[1] Um Cerdão qualquer tomou como ponto de partida a doutrina da seita de Simão que se estabeleceu em Roma nos tempos de Higino, nono bispo na sucessão dos apóstolos; ensinou que o Deus anunciado pela Lei e os profetas não é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo: o primeiro é conhecido, o segundo é incognoscível; um justo, o outro bom.
[2] Sucedeu-lhe Marcião, originário do Ponto, ampliou a doutrina, blasfemando despudoradamente o Deus da Lei e dos profetas, chamando-o autor do mal, desejoso de guerras, inconstante nos sentimentos e em contradição consigo mesmo.
[3] Quanto a Jesus, enviado pelo Pai que está acima do Deus criador do mundo, veio à Judéia no tempo em que era governador Pôncio Pilatos, procurador de Tibério César, manifestou-se como homem aos judeus e aboliu os profetas, a Lei e as obras todas do Deus criador, que eles chamam Cosmocrátor.
[4] Além disso, Marcião mutilou o evangelho segundo Lucas, eliminando tudo o que se refere à geração do Senhor e expungindo muitas passagens dos ensinamentos do Senhor nas quais este reconhece abertamente como seu Pai o criador do universo.
[5] Fez crer aos seus discípulos ser ele mais verídico do que os apóstolos que transmitiram o evangelho, entregando-lhes nas mãos não o evangelho, mas uma parte do evangelho. Da mesma forma mutila as cartas do apóstolo Paulo eliminando todos os textos em que se afirma claramente que o Deus que criou o mundo é o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e também as passagens onde o Apóstolo lembra as profecias que prenunciavam a vinda do Senhor.
[6] Marcião diz que se salvam somente as almas que aprenderem a sua doutrina; os corpos não podem participar da salvação, porque foram tirados da terra.
[7] Às blasfêmias contra Deus acrescenta, como verdadeiro porta-voz do diabo que fala tudo o que é contrário à verdade, que Caim e os seus semelhantes, os sodomitas, os egípcios e seus semelhantes, e todos os pagãos que praticaram toda espécie de maldades foram salvos pelo Senhor quando desceu aos infernos e levou consigo ao seu reino os que acorreram a ele.
[8] Porém, segundo a serpente que falou em Marcião, Abel, Henoc, Noé e os outros justos, os patriarcas descendentes de Abraão com todos os profetas e os que agradaram a Deus não compartilharam da salvação.
[9] Com efeito, diz ele, sabendo todos eles que Deus estava sempre a tentá-los, pensaram também naquele momento numa nova tentação e não foram ao encontro de Jesus e não acreditaram no seu anúncio: deste modo as suas almas permaneceram nos infernos.
[10] A este que foi o único a ter a ousadia de mutilar abertamente as Escrituras e de ultrajar a Deus despudoradamente mais do que os outros responderemos à parte, com base nos seus escritos, e com a ajuda de Deus o refutaremos usando as palavras do Senhor e do Apóstolo que conservou e que usa.
[11] Agora devemos lembrar-nos dele para que saibas que todos os que adulteram de alguma forma a verdade e lesam a doutrina da Igreja são discípulos e seguidores de Simão, o mago, o samaritano.
[12] Mesmo sem manifestar o nome do mestre para enganar os outros, ensinam a doutrina dele. Apresentando com engodo o nome de Jesus, introduzem, sob formas diversas, a impiedade de Simão e causam a perda de muitos.
[13] Usando nome excelente difundem a perversidade de sua doutrina, e com a doçura e a honorabilidade do nome, apresentam-lhes o veneno amargo e pernicioso da serpente, chefe de toda apostasia.

