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[1] Nós, por outro lado, a fim de não cometer pecado ou impiedade, professamos a doutrina de que expor os recém-nascidos é obra de perversos. Primeiro, porque vemos que quase todos vão acabar na dissolução, não só as meninas, mas também os meninos. Do mesmo modo como se conta que os antigos mantinham rebanhos de bois, cabras, ovelhas ou cavalos de pasto, assim se reúnem agora rebanhos de crianças com a única finalidade de usar torpemente delas, e toda uma multidão, tanto de mulheres como de andróginos e pervertidos, está preparada em cada província para semelhante abominação.

[2] Para isso recolheis taxas, contribuições e tributos, ao passo que o vosso dever seria o de arrancá-las pela raiz do vosso império.

[3] Quando se abusa de tais seres, além de tratar de uma união própria de pessoas sem Deus, ímpia e torpe, não faltará quem se una, conforme a circunstância, com um filho, um parente ou um irmão.

[4] Há também aqueles que prostituem seus próprios filhos e mulheres; outros mutilam-se publicamente para a torpeza e referem esses mistérios à mãe dos deuses. Finalmente, em todos aqueles que considerais como deuses, a serpente se pinta como símbolo e grande mistério.

[5] E aquilo mesmo que vós praticais e honrais publicamente, vós o atribuís a nós, como se tivéssemos decaído e a luz divina não nos assistisse. Todavia, como estamos livres por não praticar nada disso, vossas calúnias não nos causam nenhum dano; ao contrário, danificam aqueles que cometem essas torpezas e ainda levantam falso testemunho contra nós.

[6] Entre nós, o príncipe dos maus demônios se chama serpente, satanás, diabo ou caluniador, como podeis ver, caso desejardes averiguar isso, através de nossas Escrituras. Ele e todo o seu exército, juntamente com os homens que o seguem, será enviado ao fogo para ser castigado pela eternidade sem fim, coisa que foi de antemão anunciada por Cristo.

[7] Na verdade, a paciência que Deus mostra em não fazê-lo imediatamente tem como causa o seu amor pelo gênero humano, pois ele prevê que alguns se salvarão pela penitência, entre os quais alguns que talvez ainda não tenham nascido.

[8] No princípio, ele criou o gênero humano racional, capaz de escolher a verdade e praticar o bem, de modo que não existe homem que tenha desculpa diante de Deus, pois todos foram criados racionais e capazes de contemplar a verdade.

[9] Se alguém não crê que Deus se preocupe com essas coisas, ou terá que confessar com sofismas que não existe, ou existindo, se compraza com a maldade ou permaneça insensível como uma pedra. Virtude e vício seriam puros nomes e os homens considerariam as coisas como boas ou más unicamente por sua opinião, o que é a maior impiedade e iniquidade.

[10] Também evitamos a exposição das crianças, pois tememos que algumas delas, não sendo recolhidas, venham a morrer e sejamos réus de homicídio. Nós, ou nos casamos desde o princípio para a única finalidade de gerar filhos, ou renunciamos ao matrimônio, permanecendo absolutamente castos.

[11] Para vos mostrar que a união promíscua não é um mistério que celebramos, houve o caso em que um dos nossos apresentou um memorial ao prefeito Félix em Alexandria, pedindo-lhe que autorizasse seu médico para cortar-lhe os testículos, pois os médicos daquele lugar diziam que tal operação não podia ser feita sem permissão do governador.

[12] Félix negou-se absolutamente a assinar o pedido e o jovem permaneceu solteiro, contentando-se com o testemunho de sua consciência e o de seus companheiros na fé.

[13] Cremos que não estaria fora de lugar recordar aqui Antínoo, que viveu nesses tempos, a quem todos, por medo, se prostraram para honrar como deus, apesar de saber muito bem quem ele era e de onde vinha.

[14] Poderiam nos objetar: “Que inconveniente há em que esse que nós chamamos Cristo seja um homem que vem de outros homens e que, por arte mágica, fez os prodígios que dizemos e, por isso, pareceu ser filho de Deus?”

[15] Apresentaremos, pois, a demonstração, não dando fé àqueles que nos contam os fatos, mas crendo por necessidade naqueles que os profetizaram antes de acontecer, da forma que os vemos cumpridos ou que estão se cumprindo diante dos nossos olhos, tal como foram profetizados — demonstração que acreditamos parecerá, a vós mesmos, a mais forte e a mais verdadeira.

[16] Entre os judeus, houve profetas de Deus, através dos quais o Espírito profético anunciou antecipadamente os acontecimentos futuros, e os reis, que segundo os tempos se sucederam entre os judeus, apropriando-se de tais profecias, guardaram-nas cuidadosamente tal como foram ditas e tal como os próprios profetas as consignaram em seus livros, escritos em sua própria língua hebraica.

[17] Quando Ptolomeu, rei do Egito, se preocupou em formar uma biblioteca e nela reunir os escritos de todo o mundo, tendo tido notícia dessas profecias, mandou uma embaixada a Herodes, que então era rei dos judeus, pedindo-lhe que mandasse os livros deles.

[18] O rei Herodes mandou os livros, como dissemos, em sua língua hebraica.

[19] Todavia, como seu conteúdo não podia ser entendido pelos egípcios, Ptolomeu pediu, por meio de uma nova embaixada, que Herodes enviasse homens para os verter para a língua grega.

[20] Depois disso, os livros permaneceram entre os egípcios até o presente e os judeus os usam no mundo inteiro.

[21] Estes, porém, ao lê-los, não entendem o que está escrito, mas considerando-nos inimigos e adversários, matam-nos, como vós o fazeis, e atormentam-nos sempre que podem fazê-lo, como podeis facilmente verificar.

[22] Com efeito, na guerra dos judeus agora terminada, Bar Kókeba, o cabeça da rebelião, mandava submeter a terríveis torturas somente os cristãos, caso estes não negassem e blasfemassem Jesus Cristo.

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