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[1] Saturnino de Antioquia, nas proximidades de Dafne, e Basílides, retomando a doutrina destes homens como ponto de partida, ensinaram, um na Síria e o outro em Alexandria, doutrinas diversas. Saturnino, como Menandro, prega um único Pai, não conhecido por ninguém, que fez os Anjos, os Arcanjos, as Potências e as Potestades. Sete destes Anjos fizeram o mundo e tudo o que há nele.

[2] Também o homem é criatura dos Anjos: quando apareceu do alto, vinda da Potência suprema, uma figura luminosa que eles não conseguiram reter porque ela logo voltou às alturas, animaram-se uns aos outros dizendo: Façamos o homem à imagem e semelhança dela. Mas a criatura que foi feita não se podia levantar por causa da fraqueza dos Anjos e se arrastava como verme.

[3] Então a Potência do alto teve compaixão dele, porque tinha sido feito à sua imagem, e lançou uma fagulha de vida que fez o homem levantar, articular-se e viver. Depois da morte esta fagulha de vida retorna aos da mesma natureza e o restante se dissolve naquilo de que foi tirado.

[4] O Salvador, afirmam eles, não é gerado, não tem corpo nem figura e só aparentemente foi visto como homem. O Deus dos judeus era um dos Anjos, e porque o Pai quis destruir todos os Arcontes, o Cristo veio para destruir o Deus dos judeus e salvar os que acreditassem nele: e somente estes têm a fagulha de vida.

[5] Com efeito, e ele foi o primeiro a dizê-lo, foram feitas duas espécies de homens pelos Anjos, os bons e os maus. Visto que os demônios ajudavam os maus, o Salvador veio para derrotar os demônios e os homens maus e salvar os bons. Casar e procriar é diabólico e muitos dos seus discípulos se abstêm de comer carne e com aparente abstinência enganam a muitos.

[6] Quanto às profecias, algumas foram proferidas por estes Anjos criadores do mundo, outras por Satanás, que Saturnino apresenta como adversário dos criadores do mundo e especialmente do Deus dos judeus.

[7] Basílides, para mostrar que encontrou algo de mais profundo e verossímil, estende ao infinito o desenvolvimento da sua doutrina. Segundo ele, Nous nasceu do Pai ingênito; dele nasceu o Logos; de Logos, a Prudência; desta, Sofia e Potência.

[8] De Sofia e de Potência nasceram as Virtudes, os Principados e os Anjos que chama primeiros e que fizeram o primeiro céu. Em seguida, outros derivados destes, fizeram outro céu semelhante ao primeiro. De forma semelhante, outros derivados dos precedentes e antítipos dos que estão acima deles, fizeram terceiro céu.

[9] Desta terceira série deriva a quarta e assim a seguir e do mesmo modo, assegura, uma após outra toda a série de Anjos e Principados até formarem 365 céus. Por isso o ano tem tantos dias quantos são os céus.

[10] Os Anjos que ocupam o céu inferior, o que nós vemos, fizeram todas as coisas do mundo, dividindo entre si a terra e os povos que se encontram nela. O chefe de todos eles é aquele que passa por Deus dos judeus.

[11] Este quis submeter aos seus homens, isto é, aos judeus, as outras nações. Então as outras Potestades insurgiram-se e combateram este povo, e por este motivo também os outros povos combateram o dele. Então o Pai ingênito e inefável, ao ver a derrota de seu povo, enviou o seu primogênito Nous, aquele que se chama Cristo, para libertar os que creram nele do poder dos criadores do mundo.

[12] E ele, como homem, apareceu na terra às nações deles e fez milagres. Na realidade, não foi ele quem sofreu a paixão, mas o tal Simão de Cirene que, obrigado, carregou a cruz no lugar do Cristo e foi crucificado, quer por ignorância, quer por engano, porque, por transformação, recebeu o aspecto de Jesus enquanto Jesus tomava o aspecto de Simão e estando ali fazia zombarias deles.

[13] Sendo, com efeito, uma Potência incorpórea e Nous do Pai ingênito, ele se transfigurou como quis e subiu ao que o tinha enviado, zombando dos que não o podiam segurar porque era invisível. Os que sabem estas coisas são libertados dos Principados criadores do mundo; é preciso reconhecer não o que foi crucificado, mas o que, enviado pelo Pai para destruir com esta economia a obra dos criadores do mundo, assumiu a forma de homem, pareceu crucificado e se chamava Jesus.

[14] Por isso, se alguém confessa o crucificado, diz ele, é ainda escravo e submetido ao poder dos que criaram os corpos, mas quem o renega é libertado destes e conhece a economia do Pai ingênito.

[15] A salvação é somente para a alma, o corpo é corruptível por natureza. As profecias foram proferidas pelos Principados que fizeram o mundo, e a Lei foi emitida, por autoridade própria, pelo chefe deles, aquele que tirou o povo do Egito.

[16] Não se importam com as carnes oferecidas aos ídolos, pois não têm nada de especial e usam-nas sem escrúpulos; também são indiferentes quanto às outras coisas que usam e a toda espécie de libertinagem. Também eles se servem da magia, dos encantamentos, das invocações e de toda prática mágica.

[17] Inventam nomes de Anjos e dizem que estes estão no primeiro céu, aqueles no segundo e assim a seguir, procurando expor os nomes, os Principados, os Anjos, as Potências dos 365 dias. Destarte, o nome do mundo em que o Salvador desceu e do qual subiu é Caulacau.

[18] Quem aprendeu todas estas coisas e conhece todos os Anjos e a sua origem, afirmam eles, torna-se invisível e impossível de segurar pelos Anjos e por todas as Potestades, como o foi Caulacau.

[19] E como o Filho é desconhecido por todos, assim eles não poderão ser conhecidos por ninguém, e conhecendo a todos passarão por todos permanecendo invisíveis e irreconhecíveis. Tu conheces a todos, dizem, ao passo que ninguém te reconhece.

[20] Por isso esta gente está pronta à negação, e, mais ainda, sequer podem sofrer pelo Nome por serem todos iguais. Poucos, porém, podem saber estas coisas, somente um entre mil ou dois entre milhares. Dizem que não são mais judeus e ainda não cristãos, e que os seus mistérios não devem ser divulgados, mas guardados no escondimento e no silêncio.

[21] Estabelecem as posições dos 365 céus como fazem os matemáticos, e extraindo deles os teoremas, transferiram-nos, depois de adaptados, à doutrina deles. O chefe deles é Abrasax e o valor numérico das letras do nome é 365.

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