[1] Mas bastará ter assim assinalado, desde o início, aqueles pontos nos quais também se reconhece aquele princípio primordial do batismo — princípio que já então fora prefigurado pela própria disposição assumida como figura do batismo — a saber: que o Espírito de Deus, que pairava sobre as águas desde o princípio, continuaria a repousar sobre as águas dos batizados.
[2] Pois uma coisa santa, naturalmente, pairava sobre algo santo; ou então, aquilo sobre o qual ela pairava tomava emprestada a santidade daquele que pairava sobre ele, visto que é necessário, em todo caso, que uma substância material subjacente receba a qualidade daquilo que está sobre ela, sobretudo quando o corpóreo recebe do espiritual, sendo este, pela sutileza de sua substância, apto tanto para penetrar quanto para insinuar-se.
[3] Assim, a natureza das águas, santificada pelo Santo, concebeu também ela mesma o poder de santificar.
[4] Que ninguém diga: “Então por que, pergunto eu, somos batizados com as próprias águas que existiam naquele princípio primeiro?”
[5] Certamente não com aquelas mesmas águas, exceto no sentido de que o gênero é um só, embora as espécies sejam muitíssimas.
[6] Mas aquilo que é atributo do gênero reaparece igualmente na espécie.
[7] E, portanto, nenhuma diferença faz se um homem é lavado no mar ou numa piscina, num rio ou numa fonte, num lago ou numa bacia; nem há distinção entre aqueles que João batizou no Jordão e aqueles que Pedro batizou no Tibre, a menos que também o eunuco que Filipe batizou no meio de sua jornada, com água encontrada ao acaso, tenha derivado daí mais ou menos salvação do que os outros.
[8] Portanto, todas as águas, em virtude do privilégio original de sua origem primitiva, após a invocação de Deus, alcançam o poder sacramental de santificação; pois o Espírito desce imediatamente dos céus e repousa sobre as águas, santificando-as por Si mesmo; e, sendo assim santificadas, elas ao mesmo tempo absorvem o poder de santificar.
[9] Ainda que se possa admitir que a semelhança convém ao ato simples, isto é: que, uma vez que estamos manchados pelos pecados, como se por sujeira, sejamos lavados dessas manchas nas águas.
[10] Mas, como os pecados não se mostram em nossa carne (uma vez que ninguém traz sobre a pele a marca da idolatria, da fornicação ou da fraude), assim também pessoas desse tipo estão imundas no espírito, que é o autor do pecado.
[11] Pois o espírito é senhor; a carne, serva.
[12] Contudo, ambos compartilham mutuamente a culpa: o espírito, por causa do comando; a carne, por causa da submissão.
[13] Portanto, depois que as águas foram, de certo modo, revestidas de virtude medicinal pela intervenção do anjo, o espírito é corporalmente lavado nas águas, e a carne é, do mesmo modo, espiritualmente purificada.

