[1] Vejamos agora as inconstantes doutrinas deles. São duas ou três, e como falam de forma diferente sobre as mesmas coisas e, servindo-se de nomes iguais, indicam objetos diferentes. Valentim é o primeiro a adaptar as doutrinas tiradas da heresia gnóstica ao caráter próprio da sua escola que fixou assim: há uma Díada inefável, um dos elementos chama-se Inexprimível, o outro Silêncio.
[2] Esta Díada emitiu outra Díada, um elemento dela chama-se Pai e o outro Verdade. Esta Tétrada frutificou o Logos e a Vida, o Homem e a Igreja: eis então formada a primeira Ogdôada. Do Logos e da Vida emanaram dez Potências: uma delas se afastou, foi degradada e fez o restante da obra da fabricação.
[3] Valentim estabelece depois dois Limites, um entre o Pleroma e o Abismo que separa os Éões gerados do Pai ingênito e o outro que divide a sua Mãe do Pleroma. O Cristo não foi produzido pelos Éões que estão no Pleroma, mas pela Mãe que estava fora dele e se lembrava das realidades superiores, mas não sem alguma sombra.
[4] Sendo o Cristo masculino, tirou de si mesmo esta sombra e voltou para o Pleroma. A Mãe, então, deixada na sombra e esvaziada da substância pneumática, gerou outro filho, o Demiurgo, onipotente sobre todas as coisas submetidas a ele. E diz, de forma semelhante àquela dos que nós chamaremos gnósticos, que, junto com ele, foi também gerado um Arconte da esquerda.
[5] Quanto a Jesus, ele o faz derivar ora do Éon que se separou da Mãe e se reuniu com os outros, isto é, Desejado; ora daquele que voltou ao Pleroma, isto é, Cristo; ora do Homem e da Igreja. Diz que o Espírito Santo foi emitido pela Verdade para julgar e fecundar os Éões, entrando invisivelmente neles e por seu meio os Éões produziram frutos de verdade. Isto é o que ensina Valentim.
[6] Outro, chamado Secundo, ensina que a primeira Ogdôada abrange uma Tétrada da direita e uma da esquerda, uma é a Luz, outra as Trevas. A Potência que se afastou e foi degradada, diz que não deriva dos 30 Éões, mas de seus frutos.
[7] Outro ilustre mestre deles, dotado de gnose mais sublime e profunda, expõe assim a primeira Tétrada: existe, antes de todas as coisas, um Pró-princípio pró-ininteligível, inexprimível e inominável que chamo Unicidade. Com ele está uma Potência que chamo Unidade.
[8] Estas, Unicidade e Unidade, que são uma coisa só, emitiram, sem emitir, um Princípio inteligível, ingênito e invisível, ao qual dou o nome de Mônada. Com esta Mônada está uma Potência da mesma substância, que chamo Um. Estas Potências, isto é, Unicidade e Unidade, Mônada e Um, emitiram os restantes Éões.
[9] Ah! ah! eh! eh! Valem estas exclamações trágicas diante desta audácia em inventar nomes e aplicá-los despudoradamente a esta mentirosa invenção. Com efeito, quando diz: existe antes de todas as coisas um Pró-princípio pró-ininteligível que chamo Unicidade e com ele está uma Potência que chamo Unidade, mostra claramente que são ficção todas as palavras que pronunciou e que deu a estas ficções nomes que ninguém antes dele lhes deu.
[10] Se não tivesse esta ousadia, segundo ele, ainda hoje a verdade estaria sem nome. Por isso, nada impede que outro qualquer, ao tratar deste assunto, use estes nomes: existe certo Pró-princípio soberano pró-esvaziado-de-inteligibilidade, pró-esvaziado-de-substância e Potência pró-pró-dotada-de-esfericidade, que chamo Abóbora.
[11] Junto com esta Abóbora coexiste uma Potência que chamo Super-vacuidade. A Abóbora e a Super-vacuidade, sendo um só, emitiram sem emitir um Fruto visível de qualquer lugar, comestível e saboroso, ao qual dou o nome de Pepino. Junto com este Pepino existe uma Potência da mesma substância, que chamo Melão.
[12] Estas Potências, isto é, Abóbora e Super-vacuidade, Pepino e Melão, emitiram a multidão restante dos Melões delirantes de Valentim. Com efeito, se é necessário ajustar a fala comum à primeira Tétrada e se cada um escolhe os nomes que quer, o que impede usar estes nomes muito mais inteligíveis, usuais e conhecidos de todos?
[13] Outros deles, ainda, deram estes nomes à primeira e primitiva Ogdôada: ao primeiro elemento Proto-princípio, ao segundo Ininteligível, ao terceiro Inexprimível e ao quarto Invisível. Inicialmente, do primeiro Proto-princípio derivou o primeiro Princípio, que ocupa o quinto lugar; a seguir, do Ininteligível derivou o segundo, o Incompreensível que ocupa o sexto lugar; depois, do Inexprimível derivou o terceiro, o Inefável, que ocupa o sétimo lugar; e do Invisível derivou o quarto, o Ingênito, que ocupa o oitavo lugar.
[14] E assim se completou a primeira Ogdôada. Estas Potências viriam antes do Abismo e do Silêncio. Eles dizem isso para se mostrarem mais perfeitos do que os perfeitos e mais gnósticos do que os gnósticos.
[15] E alguém justamente poderia dizer isso a eles: “Pobres Melões, sofistas desprezíveis, que sequer homens são!” Acerca do próprio Abismo há também entre eles várias opiniões: alguns dizem que não tem sizígia porque não é nem masculino nem feminino, nem absolutamente nada; outros dizem-no masculino e feminino ao mesmo tempo, e lhe atribuem natureza hermafrodita; outros ainda lhe atribuem o Silêncio como esposa, para formar assim a primeira sizígia.

