[1] Eu lhe disse: — Citar-vos-ei passagens das Escrituras e não pretendo oferecer-vos discursos retoricamente preparados, pois não tenho talento para tal coisa. Deus apenas me deu graça para entender as Escrituras e, sem recompensa ou inveja, convido a que todos participem dessa graça, para que eu não tenha de prestar contas disso no julgamento em que Deus, Criador do universo, nos julgará por meio do meu Senhor Jesus Cristo.
[2] Trifão replicou: — Também quanto a isso tu te comportas conforme a piedade. Todavia, parece que falas com ironia ao dizer que não possuis a arte dos discursos.
[3] Eu lhe respondi novamente: — Se assim te parece, assim seja. Todavia, creio que eu disse a verdade. Seja como for, compreendei as novas provas que vos quero dar.
[4] Trifão respondeu: — Apresenta-as.
[5] Eu continuei: — Irmãos, Moisés também escreve que este que apareceu aos patriarcas e que se chama Deus, também se chama anjo e Senhor, a fim de que por meio desses nomes percebais como ele serve ao Pai do universo, como já concordastes, e, confirmados por novas provas, o sustenteis firmemente.
[6] Portanto, contando a palavra de Deus, por meio de Moisés, a história de Jacó, neto de Abraão, ele assim diz: “Aconteceu que, quando as ovelhas se juntavam e concebiam, eu as vi com os meus olhos em sonhos. Os bodes e os carneiros cobriam as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. E o anjo de Deus disse-me em sonhos: ‘Jacó! Jacó!’”
[7] Eu lhe respondi: ‘Que foi, Senhor?’ Ele me disse: ‘Levanta os teus olhos e olha os bodes e os carneiros que cobrem as ovelhas e as cabras, os esbranquiçados e manchados e os salpicados de cor cinzenta. Porque vi tudo o que Labão faz contigo. Eu sou o Deus que apareceu a ti no lugar de Deus, onde me ungiste uma pedra e me fizeste um voto. Agora, portanto, levanta-te, sai desta terra e vai para a terra onde nasceste, e eu estarei contigo’.”
[8] Novamente, em outra passagem, falando do mesmo Jacó, ele assim diz: “Levantando-se naquela noite, Jacó tomou suas duas mulheres, as duas servas, os seus onze filhos, e atravessou o vau do Jaboc. Tomou-os, atravessou a torrente e fez passar todas as suas coisas. Jacó ficou sozinho, e um anjo lutou com ele até o amanhecer. Vendo que não conseguia vencê-lo, tocou-lhe o músculo da coxa e o músculo da coxa de Jacó ficou entorpecido, enquanto lutava com o anjo. Este lhe disse: ‘Deixa-me, pois a manhã já está chegando’.”
[9] Jacó replicou: ‘Não te soltarei até que me abençoes’. O anjo lhe perguntou: ‘Qual é o teu nome?’ Ele respondeu: ‘Jacó’. O anjo lhe disse: ‘Daqui por diante não te chamarás Jacó, mas o teu nome será Israel. Já que mediste forças com Deus, também serás poderoso com os homens’. Jacó lhe perguntou: ‘Dize-me qual é o teu nome’. Ele respondeu: ‘Para que perguntas o meu nome?’ E o abençoou. E Jacó deu àquele lugar o nome de Face de Deus. Com efeito vi Deus face a face e a minha alma se alegrou.
[10] Novamente, em outra passagem, falando sobre o mesmo Jacó, diz o seguinte: “Jacó chegou a Luza, que está na terra de Canaã — Luza é Betel — , e todo o povo que estava com ele. Edificou aí um altar e deu a esse lugar o nome de Betel, porque aí Deus lhe havia aparecido, quando fugia da presença de seu irmão Esaú. Então morreu Débora, a ama de Rebeca, e foi sepultada na parte inferior de Betel, sob o carvalho. E Jacó lhe deu o nome de Carvalho-do-Pranto. Deus apareceu ainda a Jacó em Luza, quando voltou da Mesopotâmia da Síria, e o abençoou. Deus lhe disse: Teu nome não será mais Jacó, mas teu nome será Israel.”
[11] É chamado Deus; é e será Deus.
[12] Como todos consentissem com acenos de cabeça, eu prossegui: — Porque julgo-as necessárias, citar-vos-ei as palavras que nos narra como, ao fugir de seu irmão Esaú, lhe apareceu esse que é anjo, Deus e Senhor, o mesmo que em forma de varão apareceu a Abraão e em forma de homem lutou com o próprio Jacó.
[13] Ei-las: “Jacó partiu do poço do juramento e foi para Harã e depois a um lugar onde dormiu, pois o sol já se havia posto. Tomou uma pedra daquele lugar, a fez de travesseiro, dormiu naquele lugar e sonhou. Viu uma escada fixada na terra e cujo cimo chegava ao céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. E o Senhor estava em cima dela.
[14] E lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão, teu pai, e de Isaac. Não temas. Darei a ti e à tua descendência a terra sobre a qual dormes. E tua descendência será como o pó da terra e se expandirá até o mar, ao meio-dia, ao norte e a oriente. E em tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Vê: eu estou contigo, guardando-te em todo caminho por onde andares. Farei com que voltes a esta terra e não tenhas medo que eu te abandone até que se cumpra o que te disse’.
[15] Jacó despertou de seu sonho e disse: ‘O Senhor está neste lugar e eu não sabia’. Teve medo e disse: ‘Este lugar é terrível! É a casa de Deus e a porta do céu.’ Jacó então se levantou, tomou a pedra que fizera de travesseiro, a dispôs em coluna e derramou óleo na sua ponta. E Jacó deu àquele lugar o nome de Casa de Deus. Antes a cidade se chamava Ulamarús.
[16] Dito isso, acrescentei: — Permiti que vos demonstre também através do livro do Êxodo como o mesmo que apareceu a Abraão e Jacó como anjo Deus, Senhor, varão e homem, foi visto por Moisés e falou com ele na chama de fogo na sarça.
[17] Eles responderam que me ouviriam com prazer, sem cansar-se e fervorosamente. Por isso, eu continuei: — Eis o que está escrito no livro do Êxodo: “Depois desses muitos dias, morreu o rei do Egito e os filhos de Israel gemeram por causa dos trabalhos”, e o restante até: “Vai e reúne os anciãos de Israel e lhes dirá. ‘O Senhor Deus de vossos pais apareceu a mim, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac, e o Deus de Jacó, dizendo-me: Com visita visito a vós e a tudo o que acontece no Egito’.”
[18] Em seguida, acrescentei: — Senhores, compreendeis que aquele que Moisés disse ter-lhe falado como anjo na chama de fogo, esse mesmo, por ser Deus, manifestou a Moisés que ele é o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó?
[19] Trifão disse: — Não é essa a conclusão que tiramos das palavras citadas, e sim que foi um anjo quem apareceu na chama de fogo e foi Deus quem falou com Moisés. Desse modo, na visão de outrora houve juntamente um anjo e Deus.
[20] Eu respondi novamente: — Amigos, ainda que isso tenha acontecido outrora, isto é, que na visão concedida a Moisés tenha havido um anjo e Deus, como foi demonstrado pelas palavras antes transcritas, não pode ter sido o Criador do universo o Deus que disse a Moisés que era o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, mas aquele que já vos demonstrei que apareceu a Abraão e a Jacó, aquele que serve à vontade do Criador do universo e que, de fato, cumpriu os desígnios dele no julgamento de Sodoma. De modo que ainda que fosse como dizeis, que ali houve dois, um anjo e Deus, certamente ninguém, por pouca inteligência que tenha, se atreveria a dizer que foi o Criador e Pai do universo que, deixando todas as suas moradas supra-celestes, apareceu em uma pequena porção da terra.
[21] Trifão disse: — Como nos demonstraste que aquele que apareceu a Abraão, e se chama Deus e Senhor, infligiu a Sodoma o castigo que o Senhor que está no céu mandou-lhe infligir, agora entendemos, mesmo supondo que tenha havido um anjo com o Deus que apareceu a Moisés, que o Deus que lhe falou da sarça não foi o Deus criador de todas as coisas, mas aquele que se nos demonstrou ter aparecido a Abraão, Isaac e Jacó. Ele se chama mensageiro do Deus criador do universo, e se compreende que o seja, por ser ele que anuncia aos homens as mensagens do Pai criador de todas as coisas.
[22] Eu continuei: — Trifão, agora vou demonstrar-vos que na visão de Moisés, esse mesmo que se chama anjo e é Deus, foi o único que apareceu a Moisés e conversou com ele. Com efeito, a Palavra diz assim: “O Senhor apareceu-lhe em chama de fogo na sarça. Ele via que a sarça ardia, mas não se queimava. Então Moisés disse: ‘Aproximar-me-ei para ver esta grande visão: a sarça não se queima’. Então o Senhor, quando viu que Moisés se aproximava para ver, chamou-o da sarça”.
[23] Pois bem. O modo com que ele apareceu a Jacó em sonhos, a Palavra o chama de anjo. Contudo, esse anjo que lhe aparece em sonhos nos diz a mesma palavra que ele disse: “Eu sou o Deus que te apareceu, quando fugias da presença de Esaú, teu irmão”. A respeito de Abraão, nos narrou que o castigo de Sodoma foi infligido pelo Senhor por parte do Senhor que está nos céus. Assim aqui, ao dizer que o anjo do Senhor apareceu a Moisés e dando-nos imediatamente a entender que esse mesmo é Deus e Senhor, a Palavra nos fala do mesmo Deus sobre o qual nos dá a entender, por tantos testemunhos antes citados, ser ele que serve ao Deus que está acima do mundo e acima do qual não há nenhum outro.
[24] Eu prossegui: — Amigos, apresentar-vos-ei outro testemunho das Escrituras sobre um princípio anterior a todas as criaturas que Deus gerou, certa potência racional de si mesmo, que é chamada pelo Espírito Santo Glória do Senhor, às vezes Filho, outras Sabedoria, ou ainda Anjo ou Deus, Senhor, Palavra. Ela mesma se autodenomina Chefe do exército, ao aparecer em forma de homem a Josué, filho de Nave. Todas essas denominações lhe são atribuídas por estar a serviço da vontade do Pai e por ter sido gerada pela vontade do Pai.
[25] Não percebemos que algo semelhante se dá conosco? De fato, ao emitir uma palavra, geramos a palavra não por corte, diminuindo a razão que existe em nós ao emiti-la. Vemos coisa parecida também no fogo que acende outro, sem que diminua aquele da qual a chama foi tomada, mas permanecendo o mesmo. O fogo aceso também aparece com o seu próprio ser, sem ter diminuído em nada aquele no qual foi aceso.
[26] Entretanto, será a palavra da sabedoria que me dará testemunho, pois ela é esse mesmo Deus gerado pelo Pai do universo e que subsiste como palavra, sabedoria, poder e glória daquele que a gerou. Ela diz o seguinte, pela boca de Salomão: “Depois de anunciar-vos o que acontece cada dia, ater-me-ei a enumerar-vos as coisas que existem desde a eternidade. O Senhor me gerou como princípio de seus caminhos para as suas obras. Alicerçou-me antes do tempo, no princípio, antes de fazer a terra, antes de criar os abismos, antes de fazer brotar as fontes das águas, antes de assentar as montanhas, antes de todas as colinas, ele me gerou. O Senhor fez as regiões, a terra inabitada e os montes que se habitam debaixo do céu. Quando ele preparava o céu, eu lhe fazia companhia; quando colocava seu trono acima dos ventos, quando dava solidez às nuvens do alto, quando solidificava as fontes do abismo, quando firmava os alicerces da terra, junto a ele estava eu, harmonizando. Era comigo que ele se alegrava; em todo o tempo, dia a dia, eu me regozijava em sua presença, porque ele se regozijava terminando a terra e se regozijava nos filhos dos homens.
[27] Agora, filho, escuta-me. Bem-aventurado o varão que me escutar e o homem que guardar meus caminhos, vigiando diariamente as minhas portas e observando os umbrais de minhas entradas. Porque minhas saídas são saídas de vida e a complacência está preparada pelo Senhor. Contudo, os que pecam contra mim são ímpios contra a própria alma; os que me odeiam amam a morte.”
[28] Amigos, foi do mesmo modo que a palavra de Deus se expressou pela boca de Moisés ao indicar-nos que o Deus que se manifestou a nós falou a mesma coisa na criação do homem, dizendo estas palavras: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre as feras, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam sobre a terra. E Deus fez o homem; à imagem de Deus o fez; macho e fêmea os fez. E Deus os abençoou, dizendo: Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e dominai sobre ela.”
[29] Para que não deturpeis as palavras citadas e digais o que dizem os vossos mestres, que Deus se dirigiu a si mesmo ao dizer “façamos”, como nós, ao fazer algo, dizemos “façamos”, ou que falou com os elementos, isto é, com a terra e outras coisas de que sabemos que o homem é composto, e a eles disse “façamos”, citar-vos-ei agora outras palavras do mesmo Moisés. Através delas, sem nenhuma discussão possível, temos de reconhecer que Deus conversou com alguém que era numericamente distinto e igualmente racional.
[30] Ei-las: “Eis que Adão se tornou como um de nós para conhecer o bem e o mal”. Portanto, ao dizer “como um de nós”, indica o número dos que entre si conversam e que, no mínimo, são dois. Não posso aceitar como verdadeiro o que dogmatiza aquela que entre vós se chama heresia, nem os seus mestres são capazes de provar que Deus fala com anjos ou que o corpo humano é obra de anjos.
[31] Mas esse gerado, emitido realmente pelo Pai, estava com ele antes de todas as criaturas e com ele o Pai conversa, como nos manifestou a palavra por meio de Salomão, ao dizer-nos que, antes de todas as criaturas, foi gerado por Deus como princípio e progênie esse mesmo que é chamado sabedoria por Salomão.
[32] A mesma coisa se diz pela revelação feita a Josué, filho de Nave. E para que, por esta passagem, vejais com clareza o que vos digo, escutai o que se narra no livro de Josué.
[33] É o seguinte: “Quando Josué estava em Jericó, aconteceu que, levantando os olhos, ele viu um homem de pé diante de si. Adiantando-se, Josué perguntou: ‘És um dos nossos ou dos inimigos?’ Ele replicou: ‘Eu sou o chefe do exército do Senhor e acabei de chegar’. Então Josué se prostrou com o rosto por terra e lhe disse: ‘Senhor, o que ordenas ao teu servo?’ O chefe do exército do Senhor disse a Josué: ‘Desata as sandálias de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa’. Jericó estava fechada e fortificada e ninguém saía dela. O Senhor disse a Josué: ‘Vê. Entrego-te Jericó submissa, juntamente com o rei que nela reside, por mais poderosos que sejam por sua força’.”
[34] Trifão disse: — Amigo, esse ponto tu demonstraste com firmeza e abundantemente. Agora demonstra o fato de que esse se dignou nascer homem de uma virgem, segundo a vontade de seu Pai, ser crucificado e morrer. Por fim, prova-nos que, depois disso, ele ressuscitou e subiu ao céu.
[35] Eu respondi: — Isso também já foi demonstrado pelas passagens por mim citadas e que, por consideração a vós, citarei e as comentarei novamente para ver se consigo que cheguemos a acordo também sobre isso. Pelo menos a palavra de Isaías disse: “Quem contará a sua geração? Porque sua vida é arrebatada da terra” não te parece ter sido dita no sentido de que aquele que Deus falou ter sido entregue à morte pelas iniqüidades do seu povo não descende de homens? E de seu sangue, como falei antes, disse Moisés, falando misteriosamente, que lavaria sua veste no sangue da uva, dando a entender que o seu sangue não viria de germe humano, mas da vontade de Deus.
[36] E as palavras de Davi: “Nos esplendores dos teus santos, do ventre, antes do astro da manhã, eu te gerei. O Senhor jurou e não se arrependerá: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec” não significam para vós que, desde a antiguidade e num ventre humano, haveria de gerá-lo aquele que é Deus e Pai do universo?
[37] Em outra passagem, também citada antes, ele diz: “Teu trono, ó Deus, é para os séculos dos séculos. O cetro do teu reino é cetro de retidão. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade. Por isso, ó Deus, o teu Deus te ungiu com óleo de alegria mais do que aos teus companheiros. Mirra, aloés e cássia exalam das tuas vestes e das moradas de marfim, pelas quais te festejam. Em teu cortejo há filhas de reis. A rainha se apresentou à tua direita, vestida com roupa recamada de ouro e de várias cores. Escuta, filha, vê e inclina o teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai, e o rei cobiçará a tua beleza. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás.”
[38] Essas palavras dão a entender claramente que se deve adorar a ele, que é Deus e Cristo, testemunhado pelo Criador deste mundo. E, de modo não menos claro, nos anunciam que o Verbo de Deus fala, como se fosse com sua filha, com aqueles que nele crêem, como se fossem uma só alma, uma só congregação, uma só Igreja — a Igreja que nasce de seu nome e dele participa, pois todos nós nos chamamos cristãos —, ao mesmo tempo que nos ensinam a esquecer-nos dos nossos antigos costumes, que vieram de nossos pais, no lugar onde se diz: “Ouve, filha, vê e inclina a teu ouvido. Esquece o teu povo e a casa do teu pai. Porque ele é o teu Senhor, e tu o adorarás.”
[39] Trifão replicou: — Vós, que procedeis das nações, podeis reconhecê-lo como Senhor, como Cristo e como Deus, conforme o indicam as Escrituras. Vós que, a partir do seu nome, viestes a ser chamados de cristãos. Nós, porém, que servimos ao próprio Deus que fez este mundo, não temos nenhuma necessidade de confessá-lo ou de adorá-lo.
[40] A isso eu respondi: — Trifão, se eu fosse como vós, homem amigo de disputas e vazio, não continuaria a discutir convosco, pois não estais dispostos a entender o que se diz. Pensais apenas em aguçar a mente para responder. Todavia, como temo o julgamento de Deus, não me apresso a afirmar, a respeito de ninguém de vossa raça, que não pertença ao número dos que, pela graça do Deus dos exércitos, podem salvar-se. Por isso, por mais malícia que demonstreis, continuarei respondendo a tudo o que objetardes e contradizerdes. É o que faço absolutamente com todos, de qualquer nação que sejam e que queiram discutir comigo ou informar-se sobre essas questões.
[41] Agora, porém, que os que se salvam de vossa raça, se salvam por Cristo e estão ao seu lado, é algo que já deveríeis ter compreendido se tivésseis prestado atenção às passagens da Escritura anteriormente citadas por mim e, é claro, não me teríeis perguntado sobre isso. Vou, então, novamente citar as palavras de Davi, e peço-vos que vos esforceis por entendê-las e não só para mostrar vossa maldade e contradizê-las.
[42] As palavras que Davi disse são as seguintes: “O Senhor reina; que os povos se irritem. Ele se assenta sobre os querubins; que a terra estremeça. O Senhor é grande em Sião e excelso sobre todos os povos. Que eles confessem o teu grande nome, porque é terrível e santo, e a majestade do rei ama o julgamento. Tu preparaste retidões, realizaste em Jacó julgamento e justiça. Exaltai o Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos diante do escabelo de seus pés, porque ele é santo. Moisés e Aarão entre os seus sacerdotes; Samuel entre os que invocam o seu nome. Invocavam o Senhor, e ele os escutava. Falava-lhes da coluna de nuvem, porque guardavam os seus testemunhos e as ordens que ele lhes dera.”
[43] Há também outras palavras de Davi, também já citadas antes, que vós insensatamente aplicais a Salomão, por levarem o título “A Salomão”. Todavia, já demonstrei que não se referem a Salomão. Por meio delas, prova-se que este Jesus existia antes do sol e que todos os do vosso povo que se salvarem, se salvarão por meio dele.
[44] São estas: “Ó Deus, concede o teu julgamento ao rei e a tua justiça ao filho do rei. Ele julgará o teu povo com justiça e os teus necessitados com eqüidade. Que os montes façam brotar paz para o povo e as colinas, a justiça. Ele julgará os necessitados do povo e salvará os filhos dos pobres, e abaterá o caluniador. Ele permanecerá tanto como o sol e antes que a lua, por geração de gerações”, até a seguinte passagem: “O seu nome permanece antes que o sol e nele todas as nações serão abençoadas. Todas as nações o proclamarão feliz. Bendito seja o Senhor Deus de Israel, o único que realiza maravilhas, e bendito o seu nome glorioso pelos séculos dos séculos. Toda a terra ficará repleta de sua glória. Assim seja. Assim seja.”
[45] Por outras palavras, que vos citei anteriormente como ditas também por Davi, deveis recordar que Jesus tinha de sair das alturas dos céus e voltar novamente para os mesmos lugares, a fim de que o reconheçais como Deus que vem de cima e como homem nascido entre homens, e que novamente deviam vir aqueles ao qual deviam ver e, por causa dele, bater no peito os mesmos que o transpassaram.
[46] São estas: “Os céus contam a glória de Deus e o firmamento anuncia a criação de suas mãos. O dia anuncia a palavra ao dia e a noite anuncia o conhecimento à noite. Não há falas nem discursos, onde não se ouçam as vozes deles. Para toda a terra saiu o seu som e até os confins do orbe da terra chegaram as suas palavras. No sol ele colocou a sua tenda e ele, como esposo que sai de seu quarto nupcial, se alegrará forte como gigante, para percorrer o seu caminho: de uma extremidade do céu é a sua saída, e até a outra extremidade do céu vai o seu percurso e não há quem se esconda do seu calor.”
[47] Eu recomecei meu raciocínio onde havia interrompido minha demonstração de que Cristo nascera de uma virgem e que isso havia sido profetizado por Isaías. Repeti a profecia.
[48] É esta: “O Senhor continuou falando com Acaz e lhe disse: ‘Pede para ti um sinal do Senhor teu Deus, seja nas profundezas, seja nas alturas’. Acaz respondeu: ‘Não pedirei e não tentarei ao Senhor’. Isaías então disse: ‘Escuta, casa de Davi! Por acaso vos parece pouco enfrentar aos homens, de tal maneira que enfrentais também ao Senhor? Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe darão o nome de Emanuel. Comerá manteiga e mel.’”
[49] Antes que conheça e escolha o mal, escolherá o bem. Por isso, antes que o menino conheça o bem e o mal, rechaçará o mal para escolher o bem. Por isso, antes que o menino saiba dizer pai e mãe, receberá o poder de Damasco e os despojos de Samaria, diante do rei dos assírios. E a terra, que suportas duramente, será tomada por causa dos dois reis. Contudo, Deus trará sobre ti, sobre teu povo e sobre a casa do teu pai dias tais como não existiram desde o dia em que Efraim separou de Judá o rei dos assírios.
[50] Pois bem. É evidente para todos que, além do nosso Cristo, ninguém jamais nasceu de uma virgem na descendência carnal de Abraão, nem se disse tal coisa de alguém.
[51] Trifão contestou: — A Escritura não diz: “Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho”, mas: “Eis que uma jovem conceberá e dará à luz um filho”. O resto segue como disseste. Toda a profecia está relacionada com Ezequias, no qual consta ter-se cumprido tudo, conforme a profecia.
[52] Por outro lado, nos mitos dos chamados gregos conta-se que Perseu nasceu de Dânae, sendo esta virgem, pois fluiu até ela, em forma de chuva de ouro, aquele que entre eles é chamado Zeus. É vergonhoso para vós dizerdes coisas semelhantes a eles. Seria melhor dizer que esse Jesus nasceu homem dos homens e que se demonstra pela Escrituras que ele é o Cristo. Deveríeis crer que ele mereceu ser escolhido para Cristo por ter vivido de maneira perfeita conforme a lei. Contudo, não venhais com monstruosidades, a não ser que queirais provar ser tão estúpidos como os gregos.
[53] Então eu respondi: — Trifão, quero que tu te convenças, e todos os homens em geral, de uma coisa: mesmo quando me dirigirdes as maiores chacotas e sarcasmos, não conseguireis afastar-me do meu propósito.
[54] Ao contrário: das mesmas razões e fatos que me propondes para refutar-me, continuarei tirando, juntamente com o testemunho das Escrituras, as provas do que digo.
[55] Certamente não ages corretamente, nem amas a verdade, ao pretender voltar atrás naquilo que já tínhamos chegado a um acordo, isto é, que alguns dos mandamentos dados por Moisés se devem à dureza de coração do vosso povo. De fato, dizes que Jesus foi escolhido e feito Cristo por causa de sua conduta conforme a lei e que isso é prova de que ele é o Cristo.
[56] Trifão disse: — Tu mesmo nos confessaste que ele foi até circuncidado e que guardou todas as observâncias legais instituídas por Moisés.
[57] Eu respondi: — Confessei e confesso. Não confessei, porém, que ele se submeteu a isso para que, por sua observância, devesse ser justificado, e sim para cumprir a economia que desejava o Pai seu e de todas as coisas, Senhor e Deus. Confesso também que ele se dignou morrer crucificado, fazer-se homem e sofrer tudo o que os de vossa descendência quiseram fazer com ele.
[58] Contudo, Trifão, já que negas de novo admitir o que antes havias admitido, responde-me: os justos e patriarcas que viveram antes de Moisés sem ter guardado nada do que consta pela palavra que teve em Moisés seu princípio de ordenação, salvar-se-ão na herança dos bem-aventurados, ou não?
[59] Trifão replicou: — As Escrituras obrigam-me a concordar contigo.
[60] Da mesma forma, eu te pergunto novamente: quanto a vossas ofertas e sacrifícios, Deus ordenou a vossos pais que os realizassem por ter ele necessidade delas, ou por causa da dureza do coração deles e inclinação para a idolatria?
[61] Trifão respondeu: — As Escrituras nos obrigam a confessar também isso.
[62] Eu continuei: — As Escrituras também não anunciaram de antemão que Deus promete estabelecer uma aliança nova, distinta da aliança do monte Horeb?
[63] Trifão disse: — Anunciaram também isso.
[64] Eu retomei: — A antiga aliança não foi ordenada a vossos pais por temor e tremor, até o ponto de vossos pais não poderem ouvir a Deus?
[65] Também com isso ele concordou.
[66] Eu disse: — O que se conclui então daí? Que Deus prometeu que haverá outra aliança não estabelecida como foi estabelecida a primeira, sem temor, nem tremor, nem raios. Ele disse que ela seria estabelecida e que Deus mostraria qual mandamento e obra entende como eternos e apropriados a todo o gênero humano e que é o que ele ordenou, como os profetas proclamam, atendendo à dureza de coração do vosso povo.
[67] Trifão disse: — Quem ama a verdade e não a disputa, forçosamente deverá admitir também isso.
[68] Eu continuei: — Não sei como podes acusar alguém de ser amigo de disputas, quando tu mesmo te mostrastes muitas vezes assim, contradizendo frequentemente as mesmas coisas que antes havias admitido.
[69] Trifão replicou: — Estás tentando demonstrar algo incrível e pouco menos que impossível, isto é, que Deus poderia suportar nascer e tornar-se homem.
[70] Eu respondi: — Se eu tivesse me proposto demonstrar-vos isso, apoiando-me em ensinamentos ou argumentos humanos, é certo que não me aguentaríeis. O caso, porém, é que enquanto eu vos peço que reconheçais as Escrituras que falam abundantemente a esse respeito, citando-as na maioria das vezes literalmente, vós vos tornais duros de coração para compreender o pensamento e a vontade de Deus. Se estais decididos a permanecer sempre assim, de modo nenhum vou me prejudicar com isso. Todavia, tendo da mesma forma de tratar convosco como antes, eu me separarei de vós.
[71] Trifão disse: — Amigo, considera que chegaste a possuir o que tens com muito trabalho e esforço. Nós também, somente depois de examinar cuidadosamente as questões que ocorrem, devemos admitir aquilo a que as Escrituras nos obrigam.
[72] Eu respondi: — Não estou pedindo que não luteis de todas as formas no exame do que discutimos. Peço que, não tendo nada a objetar, não contradigais o que antes dissestes admitir.
[73] Trifão me respondeu: — Vamos tentar fazer assim.
[74] Eu continuei: — Ao que já vos perguntei, quero acrescentar outras perguntas, pois com estas tentarei terminar rapidamente o meu raciocínio.
[75] Trifão disse: — Pode perguntar.
[76] Eu prossegui: — Por acaso vos parece que existe outro a quem se deva adorar e a quem nas Escrituras se chama Senhor e Deus, além do Criador do universo, deste universo inteiro e além do seu Cristo, que, graças a tantos testemunhos das Escrituras, vos foi demonstrado que se fez homem?
[77] Trifão respondeu: — Como podemos confessar que exista, quando fizemos tão grande discussão sobre se absolutamente existe outro, além do único Pai?
[78] Eu repliquei: — Preciso fazer-vos esta pergunta para ver se agora não pensais de maneira diferente daquilo que antes aceitastes.
[79] Trifão disse: — Não, homem.
[80] Eu continuei: — Se, de fato, o admitis realmente, como diz a palavra: “Quem contará a sua geração?” Não devereis já compreender que Cristo não é de descendência humana?
[81] Trifão replicou: — Então, como diz a palavra a Davi que Deus tomará de seu flanco um filho para si e que ele erguerá o reino e se sentará no trono da sua glória?
[82] Eu respondi: — Trifão, se a profecia dita por Isaías não se dirigisse à casa de Davi: “Eis que uma virgem conceberá”, mas à outra casa das doze tribos, talvez a questão apresentasse alguma dificuldade. Contudo, como esta profecia se refere à casa de Davi, Isaías explicou como aconteceria o que misteriosamente foi dito por Deus a Davi.
[83] Eu continuei: — Amigos, a não ser que ignoreis que muitas palavras ditas de modo obscuro, em parábolas, em mistérios ou em símbolos de ações foram explicadas pelos profetas que sucederam aos que as disseram ou realizaram.
[84] Trifão confirmou: — Certamente.
[85] Eu prossegui: — Portanto, se vos demonstro que esta profecia se refere a nosso Cristo e não, como vós dizeis, a Ezequias, não será bom que eu também vos exorte a não crer em vossos mestres, que se atrevem a afirmar que, em alguns pontos, não é exata a tradução feita pelos vossos setenta anciãos que se hospedaram junto a Ptolomeu, rei do Egito?
[86] Desse modo, quando uma passagem da Escritura os argúi fortemente de opinião insensata e pessoal, eles se atrevem a dizer que no texto original não está assim. E os que pensam poder forçar e aplicar às ações humanas que imaginam convenientes, dizem que isso não foi por causa de nosso Jesus Cristo, mas por quem eles pretendem interpretá-lo.
[87] Por outro lado, se lhes citamos Escrituras que demonstram expressamente que o Cristo há de ser ao mesmo tempo passível e adorável e Deus — são essas que citei a vós —, concordam forçosamente que se referem a Cristo, mas têm a ousadia de dizer que Jesus não é o Cristo, apesar de confessar que há de vir um Deus para sofrer, reinar e ser adorado. Eu me encarreguei de demonstrar que tal modo de pensar é, ao mesmo tempo, ridículo e insensato. Contudo, como tenho pressa de responder ao que me objetaste de modo ridículo, responderei a isso primeiro e, mais adiante, apresentarei as provas sobre o restante.

