Aviso ao leitor
Este livro - Juízes - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica. Por retratar um período de instabilidade social e religiosa em Israel — com narrativas fortes, ciclos de queda e restauração e episódios moralmente complexos — é comum que existam notas de contexto histórico, leitura literária e discussão ética sobre o mundo antigo.
[1] Naquele tempo — não havia ainda rei em Israel — havia um homem, levita, que residia no fundo da montanha de Efraim. Tomou ele por concubina uma mulher de Belém de Judá.[2] Num momento de cólera, a concubina o deixou para voltar à casa de seu pai em Belém de Judá, e ali permaneceu certo tempo: quatro meses.[3] O seu marido foi procurá-la para falar-lhe ao coração e trazê-la para casa; levava consigo o seu servo e dois jumentos. Ao chegar à casa do pai da moça, este, vendo-o, veio alegremente ao seu encontro.[4] O seu sogro, o pai da moça, o deteve, e ele ficou ali três dias; comeram e beberam e ali passaram a noite.[5] No quarto dia, levantaram-se bem cedo, e o levita se preparava para partir, quando o pai da moça disse ao seu genro: “Restaura as tuas forças comendo um pedaço de pão, e em seguida partireis.”[6] Estando assentados à mesa, eles comeram e beberam juntos, e então o pai da moça disse ao homem: “Consente, rogo-te, em ficar mais esta noite, e que se alegre o teu coração.”[7] Como o homem se levantasse para partir, o sogro insistiu novamente, e ele passou ainda aquela noite ali.[8] No quinto dia, o levita se levantou de madrugada para partir, mas o pai da moça novamente lhe disse: “Restaura primeiro as tuas forças, peço-te!” Permaneceram assim até quase ao fim do dia, e comeram juntos.[9] O marido levantou-se para partir com a sua concubina e o seu servo, quando o sogro, o pai da moça, lhe disse: “Eis que o dia termina e a tarde vem chegando, portanto passa conosco a noite. O dia declina, passai a noite aqui e que o teu coração se regozije. Amanhã bem cedo partireis, e tu irás para a tua tenda.”[10] Mas o homem, recusando passar outra noite, levantou-se, partiu e chegou até à vista de Jebus, isto é, Jerusalém. Levava consigo dois jumentos carregados e também a sua concubina e o seu servo.[11] Ao chegarem perto de Jebus, o dia tinha caído muito. O servo disse ao seu senhor: “Vem, rogo-te, façamos um desvio e vamos passar a noite nesta cidade dos jebuseus.”[12] Seu senhor lhe replicou: “Não nos desviaremos do nosso caminho para ir a uma cidade de estrangeiros, esses que não são israelitas, mas prosseguiremos até Gabaá.”[13] E acrescentou, falando ao seu servo: “Vamos, tratemos de alcançar um desses lugares, Gabaá ou Ramá, para ali passarmos a noite.”[14] Foram então mais longe e continuaram a sua caminhada. Ao chegarem defronte de Gabaá de Benjamim, o sol se escondia.[15] Então eles se encaminharam para Gabaá, a fim de passarem a noite ali. O levita entrou e se assentou na praça da cidade, mas ninguém lhe ofereceu hospitalidade em sua casa para passar a noite.[16] Veio um velho que, ao cair da tarde, retornava do trabalho no campo. Era um homem da montanha de Efraim, que residia em Gabaá, enquanto os do lugar eram benjaminitas.[17] Levantando os olhos, viu o viajante na praça da cidade: “Para onde vais”, perguntou-lhe o velho, “e de onde vens?”[18] O outro lhe respondeu: “Fazemos o caminho de Belém de Judá para o vale da montanha de Efraim. É de lá que eu sou. Fui a Belém de Judá e volto para casa, mas ninguém me ofereceu hospitalidade em sua casa.[19] Entretanto, temos palha e forragem para os nossos animais, e eu tenho também pão e vinho para mim, para a tua serva e para o jovem que acompanha o teu servo. Não precisamos de nada.”[20] “Sê bem-vindo”, disse-lhe o velho, “deixa-me ajudar-te no que necessitares, mas não passes a noite na praça.”[21] Então ele o fez entrar na sua casa e deu forragem aos jumentos. Os viajantes lavaram os pés e depois comeram e beberam.[22] Enquanto assim se reanimavam, eis que surgem alguns vagabundos da cidade, fazendo tumulto ao redor da casa e, batendo na porta com golpes seguidos, diziam ao velho, dono da casa: “Faze sair o homem que está contigo, para que o conheçamos.”[23] Então o dono da casa saiu e lhes disse: “Não, irmãos meus, rogo-vos, não pratiqueis um crime. Uma vez que este homem entrou em minha casa, não pratiqueis tal infâmia.[24] Aqui está minha filha, que é virgem. Eu a entrego a vós. Abusai dela e fazei o que vos aprouver, mas não pratiqueis para com este homem uma tal infâmia.”[25] Não quiseram ouvi-lo. Então o homem tomou a sua concubina e a levou para fora. Eles a conheceram e abusaram dela toda a noite até de manhã, e, ao raiar a aurora, deixaram-na.[26] Pela manhã, a mulher veio cair à porta da casa do homem com quem estava o seu marido, e ali ficou até vir o dia.[27] De manhã, seu marido se levantou e, abrindo a porta da casa, saiu para continuar o seu caminho, quando viu que a mulher, sua concubina, jazia à entrada da casa, com as mãos na soleira da porta.[28] “Levanta-te”, disse-lhe, “e partamos!” Não houve resposta. Então ele a colocou sobre o seu jumento e se pôs a caminho de casa.[29] Ao chegar, apanhou um cutelo e, pegando a concubina, a retalhou, membro por membro, em doze pedaços, e os remeteu a todo o território de Israel.[30] Deu ordem aos emissários: “Direis a todos os filhos de Israel: Desde o dia em que os filhos de Israel subiram do Egito vistes algo semelhante? Refleti sobre isso, consultai entre vós e pronunciai a sentença.” E todos os que viam aquilo diziam: “Jamais coisa semelhante aconteceu ou foi vista desde que os filhos de Israel subiram do Egito até hoje.”

