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[1] Com efeito, a Igreja espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra recebeu dos apóstolos e seus discípulos a fé em um só Deus, Pai onipotente, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto nele existe; em um só Jesus Cristo, Filho de Deus, encarnado para nossa salvação; e no Espírito Santo que, pelos profetas, anunciou a economia de Deus; e a vinda, o nascimento pela Virgem, a paixão, a ressurreição dos mortos, a ascensão ao céu, em seu corpo, de Jesus Cristo, dileto Senhor nosso; e a sua vinda dos céus na glória do Pai, para recapitular todas as coisas e ressuscitar toda carne do gênero humano; a fim de que, segundo o beneplácito do Pai invisível, diante do Cristo Jesus, nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, todo joelho se dobre nos céus, na terra e nos infernos e toda língua o confesse; e execute o justo juízo de todos: enviando para o fogo eterno os espíritos do mal, os anjos prevaricadores e apóstatas, assim como os homens ímpios, injustos, iníquos e blasfemadores; e para dar em prêmio a vida incorruptível e a glória eterna aos justos, aos santos e aos que guardaram os seus mandamentos e perseveraram no seu amor, alguns desde o início, outros, depois de sua conversão.

[2] Tendo, portanto, recebido esta pregação e esta fé, como dissemos acima, a Igreja, mesmo espalhada por todo o mundo, as guarda com cuidado, como se morasse numa só casa, e crê do mesmo modo, como se possuísse uma só alma e um só coração; unanimemente as prega, ensina e entrega, como se possuísse uma só boca.

[3] Assim, embora pelo mundo sejam diferentes as línguas, o conteúdo da tradição é um só e idêntico. As Igrejas fundadas na Germânia não crêem e não ensinam de modo diferente, nem as da Ibéria, nem as dos celtas, nem as do Oriente, nem as do Egito, nem as da Líbia, nem as estabelecidas no centro do mundo; mas como o sol, criatura de Deus, é em todo o mundo um só e o mesmo, assim a luz da pregação da verdade brilha em todo lugar e ilumina todos os homens que querem chegar ao conhecimento da verdade.

[4] E nem o que tem maior capacidade em falar, dentre os que presidem às Igrejas, dirá algo diferente, porque ninguém está acima do Mestre; nem quem tem dificuldade em expressar-se inferioriza a Tradição. Sendo a fé uma só e a mesma, nem quem pode dizer muito sobre ela a amplia, nem quem pode falar menos a diminui.

[5] A exposição feita com sabedoria maior ou menor, não quer dizer que se muda a doutrina ou que se pense noutro Deus além daquele que é o Criador, Autor e Nutrício deste universo, como se ele não bastasse, ou noutro Cristo, ou noutro Filho único.

[6] Trata-se simplesmente de indicar a maneira com que cada um procura explicar a doutrina contida nas parábolas, mostrando a sua concordância com a doutrina da verdade e de expor a maneira com que se realizou o desígnio salvífico de Deus; de mostrar que Deus usou de longanimidade, quer diante da apostasia dos anjos rebeldes, quer diante da desobediência dos homens; de dar a conhecer por que o mesmo e único Deus fez algumas coisas temporais e outras eternas, por que fez os seres celestes e terrestres.

[7] A razão pela qual, sendo invisível, se manifestou aos profetas, não de uma só forma, mas de diversas; de indicar por que fez várias Alianças com a humanidade e as características de cada uma; “por que Deus incluiu todos na incredulidade para ter misericórdia de todos”; trata-se de publicar numa ação de graças que o Verbo de Deus se fez homem e sofreu e anunciar por que a vinda do Filho de Deus se deu nos últimos tempos e não no início; de mostrar o que está nas Escrituras a respeito do fim e das realidades futuras e de não calar que Deus fez das “nações que não tinham esperança, co-herdeiras, concorporais e co-participantes dos santos”; de proclamar que “esta carne mortal se revestirá de imortalidade e esta carne corruptível, de incorruptibilidade”; de proclamar como “este que não era povo se tornou povo, e a que não era amada se tornou amada”; e como “os filhos da que era estéril se tornaram mais numerosos do que os da casada”.

[8] É em casos como estes e semelhantes que o Apóstolo exclama: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são imperscrutáveis seus juízos e impenetráveis os seus caminhos”!

[9] Não se trata, portanto, de imaginar erradamente acima do Criador e Demiurgo uma Mãe para este e para aqueles, que seria a Entímese de um Éon degradado; e de chegar a tal excesso de blasfêmia e, mentindo, imaginar novamente acima dela o Pleroma que abrangeria ora os 30 Éões ora multidões inumeráveis deles.

[10] Pois assim se exprimem estes mestres que não têm nada de ciência divina, essa que a verdadeira Igreja possui numa só e única fé, e pelo mundo inteiro, como dissemos acima.

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