[1] Augusto, fundador do império, não aceitou nem mesmo o título de Senhor; pois também esse é um nome próprio da divindade.
[2] Da minha parte, estou disposto a atribuir ao imperador essa designação, mas apenas no sentido comum da palavra, e quando não sou constrangido a chamá-lo Senhor como se ocupasse o lugar de Deus.
[3] Minha relação com ele é de liberdade; pois tenho um só e verdadeiro Senhor, Deus onipotente e eterno, que também é Senhor do imperador.
[4] Como poderia aquele que é verdadeiramente pai de sua pátria ser também seu senhor?
[5] O nome ligado à piedade é mais digno e mais agradável do que o nome ligado ao poder; por isso, os chefes de família são chamados pais, e não senhores.
[6] Muito menos, então, deveria o imperador receber o nome de Deus.
[7] Só se pode professar que ele é isso por meio da mais indigna — e até funesta — bajulação; é como se, tendo um imperador, déssemos a outro esse mesmo nome.
[8] Nesse caso, não se estaria causando grande e irreparável ofensa àquele que realmente reina?
[9] E essa é uma ofensa que também deve temer aquele sobre quem se lançou tal título.
[10] Prestai toda reverência a Deus, se quereis que Ele seja favorável ao imperador.
[11] Renunciai a todo culto e a toda crença em qualquer outro ser como se fosse divino.
[12] Deixai também de dar esse nome sagrado àquele que tem necessidade do próprio Deus.
[13] Se tal adulação não se envergonha de sua mentira ao dirigir-se a um homem como se fosse divino, que ao menos tema o mau presságio que ela carrega.
[14] É como invocar uma maldição dar a César o nome de deus antes de sua apoteose.

