[1] Os mais instruídos dos discípulos de Ptolomeu dizem que o Abismo tem duas esposas que chamam Disposições, isto é, Pensamento e Vontade. Como primeira coisa pensou o que devia emitir e depois o quis. Por isso, destas duas Disposições ou Potências, isto é, Pensamento e Vontade, misturadas e unidas, por assim dizer, uma à outra, houve a emissão do Unigênito e da Verdade.
[2] Eles são o tipo e a imagem visível das duas Disposições invisíveis do Pai. O Unigênito reproduz a Vontade e a Verdade o Pensamento; por isso o masculino, princípio gerante, é imagem da Vontade e o feminino, princípio passivo, é imagem do Pensamento. A Vontade se tornou como que o poder do Pensamento: desde sempre ele pensava na emissão, mas era incapaz de fazê-lo sozinho. Quando sobreveio o poder da Vontade emitiu o que tinha pensado.
[3] Não te parece, meu caro amigo, que esta gente concebeu em seu espírito mais o Júpiter de Homero, todo preocupado por que não consegue pegar no sono, pensando como haveria de fazer para honrar Aquiles e fazer perecer uma multidão de gregos, do que no Senhor de todas as coisas? O qual ao pensar as coisas as realizou e quando as quer, ao mesmo tempo as pensa: pensando quer e querendo pensa, porque é todo Pensamento, toda Vontade, todo Intelecto, toda Luz, todo Olho e Ouvido, toda Fonte de todos os bens.
[4] Os que são tidos como os mais sábios dentre os sábios deles dizem que a primeira Ogdôada não foi emitida gradativamente, Éon após Éon, mas ao mesmo tempo, como unidade, pelo Protoprincípio e seu Pensamento. Dizem isso como quem assistiu ao parto deles como obstetras.
[5] Segundo eles, não foram o Logos e a Vida que emitiram o Homem e a Igreja, mas foram o Homem e a Igreja que emitiram o Logos e a Vida, da forma seguinte: quando o Protoprincípio pensou em emitir algo, isso recebeu o nome de Pai e, depois da emissão, sendo isso veraz, recebeu o nome de Verdade.
[6] Quando se quis manifestar, isso recebeu o nome de Homem, e quando emitiu os que tinha pensado anteriormente, a eles deu o nome de Igreja. O Homem pronunciou o Logos, que é o Filho primogênito, e ao Logos seguiu a Vida: assim foi completada a primeira Ogdôada.
[7] Surgem depois, entre eles, bastante controvérsias acerca do Salvador. Alguns dizem que ele foi emitido por todos os Éões, motivo pelo qual se chama Beneplácito. Com efeito, todo o Pleroma teve o prazer de glorificar o Pai por meio dele.
[8] Outros o fazem derivar só dos dez Éões emitidos pelo Logos e pela Vida e por isso ele conserva o nome de Logos e Vida, que era o dos pais. Alguns o fazem derivar dos doze Éões emitidos pelo Homem e a Igreja e é por isso que ele proclama a si mesmo Filho do Homem, como descendente deste Homem.
[9] Outros fazem-no derivar do Cristo e do Espírito Santo, criados para consolidar o Pleroma, e por isso ele se chama Cristo, do nome do Pai que o emitiu. Alguns dizem que é o próprio Pró-pai de todas as coisas, o Pró-princípio, o Pró-ininteligível, que se chama Homem: este é o grande mistério escondido, isto é, a Potência que está acima de tudo e tudo abrange e se chama Homem e é por isso que o Salvador se chama Filho do Homem.

