[1] Alguns, ao rejeitar a verdade, apresentam discursos mentirosos e genealogias sem fim, as quais favorecem mais as discussões do que a construção do edifício de Deus que se realiza na fé — no dizer do Apóstolo — e, por astuta aparência de verdade, seduzem a mente dos inexpertos e escravizam-nos, falsificando as palavras do Senhor, tornando-se maus intérpretes do que foi corretamente expresso. Sob pretexto de gnose afastam muitos daquele que criou e pôs em ordem este universo, como se pudessem apresentar alguma coisa mais elevada e maior que o Deus que fez o céu e a terra e tudo o que eles encerram. Ardilosamente, pela arte das palavras, induzem os mais simples a pesquisas e, omitindo até as aparências da verdade, levam-nos à ruína, tornando-os ímpios e blasfemos contra o seu Criador, os que são incapazes de discernir o falso do verdadeiro.
[2] O erro, com efeito, não se mostra tal como é para não ficar evidente ao ser descoberto. Adornando-se fraudulentamente de plausibilidade, apresenta-se diante dos mais ignorantes, justamente por esta aparência exterior, — é até ridículo dizê-lo — como mais verdadeiro do que a própria verdade. Como foi dito, acerca disso, por alguém superior a nós: uma pedra preciosa, a esmeralda, que tem grande valor aos olhos de muitos, perde o seu valor diante de artística falsificação de vidro até não se achar alguém conhecedor que a examine e desmascare a fraude. Quem poderá facilmente detectar a mistura de cobre e prata a não ser o experto? Ora, nós não queremos que por nossa culpa alguns sejam raptados como ovelhas pelos lobos, enganados pelas peles de ovelhas com que se camuflam. Esses, de quem o Senhor nos ordenou nos guardar, esses, que falam como nós, mas pensam diferentemente de nós. Eis por que, depois de ter lido os comentários dos discípulos de Valentim — como eles se denominam — depois de manifestar-te, meu caríssimo amigo, os prodigiosos e profundos mistérios, que nem todos entendem, porque não renunciaram ao intelecto, para que tu, informado acerca destas doutrinas, as dês a conhecer aos que estão contigo e os leves a tomar cuidado diante do abismo de irracionalidade e de blasfêmia contra Deus. À medida de nossa capacidade mostrar-te-emos, com poucas e claras palavras, a doutrina dos que, neste momento, ensinam de maneira diferente da nossa; quero dizer de Ptolomeu e dos que lhe estão à volta, cuja doutrina é como que a flor da escola de Valentim. Com nossas medíocres possibilidades, fornecere-mos os meios para refutá-las, mostrando que o que dizem é absurdo, inconsistente e oposto à verdade. Não acostumados a escrever, não tendo aprendido a arte de falar, mas solicitados pela caridade que nos urge a manifestar a ti e a todos os que estão contigo os ensinamentos deles, que foram conservados secretos, e que agora, pela graça de Deus, se tornam manifestos, pois nada há de encoberto que não venha a ser descoberto, nem de oculto que não venha a ser conhecido.
[3] Não procures em nós, que vivemos entre os celtas, e que na maior parte do tempo usamos uma língua bárbara, nem a arte da palavra, que nunca aprendemos, nem a habilidade do escritor em que nunca nos exercitamos, nem a elegância da expressão, nem a arte de convencer, que desconhecemos. Mas, na verdade, na simplicidade e na candura, aceitarás com amor o que com amor foi escrito e desenvolvê-lo-ás por tua conta, visto que és muito mais capaz do que nós. Depois de o receber de nós como semente e princípio, fá-lo-ás frutificar abundantemente pela grande capacidade do teu intelecto e o que por nós foi dito com poucas palavras e insuficientemente te demos a conhecer, apresentá-lo-ás com vigor aos que estão contigo. E assim, ao responder ao teu desejo, já antigo, de conhecer as doutrinas deles, não somente nos esforçamos para to manifestar, mas também para fornecer-te os meios para demonstrar a sua falsidade. Assim tu também esforçar-te-ás por ajudar os outros, conforme a graça que te foi concedida pelo Senhor, de forma que os homens já não se deixem induzir ao erro pela doutrina capciosa deles. Eis, então, essa doutrina.
[4] Eles dizem que existia, nas alturas, invisíveis e inenarráveis, um Éon perfeito, anterior a tudo, que chamam Protoprincípio, Protopai e Abismo. Incompreensível e invisível, eterno e ingênito que se manteve em profundo repouso e tranqüilidade durante uma infinidade de séculos. Junto a ele estava Enóia, que chamam também Graça e Silêncio. Ora, um dia, este Abismo teve o pensamento de emitir, dele mesmo, um Princípio de todas as coisas; essa emissão, de que teve o pensamento, depositou-a como semente no seio de sua companheira, o Silêncio. Ao receber esta semente, ela engravidou e gerou o Nous, semelhante e igual ao que o tinha emitido e que é o único capaz de entender a grandeza do Pai. Este Nous é também chamado Unigênito, Pai e Princípio de todas as coisas. Juntamente com ele foi gerada a Verdade e esta seria a primitiva e fundamental Tétrada pitagórica que chamam também Raiz de todas as coisas. Ela seria composta pelo Abismo e o Silêncio, o Nous e a Verdade. O Unigênito, tendo aprendido o modo como foi gerado, procriou, por sua vez, o Logos e Zoé, Pai de todos os que viriam após ele, Princípio e formação de todo o Pleroma. Por sua vez, foram gerados pelo Logos e Zoé, segundo a sizígia, o Homem e a Igreja. Esta seria a Ogdôada fundamental, Raíz e substância de todas as coisas, que por eles é chamada com quatro nomes: Abismo, Nous, Logos e Homem. Cada um deles é masculino e feminino, da seguinte forma: inicialmente o Protopai se uniu, segundo a sizígia, à sua Enóia, que eles chamam também Graça e Silêncio; depois o Unigênito, também chamado Nous, uniu-se à Verdade; depois o Logos, à Zoé; por fim, o Homem, à Igreja.
[5] Estes Éões, produzidos para a glória do Pai, querendo, por sua vez, glorificar o Pai com algo de si mesmos, fizeram emissões em sizígia. O Logos e Zoé geraram, depois do Homem e da Igreja, outros dez Éões, cujos nomes dizem ser estes: Abissal e Confusão, Aguératos e União, Autoproduto e Satisfação, Imóvel e Mistura, Unigênito e Felicidade: estes são os dez Éões que dizem derivar do Logos e Zoé. Por sua vez, também o Homem com a Igreja produziu doze Éões, aos quais atribuem estes nomes: Consolador e Fé, Paterno e Esperança, Materno e Caridade, Eterno e Compreensão, Eclesiástico e Bem-aventurança, Desejado e Sofia.
[6] Esta é a teoria errada deles a respeito dos 30 Éões impronunciáveis e não conhecíveis. Segundo eles, este é o Pleroma invisível e espiritual, com a sua tríplice divisão em Ogdôada, Década e Duodécada; e por isso dizem que o Salvador — pois recusam dar-lhe o nome de Senhor — não fez nada publicamente durante 30 anos, para significar o mistério destes Éões. E também dizem que na parábola dos operários enviados a trabalhar na vinha se indicam com toda clareza estes 30 Éões. De fato, alguns são enviados na primeira hora, outros na terceira, outros na sexta, outros na nona e outros na undécima hora. Somadas, essas horas diversas dão o total 30: 1+3+6+9+11=30. Pelo número de horas são indicados os Éões, que são os grandes, os admiráveis, os mistérios escondidos que eles próprios frutificam, mostrando assim como também puderam adaptar e acomodar à sua imaginação outras coisas ditas nas Escrituras.

