[1] Juntando a geração dos Éões, o desgarramento e o reencontro da ovelha, eles, que reduzem tudo a números, ousam afirmar misticamente que tudo consta de mônada e díada. Somados sucessivamente os números de um a quatro geram a Década: 1+2+3+4 produzem o número dos dez Éões. Por sua vez, a Díada, a partir dela e progredindo até o número insigne, 2+4+6, mostra a Duodécada.
[2] Novamente somando da díada até dez aparece o número trinta em que estão contidas a Ogdôada, a Década e a Duodécada. À Duodécada, que tem como final o número insigne e por causa dele, dão o nome de paixão. Tendo acontecido uma queda no número doze, a ovelha que saiu, perdeu-se, porque a deserção se deu a partir da Duodécada.
[3] Do mesmo modo é oráculo deles que uma Potência se separou da Duodécada e perdeu-se, e seria a mulher que perdeu a dracma, acendeu a lucerna e a encontrou. Assim os números que restaram, o nove da dracma e o onze da ovelha, multiplicados entre si deram noventa e nove que é o resultado de 9×11. Eis por que a palavra Amén tem este número.
[4] Não quero deixar de referir-te também outras interpretações deles para que possas contemplar, de todos os lados, os seus frutos. A letra eta, contando o número insigne (sigma = 6), seria a oitava por estar no oitavo lugar, a partir do alfa; em seguida, somando os números destas letras, tirando o sigma (1+2+3+4+5+6+7+8-6=30), eles obtêm como resultado trinta.
[5] Com efeito, somando-se todos os números do alfa ao eta, tirando o número insigne, encontra-se o trinta. Até a letra épsilon o valor das letras é quinze; acrescentando-se sete dá vinte e dois; acrescentando-se oito completa-se a admirável Triacôntada. Com isso querem provar que a Ogdôada é a Mãe dos trinta Éões.
[6] Visto que o número trinta é composto pelas três potências (8,10,12) somadas, multiplica-se por três e dá noventa. O três multiplicado por si mesmo produz o nove. Assim a Ogdôada gerou o número noventa e nove.
[7] E porque o décimo segundo Éon, afastando-se, deixou lá em cima os onze, a forma das letras foi disposta convenientemente para formar a figura do Logos. A décima primeira letra é o lambda, que é o número trinta, e foi disposta à imagem da economia do alto: porque somando progressivamente o valor numérico das letras, do alfa ao lambda, exceptuando-se o número insigne, tem-se o número noventa e nove.
[8] Que o lambda, décimo primeiro na ordem, tenha descido à procura do seu semelhante para completar o número doze, o tenha encontrado e ficado completo, fica evidente pela própria forma da letra. O lambda procurou o seu semelhante, o encontrou, o atraiu a si e completou o décimo segundo lugar, sendo a letra M composta por dois lambdas (Λ + Λ).
[9] Este é o motivo por que fogem, pela gnose, do lugar do número noventa e nove, que é o da deficiência, tipo da mão esquerda, e perseguem a unidade, que somada a noventa e nove os fará passar para a mão direita.
[10] Bem sei que ao ler estas coisas, ó caríssimo, haverás de rir às gargalhadas, tamanha a presunção e a loucura dessa gente. Dignos de compaixão são os que tratam coisa tão sagrada, a grandeza do Poder verdadeiramente inefável, e as economias de Deus, servindo-se do alfabeto e de números tão frios e artificiais.
[11] Verdadeiramente condenam-se a si mesmos quantos se separam da Igreja para aderir a tais patranhas. Paulo manda que os “evitemos depois da primeira e segunda advertência”; João, o discípulo do Senhor, lhes amplia a condenação, proibindo-nos até de os cumprimentar, porque “quem lhes diz bom-dia participa de suas obras iníquas”.
[12] E com razão: “Não há salvação para os ímpios, diz o Senhor”. São de impiedade que supera toda impiedade os que afirmam que o Criador do céu e da terra, o único Deus onipotente, sobre o qual não há outro Deus, provém de degradação derivante de uma primeira, e, segundo eles, já de uma terceira degradação.
[13] Rejeitando e condenando convenientemente esta doutrina devemos fugir alhures, longe deles, e quanto mais afirmam e se comprazem nestas invenções tanto mais nos devemos convencer de que estão possuídos pelos maus espíritos da Ogdôada.
[14] São como os que caíram em paixão frenética e quanto mais riem e agem pensando estar bem, até mais ainda do que se estivessem bem, tanto mais estão doentes. A mesma coisa acontece a eles: quanto mais julgam saber e se estragam os nervos tendendo a coisas superiores às suas forças, tanto mais avançam na loucura.
[15] O espírito imundo da ignorância saiu e os encontrou ocupados, não em Deus, mas em questões mundanas. Então tomou consigo outros sete espíritos piores do que ele, enfatuou-lhes a sabedoria, fazendo-os acreditar que podiam entender o que está acima de Deus, e convenientemente dispostos, na sua mente, para a fecundação, depositou neles a Ogdôada da ignorância dos espíritos perversos.

