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[1] Trifão replicou: — Parece-me que os que afirmam que Jesus foi apenas homem e que por eleição foi ungido e tornado Cristo dizem coisas mais críveis do que vós, ao dizer o que dizes. Todos nós, com efeito, esperamos o Cristo, que nascerá como homem, de homens, e a quem Elias virá ungir. E este se apresenta como o Cristo, deve-se pensar absolutamente que é homem, nascido de homens. Contudo, pelo fato de Elias não ter vindo, afirmo que esse não é o Cristo.

[2] Eu então perguntei-lhe novamente: — A palavra de Deus, por meio de Zacarias, não diz que Elias virá antes do grande e terrível dia do Senhor?

[3] Ele me respondeu: — Certamente.

[4] Eu continuei: — Portanto, a palavra de Deus leva-nos a admitir que foram profetizadas duas vindas: uma, em que havia de aparecer passível, desonrado e disforme; outra, em que viria glorioso e como juiz universal, como se demonstra pelos muitos testemunhos já alegados. Isso não nos leva a entender que a palavra de Deus anunciou que Elias seria precursor de Cristo na segunda vinda, isto é, do dia temível e grande?

[5] Ele me respondeu: — Certamente.

[6] Eu continuei: — Isso também nosso Senhor nos deixou em seus ensinamentos, quando disse que Elias devia vir, e nós sabemos que isso acontecerá quando nosso Senhor Jesus Cristo voltar do céu com glória. Na sua manifestação, o Espírito de Deus o precedeu como arauto, que esteve em Elias, também esteve em João, profeta do vosso povo, depois do qual nenhum outro profeta tornou a aparecer entre vós. Sentado junto ao rio Jordão, João gritava: “Eu vos batizo com água para a penitência; mas virá outro mais forte do que eu, cujas sandálias não mereço carregar. Ele vos batizará com Espírito Santo e com fogo. Sua pá já está em sua mão, e ele limpa a sua eira, e reunirá o trigo no celeiro e queimará a palha com fogo inextinguível”.

[7] Vosso rei Herodes mandou prender no cárcere esse mesmo profeta e, durante a festa do seu aniversário, uma sobrinha sua o agradou muito com sua dança, e ele falou que ela lhe pedisse o que desejasse. A mãe da jovem lhe sugeriu que pedisse a cabeça de João, que estava no cárcere; ela fez o pedido, e o rei mandou um carrasco e deu ordem que trouxesse a cabeça do profeta sobre uma bandeja.

[8] Foi por isso que o nosso Cristo, estando ainda sobre a terra, ao lhe dizerem alguns que antes do Cristo deveria vir Elias, respondeu: “Sim, Elias virá e restabelecerá tudo, mas eu vos asseguro que Elias já veio e não o reconheceram, mas fizeram com ele o que quiseram”. E está escrito que “então seus discípulos perceberam que ele lhes havia falado de João Batista”.

[9] Trifão retrucou: — Também me parece absurdo o fato de que digas que o Espírito profético de Deus, que esteve com Elias, também esteve em João.

[10] Eu lhe respondi: — Não te parece que o mesmo aconteceu com Josué, filho de Nave, que sucedeu a Moisés na direção do povo? Deus mandou que Moisés lhe impusesse as mãos, dizendo: “Transferirei sobre ele parte do Espírito que há em ti”.

[11] Trifão disse: — Certamente.

[12] Eu continuei: — Portanto, da mesma forma que, estando Moisés ainda entre os homens, Deus transferiu sobre Josué parte do Espírito que nele estava, assim também pode fazer que de Elias o Espírito passasse para João. Assim como a primeira vinda de Cristo foi sem glória, também a primeira vinda do Espírito, apesar de permanecer sempre puro em Elias, foi sem glória, como a de Cristo.

[13] Com efeito, dizem que o Senhor guerreava contra Amalec com mão oculta. Entretanto, não podes negar que Amalec caiu. Se apenas com a vinda gloriosa de Cristo se dissesse que Amalec deveria ser combatido, que sentido teria a Escritura que diz: “Deus guerreia contra Amalec com mão oculta?” Portanto, podeis compreender que o Cristo crucificado teve alguma força oculta de Deus, pois diante dele os demônios e todos os principados e potestades da terra estremecem.

[14] Trifão observou: — Parece-me que estás bem treinado no trato com muitos em todas as questões e, por isso, preparado para responder a tudo o que te perguntam. Responde-me, portanto, antes de tudo, como podes demonstrar que existe outro Deus além do Criador do universo, e então me demonstrarás que ele se dignou nascer de uma virgem.

[15] Eu então lhe disse: — Permite-me antes citar algumas palavras do profeta Isaías sobre como João, que foi batizador e profeta, deveria preceder nosso Senhor Jesus Cristo.

[16] Trifão respondeu: — De acordo.

[17] Eu continuei: — Isaías predisse que João deveria preceder a Cristo, dizendo: “Ezequias disse a Isaías: ‘A palavra que o Senhor disse é boa. Haja paz e justiça em meus dias’ ”. E: “Consolai o povo, sacerdotes. Falai ao coração de Jerusalém e consolai-a, porque está cumprida a sua humilhação. Está desatado o seu pecado, porque recebeu da mão do Senhor o dobro dos seus pecados. Voz de quem grita no deserto: ‘Preparai os caminhos do Senhor, tornai retas as veredas do vosso Deus. Todo barranco será nivelado e todo monte e colina será aplainado. Tudo o que é torto será endireitado e tudo o que é áspero se transformará em caminho liso. Será vista a glória do Senhor, e todo homem verá a salvação de Deus. Porque o Senhor falou’.

[18] Voz do que diz: ‘Grita’. Eu disse: ‘Que gritarei?’ Toda carne é feno e toda a glória do homem como flor de feno. O feno secou e sua flor caiu, mas a palavra do Senhor permanece para sempre. Sobe a um monte elevado, tu que dás a boa nova a Sião. Levanta com força a tua voz, tu que levas a boa notícia a Jerusalém. Levantai-vos; não temais. Dize às cidades de Judá: ‘Eis que o vosso Deus, eis que o Senhor vem com força e seu braço chega com poder. Eis que o seu prêmio está com ele e sua obra está diante dele. Como pastor apascentará seu rebanho e com seu braço recolherá os cordeiros e consolará as ovelhas prenhes.

[19] Quem mediu a água com a sua mão, o céu com a palma da mão e a terra inteira com o punho? Quem pesou os montes na balança e o vale em seus pratos? Quem conheceu a mente do Senhor? Quem foi o seu conselheiro para que o ensinasse? Ou em quem ele deliberou, para dele receber instruções? Quem mostrou a ele a justiça ou lhe ensinou o caminho da inteligência? Todas as nações são como gota num balde, foram consideradas como um nada nos pratos da balança e serão tidas como cuspida. O Líbano não é suficiente para queimar e os quadrúpedes não bastam para o holocausto, e todas as nações são nada e são avaliadas como um nada.

[20] Ao terminar a minha citação, Trifão disse-me: — Amigo, todas as palavras da profecia que estás falando são ambíguas e não contêm nada de decisivo para a demonstração que procuras fazer.

[21] Eu lhe respondi: — Trifão, se em vosso povo não tivessem terminado as profecias, que não se verificaram mais depois de João Batista, talvez tivésseis razão em considerar como obscuras as coisas ditas.

[22] É certo, porém, que João o precedeu, gritando aos homens que fizessem penitência, e o próprio Cristo, quando João ainda estava no rio Jordão, apresentou-se a ele para pôr fim à sua missão profética e ao seu batismo. E foi ele quem então começou a dar a boa nova, dizendo: “O reino dos Céus está próximo”. Depois disse que ele devia sofrer muito por causa dos escribas e fariseus, ser crucificado, ressuscitar ao terceiro dia e voltar outra vez a Jerusalém, e então comer e beber novamente com os seus discípulos. Também predisse que, no intervalo de sua vinda, como já indiquei, em seu nome se levantariam seitas e falsos profetas. E é o que vemos acontecer. Visto que tudo isso é certo, como podeis ainda duvidar, quando é fácil vos convencer pelos próprios fatos?

[23] No que diz respeito ao fato de que em vosso povo não haveria mais nenhum profeta e que a nova aliança que Deus anunciou deveria estabelecer, estava já determinado, por ser ele o Cristo. Assim disse: “A Lei e os profetas até João Batista; daí por diante o reino dos Céus sofre violência, e são os violentos que o arrebatam. Se quereis aceitar, este é Elias que devia vir. Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça”.

[24] Eu acrescentei: — Também pelo patriarca Jacó foi profetizado que haveria duas vindas de Cristo: que na primeira ele seria mortal, que, depois de ele vir, não haveria mais na vossa descendência nem rei nem profeta e que as nações que cresceriam nesse Cristo passível esperariam mais uma vez por sua vinda. Todavia, por isso mesmo o Espírito Santo falou por comparação e misteriosamente.

[25] De qualquer modo, ele assim anuncia: “Judá, os teus irmãos te louvaram, tuas mãos sobre o dorso dos teus inimigos e os filhos de teu pai se prostrarão diante de ti. Judá é filhote de leão. Desde o teu nascimento, meu filho, subiste. Deitou-se como um leão e como filhote de leão. Quem o despertará? Não faltará um príncipe de Judá, nem um chefe saído de seus músculos, até que chegue o que está reservado para ele. Ele será a esperança das nações, amarrando o jumentinho à videira e à parreira o filhote de sua jumenta. Lavará no vinho a sua veste e no sangue da uva as suas roupas. Seus olhos estão vermelhos do vinho e seus dentes brancos como o leite”.

[26] Já que nunca faltou em vossa descendência nem profeta nem príncipe, desde que ela se iniciou até que Jesus Cristo nasceu e sofreu, não teríeis a insensatez e ousadia de negá-lo, nem poderíeis demonstrar a vossa negação. Com efeito, Herodes, sob o qual Cristo sofreu, embora afirmeis que ele era natural de Ascalon, todavia dizeis que foi sumo sacerdote na vossa descendência.

[27] De modo que desde então tivestes quem fizesse as ofertas conforme a lei de Moisés e observasse as outras prescrições legais, e também profetas que se sucederam até João — o mesmo que aconteceu quando o povo foi transportado para a Babilônia, depois que a terra foi tomada pelas armas e os vasos sagrados foram saqueados — e, por conseguinte, não faltou profeta entre vós para ser Senhor, guia e príncipe do vosso povo. De fato, sabe-se que o Espírito que habitava nos profetas também os ungia e estabelecia os reis.

[28] Por outro lado, depois da aparição e morte de Jesus, nosso Cristo, na vossa descendência de nenhum lado surgiu nem surge profeta algum. Deixastes até de estar submetidos a um rei próprio e, por fim, vossa terra foi devastada e abandonada como guarita no meio da plantação. E a Escritura diz por meio de Jacó: “Ele será a esperança das nações”, dando a entender simbolicamente as duas vindas de Cristo e que as nações creriam, fato que podeis comprovar com os próprios olhos. Com efeito, nós, que viemos de todas as nações, nos tornamos religiosos e justos pela fé em Jesus Cristo e esperamos novamente a sua vinda.

[29] As palavras: “Amarrará o jumentinho à videira e à parreira o filhote de sua jumenta” antecipavam a manifestação das obras que ele realizaria em sua primeira vinda e também da fé que as nações nele teriam. Estas eram, com efeito, como jumentinhos sem sela e que não gostam de jugo sobre seu pescoço, até que, chegando Cristo e enviando-as aos seus discípulos, ensinou-lhes sua doutrina e, carregando o jugo de sua palavra, submeteram suas costas a suportar tudo pelos bens que esperam e lhes foram por ele prometidos.

[30] E quando nosso Senhor Jesus Cristo estava para entrar em Jerusalém, mandou que seus discípulos lhe levassem uma jumenta que estava realmente amarrada com seu jumentinho à entrada de certa aldeia, chamada Betfagé, e sentado sobre ele entrou em Jerusalém. Visto que estava expressamente profetizado que este fato cumprir-se-ia no Cristo, cumprido e dado a conhecer por meio dele, tornou manifesto que ele era o Cristo. Todavia, apesar de todos esses fatos e de todas as demonstrações das Escrituras, vós permaneceis obstinados em vossa dureza de coração.

[31] O fato foi profetizado por Zacarias, um dos doze. Isso aconteceria assim: “Alegra-te muito, filha de Sião; grita de júbilo e anuncia, filha de Jerusalém. Eis que o teu rei vem a ti, justo e salvador, manso e pobre, montado sobre um animal de carga, sobre um filhote de jumenta”.

[32] E o fato de que o Espírito profético mencione a jumenta, animal de carga, junto com seu jumentinho, e que ambos se sejam posse de Cristo, segundo o patriarca Jacó, e que, por outro lado, como já referi, ele tenha mandado que seus discípulos lhe levassem os dois animais, era uma profecia sobre aqueles que, junto com os que procedem das nações, haveriam de crer também de vossa Sinagoga. Com efeito, assim como o jumentinho sem sela era símbolo dos que vinham da gentilidade, a jumenta com sua sela era símbolo daqueles que vinham de vosso povo, pois vós carregais a lei pregada pelos profetas.

[33] Mas também por meio do profeta Zacarias foi profetizado que Cristo seria ferido e que os seus discípulos seriam dispersos, e isso de fato se cumpriu. Com efeito, depois que ele foi crucificado, os discípulos, que tinham vivido com ele, se dispersaram até que ele ressuscitou dos mortos e os convenceu de que fora profetizado que ele tinha que sofrer. Persuadidos, eles então saíram por todo o orbe da terra e ensinaram essas coisas.

[34] Por isso, também nós nos sentimos firmes na sua fé e doutrina, pois nossa convicção fundamenta-se nos testemunhos dos profetas e no fato de que, por toda a extensão da terra, vemos os que se converteram em homens religiosos no nome daquele crucificado. As palavras da profecia de Zacarias são estas: “Espada, desperta-te contra o meu pastor e contra o homem do meu povo, diz o Senhor dos exércitos. Fere o pastor, e suas ovelhas se dispersarão”.

[35] “Segundo Moisés conta, o patriarca Jacó profetizou: “Lavará no vinho a sua veste e no sangue da uva as suas roupas”. Ele dava a entender que Cristo lavaria em seu sangue aqueles que nele cressem. Com efeito, ele disse que o Espírito Santo é a veste dele para os que, por meio dele, receberam a remissão de seus pecados. Ele estará sempre presente a eles com sua força e lhes estará manifestamente presente na sua segunda vinda.

[36] Quando a Escritura diz “o sangue da uva”, ela quer significar figurativamente que Cristo tem de fato sangue, porém não por sua descendência humana, e sim pela força de Deus. Porque do mesmo modo que o sangue da uva não foi gerado pelo homem, mas por Deus, da mesma forma a Escritura indicou antecipadamente que o sangue de Cristo não viria da descendência humana, mas da força de Deus. Portanto, senhores, essa profecia que vos citei demonstra que Cristo não é homem nascido de homens, segundo a maneira comum dos homens.

[37] A isso Trifão respondeu: — Se conseguires confirmar essa tua tese com outros argumentos, levaremos em conta essa interpretação que aqui nos dás. Por enquanto, retoma o fio do teu discurso e demonstra-nos que o Espírito profético afirma existir outro Deus além do Criador do universo, evitando, porém, falar-nos do sol e da lua, a respeito dos quais está escrito que Deus permitiu que os pagãos adorassem como deuses. Usando exatamente essa passagem, os profetas dizem com frequência: “O teu Deus é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores”, acrescentando muitas vezes: “O grande, forte e temível”.

[38] Com efeito, não se diz isso como se eles realmente fossem deuses. A Escritura quer nos ensinar que somente o Deus verdadeiro, que fez o universo, é o Senhor dos supostos deuses e senhores. De fato, para convencer-nos disso, o Espírito Santo diz por meio do santo Davi: “Os deuses das nações” — considerados como deuses — “são imagens de demônios e não deuses”, e acrescenta uma maldição contra aqueles que os fazem e os adoram.

[39] Eu interrompi: — Trifão, não são essas as provas que eu vos queria apresentar, pois sei que com esses textos condenam-se os que adoram isso e outras coisas semelhantes, mas outras provas que ninguém conseguirá contradizer. Parecerão estranhas a ti, por mais que as leiais todos os dias. Então podereis compreender que, por causa de vossa maldade, Deus vos ocultou a sabedoria contida em suas palavras, com exceção de alguns, aos quais, pela graça de sua grande misericórdia, como disse Isaías, deixou como semente para a salvação, como Sodoma e Gomorra. Prestai, portanto, atenção às citações que farei das santas Escrituras. Elas não necessitarão de interpretação, mas apenas de serem ouvidas.

[40] Moisés, o bem-aventurado e fiel servo de Deus, declara que Deus é aquele que apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, enviado, juntamente com outros dois anjos, para julgar Sodoma, por outro que mora sempre nas regiões supracelestes, que em si mesmo nunca apareceu, nem jamais conversou com ninguém, aquele a quem conhecemos como Criador e Pai do universo.

[41] Com efeito, ele diz assim: “Deus lhe apareceu junto ao carvalho de Mambré, quando ele estava sentado diante da porta de sua tenda, ao meio-dia. Levantou os olhos, olhou, e eis que três homens pararam diante dele. Logo que os viu, correu ao encontro deles, desde a porta de sua tenda, prostrouse no chão e disse”, e o resto até: “Abraão levantou-se de madrugada, foi para o lugar em que havia estado diante do Senhor, olhou para Sodoma e Gomorra e para os arredores, e viu: eis que uma chama subia da terra como a fumaça de um forno”.

[42] Terminando a citação, perguntei-lhes se conheciam essa passagem.

[43] Eles me responderam afirmativamente, mas disseram que as palavras citadas nada tinham a ver com a demonstração de que existe outro Deus ou Senhor, ou que o Espírito Santo fale dele, além do Criador do universo.

[44] Eu repliquei: — Uma vez que conheceis essas Escrituras, tentarei persuadir-vos que, de fato, aqui se chama Deus e Senhor a outro que está submetido ao Criador do universo, e que ele é também chamado anjo ou mensageiro, pelo fato de ser ele quem anuncia aos homens tudo o que o Criador do Universo, acima do qual não existe outro Deus, quer que se lhes anuncie.

[45] Tornei a citar a passagem anterior e depois perguntei a Trifão: — Achas que foi Deus quem apareceu a Abraão sob o carvalho de Mambré, como diz a Escritura?

[46] Ele respondeu: — Exatamente.

[47] Eu continuei: — Era um dos três que o Espírito Santo profético diz que Abraão viu como homens.

[48] Ele respondeu: — Não. Ele viu Deus antes da aparição dos três. Por isso, os três eram anjos, os quais a Escritura chama de homens, dois deles enviados para a destruição de Sodoma e o outro para dar a Sara a boa notícia de que ela teria um filho; este, cumprida a sua missão, retirou-se.

[49] Eu repliquei: — Então, como é que um dos três que esteve na tenda disse: “No tempo certo, voltarei a ti e Sara terá um filho”? Será que de fato voltou, quando Sara teve o filho, e que também nessa passagem a palavra profética indica que ele é Deus? Para que vos fique claro o que digo, escutai as palavras que Moisés diz literalmente.

[50] São as seguintes: “Quando Sara viu o filho de Agar, a escrava egípcia, o qual tinha nascido para Abraão, brincando com Isaac, filho dela, disse a Abraão: ‘Expulsa de casa essa escrava e seu filho, pois o filho dessa escrava não será herdeiro junto com meu filho Isaac’. Essas palavras sobre o seu filho pareceram extremamente duras para Abraão. Deus, porém, disse a Abrão: ‘Não te pareça dura a palavra sobre o teu filho que tiveste com a escrava. Obedece a tudo o que Sara te disser, porque a tua descendência será chamada através de Isaac’ ”.

[51] Compreendeste, portanto, como aquele que, sob o carvalho, disse que voltaria, pois previa que seria preciso aconselhar Abraão sobre o que Sara lhe pedia, de fato voltou, e que é Deus, como o dão a entender as palavras da Escritura: “Deus disse a Abraão: ‘Não te apareça dura a palavra sobre o teu filho e a escrava’ ”.

[52] Trifão replicou: — Exato. Contudo, com isso não demonstraste que existe outro Deus, além daquele que apareceu a Abraão e aos outros patriarcas e profetas, mas somente que nós não compreendemos bem a passagem, pensando que os três que estiveram junto com Abraão na sua tenda eram todos anjos.

[53] Eu continuei: — Ainda que não me fosse possível demonstrar-vos pelas Escrituras que um daqueles três é Deus e é chamado mensageiro — pois, como já disse, ele anuncia o que o Deus criador do universo ordena para alguém — todavia, seria razoável que a este que apareceu a Abraão sobre a terra em forma de homem, como os outros dois anjos que o acompanhavam, dizer que este é Deus antes da criação do mundo, e vós o conheceis da mesma forma que o vosso povo o conhece.

[54] Ele respondeu: — Exatamente. Nós assim o consideramos até hoje.

[55] Eu disse novamente: — Voltando às Escrituras, tentarei convencer-vos de que este Deus, do qual se diz e escreve que apareceu a Abraão, a Jacó e a Moisés, é outro além do Deus criador do universo. Numericamente outro, e não no conhecimento e pensamento. Com efeito, afirmo que nunca fez, nem falou nada senão o que o Deus Criador do mundo, acima do qual não existe outro Deus, quer que ele faça e fale.

[56] Trifão replicou: — Demonstra-nos, então, que esse Deus existe, para que também nisso estejamos de acordo. Com efeito, não supomos que dirás que ele não fez, nem falou nada contra o pensamento do Criador do universo.

[57] Eu respondi: — A Escritura que eu citei esclarecerá a questão. Ela diz assim: “O sol saiu sobre a terra e Ló entrou em Segor. Então o Senhor fez chover sobre Sodoma enxofre e fogo do céu de junto do Senhor, e destruiu essas cidades e todos os seus arredores”.

[58] Então, o quarto dos que tinham ficado com Trifão exclamou: — Portanto, além do próprio Deus que apareceu a Abraão, deve-se dizer que este dos anjos que desceram até Sodoma também é Deus, pois mediante Moisés a Escritura o chama Senhor.

[59] Eu respondi: — Não é somente através dessa passagem que devemos confessar a todo custo o que existe, isto é: fora daquele que entendemos ser o Criador de todas as coisas, existe outro, chamado Senhor pelo Espírito Santo, e não só por meio de Moisés, mas também de Davi. Com efeito, por meio dele também foi dito: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha teus inimigos como escabelo de teus pés”, como foi citado antes. E de novo, em outras passagens: “O teu, trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos. O cetro do teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade. Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria mais do que aos teus companheiros”.

[60] Respondei-me agora se admitis que o Espírito Santo chama Deus e Senhor a outro além do Pai do universo e seu Cristo, e eu prometo demonstrar-vos pelas mesmas Escrituras que não foi a um dos anjos que desceram a Sodoma que a Escritura chama Senhor, mas ao que ia com eles e se chama Deus, que apareceu a Abraão.

[61] Trifão replicou: — Demonstra-o, pois, como vês, o dia está no fim e não estamos preparados para respostas tão perigosas, pois nunca ouvimos ninguém investigar, discutir ou demonstrar essas questões. Além disso, nem a ti suportaríamos, caso não referisses tudo às Escrituras. De fato, tu te esforças para colher delas teus argumentos e afirmas que não há ninguém acima do Deus Criador do universo.

[62] Eu continuei: — Sabeis, portanto, que a Escritura diz: “O Senhor disse a Abraão: Por que razão Sara começou a rir, dizendo: será que, de fato, eu darei à luz? Já estou velha. Haverá coisa impossível para Deus? Por este tempo voltarei a ti na hora certa e Sara terá um filho.” E pouco depois continua: “Levantando-se dali, os homens olharam para Sodoma e Gomorra. Abraão caminhava com eles, acompanhando-os. E o Senhor disse: Não quero esconder do meu servo Abraão o que estou para fazer”.

[63] Pouco depois continua: “Disse o Senhor: ‘O clamor de Sodoma e Gomorra aumenta e seus pecados são muitíssimo grandes. Portanto, descerei para ver se acontece conforme o clamor que chega até mim. Caso contrário, ficarei sabendo’. E partindo dali, os homens chegaram a Sodoma. Abraão, porém, ficou diante do Senhor e, aproximando-se dele, disse: ‘Aniquilarás o justo com o ímpio’ ”, e assim por diante. Como transcrevi antes toda a passagem, creio escrever novamente a mesma coisa, mas somente aquilo que me serviu de argumento com Trifão e seus companheiros.

[64] Então, continuando a citação, cheguei ao lugar onde se diz: “E tendo terminado de falar com Abraão, o Senhor se retirou. E Abraão voltou para o seu lugar. Os dois anjos chegaram a Sodoma à tarde. Ló estava sentado junto à porta de Sodoma”. E o restante até: “E estendendo as mãos, os homens pegaram Ló, puxaram-no até eles, puseram-no em casa, fecharam a porta.” E o que segue até: “E os anjos o tomaram pela mão, pela mão de sua mulher e seus filhos, pois o Senhor o perdoava.

[65] Aconteceu que, quando os fizeram sair, disseram-lhe: ‘Salva, salva a tua vida. Não olhes para trás, nem pares nas redondezas. Salva-te na montanha, para que não pereças junto’. Ló, porém, lhes respondeu: ‘Peço-te, Senhor, pois o teu servo encontrou misericórdia diante de ti e engrandeceste a tua justiça, fazendo que minha alma continue viva. Eu não posso salvar-me na montanha, pois temo que o mal me alcance e eu morra.

[66] Olha essa cidade próxima, onde posso me refugiar, embora ela seja pequena. Por ser pequena, eu aí estarei a salvo e minha alma viverá’. O Senhor lhe disse: ‘Olha que admirei a tua face e esse pedido para não destruir a cidade de que nos falaste. Apressa-te e põete a salvo aí, pois não poderei fazer nada até que entres nela’. Por isso, ele deu à cidade o nome de Segor. O sol saiu sobre a terra e Ló entrou em Segor. Então o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu da parte do Senhor, e destruiu aquelas cidades e toda a sua redondeza.

[67] Depois de uma pausa, acrescentei: — Amigos, não compreendeis agora que um dos três, aquele que é Deus e Senhor e serve àquele que está nos céus é Senhor dos anjos? De fato, depois que estes vão para Sodoma, ele fica para trás e conversa com Abraão, assim como escreveu Moisés; depois da conversa, quando ele próprio se retira, Abraão também volta para o seu lugar.

[68] Quando ele chega, já não são os dois anjos que falam com Ló, mas ele próprio, como a Escritura deixa claro; e ele é o Senhor, e do Senhor que está no céu, isto é, do Criador do universo, ele recebe o que derramará sobre Sodoma e Gomorra, a mesma coisa que a Escritura refere, quando diz: “O Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu da parte do Senhor”.

[69] Quando me calei, Trifão disse: — De fato, a Escritura nos obriga a admitir o que nos dizes. Contudo, também concordarás que apresenta uma verdadeira dificuldade o que se diz sobre o fato de ele comer o que Abraão lhe preparou e apresentou.

[70] Eu lhe respondi: — De fato, está escrito que comeram. E se entendemos que refere isso aos três e não só aos dois, que eram realmente anjos e, como é claro para nós, se alimentam no céu, embora não comam os mesmos alimentos que nós, homens, usamos (com efeito, sobre o maná, com o qual vossos pais se alimentaram no deserto, a Escritura diz que comeram pão dos anjos). Portanto, fala-se dos três, e eu diria que a passagem em que se diz ter comido, deve ser entendida como quando dizemos do fogo que o devorou ou o consumiu inteiramente, mas de modo algum como se estivessem mastigando com a boca e os dentes. De modo que, com um pouco de prática da linguagem figurada, não há necessidade de ver nenhuma dificuldade aqui.

[71] Trifão replicou: — Talvez a solução da dificuldade esteja no modo de comer, segundo o qual, pelo fato de ter sido consumido o que Abrão lhes preparou, está escrito que comeram. Agora comece a nos dar a razão de como esse que apareceu como Deus a Abraão e é ministro do Deus do universo, gerado de uma virgem, nasceu, como disseste antes, na forma de homem, sujeito aos sofrimentos dos outros homens.

[72] Eu respondi: — Trifão, permite que eu antes reúna algumas outras provas sobre este assunto, a fim de que também sejais persuadidos disso, e logo te darei essa prova que me pedes.

[73] Ele disse: — Faze como quiseres. Com efeito, farás para mim coisa muito desejável.

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