[1] Do que foi dito até aqui, podeis entender que também foram os demônios que introduziram o uso de instalar a imagem da chamada Coré sobre as fontes das águas, dizendo que ela era filha de Zeus, querendo assim imitar o que disse Moisés.
[2] Este, com efeito, como citamos antes, disse: “No princípio Deus criou o céu e a terra.
[3] A terra era invisível e informe, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas”.
[4] À imitação desse Espírito de Deus que se dizia pairar sobre as águas, disseram eles que Coré era filha de Zeus.
[5] Com igual malícia, disseram também que Atena era filha de Zeus, mas não nascida de união carnal; de fato, ao tomarem conhecimento de que Deus, depois de pensar, criou o mundo por meio de seu Verbo, disseram que Atena era como que o primeiro pensamento; coisa que consideramos absolutamente ridícula, apresentar uma mulher como imagem do pensamento.
[6] De modo semelhante, suas ações arguem os outros chamados filhos de Zeus.
[7] De nossa parte, depois que assim foi lavado aquele que creu e aderiu a nós, nós o levamos aos que se chamam irmãos, no lugar em que estão reunidos, a fim de elevar fervorosamente orações em comum por nós mesmos, por aquele que acaba de ser iluminado e por todos os outros espalhados pelo mundo inteiro, suplicando que nos conceda, já que conhecemos a verdade, ser encontrados por nossas obras como homens de boa conduta e observantes do que nos mandaram, e assim consigamos a salvação eterna.
[8] Terminadas as orações, nos damos mutuamente o ósculo da paz.
[9] Depois àquele que preside aos irmãos é oferecido pão e uma vasilha com água e vinho; pegando-os, ele louva e glorifica ao Pai do universo através do nome de seu Filho e do Espírito Santo, e pronuncia uma longa ação de graças, por ter-nos concedido esses dons que dele provêm.
[10] Quando o presidente termina as orações e a ação de graças, todo o povo presente aclama, dizendo: “Amém”.
[11] Amém, em hebraico, significa “assim seja”.
[12] Depois que o presidente deu ação de graças e todo o povo aclamou, os que entre nós se chamam ministros ou diáconos dão a cada um dos presentes parte do pão, do vinho e da água sobre os quais se pronunciou a ação de graças e os levam aos ausentes.
[13] Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o que Cristo nos ensinou.
[14] De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças — alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne — é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado.
[15] Foi isso que os Apóstolos nas memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: “Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo”.
[16] E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: “Este é o meu sangue”, e só participou isso a eles.
[17] É certo que isso também, por arremedo, foi ensinado pelos demônios perversos para ser feito nos mistérios de Mitraj; com efeito, nos ritos de um novo iniciado, apresenta-se pão e uma vasilha de água com certas orações, como sabeis ou podeis informar-vos.
[18] Depois dessa primeira iniciação, recordamos constantemente entre nós essas coisas e aqueles de nós que possuem alguma coisa socorrem todos os necessitados e sempre nos ajudamos mutuamente.
[19] Por tudo o que comemos, bendizemos sempre ao Criador de todas as coisas, por meio de seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo.
[20] No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, enquanto o tempo o permite, as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas.
[21] Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos.
[22] Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces.
[23] Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: “Amém”.
[24] Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos.
[25] Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente.
[26] Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem, numa palavra, ele se torna o provisor de todos os que se encontram em necessidade.
[27] Celebramos essa reunião geral no dia do sol, porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos.
[28] Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.

