[1] Louvai o Senhor, terra inteira, e anunciai dia a dia a sua salvação, porque o Senhor é grande e digno do maior louvor, temível sobre todos os deuses. Com efeito, todos os deuses das nações são imagens de demônios, mas Deus fez os céus.
[2] Glória e louvor em sua presença, força e orgulho no lugar de sua santificação. Glorificai ao Senhor, aquele que é Pai dos séculos.
[3] Tomai graça e entrai em sua presença, adorando-o em seus santos átrios. Toda a terra trema diante de sua face, endireite seu caminho e não se perturbe.
[4] Que as nações se alegrem: o Senhor reinou pelo madeiro.
[5] Esclarecemos também o caso no qual o Espírito profético fala do futuro como já realizado, como já se pode conjecturar na passagem antes mencionada, a fim de que também nisso os que lêem não tenham desculpa.
[6] O que é absolutamente conhecido como algo que acontecerá, é predito pelo Espírito profético como já acontecido. Que as coisas devam ser assim, ponde toda atenção de vossa mente ao que vamos dizer.
[7] Davi fez a profecia citada, mil e quinhentos anos antes que Cristo feito homem fosse crucificado, e nenhum dos antes nascidos ofereceu, ao ser crucificado, alegria para as nações, e ninguém também depois dele.
[8] Em troca, Cristo, que foi crucificado, morreu e ressuscitou em nosso tempo, não só reinou ao subir ao céu, mas pela sua doutrina, pregada pelos apóstolos em todas as nações, é a alegria de todos os que esperam a imortalidade que ele nos prometeu.
[9] Do que dissemos anteriormente, ninguém deve tirar a conclusão de que afirmamos que tudo o que acontece, acontece por necessidade do destino, pelo fato de que dizemos que os acontecimentos foram conhecidos de antemão. Por isso, resolveremos também essa dificuldade.
[10] Nós aprendemos dos profetas e afirmamos que esta é a verdade: os castigos e tormentos, assim como as boas recompensas, são dadas a cada um conforme as suas obras. Se não fosse assim, mas tudo acontecesse por destino, não haveria absolutamente livre-arbítrio. Com efeito, se já está determinado que um seja bom e outro mau, nem aquele merece elogio, nem este, vitupério.
[11] Se o gênero humano não tem poder de fugir, por livre determinação, do que é vergonhoso e escolher o belo, ele não é irresponsável de nenhuma ação que faça.
[12] Mas que o homem é virtuoso e peca por livre escolha, podemos demonstrar pelo seguinte argumento.
[13] Vemos que o mesmo sujeito passa de um contrário a outro.
[14] Ora, se estivesse determinado ser mau ou bom, não seria capaz de coisas contrárias, nem mudaria com tanta frequência. Na realidade, nem se poderia dizer que uns são bons e outros maus, desde o momento que afirmamos que o destino é a causa de bons e maus, e que realiza coisas contrárias a si mesmo, ou que se deveria tomar como verdade o que já anteriormente insinuamos, isto é, que virtude e maldade são puras palavras, e que só por opinião se tem algo como bom ou mau.
[15] Isso, como demonstra a verdadeira razão, é o cúmulo da impiedade e da iniquidade.
[16] Afirmamos ser destino ineludível que aqueles que escolheram o bem terão digna recompensa e os que escolheram o contrário terão igualmente digno castigo.
[17] Com efeito, Deus não fez o homem como as outras criaturas, por exemplo, árvores ou quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação. Nesse caso, não seria digno de recompensa e elogio, pois não teria escolhido o bem por si mesmo, mas nascido já bom; nem, por ter sido mau, seria castigado justamente, pois não o seria livremente, mas por não ter podido ser algo diferente do que foi.

