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[1] Continuei: — A oferta de flor de farinha, senhores, que os que se purificavam da lepra deviam oferecer, era figura do pão da Eucaristia que nosso Senhor Jesus Cristo mandou oferecer em memória da paixão que ele padeceu por todos os homens que purificam suas almas de toda maldade, para que juntos demos graças a Deus por ter criado o mundo e por todo o amor que há nele pelo homem, por nos ter livrado da maldade na qual nascemos e por ter destruído completamente os principados e potestades através daquele que, segundo seu desígnio, nasceu passível.

[2] Portanto, quanto aos sacrifícios que vós antes oferecíeis, como já mostrei, diz Deus pela boca de Malaquias, um dos doze profetas: “Minha vontade não está convosco — diz o Senhor — e não quero receber sacrifícios de vossas mãos. De fato, desde onde o sol nasce até onde ele se põe, meu nome é glorificado entre as nações e em todo lugar se oferece ao meu nome incenso e sacrifício puro. Grande é o meu nome entre as nações — diz o Senhor — e vós o profanais”.

[3] Assim, antecipadamente fala dos sacrifícios que nós, as nações, lhe oferecemos em todo lugar, isto é, o pão da Eucaristia e o cálice da própria Eucaristia, e ao mesmo tempo diz que nós glorificamos o seu nome e vós o profanais.

[4] Quanto ao mandamento da circuncisão, exigindo que todos os nascidos deveriam ser circuncidados absolutamente no oitavo dia, isso também era figura da verdadeira circuncisão, com a qual Jesus Cristo nosso Senhor, ressuscitado no primeiro dia da semana, nos circuncidou do erro e da maldade. Com efeito, o primeiro dia da semana, embora sendo o primeiro de todos os dias, se forem contados novamente todos os dias, ele se torna o oitavo da série, sem deixar de ser o primeiro.

[5] Assim também as doze campainhas que se mandava pendurar na veste talar do sumo sacerdote se referia aos doze apóstolos que estavam ligados ao poder de Cristo, sacerdote eterno, por meio dos quais toda a terra se encheu da glória e da graça de Deus e de seu Cristo. Por isso, Davi também diz: “A voz deles chegou a toda a terra e a palavra deles aos confins do orbe terrestre”.

[6] Como na pessoa dos apóstolos, que dizem não terem acreditado em Cristo porque lhes disseram, mas pelo poder de Cristo que os enviou, Isaías disse: “Quem creu naquilo que ouvimos e a quem se revelou o braço do Senhor? Anunciamos diante dele como criança, como raiz em terra sedenta”, e o resto da profecia, que já citamos anteriormente.

[7] Dizendo em pessoa de muitos: “Anunciamos diante dele”, e acrescentando em seguida: “Como criança”, a Escritura dava a entender que os malvados, submetidos a ele, lhe obedeceriam e se tornariam todos como criança. Pode-se perceber isso no corpo: embora possuindo muitos membros, todos eles em conjunto são chamados e são de fato um só corpo. Do mesmo modo, um povo, uma igreja, embora composto numericamente de muitos, são chamados e denominados com um só nome, como se fossem uma coisa única.

[8] Senhores, eu poderia recorrer a todas as outras ordens dadas por Moisés e demonstrar-vos que são figuras, símbolos e anúncios do que aconteceria com Cristo e com aqueles que nele crêem, conhecidos de antemão, assim como também o que o próprio Cristo haveria de fazer. Creio, porém, que é suficiente o que até aqui foi citado. Por isso, passo ao raciocínio que a ordem do meu discurso exige.

[9] Assim como a circuncisão iniciou-se em Abraão e o sábado, sacrifícios, oferendas e festas com Moisés, e já foi demonstrado que tudo isso foi ordenado por causa da dureza do vosso coração, do mesmo modo, por vontade do Pai, tudo teria que terminar em Cristo, Filho de Deus, nascido da virgem da descendência de Abraão, da tribo de Judá e de Davi.

[10] E foi anunciado que ele, lei eterna e nova aliança para o mundo todo, deveria vir, como indicam todas as profecias por mim citadas.

[11] E nós, que por meio dele nos aproximamos de Deus, não recebemos essa circuncisão carnal, mas a espiritual, aquela que Henoc e outros observaram. Como éramos pecadores, a recebemos no batismo pela misericórdia de Deus. E a todos é igualmente permitido recebê-la.

[12] Como chegou o momento oportuno, falar-lhes-ei agora do mistério de seu nascimento. Que a descendência de Cristo não admite explicação humana, Isaías, como já foi aludido, disse o seguinte: “Quem cantará a sua geração? Porque a sua vida é tirada da terra. Pelas iniqüidades do meu povo ele foi conduzido à morte”. O Espírito profético disse isso por ser inexplicável a descendência daquele que morreria para curar a todos nós, homens pecadores, com as suas chagas.

[13] Além disso, para que nós, que acreditamos nele, soubéssemos de que modo ele nasceria ao vir ao mundo, pelo mesmo Isaías o Espírito profético assim falou: “Pede para ti um sinal da parte do Senhor teu Deus, no abismo ou na altura”. E Acaz disse: “Não o pedirei, nem tentarei ao Senhor”. Isaías disse: “Ouvi agora, casa de Davi! É pouco para vós combater os homens, de modo que o fazeis também contra o Senhor? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: vede que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado com o nome de Emanuel. Ele comerá manteiga e mel. Antes que saiba escolher o mal, escolherá o bem. Por isso, antes que o menino saiba distinguir o bem ou o mal, rejeitará o mal para escolher o bem. Porque antes que o menino saiba dizer pai e mãe, receberá o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei dos assírios. E pela presença dos reis será tomada a terra que será para ti dura carga. Mas o Senhor trará sobre ti, sobre o teu povo e sobre a casa do teu pai dias como ainda não houve sobre ti desde o dia em que Efraim se separou de Judá para o rei dos assírios”.

[14] Todavia, é claro para todos que, fora o nosso Cristo, ninguém nasceu de uma virgem na descendência carnal de Abraão, nem de ninguém se afirmou tal coisa.

[15] Contudo, como vós e vossos mestres vos atreveis a dizer, primeiro que o texto da profecia de Isaías não diz “Vede que uma virgem conceberá”, mas: “Vede que uma mulher jovem conceberá e dará à luz”, e depois a interpretais como referida ao vosso rei Ezequias. Também tentarei discutir esse breve ponto contra vós e demonstrar-vos que a profecia se refere a esse que nós confessamos como Cristo.

[16] Desse modo, colocando todo o meu empenho em vos convencer com as minhas demonstrações, ficarei inteiramente sem culpa em relação a vós. Todavia, se vós, permanecendo na dureza de coração ou fracos na convicção por medo da morte decretada contra os cristãos, não quiserdes abraçar a verdade, toda a culpa será vossa e vos enganareis a vós mesmos, imaginando que, por ser descendência de Abraão segundo a carne, estais seguros de alcançar os bens que Deus prometeu conceder por meio de Cristo.

[17] Porque ninguém receberá nenhum desses bens de parte alguma, a não ser os que pela fé se assemelharem em sentimentos a Abraão e reconhecerem os mistérios todos, isto é, reconhecerem que alguns mandamentos foram dados a vós para cultuar a Deus e praticar a justiça, outros para anunciar misteriosamente a Cristo, ou por causa da dureza de coração do vosso povo. Que isso seja assim, o próprio Deus o disse em Ezequiel, falando deste modo: “Ainda que Jacó e Noé peçam por seus filhos ou suas filhas, não lhe serão dados”.

[18] Com relação ao mesmo assunto, em Isaías ele diz assim: “Disse o Senhor Deus: Sairão e verão os membros dos homens que pecaram. Porque o verme deles não morrerá e seu fogo não se extinguirá, se tornarão espetáculo para o mundo todo”.

[19] De modo que, cortada de vossas almas essa esperança, vós deveis esforçar-vos para conhecer através de qual caminho virá até vós o perdão dos pecados e a esperança de herdar os bens prometidos. Esse caminho não é outro senão o de reconhecer a Jesus como Cristo, lavar-vos no banho que o profeta Isaías anunciou para a remissão dos pecados e, doravante, viver sem pecar.

[20] Trifão me disse: — Pode parecer que corto esses raciocínios, que afirmas ser necessário examinar. Todavia, tenho uma pergunta que quero investigar e primeiro deves supor-tar-me.

[21] Eu respondi: — Pergunta o que quiseres, conforme te ocorra. Procurarei voltar aos meus raciocínios e completálos, quando tiveres perguntado e eu respondido.

[22] Ele continuou: — Dize-me: os que tiverem vivido conforme a lei de Moisés viverão na ressurreição dos mortos como Jacó, Henoc e Noé, ou não?

[23] Eu respondi: — Amigo, ao citar-te as palavras de Ezequiel: “Ainda que Noé, Daniel e Jacó peçam por seus filhos e suas filhas, não lhes serão dados”, mas que evidentemente cada um se salvará por sua própria justiça, eu disse também que igualmente se salvarão os que tiverem vivido conforme a lei de Moisés. Com efeito, na lei de Moisés ordenam-se algumas coisas por natureza boas, piedosas e justas, que devem ser praticadas pelos que nelas crêem; outras, praticadas sob os que estavam sob a lei, estão escritas em vista da dureza de coração do povo.

[24] Dessa forma, portanto, os que cumpriram o que é universal, natural e eternamente bom, tornaram-se agradáveis a Deus e se salvarão por meio de Cristo na ressurreição, do mesmo modo que os justos que os precederam: Noé, Henoc, Jacó e todos os que existiram, juntamente com os que reconhecem este Cristo como Filho de Deus. Este é aquele que existia antes do luzeiro da manhã e da lua. Todavia, ele se dignou nascer feito homem daquela virgem da descendência de Davi, para, por meio desta sua economia, destruir a serpente perversa desde o princípio, assim como os anjos a ela semelhantes e fazer-nos desprezar a morte. Na segunda vinda de Cristo ela cessará totalmente nos que acreditaram nele e viveram de modo agradável a ele, e não existirá mais, quando alguns forem mandados ao fogo para serem sem cessar castigados, e outros gozarem de impassibilidade e incorruptibilidade, livres da dor e da morte.

[25] Ele continuou me perguntando: — E se alguns quiserem ainda agora viver fiéis ao que foi estabelecido por Moisés, embora crendo nesse Jesus crucificado e reconhecendo que ele é o Cristo de Deus e que a ele foi dado julgar absolutamente a todos e a ele pertence o reino eterno — também esses podem salvar-se?

[26] Eu respondi: — Vamos examinar juntos se agora é possível guardar tudo o que foi ordenado por Moisés.

[27] Trifão replicou: — Não. Como dissestes, reconhecemos que não é possível sacrificar o cordeiro pascal, nem os dois bodes que se mandava oferecer no jejum, nem absolutamente fazer as outras ofertas.

[28] Perguntei então: — Portanto, eu te peço: dize-me tu mesmo o que é possível observar. Porque deves te convencer que sem guardar as justificações eternas, isto é, sem praticá-las, ninguém pode absolutamente salvar-se.

[29] Ele respondeu: — Refiro-me a guardar o sábado, a circuncisão, a observância dos meses e os banhos dos que tiverem tocado alguma coisa do que Moisés proibiu ou que tiverem tido relação sexual.

[30] Eu lhe disse: — Parece-vos que se salvarão Abraão, Isaac, Jacó, Noé, Jó e os outros justos que existiram antes ou depois deles, como Sara, a mulher de Abraão, Rebeca de Isaac, Raquel e Lia de Jacó, e como essas todas as outras, até a mãe de Moisés, o servo fiel de Deus, que não observaram nada dessas coisas?

[31] Trifão replicou: — Abraão não se circuncidou, assim como os que vieram depois dele?

[32] Eu respondi: — Sei muito bem que Abraão e seus descendentes se circuncidaram, mas já lhes disse antes e longamente o motivo pelo qual lhes foi dada a circuncisão. E se o que eu disse não vos convence, vamos examinar novamente esse tema. Contudo, já sabeis que nenhum justo guardou absolutamente nenhuma dessas coisas que discutimos, nem recebeu ordem de guardá-las, se excetuarmos a circuncisão, que se iniciou com Abraão.

[33] Trifão disse: — Sabemos e confessamos que se salvam.

[34] Eu continuei: — Pela dureza de coração do vosso povo, deveis compreender que Deus vos deu todos esses mandamentos por meio de Moisés, a fim de que por tantas lembranças tivésseis a Deus sempre diante dos olhos em todas as vossas ações e não vos entregásseis à iniqüidade nem à impiedade. Por exemplo: ele mandou que vos cingísseis com fitas de púrpura, a fim de que por meio dela não vos esquecêsseis de Deus, e as fitas com certas letras escritas em finíssimas membranas, o que nós consideramos como absolutamente santo. Desse modo, Deus queria estimular-vos para que vos lembrásseis dele em todo momento, a cada vez que vos acusava em vossos corações.

[35] Não tendes sequer uma pequena lembrança da piedade para com Deus e nem mesmo assim lhe obedecestes não praticando a idolatria, pois no seu tempo Elias contou o número dos que não tinham dobrado os joelhos diante de Baal e disse que eram apenas sete mil. Isaías vos atira no rosto que até vossos filhos oferecestes em sacrifício aos ídolos.

[36] Nós, porém, para não sacrificar àqueles que sacrificamos em outros tempos, sofremos os últimos tormentos e nos alegramos de morrer, pois cremos que Deus nos ressuscitará por meio de seu Cristo e nos tornará incorruptíveis, impassíveis e imortais. Por fim, sabemos que tudo o que vos foi ordenado por causa da dureza de coração do vosso povo, nada tem a ver com a prática da justiça e da piedade.

[37] Trifão perguntou: — E se alguém quiser observar essas coisas, sabendo que é certo o que dizes, embora reconhecendo que Jesus é o Cristo, crendo nele e obedecendo-lhe, esse se salvaria?

[38] Eu lhe respondi: — Trifão, segundo o meu parecer, afirmo que essa pessoa se salvaria, contanto que não pretenda que os outros homens, isto é, os que vêm das nações, estejam circuncidados do erro por Jesus Cristo e tenham a todo custo que observar o mesmo que ele observa, afirmando que se não observarem não poderão salvar-se. É o que fizeste no começo de nosso diálogo, afirmando que eu não me salvaria se não observasse a vossa lei.

[39] Ele me replicou: — Então por que disseste: “Segundo o meu parecer”? Há quem diga que tais pessoas não se salvarão?

[40] Eu respondi: — Sim, Trifão. E há pessoas que não se atrevem a dirigir a palavra, nem a oferecer seu lar a elas. Mas eu não concordo com essas pessoas. Se pela fraqueza de sua inteligência continuam ainda observando o que lhes é possível da lei de Moisés, o que sabemos ter sido ordenado por causa da dureza de coração do povo, e juntamente com isso esperem em Cristo e queiram guardar o que eterna e naturalmente é justo e piedoso, e se decidam a conviver com os cristãos e fiéis, e não procurem, como já disse, persuadir os outros a se circuncidarem como eles, a guardar os sábados e outras prescrições da lei, estou de acordo com os que afirmam que se deve recebê-los e manter completa comunhão com eles, como homens que têm os mesmos sentimentos que nós e são irmãos na fé.

[41] Em troca, Trifão, aqueles de vossa raça que dizem crer em Cristo, mas a todo custo pretendem obrigar aqueles de todas as nações que acreditaram nele a viver conforme a lei de Moisés, ou que não se decidem a conviver com estes, também eu não aceito esses como cristãos.

[42] Todavia, aqueles que foram persuadidos por estes a viver conforme a lei, suponho que talvez se salvem, contanto que conservem a fé no Cristo de Deus. Os que digo que não podem absolutamente se salvar são os que, depois de confessar e reconhecer que Jesus é o Cristo, por uma causa qualquer passam a observar a lei, negando a Cristo e não se arrependem antes de morrer.

[43] Da mesma forma, afirmo que não se salvarão, por mais que sejam descendência de Abraão, os que vivem segundo a lei, mas não crêem em Cristo antes de morrer, e principalmente aqueles que nas sinagogas anatematizaram e anatematizam os que crêem nesse mesmo Cristo para alcançar a salvação e livrar-se do castigo do fogo.

[44] Com efeito, a bondade, a amizade de Deus e a imensidão de sua riqueza fazem com que aquele que se arrepende dos próprios pecados, como ele deixou claro através de Ezequiel, se torne justo e sem pecado. Em troca, aquele que passa da piedade e da justiça para a iniqüidade e a impiedade, ele o considera pecador, iníquo e ímpio. Por isso, nosso Senhor Jesus Cristo também diz: “No estado em que eu vos surpreender, aí também vos julgarei”.

[45] Trifão continuou: — Já ouvimos o que pensas sobre isso. Retoma o teu discurso onde havias parado e termina-o. Com efeito, ele me parece contraditório e absolutamente impossível de demonstrar, pois dizer que esse vosso Cristo preexiste como Deus antes dos séculos e que depois dignou-se nascer como homem e não é homem que venha dos homens, não só me parece absurdo como também insensato.

[46] Ao que respondi: — Sei que meu discurso parece absurdo, principalmente para os de vossa raça, pois jamais quisestes entender nem praticar as coisas de Deus, mas as de vossos mestres, como o próprio Deus clama.

[47] Todavia, Trifão, mesmo que eu não pudesse demonstrar que o Filho do Criador do universo preexiste como Deus e que nasceu como homem de uma virgem, nem por isso deixa de ser provado que Jesus é o Cristo de Deus. Pelo contrário, já está totalmente demonstrado que ele é o Cristo de Deus, seja qual for a sua natureza. Se eu não conseguir demonstrar a sua preexistência e que, conforme o desígnio do Pai, ele se dignou nascer com as nossas mesmas paixões, revestido de carne, o justo seria dizer que eu errei em minha demonstração e não negar que ele é o Cristo, mesmo que se tivesse feito homem nascido de homens e se demonstrasse que somente por eleição se tivesse tornado Cristo.

[48] Com efeito, amigos, há alguns de vossa descendência que confessam Jesus como o Cristo, mas afirmam que ele é homem nascido de homem. Não estou de acordo com eles, mesmo que a maioria dos que pensam como eu dissessem isso.

[49] De fato, o próprio Cristo não nos mandou seguir ensinamentos humanos, mas aquilo que os bem-aventurados profetas pregaram e ele próprio ensinou.

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