[1] E para que se torne evidente para vós, vamos apresentar-vos a prova de que aquilo que dizemos, por tê-lo aprendido de Cristo e dos profetas que o precederam, é a única verdade e a mais antiga do que todos os escritores que existiram. Não pedimos que se aceite a nossa doutrina por coincidir com eles, mas porque dizemos a verdade.
[2] Demonstraremos também que Jesus Cristo é propriamente o único Filho nascido de Deus, como seu Verbo, seu Primogênito e sua Potência. Feito homem pelo seu desígnio, ele nos ensinou essas verdades para a transformação e condução do gênero humano.
[3] Por fim, antes de tornar-se homem entre os homens, houve alguns, digo, os demônios malvados, antes mencionados, que se adiantaram a dizer, por meio dos poetas, terem acontecido os mitos que inventaram. De modo que também foram eles que fizeram as obras vergonhosas e ímpias que disseram contra nós, sem que para isso haja qualquer testemunha ou demonstração.
[4] A primeira prova é que, quando dizemos tais coisas aos gregos, somos os únicos a ser odiados pelo nome de Cristo e nos tiram a vida, sem termos cometido crime algum, como se fôssemos pecadores. E tendes alguns aqui e outros ali que cultuam árvores, rios, ratos, gatos, crocodilos e uma multidão de animais irracionais. O interessante é que nem todos cultuam os mesmos, mas uns são honrados num lugar, outros em outro, de modo que todos são ímpios entre si, por não ter a mesma religião.
[5] Esta é a única coisa que podeis nos recriminar: não veneramos os mesmos deuses que vós e não oferecemos libações e gorduras aos mortos, não colocamos coroas nos sepulcros, nem celebramos sacrifícios sobre eles.
[6] No entanto, sabeis perfeitamente que os mesmos animais, por alguns são considerados deuses, por outros feras e por outros vítimas para sacrifícios.
[7] Em segundo lugar, porque homens de toda raça, que antes cultuávamos a Dioniso, filho de Sêmele, e Apolo, filho de Leto, deuses que por seus amores perversos fizeram coisas que, por decoro, nem se podem nomear; os que dentre nós adoravam a Perséfone e Afrodite, que foram aguilhoados de amor por Adônis e cujos mistérios ainda celebrais, ou Asclépio, ou algum outro dos chamados deuses, agora, apesar de sermos ameaçados com a morte, desprezamos a todos eles por amor a Jesus Cristo.
[8] Consagramo-nos ao Deus ingênito e alheio a toda paixão. O Deus em quem acreditamos não se dirigirá, aguilhoado de amor, a uma Antíope, nem a outros do mesmo estilo, nem a Ganimedes, nem terá que ser desatado, com a ajuda de Tétis, por aquele famoso centímano, nem de se preocupar para apagar esse favor com Aquiles, filho de Tétis, e perder uma multidão de gregos em troca da concubina Briseida.
[9] O que fazemos é nos compadecer daqueles que praticam tais coisas e sabemos bem que os responsáveis por elas são os demônios.
[10] Em terceiro lugar, porque, mesmo depois da ascensão de Cristo ao céu, os demônios levaram certos homens a dizer que eles eram deuses e estes não só não foram perseguidos por vós, mas chegastes até a decretar-lhes honras.
[11] Dessa forma, certo Simão, samaritano originário de uma aldeia chamada Giton, tendo feito, no tempo de Cláudio César, prodígios mágicos, por obra dos demônios que nele agiam em vossa cidade imperial de Roma, foi considerado deus e como deus foi por vós honrado com uma estátua, levantada junto ao rio Tibre, entre as duas pontes, com esta inscrição latina: A SIMÃO, DEUS SANTO.
[12] E quase todos os samaritanos, embora pouco numerosos nas outras nações, o adoram, considerando-o como Deus primordial. Também uma certa Helena, que naquele tempo o acompanhou em suas peregrinações e que antes estivera no prostíbulo, é chamada de primeiro pensamento nascido dele.
[13] Sabemos também que certo Menandro, igualmente samaritano, natural da aldeia de Carapatéia, discípulo de Simão, possuído também pelos demônios, apareceu em Antioquia e enganou muitos com suas artes mágicas, chegando a persuadir seus seguidores de que jamais iriam morrer. E existem ainda alguns de sua escola que continuam crendo nele.
[14] Por fim, um tal Marcião, natural do Ponto, está agora mesmo ensinando seus seguidores a crer num Deus superior ao Criador e, com a ajuda dos demônios, fez com que muitos, pertencentes a todo tipo de homens, proferissem blasfêmias e negassem o Deus Criador do universo, admitindo, em troca, não sabemos que outro Deus, ao qual, supondo maior, se atribuem obras maiores do que àquele.
[15] Todos os que procedem destes, como dissemos, são chamados cristãos, da mesma forma que aqueles que não participam das mesmas doutrinas entre os filósofos recebem da filosofia o nome comum com que são conhecidos.
[16] Ora, se também eles praticam todas essas vergonhosas obras que se propalam contra nós, isto é, jogar por terra o castiçal, unirmo-nos promiscuamente e alimentarmo-nos de carnes humanas, não o sabemos. Todavia, estamos certos de que não são perseguidos, nem condenados por vós, ao menos por causa de suas doutrinas.
[17] Além disso, nós mesmos compusemos uma obra contra todas as heresias que existiram até o presente. Se quiserdes lê-la, nós a colocaremos em vossas mãos.

