[1] O que devemos pensar do fato de que a maioria das pessoas, de modo tão cego, se lança contra o nome cristão com tamanho ódio, que, mesmo quando dão testemunho favorável a alguém, misturam a isso injúrias contra o nome que ele carrega?
[2] “Gaio Seio é um homem bom”, diz alguém, “só que é cristão.”
[3] Outro diz: “Estou admirado que um homem sábio como Lúcio tenha, de repente, se tornado cristão.”
[4] Ninguém julga necessário considerar se Gaio não é bom justamente por ser cristão, ou se Lúcio não é sábio exatamente pela razão de ser cristão.
[5] Louvam aquilo que conhecem e insultam aquilo que ignoram, misturando seu conhecimento com sua ignorância; quando, por justiça, deveriam antes julgar o que não conhecem a partir do que conhecem, e não o que conhecem a partir do que ignoram.
[6] Outros, no caso de pessoas que, antes de receberem o nome de cristãos, conheciam como dissolutas, vis, e perversas, lançam sobre elas uma marca precisamente a partir daquilo que elogiam.
[7] Na cegueira do seu ódio, investem contra o próprio juízo aprovador.
[8] “Que mulher ela era! Como era devassa! Como era frívola!”
[9] “Que jovem ele era! Como era libertino! Como era entregue à luxúria!”
[10] Tornaram-se cristãos.
[11] Assim, o nome odiado é atribuído a uma reforma de caráter.
[12] Alguns chegam até a trocar seu próprio conforto por esse ódio, contentando-se em sofrer dano, contanto que, em casa, permaneçam livres do objeto de sua amarga inimizade.
[13] A esposa, agora casta, é expulsa de casa pelo marido, agora já não ciumento.
[14] O filho, agora obediente, é deserdado pelo pai, que antes costumava ser tão paciente.
[15] O servo, agora fiel, é afastado da presença pelo senhor, outrora tão brando.
[16] É tido como grave ofensa que alguém seja reformado por esse nome detestado.
[17] A bondade vale menos do que o ódio contra os cristãos.
[18] Pois bem, se há essa aversão ao nome, que culpa podeis atribuir aos nomes?
[19] Que acusação podeis levantar contra meras designações, a não ser que alguma coisa na palavra soe bárbara, funesta, grosseira ou impura?
[20] Mas “cristão”, quanto ao sentido da palavra, deriva de unção.
[21] Sim, e mesmo quando vós a pronunciais incorretamente, dizendo chrestianus (pois nem sequer conheceis com exatidão o nome que odiais), ainda assim ela remete a doçura e benignidade.
[22] Odiáis, portanto, no inocente, até mesmo um nome inocente.
[23] Mas o motivo especial da aversão a essa seita é que ela carrega o nome de seu Fundador.
[24] Há algo de novo em uma seita religiosa receber, para seus seguidores, uma designação tirada do seu mestre?
[25] Acaso os filósofos não são chamados a partir dos fundadores de seus sistemas — platônicos, epicuristas, pitagóricos?
[26] E não são chamados também estóicos e acadêmicos segundo os lugares em que se reuniam e se estabeleciam?
[27] E não recebem os médicos seu nome de Erasístrato, os gramáticos de Aristarco, e até os cozinheiros de Apício?
[28] Contudo, o uso do nome, transmitido do instituidor original juntamente com aquilo que ele instituiu, não ofende ninguém.
[29] Sem dúvida, se ficar provado que a seita é má, e que, por isso, seu fundador também é mau, então ficará provado que o nome é mau e merece nossa aversão, em razão do caráter tanto da seita quanto do seu autor.
[30] Antes, portanto, de tomar o nome como objeto de aversão, convinha-vos examinar a seita em seu autor, ou o autor em sua seita.
[31] Mas agora, sem qualquer exame e sem conhecimento de um ou de outro, o simples nome é feito matéria de acusação.
[32] O simples nome é atacado.
[33] E um mero som basta para condenar tanto a seita quanto seu autor, embora permaneçais ignorantes acerca de ambos, apenas porque possuem tal designação, e não porque tenham sido convencidos de qualquer maldade.

