Aviso ao leitor
Este livro - Juízes - é apresentado aqui como parte das escrituras canônicas do Antigo Testamento, reconhecido no cânon protestante, católico romano e ortodoxo, além de integrar a tradição bíblica judaica. Por retratar um período de instabilidade social e religiosa em Israel — com narrativas fortes, ciclos de queda e restauração e episódios moralmente complexos — é comum que existam notas de contexto histórico, leitura literária e discussão ética sobre o mundo antigo.
[1] Abimelec, filho de Jerobaal, veio a Siquém, para junto dos irmãos de sua mãe, e lhes dirigiu estas palavras, como também a todo o clã da casa paterna de sua mãe.[2] “Dizei, peço-vos, aos homens notáveis de Siquém: Que será melhor para vós: que setenta homens, todos os filhos de Jerobaal, dominem sobre vós, ou que um só homem domine? E lembrai-vos de que eu sou osso vosso e carne vossa.”[3] Então os irmãos de sua mãe falaram a todos os homens notáveis de Siquém nos mesmos termos, e o coração deles se inclinou para Abimelec, porque diziam: “É nosso irmão!”[4] E lhe deram setenta siclos de prata do templo de Baal-Berit, e Abimelec se serviu desse dinheiro para contratar uns vadios, aventureiros, que o seguiram.[5] Veio à casa de seu pai, em Efra, e matou os seus irmãos, filhos de Jerobaal, setenta homens, sobre uma mesma pedra. Entretanto Joatão, o filho mais novo de Jerobaal, escapou porque tinha-se escondido.[6] Depois, todos os homens notáveis de Siquém e toda Bet-Melo se reuniram e proclamaram rei a Abimelec perto do carvalho da estela que está em Siquém.[7] Levaram a notícia a Joatão, e ele subiu ao cume do monte Garizim e lhes disse em alta voz: “Homens notáveis de Siquém, ouvi-me, para que Deus vos ouça![8] Um dia as árvores se puseram a caminho para ungir um rei que reinasse sobre elas. Disseram à oliveira: ‘Reina sobre nós!’[9] A oliveira lhes respondeu: ‘Renunciaria eu ao meu azeite, que tanto honra aos deuses como aos homens, a fim de balançar-me por sobre as árvores?’[10] Então as árvores disseram à figueira: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’[11] A figueira lhes respondeu: ‘Iria eu abandonar minha doçura e o meu saboroso fruto, a fim de balançar-me por sobre as árvores?’[12] As árvores disseram então à videira: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’[13] A videira lhes respondeu: ‘Iria eu abandonar meu vinho novo, que alegra os deuses e os homens, a fim de balançar-me por sobre as árvores?’[14] Então todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Vem tu, e reina sobre nós!’[15] E o espinheiro respondeu às árvores: ‘Se é de boa fé que me ungis para reinar sobre vós, vinde e abrigai-vos à minha sombra. Se não, sairá fogo dos espinheiros e devorará os cedros do Líbano!’[16] Assim, pois, se foi de boa fé e com lealdade que agistes quando fizestes rei a Abimelec, se procedestes bem com Jerobaal e sua casa, se o tratastes segundo mereciam os seus atos,[17] visto que meu pai lutou por vós e por vós arriscou a vida, e vos livrou das mãos de Madiã,[18] no entanto, hoje vos levantastes contra a casa de meu pai, assassinastes os seus filhos, setenta homens, sobre uma mesma pedra, e fizestes rei sobre os homens notáveis de Siquém a Abimelec, o filho de sua serva, porque é vosso irmão![19] Se, pois, foi de boa fé e com lealdade que agistes hoje para com Jerobaal e a sua casa, então que Abimelec faça a vossa alegria e vós a sua![20] Se não, que saia fogo de Abimelec e devore os homens notáveis de Siquém e de Bet-Melo, e que saia fogo dos homens notáveis de Siquém e de Bet-Melo para devorar Abimelec!”[21] Depois, Joatão tornou a fugir e foi para Bera, onde se estabeleceu para escapar de seu irmão Abimelec.[22] Abimelec exerceu o poder sobre Israel durante três anos.[23] Depois, Deus enviou um espírito de discórdia entre Abimelec e os homens notáveis de Siquém, e os notáveis de Siquém traíram Abimelec.[24] Foi assim para que o crime cometido contra os setenta filhos de Jerobaal fosse vingado e o seu sangue caísse sobre Abimelec, seu irmão que os assassinara, bem como sobre os homens notáveis de Siquém que o tinham ajudado a massacrar os seus irmãos.[25] Os homens notáveis de Siquém armaram, pois, emboscadas contra eles nos altos dos montes, e assaltavam a todos os que passavam por eles no caminho, e fizeram Abimelec saber disso.[26] Gaal, filho de Obed, acompanhado de seus irmãos, passou por Siquém e ganhou a confiança dos notáveis da cidade.[27] Estes saíram ao campo para vindimar as suas vinhas, pisaram as suas uvas, promoveram festas e entraram no templo do seu deus. Aí comeram e beberam e amaldiçoaram Abimelec.[28] Então Gaal, filho de Obed disse: “Quem é Abimelec e que é Siquém, para que fiquemos ao seu serviço? Não será ao filho de Jerobaal e a Zebul, seu oficial, que cabe servir ao povo de Hemor, pai de Siquém? Porque haveríamos de ser nós a servi-lo?[29] Encarregue-me alguém de chefiar a este povo para perseguir a Abimelec, e lhe direi: Reforça o teu exército, e ataca!”[30] Então Zebul, governador da cidade, ouvindo as palavras de Gaal, filho de Obed, se encheu de ira.[31] Mandou secretamente mensageiros a Abimelec para dizer: “Eis que Gaal, filho de Obed, veio com seus irmãos a Siquém e sublevam a cidade contra ti.[32] Levanta-te, pois, de noite, tu e as pessoas que estão contigo, e arma emboscada no campo;[33] de manhã, ao sair do sol, aparece e investe contra a cidade. Quando Gaal e os que estão com ele saírem ao teu encontro, tratá-los-ás como puderes.”[34] Abimelec pôs-se, então, a caminho de noite, com todas as pessoas que estavam com ele, e se emboscaram em quatro grupos perto de Siquém.[35] Gaal, filho de Obed, saiu e parou à entrada da porta da cidade, e Abimelec e os que com ele estavam surgiram da sua emboscada.[36] Vendo aquela gente, Gaal disse a Zebul: “Eis que desce gente do cume dos montes.” — “O que vês é a sombra dos montes”, respondeu-lhe Zebul, “e a tomas por homens.”[37] Gaal falou outra vez, e disse: “Eis que descem homens do lado do Umbigo da Terra, e outro grupo se aproxima vindo pelo caminho do Carvalho dos Adivinhos.”[38] Disse-lhe então Zebul: “Que fizeste da tua língua, com a qual dizias: ‘Quem é Abimelec para que fiquemos ao seu serviço?’ Não é essa a gente que desprezaste! Sai, pois, agora e peleja contra ela.”[39] Então Gaal saiu à frente dos homens notáveis de Siquém e deu combate a Abimelec.[40] Mas Abimelec o perseguiu, pois fugira, e muitos tombaram mortos antes que alcançassem a porta.[41] Abimelec ficou em Aruma, e Zebul, perseguindo a Gaal e seus irmãos, impediu-lhes que habitassem em Siquém.[42] No dia seguinte, o povo saiu para fora das muralhas, e Abimelec foi informado disso.[43] Tomou a sua gente, dividiu-a em três grupos e se pôs em emboscada pelos campos. Assim que viu o povo saindo da cidade, levantou-se contra eles e os destruiu.[44] Enquanto Abimelec e o grupo que estava com ele se atiraram e tomaram posição à entrada da porta da cidade, os outros dois grupos fizeram o mesmo contra os que estavam no campo, e os massacraram.[45] Abimelec atacou a cidade o dia inteiro. Depois de tomá-la, massacrou seus habitantes, destruiu a cidade e espalhou sal sobre ela.[46] Ouvindo isso, todos os homens notáveis de Magdol-Siquém entraram na cripta do templo de El-Berit.[47] Logo que Abimelec teve conhecimento de que todos os homens notáveis de Magdol-Siquém se haviam congregado,[48] subiu ao monte Selmon, ele e todo o seu bando. Tomou nas mãos um machado, cortou um galho de árvore que ele levantou e colocou sobre o ombro, dizendo aos que o acompanhavam: “Como me vistes fazer, fazei-o depressa vós também.”[49] Todos os seus homens cortaram cada qual o seu galho, e seguiram a Abimelec. Amontoaram os galhos sobre a cripta e os queimaram sobre os que ali se haviam escondido. Todos os habitantes de Magdol-Siquém pereceram, cerca de mil, entre homens e mulheres.[50] Depois Abimelec avançou sobre Tebes, cercou-a e tomou-a.[51] Havia no centro da cidade uma torre fortificada, onde se refugiaram todos os homens e mulheres e todos os notáveis da cidade. Tendo fechado a porta atrás de si, subiram ao terraço da torre.[52] Abimelec aproximou-se da torre e a atacou. Ao chegar perto da porta da torre para lhe atear fogo,[53] uma mulher atirou-lhe uma mó de moinho sobre a cabeça e lhe quebrou o crânio.[54] Então ele chamou logo o moço que lhe carregava as armas e lhe disse: “Toma a tua espada e mata-me, para que não se diga de mim: Foi uma mulher que o matou.” O seu escudeiro traspassou-o, e ele morreu.[55] Quando os homens de Israel viram que Abimelec estava morto, foram-se cada um para sua casa.[56] Assim Deus fez recair sobre Abimelec o mal que ele tinha feito a seu pai, degolando os seus setenta irmãos.[57] E assim Deus fez também recair sobre a cabeça dos habitantes de Siquém toda a maldade deles. Desse modo, cumpriu-se sobre eles a maldição de Joatão, filho de Jerobaal.

