[1] Esta doutrina foi ensinada a nós pelo Espírito profético que, por meio de Moisés, nos testemunha que falou ao primeiro homem que havia criado do seguinte modo: “Olha que diante de tua face está o bem e o mal: escolhe o bem”.
[2] E, de novo, através de Isaías, outro profeta, sabemos que, na pessoa de Deus, Pai e soberano do universo, foi dito o seguinte sobre esse mesmo assunto.
[3] “Lavai-vos e purificai-vos, tirai a maldade de vossas almas. Aprendei a fazer o bem, julgai o órfão, fazei justiça à viúva; então, vinde e conversaremos, diz o Senhor. Mesmo que vossos pecados sejam como a púrpura, eu os deixarei brancos como a lã; mesmo que sejam como escarlate, eu os tornarei brancos como a neve.”
[4] “Se quiserdes e me escutardes, comereis os bens da terra; mas se não me escutardes, a espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor.”
[5] A expressão anterior “A espada vos devorará” não quer dizer que os que desobedecerem serão passados a fio de espada, mas por “espada” deve-se entender o fogo, cujas presas são os que escolheram praticar o mal.
[6] Por isso diz: “A espada vos devorará, porque assim falou a boca do Senhor.”
[7] Se tivesse falado da espada que corta e se separa imediatamente, não teria dito “devorará”.
[8] De modo que o próprio Platão, ao dizer: “A culpa é de quem escolhe. Deus não tem culpa”, falou isso por tê-lo tomado do profeta Moisés, pois sabe-se que este é mais antigo do que todos os escritores gregos.
[9] Em geral, tudo o que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da contemplação das coisas celestes, aproveitaram-se dos profetas, não só para poder entender, mas também para expressar isso.
[10] Daí que parece haver em todos algo como germes de verdade. Todavia, demonstra-se que não o entenderam exatamente, pelo fato de que se contradizem uns aos outros.
[11] Concluindo: se dizemos que os acontecimentos futuros foram profetizados, nem por isso afirmamos que aconteçam por necessidade do destino; afirmamos sim que Deus conhece de antemão tudo o que será feito por todos os homens e é decreto seu recompensar cada um segundo o mérito de suas obras e, por isso, justamente prediz, por meio do Espírito profético, o que para cada um virá da parte dele, conforme o que suas obras mereçam. Com isso, ele constantemente conduz o gênero humano à reflexão e à lembrança, demonstrando-lhe que cuida e usa de providência para com os homens.
[12] Todavia, pela ação dos maus demônios, decretou-se pena de morte contra aqueles que lerem os livros de Histaspes, da Sibila e dos profetas, a fim de impedir, por meio do terror, que os homens consigam, lendo-os, o conhecimento do bem, e retê-los como seus escravos; coisa que definitivamente os demônios não puderam conseguir.
[13] Com efeito, não só os lemos intrepidamente, mas também, como vedes, nós vô-los oferecemos, para que os examineis, pois estamos seguros de que agradarão a todos. Mesmo que consigamos persuadir algumas poucas pessoas, nosso ganho será muito grande, pois, como bons agricultores, receberemos do amo a nossa recompensa.
[14] Agora escutai o que disse o profeta Davi sobre o fato de que Deus, Pai do universo, levaria Cristo ao céu, depois de sua ressurreição dos mortos, e retê-lo-ia consigo até ferir os demônios, seus inimigos, e até se completar o número dos que por ele, de antemão conhecidos como bons e virtuosos, em respeito dos quais justamente ainda não foi levada a cabo a conflagração universal.
[15] As palavras do profeta são estas: “Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos como escabelo de teus pés.”
[16] “O Senhor te enviará o cetro de poder de Jerusalém, e tu dominarás em meio aos esplendores de teus inimigos.”
[17] “Contigo o império no dia de tua potência, em meio aos esplendores de teus santos. Do meu seio, antes do astro da manhã, eu te gerei.”
[18] Portanto, o que ele diz, “Enviar-te-á de Jerusalém o cetro de poder”, era anúncio antecipado da palavra poderosa que, saindo de Jerusalém, os apóstolos pregaram por toda parte e que nós, a despeito da morte decretada dos que ensinam ou absolutamente confessam o nome de Cristo, em todo lugar também a abraçamos e ensinamos.
[19] E se também vós ledes como inimigos estas nossas palavras, além de matar-nos, como já dissemos antes, nada podeis fazer.
[20] A nós isso nenhum dano causará; a vós, porém, e a todos os que injustamente nos odeiam e não se convertem, trazer-vos-á castigo de fogo eterno.
[21] Alguns, sem motivo, para rejeitar o nosso ensinamento, poderiam nos objetar que, ao dizermos que Cristo nasceu somente há cento e cinquenta anos sob Quirino e ensinou sua doutrina mais tarde, no tempo de Pôncio Pilatos, os homens que o precederam não têm nenhuma responsabilidade.
[22] Tratemos de resolver essa dificuldade.
[23] Nós recebemos o ensinamento de que Cristo é o primogênito de Deus e indicamos antes que ele é o Verbo, do qual todo o gênero humano participou.
[24] Portanto, aqueles que viveram conforme o Verbo são cristãos, quando foram considerados ateus, como sucedeu entre os gregos com Sócrates, Heráclito e outros semelhantes; e entre os bárbaros com Abraão, Ananias, Azarias e Misael, e muitos outros, cujos fatos e nomes omitimos agora, pois seria longo enumerar.
[25] De modo que também os que antes viveram sem razão se tornaram inúteis e inimigos de Cristo e assassinos daqueles que vivem com razão; mas os que viveram e continuam vivendo de acordo com ela são cristãos e não experimentam medo ou perturbação.
[26] O motivo pelo qual ele nasceu homem de uma virgem, pela virtude do Verbo conforme o desígnio de Deus, Pai e soberano do universo, e foi chamado Jesus e, depois de crucificado e morto, ressuscitou e subiu ao céu, o leitor inteligente poderá perfeitamente compreendê-lo pelas longas explicações que foram dadas até aqui.
[27] De nossa parte, como não é necessário demonstrar esse ponto agora, passaremos às demonstrações mais urgentes.

