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[1] Se, portanto, nos é ordenado amar os nossos inimigos, como observei acima, a quem haveríamos de odiar?

[2] Se, quando somos ofendidos, somos proibidos de revidar, para que não nos tornemos também nós mesmos maus, quem poderia sofrer dano de nossas mãos?

[3] Quanto a isso, recordai vossas próprias experiências.

[4] Quantas vezes infligis crueldades brutais aos cristãos, em parte por inclinação própria, e em parte em obediência às leis!

[5] Quantas vezes também a multidão hostil, sem dar atenção alguma a vós, toma a lei nas próprias mãos e nos ataca com pedras e fogo!

[6] Com verdadeiro furor de bacantes, não poupam nem mesmo os mortos cristãos, mas os arrancam, já tristemente mudados e não mais inteiros, do restante do túmulo — desse asilo da morte, por assim dizer — e os despedaçam, dilacerando-os por completo.

[7] E, no entanto, unidos como estamos, sempre tão prontos a sacrificar a própria vida, que único caso de vingança por ofensa sois capazes de apontar, embora, se entre nós fosse considerado justo pagar o mal com o mal, uma única noite, com uma ou duas tochas, pudesse realizar ampla vingança?

[8] Mas longe esteja a ideia de uma seita divina vingar-se com fogos humanos, ou recuar diante dos sofrimentos pelos quais é provada.

[9] Se, de fato, desejássemos agir como inimigos declarados, e não apenas como vingadores ocultos, faltar-nos-ia acaso força, seja em número, seja em recursos?

[10] Os mouros, os marcomanos, os próprios partos, ou qualquer outro povo, por maior que seja, habitando território definido e confinado dentro de suas próprias fronteiras, porventura supera em número um povo espalhado por todo o mundo?

[11] Somos de ontem, e já ocupamos todos os lugares entre vós — cidades, ilhas, fortalezas, vilas, praças de mercado, o próprio acampamento, tribos, centúrias, o palácio, o senado, o fórum.

[12] Nada vos deixamos, senão os templos dos vossos deuses.

[13] Para que guerras não estaríamos aptos, e até ansiosos, mesmo com forças desiguais, nós que tão de boa vontade nos entregamos à espada, se em nossa religião não fosse considerado melhor ser morto do que matar?

[14] Mesmo sem armas e sem levantar qualquer estandarte de revolta, bastando apenas separar-nos de vós por inimizade, poderíamos sustentar contra vós uma luta por simples ruptura hostil.

[15] Pois, se tão grandes multidões de homens se apartassem de vós e se dirigissem para algum canto remoto do mundo, a própria perda de tantos cidadãos, fossem eles quais fossem, cobriria o império de vergonha; mais ainda, no próprio abandono já se exerceria vingança.

[16] Ficariam tomados de horror diante da solidão em que vos encontraríeis, diante de um silêncio tão absoluto e de uma espécie de torpor semelhante ao de um mundo morto.

[17] Teríeis de procurar súditos para governar.

[18] Restar-vos-iam mais inimigos do que cidadãos.

[19] Pois agora é justamente o imenso número de cristãos que faz com que vossos inimigos sejam tão poucos, já que quase todos os habitantes de vossas diversas cidades são seguidores de Cristo.

[20] E, no entanto, preferis chamar-nos inimigos do gênero humano, em vez de inimigos do erro humano.

[21] Mais ainda: quem vos livraria daqueles inimigos ocultos, sempre ocupados em destruir vossas almas e arruinar vossa saúde?

[22] Refiro-me aos ataques daqueles espíritos malignos que nós expulsamos sem recompensa nem pagamento.

[23] Só isso já bastaria como vingança para nós: que, de agora em diante, fôsseis deixados entregues à posse de espíritos impuros.

[24] Mas, em vez de reconhecerdes o que nos é devido pela importante proteção que vos prestamos, e embora não sejamos para vós motivo de incômodo algum, mas, na verdade, necessários ao vosso bem-estar, preferis considerar-nos inimigos.

[25] E de fato o somos, mas não do homem; antes, de seu erro.

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