[1] Também a Sibilag e Histapes disseram que todo o corruptível deveria ser consumido pelo fogo.
[2] Os filósofos estóicos têm por dogma que o próprio Deus se dissolverá em fogo e afirmam que novamente, por transformação, o mundo renascerá. Nós, porém, consideramos Deus, o criador de todas as coisas, superior a todas as transformações.
[3] Por fim, se há coisas que dizemos de maneira semelhante aos poetas e filósofos que estimais, e outras de modo superior e divinamente, e somos os únicos que apresentamos demonstração, por que se nos odeiam injustamente mais do que a todos os outros?
[4] Assim, quando dizemos que tudo foi ordenado e feito por Deus, parecerá apenas que enunciamos um dogma de Platão; ao falar sobre conflagração, outro dogma dos estóicos; ao dizer que são castigadas as almas dos iníquos que, ainda depois da morte, conservarão a consciência, e que as dos bons, livres de todo castigo, serão felizes, parecerá que falamos como vossos poetas e filósofos.
[5] Que não se deve adorar obras de mãos humanas não é senão repetir o que disseram Menandro, o poeta cômico, e outros com ele, que afirmaram que o artífice é maior do que aquele que o fabrica.
[6] Também quando dizemos que o Verbo, primeiro rebento de Deus, nasceu sem relação carnal, isto é, Jesus Cristo, nosso Mestre, e que ele foi crucificado, morreu e, depois de ressuscitado, subiu ao céu, não apresentamos nada de novo se se levam em conta os que chamais de filhos de Zeus.
[7] De fato, sabeis bem a quantidade de filhos que os vossos estimados escritores atribuem a Zeus: Hermes, o Verbo intérprete e mestre de todos; Asclépio, que foi médico e que, depois de ter sido fulminado, subiu ao céu; Dioniso, depois que foi esquartejado; Héracles, depois de se atirar ao fogo para fugir dos trabalhos; os Dióscoros, filhos de Leda; Perseu de Dânae; e Belerofonte, nascido de homens, sobre o cavalo Pégaso.
[8] Para que ainda falar de Ariadne e dos que, semelhante a ela, se diz que são colocados nas estrelas? Passo por alto também vossos imperadores mortos, aos quais tendes sempre como dignos da imortalidade e nos apresentais algum infeliz que jura ter visto César incinerado subir da pira ao céu.
[9] Também não é necessário repetir aqui as ações que se contam de cada um dos supostos filhos de Zeus, pois vós as conheceis perfeitamente.
[10] É suficiente dizer que isso foi escrito para utilidade e encorajamento dos que se educam, pois todos consideram belo ser imitadores dos deuses.
[11] Todavia, esteja longe de toda alma sensata pensar sobre os deuses da mesma forma sobre que, segundo eles, Zeus é o principal e pai de todos os outros, pensar que ele tenha sido parricida, nascido de parricida e, vencido pelos baixos e vergonhosos prazeres do amor, tenha ido até Ganímedes e numerosas mulheres com as quais se uniu, e aceitar que seus filhos praticassem ações semelhantes.
[12] A verdade é que, como já dissemos, foram os demônios malvados que fizeram tais coisas.
[13] Quanto a alcançar a imortalidade, nos foi ensinado que só a alcançam aqueles que vivem santa e virtuosamente perto de Deus, assim como cremos que serão castigados com fogo eterno aqueles que viveram injustamente e não se converteram.

