[1] Este Marcos, portanto, dizendo que só ele, por ser Unigênito, é o seio e o receptáculo do Silêncio de Colabar-so, afirma que emitiu desta forma a semente nele depositada: a Tétrada que está acima de tudo, desceu a ele dos lugares invisíveis e inefáveis, na forma de mulher, porque, diz ele, o mundo não podia suportar o elemento masculino dela, mostrou-se-lhe assim como era, e manifestou somente a ele a origem de todas as coisas que nunca tinha revelado a ninguém, quer fosse deus quer homem.
[2] E lhe disse: Quando, no princípio, o Pai que não tem pai, que é inconcebível e sem substância, que não é masculino nem feminino, quis que o inefável dele pudesse ser expresso e o que é invisível se tornasse visível, abriu a boca e proferiu o Verbo, semelhante a ele.
[3] Este Verbo se postou a seu lado e mostrou-lhe o que era: a forma do invisível que se manifestava. A enunciação do nome se deu assim: disse a primeira parte do nome, composta por quatro letras; acrescentou a segunda, também de quatro letras; depois disse a terceira, de dez letras e, por fim, a seguinte, de doze letras.
[4] A enunciação do nome completo é formada por trinta letras e quatro sílabas. Cada um destes elementos tem as suas letras, o seu caráter, sua pronúncia, seus traços e suas imagens e nenhum deles percebe a forma total de que não é senão um elemento.
[5] E não somente isso eles não sabem, mas cada um ignora a enunciação do seu vizinho. E quando pronunciam o seu nome acreditam exprimir o Tudo. Cada um deles, que é uma parte do Todo, diz o seu nome como se fosse o do Todo e não pára de proferi-lo até que chegue à última letra da última sílaba.
[6] Então, diz ele, acontecerá a reintegração universal, quando todos chegarem a uma só letra e a um único som; e o símbolo da exclamação é o Amém que juntos dizemos. Estes são os sons que formam o Éon sem substância e ingênito; eles são as formas que Deus chamou Anjos e vêem sem interrupção o rosto do Pai.
[7] Aos elementos comuns e exprimíveis deu o nome de Éões, Lógoi, Raízes, Sementes, Pleromas, Frutos. Tudo o que lhes é próprio e característico é abrangido no nome Igreja.
[8] A última letra do último destes elementos emitiu a sua voz e este som gerou elementos próprios à imagem dos elementos do Tudo. Por eles foram dispostas as coisas presentes e criadas as antecedentes.
[9] A própria letra cujo som seguia ao som anterior foi novamente recolhida pela sua sílaba, para que o Tudo permanecesse completo; mas o som ficou embaixo, como lançado fora. O próprio elemento do qual caiu a letra com a sua enunciação consiste de outras trinta; cada uma destas contém em si outras trinta que formam o nome da letra.
[10] Por sua vez as outras letras são designadas com o nome de outras letras, e estas de outras, assim até o infinito. Por um exemplo compreenderás com maior clareza o que quero dizer: o elemento “delta” é composto por cinco letras, isto é, delta, épsilon, lambda, tau e alfa, e estas são escritas com outras letras, e assim a seguir.
[11] Ora, se com a letra delta considerada na sua integridade se vai ao infinito, pois uma letra gera sempre outra e se sucedem umas às outras, quanto maior do que este elemento é o mar de todas as letras! E se uma só letra é assim infinita, pensa por um momento no abismo de todo o nome das letras de que consta, segundo o Silêncio de Marcos, o Própai.
[12] Por isso o Pai, cônscio da sua incompreensibilidade, concedeu aos elementos chamados Éões, proferir cada um a sua própria enunciação, na impossibilidade de um só enunciar o Tudo.
[13] Depois de lhe ter exposto estas coisas, a Tétrada disse: quero mostrar-te a própria Verdade. Eu a fiz descer dos mundos superiores para que a vejas nua e admires a sua beleza, a ouças falar e admires a sua sabedoria.
[14] Olha a sua cabeça, no alto, primeiramente, o alfa e o ômega; o pescoço, beta e psi; os ombros e as mãos, gama e qui; o peito, delta e fi; o tronco, épsilon e ípsilon; o ventre, zeta e tau; as genitálias, eta e sigma; os fêmures, teta e rô; os joelhos, iota e pi; as pernas, capa e ómicron; os tornozelos, lambda e csi; os pés, mi e ni.
[15] Este é o corpo daquela Verdade, segundo o mago, este o aspecto do elemento, o caráter da letra. A este elemento dá o nome de Homem e diz que é o princípio de todo o Logos, fonte de toda voz, expressão de todo o Inefável, a boca do taciturno Silêncio. Eis o corpo dela.
[16] Tu, porém, elevando mais ao alto a inteligência de tua mente, escuta da boca da Verdade o Verbo gerador de si mesmo e doador do Pai.
[17] Tendo a Tétrada dito isto, a Verdade olhou para Marcos e abrindo a boca pronunciou uma palavra; a palavra se tornou nome, e o nome que conhecemos e pronunciamos é este: Jesus Cristo. Mal acabara de a pronunciar, calou-se.
[18] Marcos pensava que ela diria mais alguma coisa, mas a Tétrada, aproximando-se, disse-lhe: Consideraste como insignificante a palavra que escutaste da boca da Verdade. Não é o nome que conheces e julgavas possuir. Tu possuis o som dele, mas ignoras o seu poder.
[19] Jesus é nome insigne, composto de seis letras (em grego), conhecido de todos os chamados. Mas o nome que tem entre os Éões do Pleroma, sendo composto de muitas partes, é de outra espécie, de outro tipo, e é conhecido só por aqueles que são da mesma raça e cujas Grandezas estão sempre diante dele.
[20] Deves entender que as vinte e quatro letras que usais são o símbolo das três Potências que compreendem o número total dos elementos do alto. As nove letras mudas são o símbolo do Pai e da Verdade, porque são áfonas, isto é, inexprimíveis e inefáveis.
[21] As oito semivogais são o símbolo do Logos e Zoé e estão no meio, entre as mudas e as vogais, e recebem a emanação das que lhes estão acima e a elevação das de baixo.
[22] As sete vogais são o símbolo de Homem e de Igreja, porque a Voz formou todas as coisas passando pelo Homem. De fato foi o som da Voz que lhes deu a forma. O Logos e Zoé têm, portanto, o número 8, o Homem e a Igreja o 7; o Pai e a Verdade o 9.
[23] Como a soma era menor e incompleta, aquele que estava junto ao Pai desceu, enviado lá de onde se separara, para corrigir o defeito das coisas e para que a unidade do Pleroma, possuindo a igualdade, frutificasse em todos e produzisse uma Potência que deriva de todos.
[24] Assim o número sete recebeu o valor de oito e ficaram três Lugares semelhantes, pelo número, às Ogdôadas que vindo três vezes sobre si mesmas apresentam o número vinte e quatro.
[25] Os três elementos que, segundo Marcos, estão em sizígia com as três Potências, portanto seis, donde derivaram vinte e quatro letras, que multiplicadas por quatro, número da inefável Tétrada, produzem o mesmo número: elas pertencem ao Inefável, mas são revestidas das três Potências à semelhança do Invisível.
[26] Imagens das Imagens destes elementos são as nossas letras duplas, que somadas, em virtude da analogia, às outras vinte e quatro dão o número trinta.
[27] O fruto deste cálculo e desta economia, diz ele, apareceu na imagem simbólica naquele que, depois de seis dias, subiu em quarto lugar ao monte, tornou-se sexto, desceu e foi retido na Hebdômada, mesmo sendo Ogdôada perfeita e tendo em si o número de todos os elementos.
[28] A pomba, que é alfa e ômega, indicou o mesmo número quando da sua descida no batismo: seu número é 801. Por isso Moisés disse que o homem foi criado no sexto dia e também a economia.
[29] Sabendo o intelecto perfeito que o número seis tem o poder de criação e regeneração, manifestou aos filhos da luz a regeneração que se cumpriu por meio do número que se refere a ele.
[30] Daqui Marcos conclui que as letras duplas têm aquele número insigne: com efeito, somado aos 24 elementos perfaz o número de 30 letras.
[31] E teve como ajudante a Grandeza dos sete números, como diz o Silêncio de Marcos, para manifestar os frutos do pensamento concebido por ele.
[32] Por este número especial, diz ele, deves entender o que ele simboliza, o qual, como que dividido em três partes, ficou fora e no próprio poder e sabedoria, mediante a sua emissão, animou este mundo das sete Potências, à imitação da potência da Hebdômada, e deu aquela que parece a alma a este universo visível.
[33] Serve-se ele também desta obra feita como que espontaneamente por ele enquanto as outras coisas servem à Entímese da Mãe, sendo imitações de coisas inimitáveis.
[34] O primeiro Céu ecoa o alfa, o seguinte o épsilon, o terceiro o eta, o quarto, intermédio entre os sete, narra a potência do iota, o quinto o ómicron, o sexto o ípsilon, o sétimo e quarto a partir do mediano, ecoa a última letra, o ômega, como o Silêncio de Marcos que se exprime com muita loquacidade mas sem dizer nada de verdadeiro.
[35] Tais Potências juntas, diz ele, e abraçadas umas às outras, cantam e glorificam a glória que as emitiu e o canto triunfal eleva-se ao Pró-pai. O eco desta glorificação, trazido à terra, torna-se, segundo ele, o plasmador e gerador do que está na terra.
[36] Alega como argumento que a alma dos recém-nascidos, ao sair do seio materno, emite o som de cada um destes elementos.
[37] Assim como as sete Potências, afirma, glorificam o Logos, também a alma dos recém-nascidos, chorando e vagindo, glorificam a Marcos.
[38] Por isso Davi disse: “Da boca dos lactentes e infantes preparaste o louvor”, e ainda: “Os céus narram a glória de Deus”.
[39] Por isso a alma que estava nas dores e nas contrariedades ao ser libertada delas diz: ω (ômega), em sinal de louvor para, que a alma do alto reconheça a sua parente e lhe envie a sua ajuda.
[40] Desta maneira delirou acerca da totalidade do nome composto de trinta letras; do Abismo que aumenta com suas letras; do corpo da Verdade que tem doze membros, cada um composto de duas letras; da voz que emitiu sem emiti-la; da explicação do nome que não foi dito; da alma do mundo e do homem, naquilo que são imagens da economia.
[41] A seguir falaremos do modo com que a Tétrada deles revelou, a partir dos nomes, a igualdade da potência, para que nada te fique oculto, ó caríssimo, de tudo o que dizem e chegou até nós, como nos pediste repetidas vezes.

