Aviso ao leitor
Este livro - Juízes - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica. Por retratar um período de instabilidade social e religiosa em Israel — com narrativas fortes, ciclos de queda e restauração e episódios moralmente complexos — é comum que existam notas de contexto histórico, leitura literária e discussão ética sobre o mundo antigo.
[1] Por esse tempo, quando se estava colhendo o trigo, veio Sansão rever a sua mulher, trazendo-lhe um cabrito, e disse: “Quero entrar no quarto onde está minha mulher.” Mas o sogro não lho consentiu.[2] “Eu entendi que tu a aborrecias, e então a dei ao teu companheiro. Entretanto, a sua irmã mais nova não é porventura melhor do que ela? Fica com ela em lugar da outra!”[3] Sansão, porém, lhes replicou: “Desta vez, ficarei quite com os filisteus fazendo-lhes mal.”[4] Sansão se foi, capturou trezentas raposas, preparou tochas e, amarrando cauda com cauda de cada duas raposas, prendeu nelas as tochas.[5] Então acendeu as tochas e soltou as raposas nas searas dos filisteus, e assim pôs fogo não só nos feixes de trigo como no que estava ainda plantado, e até nas vinhas e oliveiras.[6] Os filisteus indagaram: “Quem fez isso?” E lhes disseram: “Sansão o fez, o genro do tamnita, porque este lhe tirou a mulher e a deu ao seu companheiro.” Então os filisteus subiram e fizeram perecer nas chamas aquela mulher e a casa de seu pai.[7] “Pois se é assim que procedeis”, disse-lhes Sansão, “muito bem! eu também não pararei enquanto não me tiver vingado de vós.”[8] E caiu sobre eles, e os arrasou, e foi um massacre terrível. Depois ele desceu à gruta do rochedo de Etam e ali se recolheu.[9] Os filisteus subiram e foram acampar em Judá, e fizeram uma incursão em Lequi.[10] “Por que subistes contra nós?”, indagaram os habitantes de Judá. “É para prender Sansão que subimos”, responderam, “para fazer com ele o que ele fez conosco.”[11] Três mil homens de Judá desceram à gruta do rochedo de Etam e disseram a Sansão: “Não sabes que os filisteus dominam sobre nós? Que nos fizeste?” Ele lhes respondeu: “Assim como me fizeram, eu lhes fiz também.”[12] Então eles lhe disseram: “Descemos para te prender e te entregar nas mãos dos filisteus.” — “Jurai-me”, disse-lhes, “que vós mesmos não me matareis.”[13] Eles responderam: “Não! Queremos apenas te agarrar e te entregar a eles, mas de maneira nenhuma te mataremos.” Então o amarraram com duas cordas novas e o levaram para fora do rochedo.[14] Quando chegava a Lequi e os filisteus corriam em sua direção gritando de júbilo, o espírito de Iahweh veio sobre Sansão: as cordas que amarravam seus braços se tornaram como fios de linho queimados ao fogo, e os laços que o prendiam se soltaram das suas mãos.[15] Ao ver uma queixada de jumento ainda fresca, apanhou-a e com ela matou mil homens.[16] Sansão disse: “Com uma queixada de jumento eu os amontoei. Com uma queixada de jumento abati mil homens.”[17] Quando acabou de falar, atirou para longe a queixada. Por isso é que se deu a esse lugar o nome de Ramat-Lequi.[18] Sentindo uma grande sede, clamou a Iahweh dizendo: “Foste tu que alcançaste esta grande vitória pela mão do teu servo, e agora terei de morrer de sede e cair nas mãos dos incircuncisos?”[19] Então Deus fendeu a cova que estava em Lequi e correu dela água. Sansão bebeu, seus sentidos retornaram e ele se reanimou. Foi por isso que se deu o nome de En-Coré àquela fonte, que ainda existe em Lequi.[20] Sansão foi juiz em Israel na época dos filisteus, durante vinte anos.

