era aquela que comia, despedaçava e pisava com os pés as sobras. Quis saber também sobre os dez chifres em sua cabeça e sobre aquele outro que nasceu, pelo qual caíram os outros três. Esse chifre tinha olhos e boca que falava arrogâncias; sua aparência sobrepujava a dos outros. Considerei que esse chifre fazia guerra contra os santos e os derrotava, até que veio o Ancião dos dias e deu o julgamento aos santos do Altíssimo; o tempo veio e os santos do Altíssimo mantiveram o seu reino.
[9] A respeito da quarta besta foi-me dito o seguinte: ‘Haverá um quarto reino sobre a terra, que será diferente de todos esses reinos; devorará toda a terra, devastando-a e despedaçando-a. Os dez chifres são dez reinos que se levantarão, e outro depois deles, que superará em maldade aos primeiros, humilhará três reis, falará mal contra o Altíssimo, destruirá os santos do Altíssimo que ficarem, pretenderá mudar os movimentos e os tempos, e serão entregues em suas mãos por tempo e tempos e metade de tempo.
[10] E estabeleceu-se o julgamento e lhe tirarão o império para destruí-lo e aniquilá-lo até o fim. E o reino, o poder e a grandeza dos territórios dos reinos sob o céu foram dados ao povo santo do Altíssimo, para reinar como reino eterno. Todos os poderes se submeterão a ele e lhe obedecerão’. Aqui terminaram suas palavras. Eu, Daniel, fiquei muito impressionado com o êxtase, minha cor mudou e eu guardei tudo em meu coração.
[11] Apenas terminei, Trifão disse: — Homem, essas e outras passagens semelhantes das Escrituras nos obrigam a esperar como glorioso e grande aquele que recebeu do Ancião dos dias, como Filho de Homem, o reino eterno. Em troca, esse que chamais de Cristo viveu desonrado e sem glória, a ponto de cair sob a extrema maldição das leis de Deus, pois foi crucificado.
[12] Eu lhe respondi: — Senhor, se as Escrituras que vos citei não dissessem que sua figura era sem glória e que sua geração é inexplicável, que por sua morte os ricos serão entregues à morte, que por suas feridas nós somos curados e que devia ser conduzido como ovelha; se, por outro lado, eu tivesse distinguido duas vindas dele: uma em que foi transpassado por vós; outra em que reconhecereis a quem transpassastes e vossas tribos baterão no peito, tribo por tribo, as mulheres de um lado e os homens de outro; então, o que digo poderia parecer obscuro e difícil. Contudo, em todos os meus raciocínios eu parto das Escrituras proféticas, que são santas para vós, e apoiado nelas eu vos apresento as minhas demonstrações, esperando que alguém de vós possa encontrar-se no número dos que foram reservados, pela graça do Senhor dos exércitos, para a eterna salvação.
[13] Portanto, a fim de que fique mais claro para vós o que estamos discutindo, citarei outras palavras ditas pelo bem-aventurado Davi. Através delas entendereis como o Espírito Santo profético chama Cristo de Senhor e como o Senhor, pai do universo, o levanta da terra e o faz sentar-se à sua direita, até que ponha seus inimigos como escabelo de seus pés. Isso se cumpriu desde o momento em que nosso Senhor Jesus Cristo foi arrebatado ao céu, depois de ressuscitar dos mortos, quando os tempos já estão cumpridos e já está à porta aquele que vai proferir arrogâncias e blasfêmias contra o Altíssimo, aquele mesmo que Daniel indica que irá dominar tempo e tempos e metade de tempo.
[14] Ignorando quanto tempo ele deverá dominar, vós o interpretais de outro modo, pois entendeis tempo como cem anos. Nesse caso, o homem da iniqüidade deveria reinar pelo menos trezentos e cinquenta anos, se contamos como dois o que o santo Daniel chamou “tempos”.
[15] Tudo o que vos falava, eu vos falava como digressão, para ver se finalmente acreditais no que Deus diz contra vós, que “sois filhos insensatos”, e aquela outra passagem: “Por isso, vede que continuarei a perseguir este povo, e os perseguirei e tirarei de seus sábios a sabedoria e dos inteligentes esconderei a inteligência”. Assim, aprendereis de nós, que fomos ensinados pela graça de Cristo e deixareis de enganar a vós mesmos e aos que vos ouvem.
[16] As palavras ditas por Davi são as seguintes: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-se à minha direita até que eu ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés. O Senhor te enviará de Sião o cetro do poder e dominas em meio aos teus inimigos. Contigo estará o império, no dia do teu poder: nos esplendores dos teus santos, do meu ventre, antes do luzeiro da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. O Senhor está à tua direita; desbaratou os reis no dia de sua ira, julgará as nações, amontoará cadáveres. No caminho beberá da torrente e, por isso, levantará a cabeça”.
[17] Continuei: — Não ignoro que tendes a ousadia de interpretar esse salmo como se fosse dito para Ezequias. Todavia, pelas próprias palavras do salmo, eu vos quero logo demonstrar que estais enganados. Nele se diz: “O Senhor jurou e não se arrependerá.” E: “tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec.” E o que vem depois e o que antecede. Ora, Ezequias não foi sacerdote, nem continua sendo sacerdote eterno de Deus. Vós não ousaríeis contradizê-lo. Em troca, que isso seja dito a respeito do nosso Jesus, as próprias palavras o dão a entender. Os vossos ouvidos, porém, estão entupidos e os vossos corações estão endurecidos.
[18] Com efeito, pelas palavras: “O Senhor jurou e não se arrependerá, tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec”, deixou claro que, por causa de vossa incredulidade, Deus o constituiu sacerdote com juramento, segundo a ordem de Melquisedec. Isto é: assim como Moisés descreve que Melquisedec foi sacerdote do Altíssimo e sacerdote dos incircuncisos e que ele abençoou Abraão na circuncisão, quando este lhe ofereceu os dízimos, da mesma forma deu a entender que constituirá Jesus como seu sacerdote eterno, a quem o Espírito Santo e sacerdote dos incircuncisos chama Senhor, e que ele receberá e abençoará os da circuncisão que dele se aproximarem, isto é, que creiam nele e busquem as suas bênçãos.
[19] Finalmente, as últimas palavras do salmo mostram que ele primeiro devia aparecer humilde como homem e depois seria exaltado: “No caminho beberá da torrente”; e ao mesmo tempo: “Por isso, levantará a cabeça”.
[20] Citar-vos-ei outro salmo, ditado pelo Espírito Santo a Davi, para mostrar que não entendeis nada das Escrituras, pois dizeis que se refere a Salomão, que foi também vosso rei, quando foi dito para o nosso Cristo. Vós vos deixais enganar pela semelhança das expressões. E assim, onde se fala da “lei irrepreensível do Senhor”, vós a interpretais como sendo a lei de Moisés e não daquela que deveria vir depois dele, visto que o próprio Deus grita que será estabelecida uma nova lei e uma nova aliança.
[21] E onde se diz: “Ó Deus, concede ao rei o teu julgamento”, como Salomão foi rei, imediatamente aplicais o salmo a ele, quando suas próprias palavras estão anunciando que se refere a um rei eterno, isto é, a Cristo. Com efeito, Cristo, como eu vos demonstro por todas as Escrituras, é chamado rei e sacerdote, Deus, Senhor, anjo, homem, supremo general, pedra, menino recém-nascido; dele se anunciou que, primeiro nascido passível, devia depois subir ao céu e daí há de vir novamente com glória e possuir um reino eterno.
[22] E para que entendais o que estou dizendo, repetir-vos-ei as palavras do salmo, que diz o seguinte: “Ó Deus! Concede ao rei o teu julgamento e a tua justiça ao filho do rei, para que ele julgue o Teu povo com justiça e os necessitados com direito. Que os montes germinem paz para o povo e as colinas justiça. Ele fará justiça para os necessitados do povo, salvará os filhos dos pobres e humilhará o caluniador. Ele permanecerá com o sol e antes da lua, por gerações e gerações. Descerá como chuva sobre a lã e como gota que goteja sobre a terra.
[23] Em seus dias florescerá a justiça e muita paz, até que a lua seja tirada de seu lugar. Dominará de mar a mar, dos rios aos confins da terra. Diante dele se prosternarão os etíopes e seus inimigos comerão o pó. Os reis de Társis e das ilhas lhe apresentarão oferendas; os reis dos árabes e de Sabá lhe trarão presentes, todos os reis da terra o adorarão e todas as nações o servirão. Porque ele libertará o necessitado de seu opressor e o pobre que não tem quem o ajude.
[24] Perdoará o pobre e o necessitado, e salvará as vidas dos pobres, redimindo-os da usura e da iniqüidade. E seu nome será precioso diante deles. Ele viverá e lhe será entregue ouro da Arábia. Continuamente elevarão preces para ele e o bendirão todo o dia. Haverá firmeza na terra; ele será levantado sobre os cumes dos montes. Seu fruto estará sobre o Líbano e da cidade florescerão como pó da terra.
[25] Seu nome será bendito pelos séculos. Seu nome permanece antes do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra e todas as nações o proclamarão bem-aventurado. Bendito seja o Senhor Deus Israel, o único que faz maravilhas, e bendito o seu nome glorioso pelos séculos e pelos séculos dos séculos. E toda a terra ficará repleta de sua glória. Assim seja. Assim seja. E no final do salmo, que acabo de citar, está escrito: “Fim dos hinos de Davi, filho de Jessé”.
[26] Sei que Salomão, sob cujo reinado se construiu o chamado templo de Jerusalém, foi rei ilustre e grande. Contudo, é evidente que nada do que se diz no salmo aconteceu com ele. De fato, nem todos os reis se prosternavam diante dele, nem reinou até os confins da terra, nem seus inimigos, caindo a seus pés, comeram o pó.
[27] Além do mais, atrevo-me a recordar aquilo que sobre ele está escrito nos livros dos Reis: por amor de uma mulher, cometeu idolatria em Sidônia. A isso não se submetem aqueles que, vindos das nações, conheceram a Deus, criador do universo, por meio de Jesus Cristo crucificado. Esses suportam todo tormento e castigo, até o extremo da morte, para não cometer idolatria, nem comer nada oferecido aos ídolos.
[28] Trifão replicou: — Fiquei sabendo que muitos que dizem confessar a Jesus e que se chamam cristãos, comem do que é sacrificado aos ídolos e afirmam que nenhum mal lhes acontece por causa disso.
[29] Eu respondi: — De fato, existem pessoas que se dizem cristãos e confessam a Jesus crucificado como Senhor e Cristo; por outro lado, porém, não ensinam a doutrina dele, mas dos espíritos do erro. Nós, os discípulos da verdadeira e pura doutrina de Jesus Cristo, nos tornamos mais fiéis e mais firmes na esperança por ele anunciada. Com efeito, o que ele antecipadamente disse que aconteceria em seu nome, nós o vemos cumprido nos fatos com os próprios olhos.
[30] De fato, ele disse: “Virão muitos em meu nome vestidos por fora com peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes”. E: “Haverá cisões e seitas”. E ainda: “Cuidado com os falsos profetas que virão até vós vestidos de peles de ovelha por fora, mas por dentro são lobos vorazes”. E: “Surgirão muitos falsos cristos e muitos apóstolos que extraviarão muitos fiéis”.
[31] Portanto, amigos, existem e existiram muitos que ensinaram doutrinas e moral ateias e blasfemas, embora se apresentassem em nome de Jesus. Esses são chamados por nós com o nome de quem deu origem a cada doutrina ou opinião.
[32] Com efeito, uns de um modo, outros de outro, ensinam a blasfemar ao Criador do universo e a Cristo, que por ele foi profetizado que deveria vir, assim como ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó. Nós não temos nenhuma comunhão com eles, pois sabemos que são ateus, ímpios, injustos e iníquos e que, em lugar de cultuar a Jesus, só o confessam de nome.
[33] E se chamam cristãos, do mesmo modo que os das nações atribuem o nome de Deus às obras de suas mãos e tomam parte em iníquas e sacrílegas iniciações. Quanto a eles, uns se chamam marcionistas, outros valentinianos, outros basilidianos, outros saturnilianos e com outros nomes, trazendo cada um o nome do fundador da seita, do mesmo modo como aqueles que, pretendendo professar uma filosofia, como notei no início, acreditavam ser um dever trazer o nome do pai ou da doutrina que professa.
[34] Concluindo: também através desses hereges chegamos a conhecer que Jesus sabia antecipadamente o que aconteceria depois dele, do mesmo modo que sabemos também que, como ele predisse, deveríamos passar por muitas coisas nós que nele cremos e o confessamos como Cristo. De fato, tudo o que sofremos, ao sermos levados à morte pelos nossos próprios familiares, ele predisse que aconteceria. Assim, nada de reprovável aparece em suas palavras e ações.
[35] Portanto, rogamos por vós e por todos os que nos atacam para que, convertendo-vos juntamente conosco, não blasfemeis Jesus Cristo que, por suas obras e milagres que ainda hoje se realizam em seu nome, pela excelência de sua doutrina e das profecias que a respeito dele foram feitas, não merece nenhuma reprovação ou acusação. Pelo contrário, crendo nele, possais salvar-vos em sua segunda vinda gloriosa e não sejais por ele condenados ao fogo.
[36] Trifão me respondeu: — Que tudo isso seja como dizes. Concedo também que esteja profetizado que Cristo devia sofrer e que é chamado pedra. Concedo também que, depois de sua primeira vinda, na qual estava anunciado que deveria sofrer, ele virá glorioso e como juiz de todos os homens e que, por fim, deveria ser rei e sacerdote eterno. Demonstra-nos agora que tudo isso estava profetizado exatamente a respeito desse Jesus.
[37] Eu lhe disse: — Se o desejas, Trifão, no momento conveniente eu farei as demonstrações que queres. Agora, permite-me que antes de tudo eu cite algumas profecias, que acho interessante vos recordar, para demonstrar que Cristo é figuradamente chamado, pelo Espírito Santo, Deus, Senhor das potências e Jacó. Vossos exegetas, como o próprio Deus clama, são insensatos quando afirmam que isso não foi dito a respeito de Cristo, mas de Salomão, quando ele introduziu a Tenda do Testemunho no templo que havia sido.
[38] O salmo de Davi diz o seguinte: “Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a redondeza da terra e todos os que a habitam. Ele assentou seus alicerces sobre os mares e a preparou sobre os rios. Quem subirá à montanha do Senhor? Quem se manterá em seu lugar santo? Aquele que tem as mãos inocentes e é puro de coração, aquele que não se entregou à falsidade, nem jurou para enganar o seu próximo.
[39] Esse receberá bênção do Senhor e misericórdia de Deus, seu salvador. Essa é a geração dos que buscam ao Senhor, dos que buscam a face do Deus de Jacó. Levantai, ó príncipes, vossas portas; levantai-vos, ó portas eternas, para que entre o rei da glória. Quem é esse rei da glória? É o Senhor forte e valente na guerra. Levantai, ó príncipes, vossas portas; levantai-vos, ó portas eternas, para que entre o rei da glória. Quem é esse rei da glória? É o Senhor das potências, ele é o rei da glória!”
[40] Portanto, está demonstrado que Salomão não foi o rei das potências, mas quando nosso Cristo ressuscitou dos mortos e subiu ao céu, os príncipes ordenados por Deus nos céus recebem ordem de abrir as portas para que entre esse, que é o rei da glória. E, tendo subido aí, sente-se à direita do Pai, até que este ponha seus inimigos como escabelo de seus pés, como nos diz claramente em outro salmo.
[41] Todavia, os príncipes do céu o viram com o rosto disforme, desonrado e sem glória e, não o reconhecendo, perguntam: “Quem é esse rei da glória?” E o Espírito Santo, na pessoa do Pai ou em seu próprio nome, lhes responde: “É o Senhor das potências, ele é o rei da glória.” Qualquer pessoa confessará que nem sobre Salomão, por mais glorioso rei que tenha sido, nem sobre a Tenda do Testemunho, teria alguém dos que vigiavam as portas do Templo de Jerusalém se atrevido a perguntar: “Quem é esse rei da glória?”
[42] Continuei: — Na pausa do salmo 46 se diz com relação a Cristo: “Deus subiu entre gritos de júbilo, o Senhor ao som de trombetas. Cantai ao nosso rei, cantai. Porque Deus é rei de toda a terra; cantai com mestria. Deus reinou sobre as nações, Deus se assenta sobre o seu trono santo. Os príncipes dos povos se reuniram com o Deus de Abraão, porque a Deus pertencem os poderosos da terra. Eles foram grandemente exaltados”.
[43] No salmo 99, o Espírito Santo vos vitupera e nos manifesta que este que vocês não aceitam como rei é rei e Senhor de Samuel, de Moisés e de Aarão, como também de todos os outros. Suas palavras são estas: “O Senhor reina; que os povos se irritem. Ele se assenta sobre os querubins; que a terra estremeça. O Senhor é grande em Sião, exaltado sobre todos os povos. Que eles confessem o teu nome grande, porque ele é temível e santo, e a majestade do rei ama o direito. Tu estabeleceste as normas da retidão; tu fizeste direito e justiça em Jacó. Exaltai o Senhor nosso Deus e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele é santo.
[44] Moisés e Aarão estão entre os seus sacerdotes, e Samuel entre os que invocam o seu nome. Eles invocaram, o Senhor — diz a Escritura — e ele os ouvia. Falava-lhes numa coluna de nuvem, porque guardavam os seus testemunhos e o mandamento que lhes dera. Senhor nosso Deus, tu os escutavas. Ó Deus, tu lhes foste propício, embora tenhas castigado todos os seus pecados. Exaltai o Senhor nosso Deus e prostrai-vos diante do seu monte santo, porque o Senhor nosso Deus é santo”.
[45] Trifão disse: — Amigo, seria bom que tivéssemos obedecido a nossos mestres que nos mandaram por lei não conversar com nenhum de vós, e não nos teríamos comprometido a participar dos teus discursos. Com efeito, estás dizendo muitas blasfêmias, pretendendo nos convencer de que esse crucificado existiu no tempo de Moisés e Aarão e lhes falou na coluna de nuvem; que depois se fez homem, foi crucificado, subiu ao céu e há de vir outra vez à terra e que deve ser adorado.
[46] Eu então lhe respondi: — Sei muito bem que, como diz a palavra de Deus, essa grande sabedoria do Criador do universo e Deus onipotente está oculta para vós. É por isso que, por compaixão de vós, coloco todas as minhas forças para que compreendais esses nossos paradoxos. Assim ao menos eu serei inocente no dia do julgamento. Escutai agora palavras que vos parecem ainda mais paradoxais. Não vos alvoroceis, mas, reanimados, continuai ouvindo-as e examinando-as, e desprezai a tradição de vossos mestres, pois o espírito profético os acusa de incapacidade para compreender os ensinamentos de Deus e de estarem voltados apenas para suas próprias doutrinas.
[47] Assim, pois, no salmo 45 se diz igualmente, referindo-se a Cristo: “Do meu coração brota um belo hino e eu digo: minhas obras são para o rei. Minha língua é pena de escriba rápido. És belo por tua formosura sobre os filhos dos homens. A graça está derramada sobre os teus lábios. Por isso, Deus te abençoou para sempre. Cinge a tua espada ao flanco, ó poderoso; com beleza e formosura põe-te em marcha, caminha prosperamente e sê rei, por causa da realeza, da mansidão e da justiça, e a tua direita te guiará maravilhosamente. Tuas flechas são afiadas, ó poderoso; os povos cairão a teus pés, e elas irão diretas ao coração dos inimigos do rei.
[48] Ó Deus, o teu trono é para o século dos séculos e o cetro do teu reino é cetro de retidão. Por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de regozijo, mais que os teus companheiros. Tuas roupas recendem mirra, aloés e cássia nos palácios de marfim, das que te alegraram. Filhas de reis estão em teu cortejo, a rainha postou-se à tua direita, vestida com manto de ouro e grande variedade de cores. Escuta, filha, olha e inclina o teu ouvido: esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua formosura. Porque ele é o teu Senhor e a ele adorarão.
[49] A filha de Tiro vem com presentes: os ricos do povo suplicarão a teu rosto. Toda a glória da filha do rei vem de dentro; ela está vestida com franjas de ouro em variedade de cores. As donzelas que a seguem serão conduzidas ao rei; suas companheiras serão a ti conduzidas. Conduzidas com regozijo e alegria, elas serão introduzidas no palácio real. Em lugar de teus pais nascerão filhos para ti e tu os constituirás príncipes sobre toda a terra. Eu me lembrarei do teu nome de geração em geração, e os povos te confessarão pelos séculos e pelos séculos dos séculos.
[50] Acrescentei: — Não é de admirar que vós vos irriteis com essas coisas que entendemos e que vos interroguemos a partir da dureza de vosso coração. De fato, orando a Deus, Elias disse a vosso respeito: “Senhor, mataram teus profetas e derrubaram teus altares; fiquei só e eles me buscam. E Deus responde: Ainda me restam sete mil homens que não dobraram seus joelhos diante de Baal”.
[51] Do mesmo modo que, por amor desses sete mil homens, naquela época Deus não executou a sua ira, assim também agora ele não desencadeou, nem desencadeia o julgamento universal, pois ele sabe que diariamente existem aqueles que se fazem discípulos do nome de Cristo e abandonam o caminho do erro. Estes, iluminados pelo nome desse Cristo, recebem dons conforme cada um o merece; um recebe o espírito de inteligência, outro de conselho, outro de fortaleza, outro de cura, de presciência, de ensinamento e de temor de Deus.
[52] Trifão contestou: — Quero que saibas que estás delirando ao falar essas coisas.
[53] Eu respondi: — Amigo, escuta e verás que não estou louco nem delirando. De fato, foi profetizado que após sua ascensão ao céu, Cristo nos tiraria do cativeiro do erro e nos daria dons. É o que dizem as seguintes palavras: “Subiu às alturas, levou cativo o cativeiro, deu dons aos homens”.
[54] Portanto, nós que recebemos dons de Cristo, que subiu às alturas, vos demonstramos pelas palavras dos profetas que sois insensatos, vós que vos considerais sábios e entendidos diante de vós mesmos. Vós não honrais a Deus e a seu Cristo senão com os lábios; nós, porém, o honramos também com nossas obras, com o conhecimento e de coração, até a morte.
[55] O motivo por que vacilais em confessar a Jesus como Cristo, como as Escrituras o demonstram, os fatos evidentes e os prodígios que acontecem em seu nome, talvez seja porque não sois perseguidos pelos governantes. Estes, sob a ação do espírito mau e enganador, da serpente, não cessarão de matar e perseguir aqueles que confessarem o nome de Cristo, até que ele retorne, destrua a todos e dê a cada um o que merece.
[56] Trifão insistiu: — Dá-nos agora a razão de que esse que dizes ter sido crucificado e subiu ao céu é o Cristo de Deus. De fato, que o Cristo é anunciado nas Escrituras como sofredor, que virá novamente com glória para receber o reino eterno de todas as nações e que todo reino lhe será submetido, está suficiente demonstrado pelas Escrituras que citaste. Contudo, que ele seja Jesus, isso terás agora que nos demonstrar.
[57] Eu contestei: — Senhores, isso está já demonstrado aos que têm ouvidos e pelo que vós confessastes. Entretanto, para que não penseis que estou embaraçado e que não posso trazer-vos as provas que pedis e que eu prometi, no momento oportuno eu as apresentarei. Por enquanto, quero voltar ao que pede a ilação dos meus raciocínios.
[58] De fato, o mistério do cordeiro que Deus mandou sacrificar como Páscoa era figura de Cristo, com cujo sangue os que nele crêem, segundo a fé nele, ungem suas casas, isto é, a si mesmos. Com efeito, todos vós podeis compreender que a figura que Deus plasmou, isto é, Adão, converteu-se em casa do espírito que ele lhe insuflara. E que esse mandamento foi temporário vos posso demonstrar do seguinte modo.
[59] Deus não vos permite sacrificar o cordeiro pascal a não ser no lugar em que seu nome é invocado. E isso ele sabia que iria acontecer um dia depois da paixão de Cristo, em que o mesmo lugar de Jerusalém seria entregue aos vossos inimigos e todas as oferendas terminariam por completo.
[60] Por outro lado, o cordeiro que era mandado assar completamente era símbolo da paixão da cruz que Cristo devia sofrer. Com efeito, assa-se o cordeiro colocado em forma de cruz, pois uma ponta do espeto o atravessa dos pés à cabeça, e a outra atravessa-lhe as costas e nela se apóiam as partes dianteiras do cordeiro.
[61] Também os dois bodes que se mandava sacrificar no jejum eram iguais; um deles era feito emissário e o outro se destinava ao sacrifício. Anunciavam as duas vindas de Cristo: numa delas, os vossos anciãos do povo e sacerdotes o enviavam como emissário, lançando suas mãos sobre ele e matando-o; na outra, no mesmo lugar de Jerusalém, reconhecereis aquele que foi desonrado por vós e que era a vítima de todos os pecadores que queiram fazer penitência e jejuar, conforme aquele jejum a que se refere Isaías, rompendo os laços dos contratos violentos e observando tudo o que o profeta enumera e que nós citamos antes, e é justamente o que fazem aqueles que crêem em Jesus.
[62] Vós sabeis que o sacrifício dos bodes que se mandava oferecer no dia do jejum também não era permitido fazer-se em nenhuma parte fora de Jerusalém.

