[1] Ele me disse: “Sê paciente e prudente, e dominarás todas as ações más e realizarás toda a justiça.
[2] Se fores paciente, o Espírito Santo, que habita em ti, será límpido e não ficará na sombra de outro espírito mau. Encontrando grande espaço livre, ele ficará contente e se alegrará como o vaso em que ele habita e servirá a Deus com alegria, pois terá felicidade em si mesmo.
[3] Se sobrevier acesso de cólera, imediatamente o Espírito Santo, que é delicado, se angustiará por não ter lugar puro, e procurará afastar-se do lugar. Ele se sente sufocado pelo espírito mau e não tem mais lugar para servir a Deus como quer, porque está contaminado pela cólera. Com efeito, o Senhor habita na paciência e o diabo, na cólera.
[4] Que esses dois espíritos habitem juntos é, portanto, coisa inconveniente e má para o homem em que habitam.
[5] Se tomas uma pequenina gota de absinto e a derramas num vaso de mel, não se estraga todo o mel? O mel fica estragado pelo pouquíssimo absinto, que destrói a doçura do mel, e já não agrada ao dono, porque se tornou amargo e sem utilidade.
[6] Todavia, se não se derrama absinto no mel, o mel permanece doce e agrada muito ao seu dono.
[7] Vê: a paciência supera o mel em doçura, é útil ao Senhor, que habita nela. Ao contrário, a cólera é amarga e inútil. Portanto, se se mistura a cólera com a paciência, a paciência se mancha, e sua oração não é útil para Deus.”
[8] Eu disse: “Senhor, eu desejaria conhecer a força da cólera, para me preservar dela.”
[9] Ele respondeu: “Se não te guardares com tua família, destruirás toda a esperança. Mas preserva-te dela, pois eu estou contigo. Todos os que fizerem penitência do fundo do coração se guardarão dela, porque eu estarei com eles e os protegerei. Com efeito, todos foram justificados pelo anjo santíssimo.”
[10] Ele me disse: “Escuta agora qual é a força da cólera, como ela é má, como perverte os servos de Deus com sua força, e como os desvia da justiça. Ela não desvia os plenos de fé, nem pode fazer nada contra eles, pois meu poder está com eles. Ela desvia somente os vazios e vacilantes.
[11] Quando a cólera vê essas pessoas tranquilas, insinua-se no coração delas e, por um nada, o homem ou a mulher se deixam tomar pela amargura, com os negócios da vida cotidiana, alimentação, ou qualquer futilidade, um amigo, um presente dado ou recebido, ou ainda qualquer outra ninharia. Tudo isso são coisas fúteis, vãs, insensatas e prejudiciais para os servos de Deus.
[12] A paciência, ao contrário, é grande e forte, tem força poderosa e sólida, que se expande largamente; a paciência é alegre, contente e sem preocupações, e glorifica o Senhor em todo momento. Nada nela é amargo; ela permanece sempre doce e calma. Essa paciência habita com os que têm fé íntegra.
[13] A cólera, ao contrário, é, em primeiro lugar, estulta, leviana e estúpida; da estupidez nasce a amargura; da amargura a irritação; da irritação, o furor, e do furor o ressentimento.
[14] Tal ressentimento, nascido de tantos males, é pecado grave e incurável.
[15] Quando todos esses espíritos vêm habitar o mesmo vaso, onde já habita o Espírito Santo, o vaso não pode mais conter tudo e transborda.
[16] Então o espírito delicado, que não tem o costume de habitar com o espírito mau, nem com a aspereza, afasta-se de tal homem e procura habitar com a doçura e a mansidão.
[17] Mas, quando se afasta do homem em que habitava, esse homem se esvazia do espírito justo e, daí para a frente, cheio de espíritos maus, agita-se em todas as suas ações, arrastado de cá para lá pelos espíritos maus, completamente cego para todo pensamento bom.
[18] Eis o que acontece com todas as pessoas coléricas.
[19] Afasta-te, portanto, da cólera, esse espírito maligno.
[20] Reveste-te, em troca, de paciência, resiste à cólera e à amargura, e te encontrarás com a santidade, amada pelo Senhor.
[21] Estejas atento para não te descuidares desse mandamento.
[22] Se o dominares, poderás observar também os outros mandamentos que te ordenarei.
[23] Sê forte e inabalável neles, e fortaleçam-se igualmente todos os que quiserem caminhar neles.

