[1] Além disso apresentam interminável multidão de escritos apócrifos e falsos que eles mesmos compuseram para causar impressão aos simples e aos que não conhecem as letras da verdade. Para reforçar isso acrescentam também aquela fábula segundo a qual quando o Senhor era ainda menino e aprendia a ler, o mestre lhe disse, como de costume: Dize a, e ele respondeu a; depois o mestre pediu-lhe que dissesse bê, e o Senhor respondeu-lhe: Dize-me primeiro o que é a e então eu te direi o que é bê. E interpretam que somente ele conhece o Incognoscível, que indicou na letra a.
[2] Retorcem também algumas frases do Evangelho para que possam ter este sentido. Por exemplo, com a resposta que o Senhor, aos doze anos, deu à sua mãe: “Não sabias que me devo ocupar nas coisas de meu Pai?” anunciava-lhe, segundo eles, o Pai que não conheciam. Por isso enviou os discípulos às doze tribos para anunciar o Deus desconhecido. A quem lhe disse: Bom mestre, respondeu confessando aquele que é verdadeiramente bom: “Por que me chamas bom? Somente um é bom, o Pai nos céus”. Os céus de que se fala são os Éões. Por isso não respondeu aos que lhe perguntaram: Com que poder fazes isso?, mas os confundiu com a pergunta que, por sua vez, fez a eles; não respondendo — eles explicam — mostrou o caráter inexprimível do Pai.
[3] Mas quando disse: “Desejei muitas vezes escutar umas palavras como estas, mas não encontrei um sequer que mas dissesse”, manifestou por meio deste um aquele que é o único verdadeiro Deus que não conheciam. Da mesma forma ainda, quando, avizinhando-se a Jerusalém, chorou sobre ela e disse: “Se tu conhecesses hoje o que é para a paz, mas te está escondido”, com estas palavras: te está escondido, indicou o mistério escondido de Abismo.
[4] Ainda, quando diz: “Vinde a mim vós todos que estais fatigados e carregados e aprendei de mim”, teria anunciado o Pai da Verdade. Prometeu, com efeito, ensinar-lhes o que não sabiam.
[5] Como prova de tudo o que precede e como última palavra de seu sistema alegam estas palavras: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e aos prudentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Todas as coisas me foram entregue pelo Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho, nem o Filho senão o Pai e aquele a quem o Filho o revelar”.
[6] Com isso seria indicado claramente que antes da vinda do Senhor ninguém conhecia expressamente o Pai da Verdade, e também afirmam que o Autor e Criador do mundo sempre foi conhecido por todos, ao passo que o Senhor falaria aqui do Pai que ninguém conhece e que eles anunciam.

