[1] Os maus demônios, porém, não se contentaram em inventar, antes da aparição de Cristo, as fábulas dos supostos filhos de Zeus.
[2] Pelo contrário, tendo aparecido e conversado com os homens, ficaram sabendo que fora predito pelos profetas que todos nele creriam e que seria esperado em todas as nações e, por isso, como dissemos, lançaram outros, como Simão e Menandro, ambos de Samaria, os quais, realizando prodígios mágicos, enganaram a muitos e ainda os mantêm enganados.
[3] E, com efeito, como já dissemos, estando Simão em Roma, a vossa cidade imperial, no tempo de Cláudio César, de tal modo ele impressionou o sacro Senado e o povo romano, que foi tido como deus e honrado com uma estátua como a dos outros que vós considerais como deuses.
[4] Por isso nós vos suplicamos que o sacro Senado e o povo romano conheçam este nosso escrito, a fim de que, se houver alguém que ainda esteja enganado pelos ensinamentos dele, conheça a verdade e fuja do erro.
[5] Quanto à estátua, se quiserdes, derrubai-a.
[6] Os demônios não conseguem convencer que não haverá a conflagração para castigar os ímpios, do mesmo modo que não conseguiram esconder a Cristo depois que ele nasceu.
[7] A única coisa que conseguem é fazer que aqueles que vivem irracionalmente e se desenvolvem em meio aos maus costumes, entregues às suas paixões e seguindo a opinião vã, nos tirem a vida e nos odeiem.
[8] Nós, porém, não só não os odiamos, mas, como é evidente, queremos, por pura compaixão que temos por eles, persuadi-los a que se convertam.
[9] Com efeito, não tememos a morte quando reconhecemos que se deve absolutamente morrer e nada de novo acontece nessa ordem de coisas, mas o mesmo de sempre.
[10] Se estas produzem fartura aos que delas usufruem, ainda que só por um ano, que prestem atenção ao nosso ensinamento, para que estejam isentos de dor e de necessidades.
[11] Contudo, se acreditam que não existe nada depois da morte, afirmando que os que morrem terminam em uma absoluta inconsciência, nesse caso fazem-nos um benefício ao livrar-nos dos sofrimentos e necessidades daqui.
[12] Mas eles se mostram maus, inimigos dos homens e seguidores de opinião, pois não nos tiram a vida para nos libertar, mas nos matam para privar-nos da vida e do prazer.
[13] Como dissemos antes, os maus demônios também lançaram à frente Marcião do Ponto, que agora ensina a negar o Deus criador de tudo o que é celeste e terrestre, assim como a Cristo, Filho de Deus, que foi anunciado pelos profetas, e prega não sabemos qual outro deus fora do criador de todas as coisas, assim como outro filho seu.
[14] Muitos lhe deram fé, como se ele fosse o único que conhece a verdade, e zombam de nós, apesar de não terem nenhuma prova do que dizem, mas, sem qualquer razão, são presas de doutrinas ímpias e dos demônios, como cordeiros arrebatados pelo lobo.
[15] De fato, os chamados demônios em nada dispendem tanto empenho como em afastar os homens de Deus Criador e de Cristo, seu primogênito.
[16] Para isso, àqueles que são capazes de levantar da terra, eles os prenderam e continuam prendendo ao terreno e às obras de mãos dos homens.
[17] E aos que se lançam à contemplação do divino, se não possuem uma fala discreta e limpa e uma vida isenta de paixão, preparam-lhes a armadilha para lançá-los à impiedade.

