[1] Ao imperador Tito Élio Adriano Antonino Pio César Augusto, ao seu filho Veríssimo, filósofo, e a Lúcio, filho natural do César, filósofo e filho adotivo de Pio, amante do saber, ao sacro Senado e a todo o povo romano.
[2] Em prol dos homens de qualquer raça que são injustamente odiados e caluniados, eu, Justino, um deles, filho de Prisco, que o foi de Báquio, natural de Flávia Neápolis na Síria Palestina, compus este discurso e esta súplica.
[3] A razão exige dos que são verdadeiramente piedosos e filósofos que, desprezando as opiniões dos antigos, se estas são más, estimem e amem apenas a verdade.
[4] De fato, o raciocínio sensato não só exige que se abandonem os que realizaram e ensinaram algo injustamente, mas também que o amante da verdade, de todos os modos e acima da própria vida, mesmo que seja ameaçado de morte, deve estar sempre decidido a dizer e praticar a justiça.
[5] Vós ouvis em toda parte que sois chamados piedosos e filósofos, guardiães da justiça e amantes da instrução; mas que o sejais realmente, é coisa que deverá ser demonstrada.
[6] Com o presente escrito, não pretendemos bajular-vos, nem dirigir-vos um discurso como mero agrado, mas pedir-vos que realizeis o julgamento contra os cristãos conforme o exato discernimento da investigação, e não deis a sentença contra vós mesmos, levados pelo preconceito ou pelo desejo de agradar homens supersticiosos, ou movidos por impulso irracional ou por boato crônico.
[7] De fato, vos dizemos: estamos convencidos de que, através de ninguém, pode ser feito algum mal a nós, enquanto não se demonstrar que somos praticantes da maldade ou nos reconheçamos como malvados.
[8] Vós podeis matar-nos, mas não condenar-nos.
[9] Para que não se pense que se trata de alguma fanfarronada nossa e opinião audaciosa, pedimos sejam examinadas as acusações contra os cristãos.
[10] Se for demonstrado que são reais, castiguem-nos como é conveniente que sejam castigados os réus convictos; porém, se não há nenhum crime para interrogá-los, o verdadeiro discurso proíbe que, por um simples boato malévolo, se cometa injustiça contra homens inocentes ou, melhor dizendo, a cometais contra vós mesmos, que acreditais ser justo que os assuntos sejam resolvidos não por julgamento, mas por paixão.
[11] Com efeito, todo homem sensato manifestará que a melhor exigência, ou ainda mais, que a única exigência justa é que os súditos possam apresentar uma vida e um pensar irrepreensíveis e que, por outro lado, igualmente os mandantes dêem sua sentença não levados pela violência e tirania, mas segundo a piedade e a filosofia.
[12] Só assim governantes e governados podem gozar de felicidade.
[13] Foi assim que, em algum lugar, um dos antigos disse: “Se os governantes e os governados não forem filósofos, não é possível os Estados prosperarem”.
[14] Cabe a nós, portanto, expor ao exame de todos a nossa vida e os nossos ensinamentos, para que não nos tornemos responsáveis pelo castigo daqueles que, ignorando a nossa religião, pecam por cegueira contra nós.
[15] Contudo, o vosso dever é também ouvir-nos e mostrar-vos bons juízes.
[16] Com efeito, daqui para frente, informados como estais, caso não ajais com justiça, não tereis nenhuma desculpa diante de Deus.

