[1] Nessa questão, somos considerados culpados não apenas de abandonar a religião da comunidade, mas também de introduzir uma superstição monstruosa; pois alguns dentre vós imaginaram que o nosso deus é uma cabeça de jumento — absurdo que Cornélio Tácito foi o primeiro a sugerir.
[2] No quarto livro de suas Histórias, ao tratar da guerra judaica, ele começa sua descrição pela origem daquela nação e expõe sua própria opinião tanto sobre a origem quanto sobre o nome de sua religião.
[3] Ele relata que os judeus, em sua peregrinação pelo deserto, quando padeciam por falta de água, escaparam seguindo como guias alguns jumentos selvagens, os quais supunham estar buscando água depois de terem pastado; e que, por isso, a imagem de um desses animais passou a ser adorada pelos judeus.
[4] Daí, suponho, presumiu-se que nós também, por nossa estreita ligação com a religião judaica, tivéssemos o nosso deus consagrado sob o mesmo emblema.
[5] Contudo, o mesmo Cornélio Tácito — que, para dizer a verdade, é extremamente prolixo na falsidade — esquecendo-se do que afirmara depois, relata que Pompeu, o Grande, após vencer os judeus e tomar Jerusalém, entrou no templo, mas nada encontrou em forma de imagem, embora houvesse examinado o lugar cuidadosamente.
[6] Onde, então, deveria ter sido encontrado o Deus deles?
[7] Em nenhum outro lugar, certamente, senão naquele templo tão memorável, cuidadosamente fechado a todos, exceto aos sacerdotes, e no qual não havia motivo para temer a entrada de um estranho.
[8] Mas que defesa devo aqui apresentar para o que vou dizer, se neste momento não tenho outro propósito senão fazer uma ou duas observações passageiras, de modo geral, que se apliquem igualmente a vós mesmos?
[9] Suponhamos, então, que o nosso Deus seja um ser asinino; acaso negareis, ao menos, que possuís as mesmas características que nós nesse assunto?
[10] Não apenas cabeças de jumentos, mas jumentos inteiros são, sem dúvida, objetos de adoração entre vós, juntamente com a vossa protetora Epona; e consagrais rebanhos, gado e animais, e até mesmo os seus estábulos!
[11] Talvez seja essa a vossa queixa contra nós: que, estando rodeados de adoradores de gado de toda espécie, nós sejamos simplesmente devotados a jumentos!
[12] Quanto àquele que afirma que somos o sacerdócio de uma cruz, nós o reivindicaremos como correligionário.
[13] A cruz, em sua matéria, é um sinal de madeira; entre vós também o objeto de adoração é uma figura de madeira.
[14] Apenas, enquanto entre vós a figura é humana, entre nós a madeira é sua própria figura.
[15] Por ora, pouco importa qual seja a forma, contanto que a matéria seja a mesma; também a forma nada importa, desde que se trate do verdadeiro corpo de um deus.
[16] Se, porém, surgir a questão da diferença nesse ponto, qual, pergunto, é a diferença entre a Palas ateniense ou a Ceres de Faros e a madeira moldada em cruz, quando cada uma é representada por um tronco tosco, sem forma, e pelo mais rudimentar esboço de uma estátua de madeira ainda informe?
[17] Todo pedaço de madeira fincado no chão em posição ereta é parte de uma cruz, e, na verdade, a maior parte de sua massa.
[18] Mas a nós se atribui uma cruz inteira, com sua trave transversal, evidentemente, e seu suporte saliente.
[19] Vós tendes ainda menos desculpa, porque dedicais à religião apenas um pedaço de madeira mutilado e imperfeito, enquanto outros consagram ao uso sagrado uma estrutura completa.
[20] A verdade, porém, afinal, é que toda a vossa religião é cruz, como mostrarei.
[21] Com efeito, não percebeis que vossos deuses, em sua origem, procedem dessa cruz que tanto odiais.
[22] Pois toda imagem, seja esculpida em madeira ou pedra, fundida em metal ou produzida de qualquer outro material mais precioso, necessariamente precisou de mãos moldadoras em sua fabricação.
[23] Ora, esse artífice, antes de fazer qualquer outra coisa, concebeu a forma de uma cruz de madeira, porque até mesmo o nosso corpo assume, por sua posição natural, o contorno oculto e latente de uma cruz.
[24] Visto que a cabeça se eleva para cima, as costas seguem em linha reta e os ombros se projetam lateralmente, se simplesmente colocardes um homem com os braços e as mãos estendidos, fareis o contorno geral de uma cruz.
[25] Partindo, então, dessa forma rudimentar e desse suporte, por assim dizer, ele aplica uma cobertura de barro e, gradualmente, completa os membros, forma o corpo e reveste por dentro a cruz com a forma que pretende imprimir ao barro.
[26] Depois, a partir desse modelo, com a ajuda de compassos e moldes de chumbo, ele prepara tudo para a imagem que será executada em mármore, barro ou qualquer outro material de que tenha decidido fazer o seu deus.
[27] Este, pois, é o processo: depois da armação em forma de cruz, vem o barro; depois do barro, o deus.
[28] Num procedimento bem compreendido, a cruz passa a ser um deus por meio do elemento de barro.
[29] É a cruz, portanto, que consagrais, e dela a divindade consagrada começa a derivar sua origem.
[30] Como exemplo, tomemos o caso de uma árvore que cresce em sistema de ramos e folhagens e reproduz sua própria espécie, quer brote do caroço de uma oliveira, quer do caroço de um pêssego, quer de um grão de pimenta devidamente amadurecido sob a terra.
[31] Ora, se a transplantais, ou se tirais um ramo para formar outra planta, a que atribuís o que é produzido por essa propagação?
[32] Não será ao grão, ao caroço ou ao núcleo?
[33] Porque, assim como o terceiro estágio se atribui ao segundo, e o segundo da mesma maneira ao primeiro, também o terceiro deverá ser referido ao primeiro, por meio do segundo como intermediário.
[34] Não precisamos prolongar mais esta discussão, visto que, por uma lei natural, todo tipo de fruto na criação remete o seu crescimento à sua fonte original; e, assim como o produto está contido em sua causa primeira, também essa causa convém em natureza com a coisa produzida.
[35] Portanto, já que, na produção de vossos deuses, adorais a cruz que lhes dá origem, aqui estará o núcleo original e o grão do qual se propagam os materiais de madeira de vossas imagens idólatras.
[36] Exemplos não faltam.
[37] Celebrastes vossas vitórias com cerimônias religiosas como se fossem divindades; e elas são tanto mais augustas quanto maior a alegria que vos trazem.
[38] As armações nas quais pendurais vossos troféus devem ser cruzes: estas são, por assim dizer, o verdadeiro cerne de vossos cortejos.
[39] Assim, em vossas vitórias, a religião do vosso acampamento faz até mesmo das cruzes objetos de culto; venera os vossos estandartes, os vossos estandartes são a garantia de vossos juramentos; e prefere os vossos estandartes ao próprio Júpiter.
[40] Mas toda essa pompa de imagens e esse desfile de ouro puro são como colares pendurados nas cruzes.
[41] De igual modo, também nos pendões e insígnias que vossos soldados guardam com zelo não menos sagrado, tendes os flâmulas e vestes de vossas cruzes.
[42] Suponho que vos envergonhais de adorar cruzes nuas, simples e sem ornamento.
[43] Outros, com maior preocupação com a decência, é preciso confessar, supõem que o sol seja o deus dos cristãos, porque é fato bem conhecido que oramos voltados para o oriente, ou porque fazemos do domingo um dia de alegria.
[44] E então?
[45] Fazeis vós menos do que isso?
[46] Não há muitos dentre vós que, afetando às vezes também adorar os corpos celestes, movem os lábios na direção do nascer do sol?
[47] Sois vós, afinal, que até admitistes o sol no calendário da semana; e escolhestes o seu dia, em preferência ao dia anterior, como o mais apropriado da semana para uma abstinência total do banho, ou para adiá-lo até a tarde, ou ainda para descanso e banquete.
[48] Ao recorrer a tais costumes, desviai-vos deliberadamente de vossos próprios ritos religiosos para os de estrangeiros.
[49] Pois as festas judaicas do sábado e da purificação, e também judaicas são as cerimônias das lâmpadas, os jejuns dos pães sem fermento e as orações à beira-mar, todas essas instituições e práticas sendo, evidentemente, estranhas aos vossos deuses.
[50] Portanto, para voltar dessa digressão, vós que nos censurais por causa do sol e do domingo deveis considerar quão próximos estais de nós.
[51] Não estamos longe do vosso Saturno e de vossos dias de repouso.
[52] O boato introduziu uma nova calúnia a respeito do nosso Deus.
[53] Não faz muito tempo, na vossa cidade, um homem da pior espécie, que de fato abandonara sua própria religião — um judeu, na verdade, que apenas perdera a pele, esfolado, claro, por feras contra as quais lutava por dinheiro dia após dia, ainda com o corpo são, e assim em condição de perder a pele — andava publicamente levando uma caricatura de nós com este título: Onocoetes.
[54] Essa figura tinha orelhas de jumento, vestia uma toga e trazia um livro, tendo também um casco em um dos pés.
[55] E a multidão acreditou nesse judeu infame.
[56] Pois que outro grupo de homens é a sementeira de toda calúnia contra nós?
[57] Por toda a cidade, portanto, Onocoetes é assunto de conversa.
[58] Contudo, como isso dura menos que o assombro de nove dias, e carece de toda autoridade pelo pouco tempo, sendo ainda bastante fraco pelo caráter de seu autor, contentar-me-ei em usá-lo simplesmente como resposta.
[59] Vejamos, então, se também aqui não sois encontrados em nossa companhia.
[60] Ora, pouco importa qual seja a forma deles, quando a questão são imagens deformes.
[61] Tendes entre vós deuses com cabeça de cão e cabeça de leão, com chifres de vaca, de carneiro e de bode, em forma de bode ou de serpente, e alados nos pés, na cabeça e nas costas.
[62] Por que, então, assinalar de modo tão ostensivo o nosso único Deus?
[63] Muitos Onocoetes se encontram entre vós.
[64] Já que estamos em pé de igualdade no que respeita aos deuses, segue-se que não há diferença entre nós quanto ao sacrifício, nem mesmo quanto ao culto, se me for permitido sustentar a nossa comparação com outro tipo de prova.
[65] Diz-se que iniciamos nosso serviço religioso, ou nossos mistérios, matando uma criança.
[66] Quanto a vós, já que vossas próprias práticas de sangue humano e infanticídio desapareceram de vossa memória, sereis devidamente lembrados delas em lugar apropriado; por agora adiamos a maior parte dos exemplos, para que não pareça que em toda parte estamos tratando sempre dos mesmos assuntos.
[67] Entretanto, como eu disse, a comparação entre nós não falha também sob outro ponto de vista.
[68] Porque, se somos infanticidas em um sentido, também vós dificilmente podereis ser considerados de outro modo; pois, embora sejais proibidos por lei de matar recém-nascidos, acontece que não há leis mais impunemente e mais seguramente burladas, com pleno conhecimento público e com o consentimento desta era inteira.
[69] E, no entanto, não há grande diferença entre nós; apenas vós não matais vossos filhos como rito sagrado, nem como serviço prestado a Deus.
[70] Mas vós os fazeis perecer de maneira ainda mais cruel, porque os expõeis ao frio, à fome e às feras, ou então deles vos livrais por meio da morte mais lenta do afogamento.
[71] Se, contudo, houver alguma dessemelhança entre nós nessa matéria, não deveis ignorar o fato de que são os vossos próprios filhos queridos cuja vida extinguis; e isso suprirá, ou melhor, agravará abundantemente, do vosso lado da questão, qualquer deficiência que pudesse existir em nós por outros motivos.
[72] Pois bem, também se diz que nos alimentamos de nosso sacrifício ímpio!
[73] Embora deixemos para um lugar mais apropriado qualquer semelhança com essa prática que se possa descobrir entre vós, não estamos assim tão distantes de vós em matéria de voracidade.
[74] Se, em um caso, há impudicícia, e no nosso, crueldade, ainda assim permanecemos no mesmo nível — se me for permitido, até esse ponto, admitir nossa culpa — quanto à natureza, onde a crueldade sempre se encontra em acordo com a impudicícia.
[75] Mas, afinal, em que fazeis menos do que nós?
[76] Ou melhor, em que não fazeis mais do que nós, e em excesso?
[77] Pergunto-me se para vós é coisa pequena ansiar por entranhas humanas, já que devorais homens adultos vivos.
[78] Será, porventura, apenas uma ninharia lamber sangue humano, quando extraís o sangue que estava destinado a viver?
[79] É coisa leve, a vosso ver, alimentar-se de uma criança, quando a consumis por inteiro antes mesmo de ela chegar ao nascimento?

