[1] Todo amigo diz: “Eu também sou teu amigo”, mas há amigo que o é só de nome.
[2] Não é, porventura, uma tristeza mortal um companheiro ou amigo que se torna inimigo?
[3] Ó perversa inclinação, por que foste criada, para cobrir a terra de malícia?
[4] O companheiro se alegra com o amigo na prosperidade, no momento de aflição se volta contra ele.
[5] O companheiro sofre com o amigo por interesse e no momento da luta ele toma o escudo.
[6] Não te esqueças do amigo em teu coração, não percas a sua lembrança em meio às riquezas.
[7] Todo conselheiro dá conselho, mas há os que aconselham em benefício próprio.
[8] Guarda-te daquele que dá conselhos: primeiro toma conhecimento do que ele tem necessidade — porque ele dá seus conselhos em seu próprio interesse — caso contrário, lança contra ti a sua sorte.
[9] Que ele não te diga: “Estás num bom caminho”, e fique à distância para ver o que te acontecerá.
[10] Não te aconselhes com quem te olha com desconfiança, esconde teus desígnios daqueles que te invejam.
[11] Nem te aconselhes com uma mulher a respeito de sua rival, nem com um medroso sobre a guerra, nem com um negociante sobre comércio, nem com um comprador sobre venda, nem com um invejoso sobre a gratidão, nem com um egoísta sobre a bondade, nem com um preguiçoso sobre qualquer trabalho, nem com um empreiteiro sobre o acabamento de uma tarefa, nem com um servo indolente sobre um grande trabalho. Não te apoies sobre essa gente para nenhum conselho.
[12] Mas dirige-te sempre a um homem piedoso, que tu conheces por observar os mandamentos, que tem a alma conforme à tua e que, se tropeçares, sofrerá contigo.
[13] Atende, ainda, ao conselho de teu coração, porque nada te pode ser mais fiel do que ele.
[14] Pois a alma do homem o informa muitas vezes melhor do que sete sentinelas colocadas num lugar alto.
[15] E além de tudo isso, pede ao Altíssimo para dirigir os teus passos na verdade.
[16] O princípio de toda obra é a razão, antes de qualquer empresa é preciso reflexão.
[17] A raiz do pensamento é o coração, dele nascem quatro ramos:
[18] o bem e o mal, a vida e a morte, e o que os domina sempre é a língua.
[19] Um homem é sagaz e mestre de muitos, mas para si próprio é inútil.
[20] Um homem falador é detestado, acabará morrendo de fome,
[21] porque o Senhor não lhe concede o seu favor, pois ele é desprovido de toda sabedoria.
[22] Há o sábio que o é só para si e os frutos de sua inteligência, a acreditar no que diz, são garantidos.
[23] O verdadeiro sábio ensina o seu próprio povo e os frutos de sua inteligência são garantidos.
[24] O homem sábio será repleto de bênçãos, todos os que o vêem proclamam-no feliz.
[25] A vida humana tem os dias contados, mas os dias de Israel são incontáveis.
[26] No meio de seu povo, o sábio herdará confiança: seu nome viverá para sempre.
[27] Filho, durante tua vida prova o teu temperamento, vê o que te é nocivo e não to concedas.
[28] Porque nem tudo convém a todos e nem todos se comprazem com tudo.
[29] Não sejas ávido de toda delícia, nem te precipites sobre iguarias,
[30] porque na alimentação demasiada está a doença e a intemperança provoca cólicas.
[31] Muitos morreram por intemperança, mas aquele que se cuida prolonga a vida.

