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[1] Quando, porém, se estabelece o preceito de que, sem o batismo, a salvação não pode ser alcançada por ninguém (principalmente com base naquela declaração do Senhor, que diz: “Se alguém não nascer da água, não tem vida”), surgem imediatamente, da parte de alguns, dúvidas escrupulosas — ou melhor, audaciosas — sobre como, de acordo com esse preceito, a salvação teria sido alcançada pelos apóstolos, os quais — exceto Paulo — não encontramos batizados no Senhor.

[2] Mais ainda: visto que Paulo é o único dentre eles que recebeu a veste do batismo de Cristo, então ou se conclui antecipadamente a perdição de todos os demais que não tiveram a água de Cristo, para que o preceito seja mantido, ou então o próprio preceito é anulado, se a salvação também foi ordenada para os não batizados.

[3] Já ouvi — o Senhor é minha testemunha — dúvidas desse tipo, para que ninguém imagine que eu seja tão desvairado a ponto de inventar, sem provocação alguma, pela liberdade da minha pena, ideias que pudessem lançar outros em escrúpulo.

[4] E agora, na medida do que me for possível, responderei aos que afirmam que os apóstolos não foram batizados.

[5] Pois, se eles haviam recebido o batismo humano de João e desejavam o do Senhor, então, visto que o próprio Senhor definiu que o batismo é um só — dizendo a Pedro, que desejava ser banhado por completo: “Quem já se banhou não necessita lavar-se segunda vez” (João 13:9-10) — o que, evidentemente, Ele de modo algum teria dito a alguém que não fosse batizado —, temos aqui mesmo uma prova notável contra aqueles que, para destruir o sacramento da água, chegam a privar os apóstolos até mesmo do batismo de João.

[6] Pode parecer crível que o caminho do Senhor, isto é, o batismo de João, ainda não tivesse sido preparado naquelas pessoas que estavam destinadas a abrir o caminho do Senhor por todo o mundo?

[7] O próprio Senhor, embora não tivesse necessidade de arrependimento, foi batizado; e não seria o batismo necessário para os pecadores?

[8] Quanto ao fato de que outros não foram batizados — esses, porém, não eram companheiros de Cristo, mas inimigos da fé, doutores da lei e fariseus.

[9] Disso se recolhe ainda uma consideração adicional: se os opositores do Senhor recusaram ser batizados, então os que seguiam o Senhor foram batizados e não tinham o mesmo pensamento que seus rivais; especialmente porque, se havia alguém a quem eles se apegavam, o Senhor exaltou João acima dele, ao testemunhar, dizendo: “Entre os nascidos de mulher, não há ninguém maior do que João Batista”.

[10] Outros ainda sugerem — de maneira bastante forçada, é claro — que os apóstolos então fizeram as vezes do batismo quando, em seu pequeno barco, foram aspergidos e cobertos pelas ondas; e que o próprio Pedro também foi suficientemente imerso quando andou sobre o mar.

[11] Contudo, a meu ver, uma coisa é ser aspergido ou surpreendido pela violência do mar; outra, bem diferente, é ser batizado em obediência à disciplina da religião.

[12] Mas aquele pequeno barco representava uma figura da Igreja, na medida em que ela é agitada no mar, isto é, no mundo, pelas ondas, isto é, pelas perseguições e tentações.

[13] E o Senhor, como que dormindo por sua paciência, permanece assim até que, despertado na extremidade final deles pelas orações dos santos, repreende o mundo e devolve tranquilidade aos seus.

[14] Agora, quer tenham sido batizados de alguma maneira, quer tenham permanecido sem banho até o fim — de modo que até mesmo aquela palavra do Senhor a respeito do único banho, sob a pessoa de Pedro, diga respeito apenas a nós —, ainda assim é ousadia excessiva determinar algo acerca da salvação dos apóstolos.

[15] Pois a eles, o privilégio mesmo da primeira escolha e, depois, da intimidade indivisa, poderia conferir a graça abreviada do batismo, já que eles, ao que penso, seguiram aquele que costumava prometer salvação a todo o que crê.

[16] “A tua fé te salvou”, dizia Ele.

[17] E ainda: “Os teus pecados te são perdoados”, isto é, por teres crido, ainda que não estejas batizado.

[18] Se isso faltava aos apóstolos, não sei em fé de que coisas consistia então o fato de que, despertado por uma única palavra do Senhor, um deixou para sempre a coletoria de impostos para trás (Mateus 9:9).

[19] Outro abandonou pai, barco e o ofício pelo qual ganhava a vida (Mateus 4:21-22).

[20] Um terceiro, desprezando as exéquias de seu pai, cumpriu, antes mesmo de ouvi-lo, aquele altíssimo preceito do Senhor: “Quem ama pai ou mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10:37).

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